domingo, agosto 20, 2006

A bola no Olival

Ontem com o ZF, histórias com vinte e cinco anos. Uma delas a da minha alcunha, uma das muitas alcunhas que tive, já que a irritação com que eu as acolhia fazia com que elas durassem e se replicassem. Era a do Ai. Não confundir com o Ai-Ai, personagem do bairro *. A minha alcunha foi criada no relvado em frente à Escola da Piscina. Ainda me lembro como se fosse hoje. Eu era muito persistente e lutador pela bola e - tal como uns anos mais tarde nos matraquilhos do Majong - tinha-me especializado à defesa. Já havia muitos craques a quererem marcar golos, o Barros, o Névoa, o Subtil, fiz-me defesa, sempre fui assim, em tudo, quando o sol queima vou pela sombra, que pela sombra é que vou bem. A certa altura, mais ao menos a meio do campo, estávamos a ganhar por diferença de um, o A. destaca-se do meio campo e corre para a nossa baliza. Há aqui um ligeiro pormenor que ajuda a compreender o desenlace da história: o A. era um rapaz, filho único, que vivia no Bairro do Relógio e que tinha sempre as primeiras novidades do que era betice. Samarras, quando elas apareceram. Sapato italiano, Levys Strauss, Loys e Ranglers, mocassins, pullover à cintura, camisa azul de linho, perfume Aramis e Paco Rabanne, coletes, fosse o que fosse. Saía, estava na moda nas passereles da Mexicana?, então A. desfilava. Era uma jóia de moço, generoso até mais não e, não é que isso tenha correlação, o tipo com mais pêlos no peito em toda o pátio da Escola da Piscina dos Olivais. É verdade. Nós tinhamos quatorze, quinze anos e A. já tinha um farto bigode que o afamava junto das raparigas. E então o A. vinha na minha direcção, o resultado estava tangencialmente a nosso favor e eu meto o pé para ir à bola e sai sarrafo, sarrafo do grande, monumental, cartão vermelho directo, projectando o A., mais a sua calça Levys, o seu sapato italiano e a sua camisa azul, pelo relvado miserável daquilo a que chamámos campo. Ainda estou a ver o rasgão transversal no joelho a sangrar e a cara do A., que subitamente tinha perdido toda a bonomia e candura que era apanágio dele. Não havia árbitro. Havia olhos. Mais de vinte apontados a mim com ar de reprovação. Ía haver molho, pensaram. Eu ainda não era não-violento mas não gostava de andar à porrada quando não tinha grandes probalidades de ganhar. Tive uma saída que condicionou toda a minha adolescência: atirei-me para o chão, gritando ai, ai, ai e agarrando-me à perna. Representação magistral. O A. desfez a dureza da cara, os olhares de reprovação tornaram-se de apoio, carinho, nem foi penalty nem nada, o pessoal esqueceu-se.
Esqueceu-se o tanas, ai berrei, Ai fiquei por largos anos.
Por falar em Bola, e por falar em Olivais, os melhores retratos do bairro, do fenómeno, aqui, na memória inventada pelo Ivan.
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E figura central da minha peça "É para os putos que não querem comer a sopa", cujo título era um pregão do famoso vendedor de rebuçados e esticolicas que atravessava o bairro e que chegou a fazer de compére numa revista do Parque Mayer.

1 comentário:

Bil disse...

Bigó! É o nome pelo qual era conhecido o condutor de árvores dos Olivais!