quarta-feira, janeiro 03, 2007

As horas

Primeiro filme do ano. Desde o começo, com Virginia Woolf (Nicole Kidman) a entrar dentro do rio, que a articulação entre os três planos narrativos tem um efeito curioso, tanto se apaga, pela forma natural como é feita, uma voz que vem do plano anterior e que continua agora o seu caminho, numa outra dimensão, tanto se reforça, através de raccords de movimentos e gestos que nos colocam sempre na consciência da artificialidade do enredo e da ficção. Os ambientes de cada época, e esse engenho de se colocar o plano da recriação do livro na actualidade, como se fosse assim, uma história sempre reactualizada ao tempo de quem a vê narrada, a relação entre a leitora e o livro, o poeta laureado pela sida e pela mundanice que se torna, quase no final, na criança atormentada por uma mãe confusa entre o seu desejo de viver dentro de um livro e a incapacidade de viver fora dele. Um filme onde tudo parece triste, melancólico, mas ao mesmo tempo feliz, porque dele emergem actos de vontade e de vida, mesmo quando se entra pelo rio adentro, ou quando nos atiramos de uma janela ou quando vamos enfiar a nossa vida numa biblioteca de Ontário. Tentarei não me esquecer tanto disso este ano: procurar abrigo, protecção, asilo existencial junto de uma obra de arte autêntica.

4 comentários:

E-clair disse...

A mãe e o "room of one's own" elevados à potência trágica...

Elisa disse...

Gosto desse filme. Mas sobretudo do livro 'As Horas' do M. Cunnigham. Vi o filme em Marçod e 2003... exactamente a seguir ao que tu sabes que (me?) aconteceu. O livro já o tinha lido muito antes.

Anónimo disse...

Foda-se!
Desculpa a falta de jeito (refiro-me à linguagem).
Até estou trémula com o que acabo de ler. Reconhecimento, identificação?
Acabei o ano com a convicção:
-Há que compreender a vida, aceitá-la e pô-la de lado(..)
Há muito que acompanho o que escreves. Sinto que pertences, aos que lhes é insustentável a leveza.

Anónimo disse...

Foda-se!
Desculpa a falta de jeito (refiro-me à linguagem).
Até estou trémula com o que acabo de ler. Reconhecimento, identificação?
Acabei o ano com a convicção:
-Há que compreender a vida, aceitá-la e pô-la de lado(..)
Há muito que acompanho o que escreves. Sinto que pertences, aos que lhes é insustentável a leveza