sexta-feira, junho 03, 2005

A vida não é o que parece

Ontem no autocarro, o motorista, um rapaz dos seus vinte e muito poucos anos, falava com uma passageira, encostada ao varão da entrada. Tive de comprar bilhete, a validade do meu passe tinha expirado, o que me deu tempo para ouvir a conversa. A mulher era cega. O motorista, um daqueles jovens que antes mereceriam o epíteto de rapaz bem formado, desatava a conversa. Que temos de nos conformar, e a cegueira dela seria o objecto de conformação. - Sabe, eu ceguei há uns quinze anos, estava grávida da minha filha. Dei à luz na maior escuridão. E a cegueira apanhou-me no pior período. Estava desempregada. Agora, não, agora estou a trabalhar. Nos pastéis de belém. Olhe, por isso eu posso dizer, a vida não é o que parece.

3 comentários:

Anónimo disse...

a vida é o que fazemos dela e não me parece que esta rapariga tenha dado "à luz" em qualquer escuridão. a vida não é o que parece, e parece-me que ela o sabe bem.

Eduardo Graça disse...

Caro JPN
Bonito post. Deu-me prazer ler...talvez o tenha entendido como um sinal de esperança no futuro das mulheres e homens deste país "desgraçado". Um abraço.

Anónimo disse...

Brilhante este post! Pressenti uma perversidade extremamente subtil, de rara lucidez. Parabéns.