quarta-feira, janeiro 17, 2007

Ainda o editorial do Público. Releio-o com mais atenção. Tinha saltado rapidamente para a notícia, tentando ver as coisas de outra forma que não o modo inflamado, ridiculo e desinformado do editorial. Releio o final. Escreve Nuno Pacheco:
"O tribunal pensou na biologia, no sangue, num pai legítimo. Não lhe passou sequer pela cabeça que o pai só foi legitimado, não por desejo ou acção própria, (um filho não se faz apenas, deseja-se, batalha-se por ele) mas sim porque aceitou submeter-se (e a palavra aqui devia ser sublinhada, pelo terrível peso que encerra) a um teste de paternidade. Mas será que um teste sanguíneo transforma um desertor em pai? E, será que o tribunal pode, do alto da sua cega cátedra, transformar um pai (que não desertou) em criminoso? Não pode. Nem deve. Por isso a acção foi contestada. Por isso há quem se mova para obter para esse militar (que escolheu a dificil guerra, ainda não perdida, de lutar por uma família que não quer ser desfeita) um habeas corpus que o livre da injusta pena a que foi sentenciado."
Tudo isto é, para quem lê a notícia, terrivelmente suspeito. É certo que Nuno Pacheco no início do editorial já tinha demonstrado uma possível estranha proximidade a este caso ao escrever que "no próximo dia 12 de Fevereiro, pelas 11h17, uma menina completará quatro anos de idade" (o sublinhado é meu).
Terrivelmente suspeito: parece que Nuno Pacheco não leu a notícia do seu próprio jornal. E no entanto pela forma como acaba o seu texto, e o destaque que dá à acção de cidadãos, introduz a suspeita de que o modo como este grupo de cidadãos foi noticiado (transformando um grupo que pondera pedir habeas corpus num grupo que pede habeas corpus) pode ter a ver com a proximidade de um dos seus directores-adjuntos ao caso. Para além das metáforas castrenses, da deserção e do não desertar, como é que um homem que "no decurso do processo para oficializar a adopção foi identificado como pai biológico" e que "ao ter a certeza da paternidade da menina (então com vinte meses) a perfilhou e requereu o exercício do poder paternal", e que, segundo o tribunal, "há quatro anos enfrenta uma luta insana para ver um filho", pode ser considerado para além de um desertor e de um pai que só foi legitimado por ter feito um teste de paternidade, um homem que nunca desejou a filha e que nunca fez nada para a reaver?"
Actualização:
Depois das actualizações feitas, é óbvio que os adjectivos de inflamado e desinformado, com que caracterizei o editorial de ontem do Público, bem se poderiam também aplicar a estes dois posts que escrevi sobre o assunto. E quanto ao outro, sem dúvida que todos os posts inflamados e desinformados são tendencialmente ridiculos.

3 comentários:

princesa das estrelas disse...

Caro JPN, confesso que antes de ler o que escreveste tinha uma ideia muito clara do que achava de toda esta situação. Depois de te ler (agradeço a tua rasoabilidade e imparcialidade) fiquei com muitas dúvidas. Vou reflectir seriamente sobre o que li e aqui te deixarei, mais tarde, um outro comentário. Permite-me, no entanto, que te diga que, mesmo no meio de tantas dúvidas, continuo a achar que quem decidiu pode não ter tido como objectivo o bem estar da criança. A verdade é que, para ela, os seus pais são aqueles que a acolheram aos 3 meses. Pelo que li, o pai foi contactado pela mãe, que entrou em contacto com a família para lhes falar da criança e que o pai se terá recusado a falar com ela e a assumir que a criança pudesse ser sua. Tens razão quando dizes que há muita coisa por esclarecer.
vou ler e pensar e depois te direi.
Obrigada por esta tua visão da realidade

E-clair disse...

Gostávamos de saber do paradeiro dos factos mais ou menos objectivos...

JPN disse...

Quanto à razoabilidade, tentei de facto ser razoável face à informação de que dispunha. Mas não te fies tanto na minha imparcialidade. E muito menos na emotividade com que reajo às coisas que me tocam. Logo a seguir a ter escrito, percebi, em conversa com uma amiga, que o assunto tinha sido tema televisivo com debate e tudo. Ou seja, implicitamente eu critico no eu post o facto do Público ter feito chamada de primeira página e de ter dedicado tanto espaço ao assunto. Ora parece que, independentemente da forma como o tratou, o assunto tinha assim tido uma relevância nacional que me tinha passado ao lado e portanto essa minha critica sobre o destaque dado não terá muita razão de ser. Sobre o resto também percebi que me falta muita informação e por isso, enquanto tu vais pensar melhor sobre o assunto eu também irei procurar mais informação. Quem sabe nos encontramos a meio caminho, rsrs. E não sei em nome de quem foram tomadas as decisões do tribunal. Aproximo-me do caso por um processo empático que deveria ter aprendido da minha antiga experiência cristã mas que só vi ser confirmado como metodologia de vida pela minha aventura por terras do drama e do teatro: o colocar-me no lugar do outro. Ora, com a informação de que disponho agora, se eu estivesse no lugar do candidato a pai, eu iria sentir que seria uma tremenda injustiça da vida este afeiçoar-me a uma criança, projectá-la como minha filha e depois descobrir que havia outra pessoa que tinha um direito maior que eu a fazer o mesmo trabalho que eu tinha feito. Iria sofrer muito. Iria sofrer muito pensando quer na possibilidade da criança não ser feliz sem mim quer na eventualidade dela conseguir ser feliz sem mim, e não sei o que me doeria mais. Não seria capaz no entanto de em algum momento, por mais crença que tivesse nas minhas capacidades de progenitor, e a menos que tivesse a evidência de uma ameaça concreta sobre o bem estar da criança em causa, de pensar que a felicidade da criança poderia estar no privá-la do contacto com aquele que é o seu pai. E aprenderia para a próxima, a nunca ficar com uma criança sem tentar saber previamente se o verdadeiro progenitor sabia disso. E tentaria fazer prevalecer o meu afecto através de uma relação com o pai. Isto é pondo-me no lugar do candidato a pai. Porque no lugar do pai biológico tudo isto me parecia terrivel. O momento de evidência paternal em que alguém resolve perfilhar uma filha que desconhece, transformar-se-ía num suplício terrivel quando confrontado com a impossibilidade de organizar a sua vida face a essa revelação. O que estes candidatos adoptivos terão feito parece-me do domínio do macabro: primeiro acordaram-no da sua realidade e disseram-lhe és pai, depois retiram-lhe a filha para que ele sofra a sua ausência, a sua perda, como um pai.