sábado, maio 06, 2006

Deus é um sitemeter

Não ouvi vozes. É um perfeito truque começar assim. Mas não para um presumível leitor. Esse gajo inexiste aqui. Ou melhor, quando o que escrevo tem alguma felicidade, ela deve-se exclusivamente à inexistência dele. Não me perguntem porquê. Não sou o João César Monteiro. Não vos posso mandar à m. Tenho de seguir em frente. Com o texto. O truque era para mim. Começo a entediar-me comigo. Com o que escrevo. Com o que vejo. Morro vezes demais. Estamos sempre a morrer e a recomeçar. Não tenho nada contra. Verei o filme muitas e muitas mais vezes. As que o projeccionista me consentir. Invento vozes para não ter de me ouvir a mim próprio. Eu sei. Eu sei que sou eu nas vozes que invento. Mas sou eu de outro modo. E jogo ao gato e ao rato comigo mesmo. E enquanto não me apercebo que me mesmifiquei no vozear que alinho, sou feliz. Verdadeiramente feliz. Perguntava-me ontem alguém, falávamos dos Lisboetas, eu sei que foste tu Joana, mas aqui o texto pede que seja alguém, esqueçamos os nomes, o que é que era ser expontâneo? Ser espontâneo é isto. É desalinhar o puzzle. Ser feliz. Ser feliz porque traímos. Traimos primeiro as nossas máscaras, os nossos enredos, as nossas ficcões. E depois, quando já nada resta, o golpe de misericórdia: traímo-nos a nós próprios. Escutei portanto vozes mesmo que não as tenha, em rigor, ouvido: - Quando é que começamos a sentir frio? - Queres mesmo começar por essa pergunta? - Quantas tenho? - Dez. - Dez? - Nove. Agora são nove. - Mas eu não fiz nenhuma pergunta. Só repeti o que tu disseste. Isso também conta? - Oito. - Parou. Oito perguntas não é nada. Oito perguntas não chega para nada. O meu filho que está na idade dos porquês gasta vinte perguntas numa só frase. Tens de descontar aquelas, ok? - Sete. - É nitida má vontade. Ao menos responde. Se responderes não me irritas tanto. Tu és mesmo deus? - Seis. - Pára! Pára! Se são perguntas têm de ter respostas. Tu ainda não me respondeste. Quando me trouxeram aqui à tua presença disseram-me que tinha dez perguntas. As perguntas são frases que têm um ponto de interrogação no final, ou seja, quer dizer que não terminam, ou melhor, só terminam com uma resposta. Tu ainda não me deste uma resposta. Uma que seja. Não és um deus, és um contador de de perguntas. De acessos. Não passas de um sitemeter rasca e com ar de provocador. Talvez tenhas sido pide. Não duvido que tenhas sido pide. Tens pinta disso. Eu necessito de saber, entendes? Foste pide? - Cinco! Quatro. Duas perguntas de uma só vez. Estás a aperfeiçoar a tua capacidade de esbanjar perguntas. - Passaste-te os limites. Passaste os limites agora. Tu não respondes porque não tens resposta. Não tens respostas. Nem para dez, nem para nove, nem para oito, nem para uma que seja... o taxista que me trouxe aqui sabe mais sobre o segredo da vida do que tu. Tu és um embuste. Talvez os fanáticos ou até mesmo os turistas te achem alguma piada mas para mim sabes menos do futuro do que aquelas ciganas que andam a ler as mãos pelas feiras. Eu não te vou fazer nem mais uma pergunta. Sabes o que é que tu devias fazer com as tua perguntas? Sabes? Sabes, filho da puta? - Uma. Tens uma pergunta apenas. O que nos leva à pergunta inicial. E que também é a pergunta final. Quando é que começamos a sentir frio? - Vais finalmente responder a essa? - Não. Acabaste de a trocar por esta. E a esta não podes dizer que não respondi.

2 comentários:

lyra disse...

o frio. é uma boa pergunta para inicio de conversa. Também invento vozes muitas vezes. Depois digo "falo com Deus. Com os anjos." Sei que sou eu. Mas é uma maneira de parecer mais simples. Tudo. A minha voz quando se veste de voz de Deus, diz-me coisas sensatas. Dá-me algum equilibrio. A mim que ando sempre na corda bamba.
Lembro-me que Ele já me perguntou isso uma série de vezes. "quando é que começaste a sentir frio? Lembras-te?"
eu digo-lhe que não. Que não tenho o momento exacto presente em mim. Pergunto-lhe então "sabes? sabes quando foi?", mas Ele nunca me responde concretamente. Agora que penso nisso, acho que nunca me dá respostas. Faz perguntas, responde vagamente, mas nunca me dá respostas concretas.

José da Silva Maurício disse...

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Então "A Deus"!!!

"Vamos acabar com a Língua Portuguesa para salvar Portugal"!!

Ora confirma.

“Os ESPANHÓIS evoluem. Os PORTUGUESES regridem!! E deixem de culpar os Políticos e as Políticas!”.
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Coitados dos Portugueses e Coitados dos Brasileiros! Coitados dos Angolanos e dos Moçambicanos! (os 4 Povos mais CORRUPTOS da/o Europa/Mundo).
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Coitados também dos Monarcas!
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E tudo por CAUSA da Língua Portuguesa e do CLERO de tempos idos da Igreja Católica.
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MONARQUIA: "Rei-Nú", Eu i-rei, eu se-rei, eu ganha-rei, eu- cantarei (mas nunca realizo esse futuro), "Dó-Na" Maria II, “Dó-Na” Isabel I, “Dó-na” Filipa de Lencastre, etc, etc, etc.
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MULHERES: “Dó-Na” Dores, “Dó-Na” Sara, “Dó-Na” Ofélia, “Dó-Na” Ma.ria, “Dó-Na Viole.ta”……. O meu “Namora-Dó”. O meu “Amá-Dó”. Tanta tanta PENA delas.
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POLÍTICOS: "Demo-Cracia" (poder do Demónio), "Dê-Puta-Dó", "Parti-Dó" (de "Quebra-Dó", de inútil), "Poli-Tico" (Tico & Teco. Dois Esquilos). “Sida-Dão”,
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DOENTES: "Pensa-Dôr" (Gabriel o Pensa-Dôr que tinha dôr de cotovelo das Loiras), Desperta-Dôr, Trabalha-Dôr, Computa-Dôr, Desenha-Dôr, Mora-Dôr....... milhares.
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ANIVERSÁRIO: Quantos ANÚS tens?!
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OUTROS EXEMPLOS EM: "As PALAVRAS ÚTEIS Portuguesas estão, PRACTICA-MENTE, todas XUNGADAS!", http://eunaodesisto.blogs.sapo.pt/2505.html
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ÚLTIMA HORA: Os Europeus não caíram na “Ladainha do Coitadinho”. Estão a ajudar Portugal a ACABAR COM A LÍNGUA Portuguesa.
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Ver: “Parlamento Europeu aprova INDICADOR DE COMPETÊNCIAS LINGUÍSTICAS que exclui língua portuguesa”, in http://www.publico.clix.pt/shownews.asp?id=1255406
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e Ver: “Língua Portuguesa EXCLUÍDA”, http://jn.sapo.pt/2006/04/28/primeiro_plano/lingua_portuguesa_excluida.html
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PS: Os ESPANHÓIS evoluem. Os PORTUGUESES regridem!!
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DOM Juan Carlos. DOM Quixote de La Mancha. Etc, etc, etc.
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“Dó-Na” Dores, “Dó-Na” Sara, “Dó-Na” Ma.ria. Etc, etc, etc. AXIOMA: “Um País vale o que valem as suas Mulheres”.
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“A_Deus”.
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mauricio_102@sapo.pt