sexta-feira, junho 17, 2005

Uma estátua de febre a arder

Nunca conheci Álvaro Cunhal pessoalmente. Quando era miúdo, tinha doze anos, fui durante breves meses militante da UEC, um pesadelo para a minha mãe, que mobilizou toda a paróquia para uma cristianização do seu filho comunista. Desses tempos resta o anedótico, o episódio. Mantenho uma profunda admiração pela memória de Cunhal. O que tem algo de contraditório. Ele também representa o anquilosamento das ideias e o conservadorismo mais retrógrado. O dogmatismo mais feroz. Sofreram muito alguns por isso. Os comunistas criaram-se numa mistíca que não perdoa aos que se afastam e isso é fonte de inegável sofrimento. Não sei com que ganhos políticos. A grande frase de Cunhal era que o comunismo era a única doutrina que possibilitava repensar continuamente o homem. Que os comunistas evoluem sempre o seu pensamento, adaptando-o à realidade em que vivem. Todos sabemos que foi precisamente o contrário. O Partido Comunista foi incapaz de se adaptar, agarrou-se ferozmente a um ideário irreciclável, e agora vê-se na circunstância patética de ver o seu lider subir na cotação política por factores de avaliação pessoal como o gostar da vida, de dançar, de ser humano e perder a voz. Como símbolo deste mundo em perda acentuada de razão Álvaro Cunhal tem o mesmo valor do que teve João Paulo II, ou que terá Pio Bento. Por mais que tudo o que escrevi seja verdade para mim, não é menos verdadeiro que o modo de vida dos comunistas portugueses tem para mim aspectos admiráveis. Onde as pessoas são mais gente. Mais partilha. Mais dedicação a uma causa comum. Fascina-me um mundo onde pensamos na primeira pessoa do plural. Passo a vida a inventar pequenas comunidades e pertenço-lhes, nem que seja isoladamente. Paradoxalmente se por um lado os comunistas portugueses não tem um projecto geral para o país porque para eles o país enquanto coisa geral não existe, dão-nos amiúde, aqui e acolá, retratos de um país particular onde a vida merece ser vivida. Para além de factores de erosão, corrosão e corrupção que tem a ver com a perpetuação no poder, os comunistas no Poder Local podem orgulhar-se , de uma forma geral, de terem ajudado a construir um país um pouco mais decente, corajoso, moderno, humano. Espero por isso que a minha cidade o inscreva na toponomia da cidade e lhe construa uma estátua. Homenageando-o como simbolo dos comunistas portugueses.

2 comentários:

Anónimo disse...

Um texto profundamente justo.
Não falta uma palavra, nenhuma palavra está a mais.

Leonor disse...

Sim, muito justo.