sábado, setembro 30, 2006

Será arte?

Ouço Calcanhoto. Ouço-a e vejo-a. Apaixono-me mil vezes por aquela presença, por aquela luz, por aquela história que ela conta enquanto promete devorar Caetano, a linguagem, o perfume da casa. E penso em ser artista. Por um breve momento penso em ser um verdadeiro artista. Não a escrever estas misérias que aqui deixo. Mas a arriscar, a sair da minha casa, dos que convencionei como queridos, a fazer uma trouxa e um farnel, e a cantar por aí. A pedir ao Pedro que me ensine a cantar, nem que seja um samba de uma nota só. Ele acredita que o pai canta bem. Ou então ainda não consegue conviver com a ideia de que o pai é, quanto às cantorias, como aquele bardo do Astérix. Um artista que não cante, para mim não é um verdadeiro artista. A música é das mais sublimes invenções da nossa humanidade. Podemos desesperar de tudo um pouco. A vida, o custo dela, a morte, o seu preço. Mas quando chegamos à música, seja um tantra, um forró, uma valsa, seja um sonetinho de Vinicius, o espirito desmancha-se, reconforta-se, reconquista-se. Poderia não ser assim, mas é. Todas as noites saio de casa à procura de música, do som, do embalar doce dos sentidos. E todas as noites volto com a sensação de que não foi em vão e de que amanhã hei-de roubar mais uma hora de sono para escutar este ziguezaguear malandrino pela ronda dos sons, da melodia, da harmonia. Deuz zangou-se comigo quando não me deu a confiança necessária para me desfazer em som. Ensurdeceu-me.

6 comentários:

M em Campanhã disse...

deus já te deu o dom da palavra escrita, Joaquim, não sejas queixinhas:)

Diogo Ribeiro disse...

E eu todas as manhãs fico com a sensação de que tudo o que escrevi no dia anterior sempre será inferior a tudo o que alguma vez já foi escrito, inclusive ao que tu escreves.

Concordo, não sejas queixinhas :)


Abraço, bom (resto de) fim de semana.

Luis disse...

Joaquim a Calcanhoto é uma fraude. Vi como ela enganava ao vivo as crianças. Uma pessoa com dons que se tornara numa comerciante de canções.Além disso declarou, para os pais e mães das crianças , que não gostava de gatos. Só de gatas. Não era preciso.
Não deves deixar a tua casa.

M em Campanhã disse...
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M em Campanhã disse...

Luís, como pode haver fraude num som que nos leva como a Calcanhoto às vezes nos leva? em palavras como senhas ("eu não gosto do bom gosto / eu não gosto do bom senso")? não pode. são as tuas expectativas que te defraudam. podíamos falar de Saramago, apesar dos seus livros, e de pessoas fantásticas apesar de não escreverem nem cantarem nada de jeito.

no baile da D. Ester disse...

E o que é que interessa desafinar na música, se tantas vezes desafinamos na vida?

Tu não és desafinado, tens uma leitura da música toda tua. Em escalas desconhecidas, é certo, mas quando cantas todos te querem ouvir num espanto de cores novas e inidentificáveis.