Miguel Costa
Pendurou a lanterna como quem pendura as ceroulas brancas que sobem pela Mouraria. Assim que chegou a Lisboa foi essa a imagem que lhe ficou na retina inclinada (inclinada em relação aos indígenas, claro). Toda a gente sabe que os chineses adoram fotografias. Mas poucos sabem que estas só são tiradas no estrangeiro. Mesmo quando esse estrangeiro ameaça tornar-se a nossa casa. Foi o que pensou: vou pendurar a lanterna como quem seca as lágrimas da saudade. De casa. Só depois percebeu que a saudade não é uma palavra do seu dialecto. Trocou os países, trocou as voltas à herança familiar, comprou umas ceroulas. Perdeu-se entre dois países e amou uma portuguesa no Beato. Morreu num choque em cadeia a caminho da Caparica, numa tarde de sol que convidava à praia mas que não secou a sua lanterna.
quarta-feira, junho 01, 2005
Um estendal entre dois países
Miguel Costa
Pendurou a lanterna como quem pendura as ceroulas brancas que sobem pela Mouraria. Assim que chegou a Lisboa foi essa a imagem que lhe ficou na retina inclinada (inclinada em relação aos indígenas, claro). Toda a gente sabe que os chineses adoram fotografias. Mas poucos sabem que estas só são tiradas no estrangeiro. Mesmo quando esse estrangeiro ameaça tornar-se a nossa casa. Foi o que pensou: vou pendurar a lanterna como quem seca as lágrimas da saudade. De casa. Só depois percebeu que a saudade não é uma palavra do seu dialecto. Trocou os países, trocou as voltas à herança familiar, comprou umas ceroulas. Perdeu-se entre dois países e amou uma portuguesa no Beato. Morreu num choque em cadeia a caminho da Caparica, numa tarde de sol que convidava à praia mas que não secou a sua lanterna.
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1 comentário:
que assim seja com todas as lanternas espalhadas pelo mundo. que não se apaguem, não se sequem nem esmoreçam.
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