terça-feira, junho 27, 2006

Contrafogos . Série 1

Continuando ainda a ler Bourdieu. O modo como circula o ideário neoliberal é um fenómeno extraordinário. Vemos por todo o lado a disseminação de alguns conceitos, de algumas ideias, um economês para não especialistas, que tende por um lado a dar uma ideia de inevitabilidade ao discurso neoliberal, por outro a impregná-lo na nossa vida. Nós, e os que nos cercam, já sabemos tudo sobre este economicismo explicado às crianças. É tudo tão fácil de compreender por este prisma. E politicamente tão rentável. O encerramento das escolas, das maternidades, dos hospitais subordinado ao mesmo raciocínio matemático que desmantelou as fábricas. O raciocínio neoliberal dirige-se a outra forma de entender a política. Estilhaça as formas tradicionais de fazer política. Face à sua jactância é ver por exemplo o receio das forças de esquerda em serem olhadas como activistas cristalizados e por isso lá vão tentando pontuar o discurso férreo do encerramento sem porem em causa o essencial e o essencial será sempre não perderem o poder. E o impacto no modo de governar também não é discipiendo. Os governos já não temem a impopularidade das politicas contaminadas pelo neoliberalismo. Anos e anos de propaganda e disseminação do economês fizeram com que cada um de nós já considerasse como inevitável que qualquer governo, de esquerda ou de direita, tem como tarefa prioritária o emagrecimento do défice público e que isso implica diminuir o peso do estado. Mas será mesmo assim?

3 comentários:

pigassola disse...

o neoliberalismo é de fato apresentado com essa inevitabilidade que tu falas, cmo se fosse um fado, o unico caminho possivel para a economia, a nossa actual religião. Mas não é. E principalmente nunca poderá ser possível à custa de vida e do trabalho de cada pessoa.

rui mota disse...

Grande Bourdieu (ou devo dizer, Joaquim?). De facto, querem-nos fazer crer que é assim, mas não tem de ser "assim". Em França (um mais país culto e com maior consciência política) estas questões estão no centro do debate político e chegam às ruas. Em Portugal (um país de analfabetos funcionais) a coisa é mais difícil. Claro que este estado de coisas interessa aos partidos do poder. Lá vamos nós, mais uma vez, parar à educação...

apicultor disse...

Hoje o DN edita uma entrevista com o mandante do Banco Central Europeu.Ele sentencia que Portugal deve diminuir os custos do trabalho, baixar os salários. Este inteligente devia começar para ter uma actualização salarial de modo a passar a ganhar o ordenado médio,já não digo mínimo, português e habilitar-se a ser despedido por quem de direito, os povos europeus. Então, eu ficaria um pouco mais reconciliado com as nossas democracias.