quinta-feira, outubro 19, 2006

when anybody smiles

Levantei os olhos da folha gasta e promíscua. Uma onda de calor galgou-me as paredes internas do corpo, espalhou-se por sítios meus que nunca vi ao vivo, mas que sei como devem parecer, por ilustrações que contemplei com seriedade nos livros de anatomia.
Ultimamente aprendi a identificar tal sintoma como um surto de felicidade instantânea e inesperada, perante algum estímulo inespecífico e tremendamente variado. Fico muito quieta para deixar que esse calor chegue aos capilares sanguíneos e nenhuma parte física ou mental de mim se possa queixar de negligência.
Aconteceu-me isso há um par de semanas quando dei pelo outono, através da janela do autocarro. Uma folha estalada a pairar descendentemente, muito devagar, e eu a segui-la como se não soubesse o seu destino. O autocarro só arrancou quando a folha tocou o chão e eu não olhei para trás. O outono tinha chegado e eu estava bem.
Hoje foi com um livro. Tenho lido pouco.
Comoveu-me a simplicidade da vida, a simplicidade das palavras, a simplicidade de procurar um livro dentro da sacola e de o abrir e de ler poesia no metro no caminho do trabalho.
Aqui, numa terra de cheiro omnipresente a comida e gente de muitas origens, mas que usam sapatos muito parecidos.
O gesto muito simples de sentir-me toda eu coincidente e nada mais que um poema.
Folhas gastas e promíscuas.
De um livro de biblioteca.
"it´s
so damn sweet when Anybody-
yes;no
matter who,some
total(preferably
blonde
of course)
or on the other
well
your oldest pal
for instance( or
;why
even
i
suppose
one
´s wife)
-does doesn´t unsays says look smiles
or simply Is
what makes
you feel
aren´t
6 or 6
teen or sixty
000,000
anybodyelses-
but for once
(imag
-ine)
You"
in 73 poems, e.e. cummings

4 comentários:

sete e picos disse...

muito bonito, ler este post foi quase como sacar um livro da mala e parar no meio da rua para o ler.

a ortónima disse...

que bom saber de ti!
que o outono te encontra inspirada, como nas restantes estações do ano. que os céus cinzentos de londres não te ofuscam o brilho com que olhas a vida, as letras, as palavras, e as revolves até fazeres sair delas algo de belo.

****

devagar disse...

Minha querida, parceira de tantos interesses e desafios. Enquanto te agigantas no precípio de uma vida ainda às apalpadelas, é tão bom sentir-te através da tua verve. Sempre poderosa, pungente, sempre a deixar-nos com um sabor a pouco...

Um enorme abraço. Muitas saudades...

JPN disse...

"O gesto muito simples de sentir-me toda eu coincidente e nada mais que um poema."

abraço