domingo, junho 05, 2005

Às 4:48 ocorrem mais suicídios que a outra hora qualquer, disseram estatísticas

Tão de manhã e não evitei uma catástrofe. Corpo-álcool. A minha dança ininterrupta pela noite das palavras. Provei uma janela, uma janela com um livro, era um texto para ser representado. A minha dança ininterrupta pela noite com um copo de Martini Bianco e teatro. Li Sarah Kane, a sua última peça. Tão de manhã é agora, diz o relógio e a luz, há pouco era noite sobre todos, sobre a rua também. Li a peça em voz baixa, ouvia-se em eco. Quem passava ouvia. Um travesti sem peruca, ainda com maquilhagem. Ia em “(...) E saio às seis da manhã e começa à procura de ti. Se sonhei com uma rua ou um bar ou uma estação vou lá. E espero por ti./ (Silêncio) (...)”. O travesti incompleto, sem peruca, doíam-lhe os pés, os sapatos altos faziam barulho. Eram dourados. Subia a rua escura, escuro o vestido, os sapatos dourados. Praguejava qualquer coisa sobre os sapatos. Não ouvi bem, mas devia ser sobre a dor que os sapatos lhe causavam, tão altos e abertos e dourados. Respeitei o silêncio indicado. Depois “(...) Na minha vida nunca tive problemas em dar às pessoas aquilo que elas queriam . Mas nunca ninguém fez isso por mim. Ninguém me toca, ninguém se aproxima de mim. Mas agora tocaste-me não sei onde tão fundo foda-se não posso acreditar não posso ser isso para ti. Porque não te consigo encontrar./ (Silêncio) (...)”. Ia maquilhado, passou debaixo da minha janela, olhei-o, não se incomodou. Eye-liner preto, carregado. Parou, enquanto subiu a rua, 5 vezes pelo menos. Sim 6 vezes, quase de certeza. Parava para massajar os pés. Os sapatos tão altos, o cabelo tão curto. Desapareceu na esquina, seguilo-ia com a Sarah Kane “(...) Como é que ela é? Como é que vou reconhecê-la quando a vir? Ela vai morrer, ela vai morrer, ela só vai morrer foda-se/ (Silêncio) (...)”.A rua parada, pombos rasavam fios de electricidade. Vizinhos do prédio da frente chegavam, um casal, depois uns rapazes que responderam “é o pai natal” ao “Quem é?” do intercomunicador. Não eram eles os interlocutores de Sarah. Lembrei-me nesse silêncio da didascália que o travesti que passara carregava um saco, um saco grande. As plumas, a peruca, as lantejolas, a maquilhagem? Foi para ele que li à janela, em voz baixa, com o Martini no parapeito ao lado do livro. “(...) Achas que é possível alguém nascer no corpo errado? (...)”. 4:48 PSICOSE, o nome da peça. Quando acabei olhei o relógio, quando acabei de a ler fui consultar um relógio por curiosidade, e juro-vos não foi propositado, eram 4:49 (isto é mesmo verdade, a hora, o travesti, os sapatos que magoam, a Sarah Kane, a hora, a hora). Um minuto depois do suicídio. Os vizinhos do prédio da frente apagavam as luzes das cozinhas e mergulhavam nas casas, provavelmente em direcção aos quartos. O travesti já tinha chegado ao destino. Não o consegui evitar, eram 4:49, um minuto depois do suicídio.

1 comentário:

Anónimo disse...

Excelente!
Poucas vezes um texto faz tanto sentido!