quinta-feira, junho 16, 2005

Os amantes

Desertos ficam os lugares que habitámos. E tudo é um lugar, um onde. O corpo, a doença, o vício, o prazer, a própria palavra. O mundo deixava de existir quando eu descia a cabeça no seu colo, pousando-a, ali no Jardim da Gulbenkian. Havia patos, o lago, as sombras, o auditório. O tempo que era estar ali plasmado. Foi antes dos Encontros Acarte, antes mesmo do Montedemo do Bando. Ela enrolava-me os dedos no cabelo, beijava-me de quando em vez, era delicioso mas não é por isso que a sua memória resiste a este meu cansaço de arquivista. Vem até mim ainda hoje por causa das palavras que lhe ouvi. Nunca ouvi mulher ou homem falar assim. E eu, que sou filho de um orador, já tenho da oratória exemplos terrivelmente fascinantes. Falava do mundo, de como o mundo devia ser, de como nós os dois, ali, unidos por um amor planfletário e altruísta, poderíamos rasgar, nem sabia o quê, rasgar. Era o tempo do verbo. Tudo fazia sentido assim quando ela falava. Talvez as palavras dela fossem perigosas. Vívíamos em liberdade, e ela, que como eu nunca tinha tido idade para perceber o que era uma ditadura, aferia o perigo das palavras pelo impacto que elas me produziam. Dizer que a amava era pouco. Nós fomos a minha medida do amor. Lia-me poemas. Alguns eram dela, outros eram de Herberto, Ramos Rosa, Sophia, Florbela. Não era ainda o tempo dos moleskines, por isso escrevia-os num pequeno caderno de capa preta. Com a sua letra fina e com extrema delicadeza. O aparo na sua mão era como um pequeno sopro de voz. Tudo nela era feito para fazer resplandecer o brilho natural de todas as cousas. Eu gostava mais quando ela lia os seus próprios poemas. Nem sempre a delicadeza é o único caminho sobre a terra, mesmo quando falamos de amor, de poesia, das palavras incendiárias. E diante das suas próprias palavras ela ganhava uma ousadia, um destemor, que luzia. Sussurava-me por exemplo ao ouvido e atirava-me a língua contra a minha orelha ruborizada. Eu morria de amor quando levantava lentamente os olhos para ela. Sentia um formigueiro a percorrer-me o corpo, o meu sexo desencostava-se em arremedos esparsos mexendo-se um pouco, eu corava mais, envergonhado, escondê-lo seria ainda mais desastroso, naquele tempo usava umas calças de ganga que evidenciavam ainda mais estes metabolismos de um corpo inesperado. Eu ficava envergonhado não pela tesão que sentia mas porque me parecia totalmente despropositado que o meu sexo se manifestasse naquele momento. Quando ela falava dos poemas mais belos que alguma vez ouvi. Desertos ficam os lugares que habitámos. E que percorremos. Despovoados de tudo, até de nós. Ela dava-me a sua mão, e eu seguia-a, levantávamo-nos os dois em uníssono, atravessávamos a Praça de Espanha onde nos esperava a Sala do grande tapete vermelho na Casa Côr de Rosa. João Mota, o mesmo João que abraçei há pouco aqui no teatro, era o mestre. Mas seremos mesmo os mesmos? Desertos ficam os lugares que habitámos. Ao pé de toda esta arca-de-não-é que é o mundo onde vivo - é preciso dizê-lo, vivo hoje, como nunca vivi, na mais intensa realidade, no mais despudorado realismo - eu nunca mais serei aquele que no seu amor se revia, com a cabeça nos eu regaço. No Jardim da Gulbenkian. Tê-la, assim, ao pé de mim, era um exagero de sentidos a reverberarem cá dentro. Digo-o sem alguma nostalgia. Só o presente me é insuportável. Confio no segredo que o futuro me trará. Foi contigo que aprendi a amar o futuro, aliás. As tuas palavras eram perigosas, ou pelo menos, aferiam o perigo que realizavam em mim. Disseste-me um dia, como será quando não estivermos juntos?, tu não estavas a pensar em ir-te embora, confessaste-me, só querias que eu te dissesse que não, que nunca, que jamais - como tu gostavas destas palavras, fascismo nunca mais, não nos calarão, jamais seremos vencidos - ficaste surpreendida, não te respondi, desatei a chorar, a chorar interminavelmente. Chorei sete dias e sete noites. Quando acordei daquele pesadelo estava sózinho no meio do jardim. Era Outono, reparei, por causa das folhas caídas. Desde que te conheci não sei se estou amaldiçoado, se bem-aventurado. Quem te amou como eu te amei não pode nunca mais deixar de procurá-lo, em todas as ruas, em todas as casas, em todos os pedaços de vida, de vida humana. É o homem, é a mulher, que reabilita a paisagem. E a paisagem reabilitada é-o, porque lá dentro está uma parte da nossa humanidade. Já se falou aqui em ilhas desertas, num daqueles questionários que se vulgarizaram. Surpreendi-me então com a quantidade de gente que se resignava a inventar a humanidade num pedaço de papel, num leitor de mp3. Nunca iria para uma ilha deserta. O meu problema é o contrário, desertos ficam os lugares e as gentes que habitei. Lembro-me das tuas palavras, de ser noite, madrugada, manhã de novo, e tu ainda me falavas, eu ainda te escutava. O que é cada um de nós? O que sou eu? O que poderei ser senão a memória e o testemunho desta felicidade, deste arroubo, desta coragem? Estamos todos errados. Temos de estar. Cada um de nós o que é verdadeiramente? Utopia, amor, sangue? Contigo tudo isso tudo tinha um nome, o teu nome. Mas o teu nome morreu, tu própria partiste. É tudo um violento, um terrível erro. Até esta minha obsessão em te encontrar respaldada por todos os lados; nunca mais poderei deixar de procurar essa forma impossível de ser.

15 comentários:

Dora disse...

Traças, numa tela, a aguarela de um amor feliz. Com muito sol e muita esperança.

Anónimo disse...

Isto não é um epitáfio. E é assim que deve ser. Um vida cheia de dança. Percebes agora?

mb disse...

É de uma beleza tão extrema que até custa ler.

astrophil disse...

Um belo texto, cheio de lugares e emoções intensas. Com o amor e a ausência a preencherem todos os tempos verbais.

vanrose disse...
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vanrose disse...

Esta semana caracterizou-se por perdas emocionais que fazem parte da nossa vivência e do nosso imaginário. Este texto é magnífico na forma como interliga os nossos ideais da altura e o não acreditar em nada de hoje. Porra! Que dói à brava.

MJM disse...

Desertos ficam os lugares que habitámos.
Esse refrão em off torna-se um spot de onde não se consegue desviar os olhos. Mas todo o texto me arrepiou.
Kisses

m. disse...

Um texto q só se percebe quanto nos esmaga se vivido. Belíssimo.

Anónimo disse...

sentir assim...

Aziluthh disse...

"...entre o ser e a existência há uma casa vazia, povoada de presenças...", escrevi eu, algures.
Ao ler-te ocorreu-me que a escrita nos ajuda a dissecar devagarinho a vivência dos afectos com a concição (suspeita) da memória. E acabamos a tentar perceber o que aconteceu à ideia de infinitude no amor. Claro que o que distingue este teu texto de todos os outros, tirando o estilo, é que ele só é entendível para ti. Nem o objecto amoroso se reveria, talvez, no labirinto das tuas divagações. Cada ser vive a expressão interior do amor de forma tão diferente... Por isso achei o teu texto delicioso. Fala dos sinais, dos rubores anatómicos, da pureza única de amar e acreditar. Agradeço Às Musas terem-me conduzido aqui.

Aziluthh disse...

concisão,
desculpem-me...

blimunda disse...

querido jota...

raul disse...

Que corajem despir-se um gajo assim! É por isso que o texto me chegou tão belo.

Ardente_Mente disse...

muito, muito bonita toda esta forma impossível de ser

Laurindinha disse...

Que felicidade, sentir assim. Está tudo em si, e por isso não partiu.