sexta-feira, março 21, 2008

O que é a educação na escola pública? [5]

O episódio da Escola Carolina Michaelis é lamentável. Quando ouvi falar em agressão de uma aluna a uma professora fiquei indignado. E até comecei a pensar alto que isto era mais um sinal do descrédito e da tristeza que recai sobre a actividade do professor. Mas depois fui ver as imagens terríveis. E depois de as ver não me motiva minimamente o discurso moralista sobre a má educação da aluna. É uma perspectiva de ver as coisas. As pessoas devem respeitar-se umas às outras, os alunos devem respeitar os professores e a Escola, a aluna não deveria ter gritado nem tentado reaver o seu telemóvel da forma como o fez. Tudo isso é (muito) certo. A própria aluna já reconheceu o evidente, que perdeu as estribeiras e lamenta o acontecido.
Mas não é a única perspectiva de ver as coisas. E se aceitarmos que o respeito de alunos para com os seus professores não é um valor absoluto podemos tentar perceber outros aspectos que serão importantes para compreendermos o que se terá de facto passado naquela sala de aula.
O respeito não é dissociável da ideia de dignidade. Só pares na dignidade se respeitam. Senão não é respeito é domínio. E o domínio pressupôe subjugação. Este é um valor que é válido para um adulto como para uma criança. E numa escola que quer ensinar valores, é ainda mais urgente que ela seja muito clarividente sobre se a sua intenção é a de formar pessoas para a dignidade ou para a subordinação. É que a dignidade pressupõe algumas condições, como o sejam as do respeito pela construção identitária. Pela forma como cada um se constitui diante dos outros. No meu tempo de escola não havia telemóveis. Nunca tería tido estes problemas. Mas é um facto - e bastará irmos a todo o discurso ideológico da publicidade que nos envolve para o percebermos - que o modo como vivemos hoje fazem com que o telemóvel, o uso que fazemos dele, seja um instrumento de construção da identidade.
Não estou a dizer que é bom ou mau. Estou a dizer que eu, que não sou dos que mais se deixaram telemovelizar tenho, no meu aparelho de telemóvel, partes de mim. E muitas delas intimas. Ou que julgo intimas. Que quero protejer. A todo o custo. Ora não posso pensar naquela aluna como sendo menos do que eu. Até é mais nesse aspecto porque os adolescentes personalizam tanto o seu telemóvel que ele é muito mais um pedaço da gente que eles são. E é propriedade privada. Ou seja, nenhum de nós, adolescente ou não, deixaria que o telemóvel pudesse ser o que é, a nossa caixa de segredos, senão pudesse ser nosso, privado, inviolável.
É a partir destes pressupostos que vou ver novamente as imagens. E agora vejo uma aluna acossada. Na mão da professora está um bocado dela. A forma desesperada como ela se focaliza no telemóvel, na mão que o sustém, a forma como grita, o que ela diz, dá para perceber o que a anima. A professora não o entende. Está também focalizada em salvar a sua aula. Para nós, que estamos de fora, já percebemos onde esta tentativa de salvamento levou a sua aula. Para o domínio público. Nesse aspecto até vejo que a aluna foi muito contida. Podia ter batido na professora para a tentar fazer soltar o seu telemóvel. Podia-lhe ter tentado morder a mão. Podia tê-la insultado, feito descer àquela sala todos os palavrões que conhece, merecendo assim todos os epítetos com que, de qualquer forma, a brindaremos. Não, a única coisa que consegue dizer é, o meu telemóvel já. Há uma altura em que se acalma e fala com ela. A professora recua em direcção à porta da sala dando a ideia de que irá sair com o telemóvel da aluna. E aí a coisa torna-se mais feia. Confesso que o que mais me chocou foi o aluno que com o telemóvel ligado comenta de forma grosseira o que se está a passar.
Não sei o que aconteceu antes. Não sei quais são as regras que estão estabelecidas na sala para o uso de telemóveis. Nem sei o quanto ela perturbou a aula. Deduzo que muito, para que aquela professora tenha perdido o controle da situação. Percebe-se também que não seria a única a ter o telemóvel ligado. Não sei também se antes de lhe retirar o telemóvel lhe pediu para ela o desligar. Ou se a mandou sair da sala. Sabemos muito pouco daquelas imagens e, paradoxalmente, elas, a sua reprodução, sabem tanto da reacção que vão provocar. Esse é o drama daquele filme. Já vi aqui dizer-se que não se compreende a distorção da imagem da aluna. Eu entendo-as, às duas, ambas ficam pessimamente no retrato.
Sei uma coisa: aquelas imagens são uma lição para todos os professores. O respeito é algo para ser obtido entre pares. E o respeito é só entre dignos e a dignidade rima com identidade. Mais rimas fáceis: propriedade. O direito à propriedade. Talvez não fosse também despropositado regular o uso de telemóveis na sala de aula. Como se fazem noutros lugares. Eu sei como é incómodo ser interrompido numa aula por um telemóvel. Principalmente quando é o nosso, que deixámos ligado. Estas imagens são uma lição para todos, professores, alunos, famílias. Até para o comércio. A menos, o mais provável, que tudo isto seja combustível para uma discussão ideológica sobre a forma como fomos perdendo o respeitinho uns pelos outros.
Ler : Voando sobre um Novelo de Equívocos, de Eduardo Graça no Absorto

4 comentários:

Luisa disse...

Subscrevo. Inteiramente.

CCF disse...

Concordo: as duas estão mal e pior ainda a plateia que assiste! E a discussão certa é essa: como fomos perdendo o respeito uns pelos outros?!
Abraço
~CC~

Mariposa Roja disse...

Estar numa aula e querer brincar com o telemóvel é o mesmo que ter um jardim e construir um silo de automóveis ao lado.

Um professor não tem que educar um aluno, a sua função é transmitir conhecimentos.

O chocante nestas histórias é constatar o desperdício e a queda na banalidade, lucrativa para muitos.

maria disse...

Pois é J.

Na vida...e nas salas de aulas...uns são professores outros são Mestres.... uns aprendem e crescem...outros perdem-se do lado de "lá" da vida.
Sobram-me questões:
1- Que mais valia terá a punição encontrada, a expulsão, para aquela jovem? ( se calhar, eu que sou pérfida, po-la-ia a co-gerir, durante algum tempo uma sala de alunos com necessidades educativas especiais, noutra escola.
2- E os restantes jovens? (inquietou-me mais a atitude deles do que a da "rebelde em nome de um telemóvel")
3- O que aprendeu aquela professora?
... é que quando não há aprendizagem o vivido é inútil.

M ( a do sorriso suave rs)