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sábado, agosto 07, 2010
Caso Freeport
Não é a minha praia. E eu, até meio de Agosto estou avençado ao areal. Mas não posso deixar de partilhar este delicioso pedaço da entrevista de uma advogada ligada ao processo. Obrigado Porfírio.
quarta-feira, abril 22, 2009
Fripórte
Aqui. Mais uma peça deste puzzle. E est'outra, de um jornalista que tem estado em intensa investigação sobre o caso. O que se pode dizer sobre este assunto?
Sinto grandes dúvidas sobre o que se pode dizer. A primeira coisa que descortino é que há dois casos Fripórte.
Um, o judicial. O outro, o do jornalismo. São processos diferentes. Incluem metodologias diferentes (o judicial, em teoria, não fosse a institucionalização da fuga ao segredo de justiça é muito mais lento e "não admite prognósticos antes do fim do jogo") . Admitem provas diferentes (o caso do vídeo rejeitado pela procuradora titular do processo judicial é paradigmático deste facto). O processo jornalístico, onde se destacam o trabalho do Público e do Sol, é, neste momento, liderado pelo Jornal TVi. Para além dos méritos próprios da estação em captar a atenção mediática, a natureza audiovisual de alguns dos materiais apresentados como prova fazem com que seja natural que a TVi tenha ganho grande destaque em relação ao jornalismo escrito.
O caso Fripórte, do ponto de vista judicial, está subdividido em três partes: a primeira, a da investigação judicial em relação ao caso, executada por aqueles que no nosso país têm autoridade para serem titulares de um processo de investigação criminal. Uma segunda, mais recente, a das pressões sobre os magistrados que conduzem a investigação criminal. É natural que este último se associe ao primeiro e lhe confira uma dimensão política (o que é quase explosivo num país que está a entrar em período eleitoral). A estas juntam-se uma terceira, constituida pela iniciativa do primeiro ministro de tentar criminalizar a difamação e utilização indevida do seu bom nome que, segundo ele, terá ocorrido, bem como a da TVi, que terá avançado com um processo por difamação, contra o primeiro-ministro.
O caso Fripórte, do ponte de vista jornalistísco está também subdividido em vários momentos: a da investigação jornalística que está a ser realizada pelas equipas jornalísticas, com grande protagonismo para o Público, Sol e TVi sobre o caso Fripórte; a investigação jornalística sobre as pressões aos magistrados que titulam o processo judicial; a cobertura noticiosa sobre as iniciativas judiciais do primeiro-ministro contra todos os que, segundo ele, o difamam, e onde adquirem protagonismo as queixas contra João Miguel Tavares, a redacção do Jornal da TVi 24 e o Público; a cobertura noticiosa sobre as pressões aos magistrados que titulam o processo (pressão que envolve uma dimensão política inegável e que obriga por isso a tomada de posição sobre os partidos com assento parlamentar), e finalmente, a cobertura noticiosa sobre o impacto social e politico do caso Fripórte, onde se inclui o comentário e a opinião.
Para além disso há a dimensão oculta entre todo este processo, a forma como eles comunicam entre si, o processo judicial e o processo jornalístico, com o recurso a fontes. Jornalistas, magistrados, políticos, e cada vez mais os cidadãos sabem-no, são modos de comunicar onde muitas vezes os fins, informar, justificam os meios. Não é preciso ter uma grande cultura mediática para disso ter crescente consciência.
Por outro lado há ainda, a tornar mais complexa esta situação, a natureza pública da acção penal e criminal (que decorre de constitucionalmente estar adstrito ao Estado a administração da Justiça) e a natureza privada de grande parte da actividade jornalística.
Seria bom que cada um de nós percebesse, quando lê uma notícia sobre o caso Fripórte, a que é que ela se refere. Refere-se a um novo dado da investigação criminal que saiu para a praça pública através de uma quebra do segredo de justiça? Refere-se a um dado da investigação judicial sobre as pressões aos magistrados titulares da investigação criminal? Refere-se a uma informação sobre um novo processo ou queixa-crime movido por Sócrates aos jornalistas ou por estes a Sócrates? Refere-se a uma informação decorrente da investigação jornalística sobre o caso Fripórte? Refere-se a uma informação decorrente da investigação jornalística sobre as pressões aos magistrados? É um comentário ou uma opinião sobre o caso? É uma posição de um partido político sobre a dimensão política do caso?
É que embora tudo isso seja englobado mediaticamente no ficheiro Caso Fripórte, tem implicações diferentes, naturezas diferentes, motivações diferentes implicando por isso uma análise diferenciada. O facto de Sócrates ter processado judicialmente João Miguel Tavares (embora não nos diga nada sobre o seu envolvimento no processo criminal) reforça o seu envolvimento no Caso Fripórte pelo simples facto que a notícia sobre isto se replicará vezes sem conta no espaço mediático e será agrupada no dossier Fripórte.
O que havemos ou podemose fazer sobre isto assim, com esta dimensão de bola de neve ? Parece que pouca coisa. No entanto o pouco que podemos fazer é muito: podemos começar por reconhecer que a República hoje é isto: A investigação criminal por um lado escondendo o processo e por outro lado criando condições para que ele saia para a rua em parcelas para montar; a investigação jornalística por um lado condicionada a mostrar a conta-gotas, telenovelizando o real, fazendo com que ela, a investigação, se transforme num produto que é consumido e vendido semanalmente.
Não tenho dúvidas de que, em relação a este caso, Sócrates e muitos dos seus apoiantes, ou muitos jornalistas sérios educados numa escola jornalística que rareia, ou cidadãos que empatizaram com o primeiro ministro e se pôem na sua pele, tenham em muitos momentos a sensação de que tudo está perdido, que é dificil mudar o circo.
Eu sei porque já senti isso mesmo em relação a anteriores casos (Ferro Rodrigues, Paulo Pedroso e até Carlos Cruz) onde me deixei envolver emocionalmente por essa empatia. Só que o circo é a República e a república é o País. Desde há alguns anos é o que temos para oferecer aos nossos políticos, aos nossos jornalistas ( e como esta palavra na realidade de uma empresa jornalistica recobre também pessoas cuja única relação com o jornalismo é a de o negociarem), a nós mesmos como comunidade. Esta é a república, o circo, o lugar.
José Sócrates independentemente de ter sido ou não sujeito a enriquecimento ilicito e corrupto poderá, com a chuva de processos judiciais que vier a ganhar, vir a enriquecer de modo lícito. As empresas jornalisticas que eventualmente sejam condenadas por terem deturpado os factos para conseguirem vender telejornais, jornais ou revistas serão confrontadas na barra dos tribunais com o seu enriquecimento ílicito. Esta é a república, o circo, o lugar onde vivemos. Não nos deixemos emocionar pela atitude de vitimização tanto do primeiro ministro e de quem o defende como dos jornalistas a quem Sócrates processa. Manuela Moura Guedes adoptou nesse sentido uma atitude inédita: a de processar José Sócrates por este ter dito que o jornalismo da TVi 24 h era caça ao homem (num momento de grande infelicidade para Sócrates) e ao fazê-lo, pela reciprocidade de sentimentos, concedeu uma grande dignidade à atitude de Sócrates e demonstrou uma grande confiança no sistema judicial.
E repito, o que podemos fazer? Podemos começar por assumir que podemos fazer muito. Podemos e devemos não nos cansarmos de seguir o fluxo informativo. O problema é que nós estamos direccionados para recolhermos informação conducente a uma tomada de posição o mais rapidamente que for possível, parece que não somos ninguém se não podermos dar um palpite, tomar posição, e depois, quando a tomamos, é dificil afectivamente desmontarmos a informação que construímos. Por exemplo, temos um vídeo em que um sujeito diz que Sócrates é corrupto. Mas também temos, mais recentemente, a notícia de que há declarações desse sujeito a dizer que essas declarações, que aconteceram, são falsas e que as fez para tentar justificar o desaparecimento de dinheiro.
Não nos cansarmos de seguir o fluxo informativo. É o primeiro mandamento da nova era mediática. Depois, insistirmos a pensar pela nossa cabeça. Se uma televisão difunde um vídeo onde aparece alguém a dizer uma coisa que entretanto desmentiu, a televisão tem o direito de o fazer mas nós temos de tentar perceber de que forma é que constituimos a nossa opinião, se é através das imagens ou da informação veiculada.
A nova sociedade da informação precisa de nós. Precisa que perservemos a nossa capacidade de ajuizar, pensar, julgar. Que avaliemos os nossos preconceitos e a forma como eles podem manipular a realidade. É bom que nos entendamos sobre uma coisa: a TVi (assim como a SIC) não tem como primeiro objectivo do seu trabalho jornalístico procurar a verdade. Não quer dizer que os seus jornalistas não sejam verdadeiros, não sigam as regras de isenção que aprenderam na academia e na profissão. Quer apenas dizer que a pretensão da verdade distorce a possível compreensão da realidade. As televisões querem liderar o mercado das audiências vendendo um produto jornalistico da melhor qualidade que lhe for possível fazer (sabendo que para isso deve ser o mais possível isenta, ter capacidade de investigação própria) face aos prazos de fornecimento de informação que tem. Mas também não querem a mentira, a manipulação, a caça ao homem ou o assassinato de carácter do primeiro ministro ou de outra qualquer pessoa. Concordarei com aqueles que dizem que face à fraca qualidade de muitos produtos informativos muitas vezes podem pouco, vezes demais sabem menos, e frequentemente são condicionados pelo tempo que têm para fornecer uma determinada informação (por exemplo, ninguém espera que o próximo Jornal da TVi conduzido pela Manuela Moura Guedes não tenha qualquer coisa sobre o caso Fripórte). Concordarei ainda que este clima preconceituoso que, por mais que fundado num legítimo sentimento de injustiça, existe entre os socialistas, o gabinete do primeiro ministro e a TVi, desenvolva um comportamento recíproco da TVi, alicerçado num não menos legítimo sentimento de injustiça, para com José Sócrates *.
A informação, num regime democrático e numa economia de mercado, não é tendencialmente manipuladora. É um produto jornalistico que pode ser melhor ou pior realizado. Somos nós que nos deixamos ou não manipular pela informação que a TVi, a RTP ou a SIC ( e estou a cingir-me apenas à produção televisiva nacional) produzem. Somos nós que estamos entre o circo, o país ou o lugar.
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*É ver como José Eduardo Moniz não deixou de ser tão infeliz como José Sócrates quando este, perdendo a compostura institucional que um primeiro-ministro deve ter, se pôs a classificar de modo muito pejorativo o trabalho de uma determinada estação televisiva que é também uma empresa, que tem uma marca, trabalhadores, um património, a cuja perservação Sócrates, enquanto primeiro-ministro, deve ser o primeiro a mostrar solidariedade. Por mais que seja humanamente compreensível Sócrates estadista ter cedido a voz ao Sócrates cidadão, nós temos o direito de querer um pouco mais do nosso primeiro-ministro. As declarações de José Eduardo Moniz sobre a liberdade de informação são uma vitimização muito mais patética do que a de Sócrates, já que este, em sua defesa, tem o facto de estar a ser objecto de um tirocínio tão insuportável quanto inevitável. Quer isto dizer que temos motivos para esperar o pior deste confronto.
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