segunda-feira, novembro 21, 2005

Homofobia

Ontem chovia intensamente, dei por mim às dez da noite num Bairro Alto deserto. Procurei um restaurante e entrei num que me pareceu calmo, reservado, com boa música. E sem televisão. Além de mim só estavam três homens. Entrou mais um casal de dois homens. Não estava particularmente comunicativo. Ainda estava um pouco em jet lag, depois de deixar o meu filho com a mãe. São momentos em que sem denotar isso me reservo. Não de uma forma muito sublinhada, não que queira estar só, sim que preciso de estar um pouco comigo. A forma que encontrei ontem pareceu-me muito agradável. Voltei a mim através dos sabores. Um puré de castanhas com alho francês trouxe-me de volta ao meu mundo, devagarinho. Chovia lá fora o que tornava mais acolhedor o de dentro onde estávamos. E comecei a ouvir as conversas. Na mesa atrás de mim estava um actor brasileiro com mais dois amigos. Um deles falava sobre o amor. Sobre o prazer de estar junto em silêncio. E há medida que falava eu compreendia que se referenciava a relações homossexuais. Com muita naturalidade, tive de esperar algum tempo para perceber que o ela de a outra pessoa se referia a um ele, de homem. E à medida que degustava o bacalhau assado com batatas a murro fui revendo o trajecto e o percurso da minha homofobia. Encontrei-a a primeira vez, à minha homofobia, há cerca de vinte anos quando surpreendi o primeiro beijo do meu irmão a um amigo. Foi dificil habituar-me à ideia de que ele não iria caber em nenhum daqueles estereótipos em que eu o enquadrava. Nem sei o que me custou mais: se perceber que ele nunca iria realizar o que eu esperava dele se descobrir que eu tinha essas expectativas sobre ele. Eu já tinha suficiente formação pessoal e humana para saber que não devemos sobrecarregar os outros com as imagens e as expectativas que deles temos. Desde aí tenho-me apercebido que há em mim um comportamento dual em relação à homossexualidade: no plano político compreendo e defendo o movimento gay, no plano pessoal estou uns passos atrás disso porque me dou conta de que não há nenhuma naturalidade nem espontaneidade naquilo que sinto. Quando se fala na homossexualidade não consigo abstrair-ne da forma pessoal como me aproximei a esta realidade. Eu bem me desculpo dizendo que sou um provinciano, um saloio, mas eu sei que no fundo isso explica, neste caso, bem pouco. O que se passa é que eu ainda tenho de conviver com a minha homofobia. Uma das ocasiões mais aborrecidas comigo era quando tinha de me despedir de amigos meus belgas e franceses. Vinham sempre com dois beijos e isso deixava-me desconfortável. Sentia-me um campónio afastando a cara. Lembro-me que a primeira vez que uma mulher me afagou o rabo, estremeci, afastando-me. Apetecia-me dizer-lhe para continuar, aquilo dava-me um grande prazer, imaginava até que ela me meteria o dedo pelo anûs, mas ao mesmo tempo tinha receio que ela pensasse que eu era paneleiro. É por isso que quando ouço falar em comportamentos homofóbicos na sociedade portuguesa já não assobio para o lado. Ainda há pouco tempo no Encontro de Teatro de Évora, estava sentado na mesma mesa redonda Luis Assis, autor de Gay Solo e Isabel Medina na Escola de Mulheres, eu percebi que na forma como concebemos o género reproduzimos matizes de violência, de violentação e de exercício de poder. Como dizia a Isabel, não nascemos homens e mulheres, fazemo-nos homens e mulheres. E esse fazer não tem nenhuma inocência. É reprodutor. Encontramos no género, nas questões relativas ao género, muitas das tonalidades de um comportamento quase tão antigo como o homem: a exploração de um pelo seu semelhante.

10 comentários:

Lyra disse...

os meus sinceros parabéns por este post.

Anónimo disse...

compreendo. tenho um caso na família.

fep

Un que passava disse...

Dizem que o primeiro passo para eliminar um prejuízo é reconhecê-lo; no momento em que o reconhecemos, começámos a lutar contra ele. Gostei do post, Quim, todos temos prejuízos fruto da educação que recebimos. E todos somos "vítimas" das expectativas que os outros têem sobre nós.

Ferran

JPN disse...

ferran, deixa-me só deixar aqui um esclarecimento a alguém mais distraído que aqui passe e não note que com prejuizo te referes a preconceito. abraço

jpt disse...

não gosto do post, meu caro. homofobia é outra coisa, assim estamos no domínio do terrorismo sentimental.
"fazemo-nos homens, fazemo-nos mulheres" é jargão. A socialização dos comportamentos é tão vistosa como o foi (e é?) a naturalização dos mesmos. Dá jeito (em que, realmente, consiste "socializar"?), explica tudo. Deita fora uma série de coisas. Mais vale continuar a perguntar do que arengar causas

(tu tens um peter pan, eu tenho uma boneca "do pai". vi-a crescer, desde os 10 minutos [cesariana, nao me deixaram la estar] - peço desculpa, há coisas que nao fomos nós que lhe metemos (socializámos)

De mito em mito até ao desconhecimento final

JPN disse...

jpt, caríssimo, não sei se é jargão. o que sei é que quando a ouvi há pouco tempo abriu-me um campo de especulação.um campo aberto às perguntas. a perceber que sobre a diferença genética entre um homem e uma mulher, entre o Peter Pan e a tua Boneca do Pai, há um construído cultural que é necessário saber reconhecer. e como tu sabes, tudo o que é cultural está sujeito à condição "podia ser de outro modo". Mais até: um pouco mais ou menos de trópico, de sol, de frio e neve, e seria outra coisa. É claro que tu tens a razão do teu lado quando assinalas que já nascemos homem e mulher. Mas também eu a tenho comigo quando utilizando o jargão fazemo-nos homens e mulheres, digo que cada um vai encontrar concepções sobre o homem e a mulher que são construídas. O simples facto de serem construidas e de terem evoluido tanto nos últimos anos significa alguma coisa sobre o que são de campo aberto ao aperfeiçoamento. Na forma como nos entendemos homens e mulheres jogamos muito da nossa humanidade e isso jpt, sei-o, é assunto que nos interessa e preocupa a ambos. No fundo, como não podemos ter razão um contra o outro temos

(alguém ainda acredita nisso?!A aventura racionalista tem tudo de fascinante mas muitas vezes faz-nos esquecer que as razões não são um fim, são um instrumento.)

razões que nos levam mais ou menos longe. Eu parece-me que esta ideia de que podemos responsabilizarmo-nos sobre a ideia de homem ou mulher que vestimos, sem ser uma travestização do pensamento, é mais produtiva, leva-nos mais longe do que a ideia de que já nascemos homem ou mulher. Para além de que a ideia de que estou a falar tem outra vantagem: inclui a outra, que até parecia ser sua antagónica. Nascemos homens e mulheres e sobre os homens e mulheres com que nascemos fazemo-nos homens e mulheres. O que achas?
É aí que falo da minha homofobia. Para a forma como do meu convívio com ela nasce um campo aberto a tentar perceber o que é o funcionamento do género. O que torna a ser fundamental para pessoas que como eu e tu temos responsabilidades na formação de dois seres, um com "pila" o outro com "pipi". Quando me separei percebi que havia um universo de coisas pueris como lavar a roupa, estender a roupa na corda, fazer sopas, usar o forno, das quais ao longo dos anos me tinha "naturalmente" distanciado. Eu e a minha mulher não éramos propriamente o protótipo do casal com concepções cerradas sobre as tarefas domésticas mas havia coisas em que por uma espécie de tratado de tortesilhas do género eu permanecia a leste. Só quando me divorciei é que percebi como é delicioso fazê-las. A minha mãe ainda tentou substituir a minha ex-mulher. Comecei a telefonar-lhe e a dizer-lhe que estava a fazer sopa, se queria também para ela. Ou que estava a cozinhar alguma coisa, se ela queria que eu fizesse um pouco para ela. Ou se precisava que eu lhe fosse passar a roupa. Ela, que aos meus sete anos tinha dito à criada para colocar os meninos num workshop avançado sobre "Os segredos da lida doméstica explicado ás criancinhas", percebeu e nunca mais voltou à carga.
O mundo está a mudar e nesse aspecto está a mudar para melhor para nós todos, homens e mulheres. E não será dificil perceber o quanto os vários discursos de emancipação dentro dos géneros tiveram e têm um papel nisso, jpt. como são justas as tuas palavras quando dizes que de mito em mito caminhamos para o desconhecimento final. Mas olha, jpt, olha o paradoxo que isto é: estamos à beira do apocalipse, caminhamos sobre uma linha de horizonte ténue e a esbranquiçar-se e no entanto, aproximamo-nos de uma ideia de humanidade, uma ideia de homem e uma ideia de mulher que nos poderia tornar e(ternamente) felizes. Abraço, José Flávio.

Un que passava disse...

Preconceito, preconceito, não vou esquecer o preconceito. Obrigado, Quim.

Ferran

jpt disse...

tu tens razão em muita coisa. o que me choca é a excessiva socialização/culturalização - é uma ideologia (no velho sentido da palavra). não propriamente no sentido dos afazeres domésticos, mas em coisas mais profundas há muito mais do que isso - o sec XXI é o do cérebro, dizem-nos, anseiam. Olho o futuro com ironia, o que hão-de pensar os colegas dos discursos actuais.

quanto a afazeres há um pequeno episódio que muito gosto: um conhecido meu é renomado por ser um gajo porreiro. Separou-se, a mulher até lhe infernizou um bocado a vida, o tipo sofreu. E ela já por duas vezes lhe telefonou à noite para que ele lhe fosse mudar o pneu do carro. E ele foi. É interessante como nas discussões sobre os tordesilhas que referes olhamos sempre para ocidente e nunca para oriente. E como sempre lhe atribuímos as origens (esse mito) À exploração. Nunca ao facto do homem trabalhar fora e a mulher não; ou do homem trabalhar duro e a mulher menos; ou do homem trabalhar mais longe e a mulher menos. Claro que a vida hoje mudou, mas se acabamos tudo na exploração acabamos nada

quanto à homofobia: temos uma gata, a joana. Quando cá vêm pessoas em visita, pouco habituais, sempre pergunto se têm problemas com gatos, se sim fechamo-la lá na copa, onde tem o canto dela. Isto porque há qem não goste de gatos. Quem tenha alergias. E quem tenha fobia (já cá apanhámos 3 pessoas assim). Um amigo meu tem um problema, fobia de pássaros.

Não ter paciência para o gato a aguçar as garras nas nossas calças não faz de nós gatófobos.

Percebes o meu desagrado com o teu post?

JPN disse...

uns dias sem ter vindo aqui à internet, tornou a resposta menos provável. eu creio que sim, que é nitido e percetível o nosso desagrado mútuo face às razões que cada um aqui trouxe. o saldo disto tudo para mim, como já o disse no teu blogue, é que de explicação em explicação, surgiram alguns textos com valor literário próprio.

sou de Deus disse...

amigos, a feminização/masculinização aparente, acredito, nada tem a ver com opção sexual. Infelizmente muitos quando partiram para a experiência fizeram-no com pessoas do mesmo sexo e gostaram (o autor do post cita o seu próprio exemplo), mas acredito que isto não deve servir para designar naturalidade no trato íntimo de um homem para com outro homem, mas decisão. Homossexualidade, para mim, é decisão. Acredito que falar fino ou grosso ou ter um andar duro ou molejado nada tem a ver com sexualidade. Homem é naturalmente homem e mulher é naturalmente mulher, ainda que tenham traços de seus opostos. Um abraço a todos. Let the Lord shine a light at our hearts.