domingo, outubro 29, 2006

Cybercobardia, por Miguel Sousa Tavares

Miguel Sousa Tavares assinou ontem, no Expresso, 28 de Outubro, um lamentável texto, intitulado Cybercobardia. É daqueles textinhos deploráveis que quase nada têm de objectivamente consistente senão a fúria -plenamente justificada - do autor de Equador. É a doutrinação do ódio como elemento fundamental do processo de produção de juízo. De todo o arrazoado que MST destila só me interessa uma parte, no fundo a que deveria ser a menos substancial: o ataque à blogosfera, aos bloggers, a esta forma como estamos por aqui. E digo a menos substancial porque Miguel Sousa Tavares, se não falasse tão rapidamente daquilo que assume ser-lhe não só estranho como paradoxalmente, "uma preocupante manifestação de um processo de dessocialização e sedentarização das solidões para que o mundo de hoje parece caminhar", perceberia que ele não foi atacado pela blogosfera, que o ataque de que foi alvo não foi especialmente agravado pelas condições de propagação ou criação das mensagens na blogosfera. Paradoxal é Miguel Sousa Tavares, muito justamente, dizer que o autor do ataque de que foi alvo contou com esta preguicite intelectual dos meios de comunicação social que falam do que não conhecem, para ser ele mesmo a dissertar sobre a natureza da blogosfera, fenómeno sobre o qual ele se reconhece não só estranho como voluntariamente distanciado.
Miguel Sousa Tavares amanhã decerto já terá percebido que se comportou como aqueles individuos que tendo sido assaltados por um negro logo constroem uma teoria com altas pretensões sociológicas e antropológicas sobre o perigo que é cruzarmo-nos com um negro numa rua esconsa. Miguel Sousa Tavares tem todo o direito de detestar a blogosfera, a internet, o ciberespaço na sua globalidade, como outros terão direito a acharem que os negros são personagens a evitar numa local ermo. Aliás, a ele assisti-lhe todos os direitos do mundo, inclusive o de ser atacado momentaneamente, por uma parvoíce qualquer, naturalmente justificada pelo desnorte que sempre nos provoca sofrer um ataque anónimo. Como diz MST e bem, como se poderá alguém defender-se convincentemente de um blogue anónimo? Principalmente se como refere, a informação anónima é uma fonte de informação priviligiada e credível para o nosso jornalismo.
Mas não se iluda Miguel Sousa Tavares. Os ataques anónimos são possíveis em qualquer meio e lugar. Há não muito tempo trabalhei com um presidente do Instituto público que foi demitido única e exclusivamente porque disse a uma jornalista do Diário Económico que consigo as cartas anónimas íam para o lixo. O ministro que o tutelava, homem de pequena estatura e do qual não se conhecem grandes artes de bailarino, tinha organizado uma sindicância com base nessas mesmas denúncias anónimas. Mais do que isso, o processo tinha todo ido parar aos jornais, afiançando que seriam verdadeiras aquelas denúncias. É claro que nunca mais ninguém se interessou pelo assunto, pela conclusão do processo, pelas consequências. E no fundo muitos de nós tinhamos vivido alguns anos sob a mira de apontamentos anónimos, sobre os quais nada se podia fazer senão desconfiar de tudo e todos. Não havia blogosfera para sustentar tudo isto. Havia cobardia, mesquinhez, inveja. Aproveitadas muito subtilmente como instrumentos de luta pelo poder. Não é só na blogosfera que há a possibilidade de utilização do anonimato. A recusa do nome é uma condição recorrente de toda a nossa vida social que vive tensionada entre o desejo de ser evidenciada e o desejo de passar despercebida. Um período substancial da nossa história recente foi construído sobre esta tensão. Durante o fascismo o anonimato tanto viu recuperado muito da sua dignidade como se viu utilzado como ponta de lança dos esbirros, dos informadores, da actuação da polícia política. São coisas que MST sabe muito melhor do que eu. A blogosfera é talvez um dos sítios mais fascinantes não da aventura do anonimato, sim da construção identitária. Muitos de nós o sabemos mas poucos de nós o levamos até às últimas consequências: A máscara liberta. O fim da máscara não é a ocultação, sim a revelação.
A única coisa que é consistente no texto de Miguel Sousa Tavares é afinal aquilo que ele menos explora: um dito anónimo reautoriza-se em cada momento da sua proferição, e nesse sentido cada um que o reproduz empresta-lhe voz e autoriza-o. Lembro-me mais uma vez da situação que vivi. Da primeira vez ainda li esses textos anónimos que circulavam pelo Instituto. Não conhecia o fenómeno. Era a Gazeta, como lhe chamávamos. A sua propagação era feita por fotocópias, faxes, por mão a mão e muitas vezes por pessoas que conhecíamos, que, como estes jornalistas que propagaram o ataque a MST, estavam apenas a dar azo à curiosidade. Uma vez vieram-me entregar um desses textos. Onde o meu nome estava, incluído numa listagem que elucidava sobre a nossa culpa: sermos técnicos superiores. Rasguei-o sem o ler à frente da pessoa que mo entregou. E avisei-a: que se a visse fazer mais alguma vez isso não só rasgaria como também apresentaria queixa dela. A autêntica pescadinha de rabo na boca que é a condição anónima pode começar a ser contrariada através do momento da sua propagação, muitas vezes não tão anónima. Não há desculpa nenhuma para um jornalista reproduzir os textos desse pretenso crítico literário anónimo de MST se não tiver por muito fundadas convicções a ideia de que o dito não só corresponde à verdade, como a de que existem putativas razões para o seu autor não assumir a identidade do que escreveu.
Ora o que permitiu o ataque a Miguel Sousa Tavares foi a sua injustificada publicação na comunicação social. E aí não há anonimato nenhum. E quando eu digo injustificada não digo que não pudesse ter justificação. Quer dizer que ela não foi dada na forma nem na matéria noticiada. Sendo assim, não haverá aqui responsabilidades não anónimas? A ficha técnica de um jornal não o elucidará a ele sobre a quem pedir contas? Ou não terá Miguel Sousa Tavares coragem para enfrentar os seus colegas jornalistas? Poderia Miguel Sousa Tavares ter alguma razão sobre a sua irritação blogosférica se a concentrasse na forma acrítica como hoje recepcionamos a maior parte dos factos e das realidades que vamos compartilhando. Se tivesse falado desta subserviência à blogosfera que encontramos na comunicação social que absorve, mais uma vez, acriticamente, o fenómeno. É que não estamos só a falar do campo da escrita das notícias, sim também dos seus vários níveis de edição.
Há uma coisa em que mais uma vez, e felizmente para ele, Miguel Sousa Tavares não tem razão: a blogosfera, como território não só das identidades, também da construção identitária numa espécie de solidão em comum, é um campo de generosidade que impede o alastrar do anonimato, confinando-o muitas vezes à zona do comentário. Por isso mesmo, o que não se passa quando uma determinada notícia falsa é publicada no jornal, aqui podemos medir a reactividade da blogosfera a este facto. E não arrisco muito se disser que grande parte da blogosfera portuguesa vai tratar o anónimo autor do ataque a Miguel Sousa Tavares com o desprezo que ele lhe merece. E isso, Miguel Sousa Tavares vai sabê-lo. Vai poder ler-nos e perceber que não nos deixamos seduzir pela inveja. Falo pela maioria dos blogues que tenho na coluna aqui ao lado. Dos leitores dos jornais, não, não poderá esperar o mesmo. Perdidos no deserto identitário, provavelmente muitos irão subordinar-se aos palpites de jornalistas que não tendo lido nenhum dos dois livros, têm, como Miguel Sousa Tavares, uma opinião consubstanciada das realidades que desconhecem.

6 comentários:

prozina disse...

assino a se pudesse ia para a coluna do lado

cbs disse...

"tratar o anónimo autor do ataque a Miguel Sousa Tavares com o desprezo que ele lhe merece"
qualquer ataque anónimo contém em si algo que recai sobre o atacante, ninguém pode sentir integridade atirando a pedra e escondendo-se.

Não li o MST, apenas soube, já nem me lembro como, creio que plo Público de algo como uma acusação de plágio ao Equador, feita num blog.

Se o MST acha que lá porque não bloga, lá porque o ataque veio de um blog, é parvo... no pleno sentido de pequenino.
Se não acha... então siga a vida, porque o Equador é um livro aliciante, de facto.

abraço Jpt

cbs disse...

a idade não perdoa, loool

faltou dizer o que é que o MST acha; se acha que a blogosfera é "um processo de dessocialização e sedentarização das solidões"

e o abraço é pra ti Jpn, que o Jpt já lá tem a conta de anónimos feitos parvos no Maschamba (talvez aí a razão da minha baralhada :)

JPN disse...

é pá, abraços ao jpt aqui também são bem vindos, eheheheh!

marta disse...

Tens toda a razão. O "boato" é o pior anónimo.

M em Campanhã disse...

o MST ainda não percebeu que na blogosfera pode encontrar o que não encontra na imprensa convencional: uma espécie de jornal feito por um dream-team (à nossa escolha), sem notícias foleiras, sem publicidade, só um molho de boas crónicas e artigos de opinião, à borla, diário e em actualização permanente. só é preciso saber, mais ou menos como com o Expresso, e isso aprende-se rapidamente, quais são os 90% de lixo que vêm misturados com o que interessa.