segunda-feira, janeiro 22, 2007

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Ele dorme. Aquele gesto clássico de fechar o livro, apagar a luz, aconchegar-lhe a coberta ao pescoço e dar-lhe um beijo como se naquele momento nada mais do que ternura fizesse este nosso mundo. É por causa dele que tanta polémica anda por aí. É por causa da distribuição de afecto terno e paternal no mundo que anda tudo doido lá por fora. Eu fico-me por aqui. Por este silêncio. Ele dorme. Daqui a nada serei eu. Vou levá-lo ao colégio. Desde que tem um colégio novo é a segunda vez que o faço e a última já foi bem há mais de dois anos. O que atrasou o meu já costumeiro efeito de jet lag. Já arrumei a casa, já preparei o almoço para amanhã, bebi chá, ouvi novamente esse silêncio interior que me comove sempre quando lhe toco, nem que seja ao de leve, amo a vida, vou trair todas as minhas tristezas e depressões mas deixo escapar esse som traquinas, lírico, apaixonado, amo a vida desde que me lembro, antes de dormir vou apagar um blogue aí da lista, era um blogue precioso, pediram-me, para que descanse em paz, como se fosse um tamagoshi escrevi um dia, como se fosse um tamagoshi morreu, dizem-me, vou enterrá-lo com a delicadeza que devemos às coisas doces e delicadas, agora escrevo duas ou três palavras, por vício, por devoção, por encantamento e vou, amanhã estarei por aqui de novo. Uma noite descansada, meus amigos.

1 comentário:

a. disse...

Ontem, acabada de chegar de uma longa viagem, sem tempo sequer de passar por casa e ainda sob o efeito do jet lag, fui à cremação de um amigo q fazia anos no mesmo dia em que faço. Era um homem raro, inteligente e sensível, a quem a vida nem sempre tratou bem e pª quem só a morte terá podido trazer paz após tanto sofrimento. Como tudo acaba um dia, a dignidade devêmo-la ao acabar do que gostámos. E porque lê-lo agora já me fez chorar, é em paz que lhe digo: obrigada.