sábado, fevereiro 26, 2005
A imagem mais antiga
Ao utilizar a expressão a imagem mais antiga a Textura levou-me aos meus tempos prévios à própria constituição do banco de imagens a que chamo memória. A minha natureza introspectiva sempre me colocou assim, num processo de mastigação lenta das imagens anteriores. Lembro-me de com seis anos esse trabalho já ocorrer; é com exactidão que me ocorre o momento de estar sentado a dar biberrão ao cachorrinho que uma aluna da minha mãe me tinha dado e de me entregar ao prazer de reconstituir os momentos mais antigos da então, minha curta vida. É claro que com cinco, seis anos ía mais longe do que agora vou e muitas das memórias, das imagens desfragmentaram-se em pixels invísiveis. É aliás com alguma incoerência que a ela recorro. Por exemplo já aqui falei do primeiro momento que me ocorre, quando cheguei pela primeira vez ao interruptor da luz. Só que o interruptor estava no corredor da minha casa da Ada-Pêra, que é muito posterior a milhares de imagens que ainda possuo guardadas em mim. O mais curioso nem é isso, esse traço incongruente do nosso rememoriar. São as imagens invísiveis. Uma vez contaram-me que numa dramatização sobre o nascimento um dos participantes teimava em não querer sair. Em posição fetal lutava, esbracejava e já o grupo tinha há muito nascido ainda ele se debelava contra essa imposição nascitura. Ninguém sabe explicar a relação mas, e o próprio desconhecia-o na altura, o seu próprio, verdadeiro e único nascimento tinha sido arrancado a ferros. Ninguém sabe explicar nem a relação, nem a inexistência de relação. Será que todos os momentos que vivemos, independentemente da prateleira onde os guardamos, permanecem em nós, disponíveis para os conhecermos?
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3 comentários:
A hipnose pode ajudar a tentar recuperar essas memórias 'perdidas'.
Não há prateleiras, só um armazém muito caótico e largamente desconhecido, cheio de armadilhas como "a primeira memória". A minha "primeira memória" nem sei se não terá sido um sonho que um belo dia resolveu impôr-se como memória real: eu embrulhada num xaile azul-claro a ver a rua a descer aos solavancos por cima do ombro do meu pai, de manhã cedo, a caminho da ama.
Éclair
Tinha acabado de escrever no 'Um pouco mais de azul' um comentário sobre as memórias e sobre a forma como as vemos à luz do que somos hoje e de como as memórias são feitas de cheiros e sons. Lembro-me da minha memória mais antiga: o meu pai a passear-me de noite no corredor a embalar-me e a cantar uma canção que ecoa ainda dentro de mim.
Teria eu uma reacção semelhante ao teu colega se incorporasse esse personagem e essa situação? Fui retirada a ferros da minha mãe e quando nasci naquela madrugada para o mundo chorei a noite toda, inquieta de me sentir deste lado, chorei até a luz ser dia.
Um abraço, jpn
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