Não deixam de dançar os velhos de Lisboa. Não sei o que os move, mas adivinha-se neles uma amizade forte e um erotismo inabalável. Ele terá setenta e tantos anos, ela sessenta e alguns. Ele parece um D. Quixote. Cabelos alvos, barba tranquila, porte altivo e magro. Aos tangos mais alegres corresponde com um olhar maroto, uma criança. Saltarinha até. Está vestido a preceito, com os seus suspensórios e os seus sapatos próprios. E quando os acordes tristes do tango caiem na pista parece deixar-se invadir por uma imensa melancolia. O seu rosto parece chorar, seca e silenciosamente. Ela firma a testa na sua fronte esquálida e onde o companheiro derrama, sorri. São dois de uma só peça como é tão raro ver-se. Apercebemo-nos disso quando baixamos os olhos até ao tablado e vemos aquele bailar sem alguma hesitação. Quase não param, em todas as horas da nova Milonga da Graça. Dançam libertando-se da morte ou porventura, vieram aqui para morrer. Não me admiraria. Ao vê-la tombar o seu corpo pesado sobre a frágil figura do seu par, percebo que naquela dança há tanto de de erotismo e amizade como de confiança.
segunda-feira, fevereiro 28, 2005
Milonga E(terna).
Subscrever:
Enviar feedback (Atom)

2 comentários:
Tombar...?!
O tango bem dançado é de quem já morreu algumas vezes ou de quem já se abriu. A idade costuma contribuir para isso.
Éclair
ele agarrou-a com força, com muita força. muito antes de ela sequer ter aceite dançar já ele a tinha feito prisioneira daquele instante. nos braços um doutro foram molde foram forma. os corpos presos, as mãos inquietas, um respirar de um e do outro. nunca mais deixaram de dançar, a dança das loucas noites de lua feita música.
Enviar um comentário