sexta-feira, junho 30, 2006

Mnemónica para me lembrar da política

É curioso ela ter falado na memória, estava neste momento a pensar o que seria o desmmemoriamento. Não o esquecer-me. Mais do que isso. O apagar tão violento do traço, do fio condutor, do elo, da ligação, do raccord que deixasse de existir tempo. Quer dizer, existiria, no horror. No horror de não conseguirmos contextualizarmo-nos. Hoje sonhei que não era eu mas um enorme sentimento de estranheza que olhava para tudo o que me cerca. Foi um breve pesadelo de olhos acordados. Quando percebi que não, que ainda me lembrava sentei-me no meio da rua. Os carros passavam por um e outro lado. Estava ali, ao meio da Rua D. Pedro V, a caminho do Princípe Real. Sentei-me no chão insensível às buzinas dos carros, dos insultos, das ameaças. Eu saboreava longamente alguns dos acontecimentos mais marcantes da minha vida. A chegada do homem à Lua, o assassinato de Kennedy, as noites de folclore do Pedro Homem de Mello seguidas, ocasionalmente, das Conversas em Família do Sr. Prof. Marcelo - a Maria Flor Pedroso ainda não trabalhava na rádio e a Ana Sousa Dias não entrevistava absurdos e o Marcelo, professor, era outro - o sorriso da Mimi, eu, em versão Clark Kent antes de me transformar no justiceiro super-homem, as noites longas da Comuna, do primeiro café-teatro, o Deixós Poisar, as vendas, a briga, o meu primeiro filho, deve haver algures neste mundo uma camisola de lã inacabada, também ela foi uma criança inacabada, é isto a memória?, belisco-me, estou sentado no meio da Rua D. Pedro V, sou insultado, ameaçado e chingado pelos automibilistas, e continuo ali, a rememoriar. É isto a memória?! Faits divers, penso, não é para isto que eu quero lembrar-me. A única coisa que quero recordar és tu e em ti, a minha liberdade.

2 comentários:

Un que passava disse...

Deixou-me sem palabras para comentar, mesmo sem fôlego. Impressionante a última frase.

Ferran

(Parabéns pelos três anos d'O respirar!)

Ferran

Joaquim Diabinho disse...

Decididamente,ó Joaquim,não podia haver melhor para celebrar três anos de existência do "respirar...".Que surpresa! Um abraço.
J.Diabinho