segunda-feira, maio 30, 2005
O tipo chegou
Estive a observá-la cuidadosamente. Já passava da meia noite e meia quando chegou à esplanada. Fumou um cigarro, pediu uma imperial. Veio de carro, tinha a chave em cima da mesa. Mexia nervosamente no telemóvel. Notava-se que estava farta de estar em casa e que viera desopilar para a esplanada. O telemóvel não tinha nenhuma mensagem, por mais que ela o confirmasse entre uma baforada de fumo e um golo de imperial, o telemóvel não tinha nenhuma mensagem. Ela tinha-se colocado mesmo à minha frente e por isso era extraordinariamente fácil observá-la. Deveria ter uns vinte cinco a vinte sete anos. Não era particularmente bonita mas a solidão dava-lhe alguma graça exterior. De repente chega um rapaz com um Yorkshire. Um Yorkshire rapado há horas, o que lhe dava um aspecto totalmente desconsolado. Ele coloca-se num triangulo entre mim e a rapariga. O que quer dizer que o cão para ir á rapariga tem de passar à minha frente. Começo a brincar com o cão e fico contente ao verificar que isso diverte a rapariga. Não me apetece meter conversa com ela mas há um sentimento de solidariedade entre almas solitárias aqui na esplanada. Uma espécie de convenção, de quinta emenda.
(são sete e vinte e seis e o cibercafé vai encerrar. apenas para desfazer as almas mais amarguradas, a rapariga não ficou só. passadas duas imperiais bebidas a golos lentos e vagarosos, o tipo chegou)
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3 comentários:
Há sempre essa solidariedade entre almas solitárias. Num olhar ou num sorriso. Numa palavra que seja. Reconhecem-se.
saudades...
pois reconhecem...
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