domingo, agosto 08, 2010

Um dia a nossa morte

Não penso muitas vezes na minha morte. Por vezes não lhe posso virar a cara, como ontem, quando fomos ao hospital visitá-lo e o vi, de peito aberto. Tem quase mais quarenta anos do que eu mas ao lado dele estava um homem muito mais novo, da minha idade, com o peito já fechado. Estranhamente o que me aproximou desse homem não foi a proximidade da sua idade com a minha, foi o estar de portátil ligado. Uma das coisas que mais me impressiona nestes lugares é o tédio. Uma televisão ligada num ponto que permite a visibilidade total vai vomitando generalidades. Das oito camas da enfermaria apenas três estão ocupadas. Os quotidianos. Levantar da cama, ir à casa de banho, ao refeitório, sentar na poltrona, sentar na beira da cama. Passar os dias. Dos cuidados intensivos para a enfermaria intermédia, da enfermaria intermédia para a enfermaria, da enfermaria para casa, a convalescença de um pós-operatório tem estas classes que permitem ao doente fragmentar o tédio. É impressionante o quanto os cuidados de saúde estão a mudar. Passados trinta minutos do final da operação veio logo o cirurgião ter connosco, era espanhol, muito simpático, a perguntarmos-nos se éramos a família do senhor V., éramos, explicou tim-tim por tim-tim os passos da operação, o modo como correra, os procedimentos e cuidados a ter, o percurso pós-operatório. Enquanto ele falava nós olhávamos as paredes à procura de uma câmara de tv, aquilo não parecia o filme da saúde em Portugal, mais se diria um daqueles muitos seriados televisivos americanos. E depois nos gestos do dia-a-dia, nos enfermeiros, nos técnicos que passam, nota-se um brio, uma humanidade que convence.
Mas estava a falar da minha morte. Já houve tempos em que tinha como mais recorrente este pensar sobre a morte, sobre a minha morte. Aterrorizava-me a ideia de morrer. Agora já não. É claro que gostava de viver muitos e muitos mais anos mas mentalmente penso em pequenas metas: não gostava de deixar esta vida sem concluir a investigação sobre a escrita teatral que vou começar agora, gostaria também de ter tempo para acabar uma história que comecei há poucas semanas e que poderá vir a ser o primeiro romance que escrevo, de poder fazer a encenação da Evaporação dos Pássaros, de escrever o texto para o espectáculo do Carlos Mendes que ele me pediu, de poder montar o trabalho que propus ao altaCena, de fazer um site com todas as minhas peças, os meus trabalhos, as minhas entrevistas, gostava de conseguir escrever e apresentar um espectáculo de stand-up que comecei a inventar há uns meses, mas isso tudo é mercearia pouca que se avia em dois ou três anos. O que mais me entristece na ideia de que vou morrer, porque aquilo que fiz está feito e não acredito que quando a morte me vier buscar não me encontre sempre com algumas coisas para fazer, é o faltar àqueles que amo.
Principalmente a ele, porque ela já trabalhou muito a perda para saber perceber que não vale a pena zangarmos-nos com o que nos acontece. Ao meu filho ainda acho que é muito cedo para me habituar à ideia de que lhe possa faltar. Sei o que é um filho perder um pai, e eu perdi o meu já na maturidade. No outro dia, ainda estava comigo há uns dois ou três dias das férias comigo, dei com ele assustado, a chorar, ao telefone, pedindo à mãe para o ir buscar. Contou-me depois, costuma sonhar que vão assaltar a casa, matar os seus pais. Queria ir para casa da mãe porque lá está mais habituado a tratar destes assaltos de pânico. Mete-se na cama da mãe e os medos vão-se embora.
"- Há coisas que eu gosto mais de falar com o pai, mas estas coisas eu costumo tratar com a minha mãe!"
Lá arranjámos uma estratégia para sobrevivermos àquela noite. E depois, às outras noites. Falámos muito sobre o medo. Por acaso um dos trabalhos que ele tinha que fazer era inventar uma história. Fizemos dessa história o palco dos seus medos. Foi ele que me propôs:
"- Pai, tenho uma ideia: vou escrever a história de um menino que quando sonho pensa que os seus sonhos são realidade."
Ñem mais. Temos dentro de nós um sistema imunitário não só para os ataques físicos, biológicos, também para os psíquicos. Falei-lhe dos meus medos de infância. Ah! Como é bom e delicioso falarmos, à distância de quarenta anos, dos nossos medos de infância.
"-O Pai também tinha medo que matassem os seus pais? também sonhava com mortes?Expliquei-lhe que sim. Eu tinha um medo terrível de fazer dezoito anos. De ficar sozinho no mundo, sair de casa dos meus pais. Era essa a minha imagem do que era fazer dezoito anos. Em vez de ter a minha mãe e o meu pai à beira da minha cama a darem-me os parabéns e a saudarem o meu primeiro olhar da manhã - e aquela bola de borracha com losângulos negros que fazia parecer ser uma bola de futebol a sério!- tinha os dois, com ar sério, mala feita, a dizerem-me, faz-te à vida, marinheiro, boa sorte. E eu ía para a guerra, para a guerra em África. Foi isso que me ficou de tanto julgamento da bandeira a que assisti, em frente ao Convento de Mafra, das tropas que seguíam para as antigas colónias. E sonhava com mortes claro. Com o ficar sózinho no mundo.
"- Eu às vezes consigo evitar o medo mas outras vezes não, ele fica muito forte, eu vejo mesmo as mortes!"
"- Sabes que isso tem uma coisa boa? Quer dizer que gostas muito de nós e que não nos queres perder.".
Não lhe disse, não me apeteceu, que era também uma forma, uma das muitas oportunidades que ele iria ter de "vivenciar" a nossa morte para se preparar para ela. Abraçámo-nos. A morte, a ideia de que vamos morrer, de que não vamos ficar eternamente a aturarmo-nos um ao outro, uniu-nos num nó cego.

1 comentário:

LM disse...

Bonito nó cego.
;)