sábado, junho 04, 2005

Paradoxo informativo

Dia 2 de Junho, quinta-feira, pela manhã, vinha de olhos pequenos saída do metro do Chiado. Ali está sempre uma senhora, além meia-idade e pouco loira de verdade (mas que agradece inesperadamente quando se lhe aceita o jornal). A mesma, todos os dias, a distribuir o PRIMEIRO DIÁRIO GRATUITO PORTUGUÊS, O SEU COMPANHEIRO DE VIAGEM. A qualidade deixa a desejar, já o tinha pensado e lido. Dou comigo a recolher o jornal e até a sorrir quando miro muitas pessoas no metro a folheá-lo. O mundo ideal aos meus olhos, seria um em que toda a gente pudesse ler. Ler e com capacidade para decidir o quê. Esta possibilidade de leitura gratuita, se não garantir o veículo de informação de qualidade, pode, ao menos, permitir que pessoas leiam que, se não fosse por este meio, não leriam. Mas a minha simpatia por este projecto ficou gravemente afectada na quinta-feira. No frontispício figurava em parangonas: "SEF DETECTA MAIS DE 200 MULHERES EXPLORADAS". A notícia de mais destaque. Até aí tudo bem. "São na grande maioria brasileiras as 240 mulheres alegadamente traficadas para exploração sexual que o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras identificou desde o início do ano(...)". Como notícia secundária na página, no canto inferior direito surge Lingerie permite novo "controlo à distância". Passo a citar: "Partindo de tecnologia desenvolvida pelo exército americano, os japoneses craram um sofisticado dispositivo que permite monitorizar a mulher, a partir da roupa interior que veste. Incorporada de forma imperceptível no tecido, a invenção fornece a sua localização exacta, bem como informação relativa a alterações da temperatura corporal e aceleração cardíaca, ajudando a serenar a ansiedade dos mais ciumentos.". É suposto ter graça? Não sei se é a minha exigência ambiciosa com a coerência. Ou se é por ser um assunto melindroso, um assunto não resolvido nas cabeças de todos, como mostra este paradoxo informativo. Ora esta contradição espelha tanto o descuido de quem decide as notícias a publicar, como a névoa densa nas consciências. A preocupação deontológica não deve morar apenas nas publicações de grande gabarito: ainda é mais urgente em jornais gratuitos. Quem os lerá? Principalmente quem não tem por hábito a aquisição de jornais de qualidade.

1 comentário:

maresia disse...

que coisa tão sinistra para ser inventada! e eu já nem falo de usada...