segunda-feira, janeiro 23, 2006

Guia de encontro para mulheres anti-fatais

Não me aperaltei para que me notasse. Nunca o fazia para atrair atenções específicas sobre a minha pessoa, flechar um almejado objecto da minha admiração.
Fugi de ser mulher fatal sem me aperceber e não tenho desgosto, apesar do estado de encarquilhamento que hoje me acomete. Há um encanto natural na desistência de seduzir que eu preferi logo. Desde que a minha avó me entrançava o cabelo depois da sesta. Atrás da porta da rua, antes de me colocar de sentinela no umbral da casa dos meus avós à espera que os meninos da rua me convidassem para brincar, puxava farripas caramelo para a cara, de modo a não parecer intocável.
Se eu tivesse sido homem, pintaria prostitutas fora de moda em casas alcatifadas, mulheres de bocas grandes, literalmente. E metaforicamente. Que falassem. Que falassem muito. Dos assuntos que as mulheres maduras e sem relógio dominam.
Orgulho-me de não ter jogado o jogo das palavras.
Tentei conhecer todos os homens da minha vida pelo modo como se moviam. Nem voyeur refinada, muito menos uma feminista forjada pelos desgostos como já ouvi de um comentário aceso, mas sincero.
Nunca o fiz por prazer perverso, só não conheço outra maneira de acontecer na corrente do amor. O tumulto natural da iminência da presença masculina desviava-me das inclinações femininas e feministas. Assim se agendado um encontro, não desenharia uma fileira escura na pálpebra inferior, colocaria antes uma indumentária prática e discreta e chegaria descomprometida ao rendez-vous, se atrasada. Se o esperasse, sentada numa café de música quieta, ninguém me notaria impaciente, porque mergulhada num livro de capa delicada. E era assim que seria, mesmo se saísse de casa só para o ver.

2 comentários:

Ricardo disse...

Minha querida, todos temos sonhos. Muitos. Poucos. Vagos. Substanciais. Reais. Imaginarios. Nossos. Meus. Um destes e acordar de manha com a tua verve e a tua capacidade de tocar os outros.
Obrigado minha querida por estes ultimos anos de inspirada prosa e poesia...Fica em paz...Valeu...

textura disse...

Obrigada amigo. Espero voltar a estar contigo e ouvir-te em breve. É o mais importante. É isso. A presença. Estás aqui ainda assim.