sexta-feira, julho 15, 2005

Começar de novo

Acordou como um estrangeiro. Tinha apagado todo o lastro que inconscientemente o arrastava. Temos uma vida imensa dentro da nossa mão mas fazemos de conta que não, que tudo começou ontem com um sms. Somos brutais, no paradoxo. Temos em nós uma pulsão infinita para o desconhecido e atamancamo-nos a duas ou três sms's que criam uma película protectora em torno da nossa insegurança. Ontem - hão-de reparar que é sempre ontem quando falamos da coragem - tivera um assomo de si e apagara todo o histórico do seu pequeno telemóvel. Hoje, e é sempre hoje que escrevemos um dia novo, sentiu-se estrangeiro. Pensou que se deixava percorrer por um lençol de tristeza ténue. A ténue tonalidade da tristeza é uma das variantes ou modalidades mais doridas da tristeza porque nunca se diz triste. Hão-de reparar: diante dela o homem assobia para o lado, assopra os cabelos que lhe caiem da testa, dá um toque na melena, mas nunca, nunca mesmo diz a si próprio ao que vem. A sorte deste homem, e porque este homem era um ser realmente bafejado pela ventura, é que rapidamente compreendeu que não era tristeza, era angústia. A angústia não é nem triste nem alegre mas se for alguma coisa, e nele era um sinónimo vigoroso de que estava vivo, será algo feliz. Antes de se desfazer das sms's, muito antes, aprendera a desfazer-se das definições de si. De quase todas. A angústia enquanto nascente de um poderoso momento de intimidade, persistia.

1 comentário:

outros temperos disse...

Eu aconselho sempre - com uma mão apaguem os sms, com a outra mão levem à boca colherzinhas de arroz doce, nada mais confortante...