sexta-feira, fevereiro 25, 2005

Os actores são seres admiráveis

Vi hoje mais uma vez Quem tem medo de Virginia Woolf?. É certo que não a vi por inteiro. Apanhei o momento em que George (António Capelo) urde a intriga de fazer entrar um mensageiro com a notícia de que o filho imaginário que tem com a Marta (Glória Férias) morreu. Dei-me conta mais uma vez da magnífica interpretação de António Capelo para a qual também contribuem as contracenas de Mário Santos e muito especialmente de Glória Férias, excelente na criação de um ambiente caústico e mordaz. Segui particulamente a forma como Sandra Salomé constrói uma personagem tão convincente e tão poética; o corpo dela está sempre em movimento, e neste movimentar, as mais das vezes em desiquilibrio. Toda ela, na voz, no deambular dos braços, no destroçar do corpo, está lá, na Honey. Os actores são seres admiráveis. E nem parecem seres. Parecem umas caixas enormes, uns gigantescos bancos de dados vivos, com braços, hastes e corola, flores brotando, brotando, brotando. Uma espécie de poço onde se esconde a única sabedoria do mundo que o homem não consegue decifrar. Aliás, quando a decifrar o teatro talvez desapareça. Os actores sabem o que nenhum livro ensina ou regista. As teorias da pragmática comunicacional são jogos infantis diante do saber em acção que a imposição do actor no espaço teatral é. Quando o actor levanta um braço, não é apenas o braço que se eleva mas toda a sabedoria dos lugares infinitamente mágicos. A ciência nunca descobrirá o que se passa na cabeça do actor que está em cena, e que, em milésimos de segundo, se apercebe do espaço, do corpo dos companheiros, do corpo cénico do espectáculo. Mesmo grandes homens do teatro como Meyerhold ou Stanislawski construiram teorias magníficas sobre o trabalho e o método do actor mas para falarem desta imposição do actor no espaço e no tempo de teatro utilizaram expressões como fé cénica ou magia. O ser em representação é um ser fora do mundo. Mas não é do lugar fora do mundo, aquele que não é de dentro do mundo. O ser em representação não é nem dentro nem fora do mundo. A sua condição é a de criar um novo mundo. E posso escrevê-lo mas não explicá-lo. É coisa de iniciados. Não há aqui nenhuma exclusão, nenhum hermetismo que não derive da própria condição. Todos nós nos iniciámos, desde tenra idade, nos segredos do ser em representação. Não seremos no entanto actores, esses seres admiráveis e que profundamente admiramos. Que admiramos com o melhor de nós mesmos. Os actores são uma cebola invertida. Camada por camada, até chegar à epiderme da alma. Ou como escreveu Herberto Hélder nessa bela ode ao actor vivo, à vida do actor, os actores são um tenebroso recolhimento de onde brota a pantomina.

4 comentários:

Anónimo disse...

Um grande filme... :-)

Anónimo disse...

Ja tinha decidido, mas agora vou mesmo re(ver) a peça. Só uma coisa.Os escritores são tb. seres admiráveis...

Anónimo disse...

não sei como dizer, com a mesma fé com que se escreve aqui, mas o que comove é o profundo amor pelos outros, um gigantesco encontro com o homem.
como ignorar o respirar?

Knuque Mo disse...

sinto a nobreza das tuas palavras... e também vi a peça