terça-feira, janeiro 02, 2007

O meu avô


Francisco António Figueira, meu avô, que era um homem piedoso e bom, tinha a letra miudinha e impecavelmente justa de comerciante meticuloso. À grafia dos homens e das fêmeas juntei eu outra, a dos comerciantes. Porque é que escreves assim, vô?, é para as pessoas confiarem em mim, respondia ele. Começou cedo no meu mundo a aprendizagem de que a triversidade do mundo não se esgotava no género masculino e no feminino. Sendo que estes entendia-os como uma (im) posição com que a Natureza escrutinava os vivos. Havia também o género ausente, o género que, na ausência de género, está no principio deste mundo da representação. Não é uma escrita oblíqua e tortuosa como um esconderijo dos homens feridos, não é uma escrita aberta e elegante e dócil como a das fêmeas. É uma escrita que se escreve assim ou assado para que tu confies nela. E confiavam. Vá-se hoje ver os livros de capa negra, com um traço a azul e a vermelho, o deve e o haver, o razão, da Congregação do Bom Senhor da Piedade, na Igreja de Elvas, e lá deve estar o traço fino e apurado com que Francisco António Figueira encomendava a confiança do mundo. Era um comerciante respeitado e respeitador e eu gostava de passear com ele pelas ruas de Elvas. Garboso, alto, magro, cuidadoso e meticuloso na roupa, no aprumo, no modo como segurava o chapéu, como levava a mão à testa enxugando a testa do suor, a canícula em Elvas é um tormento, homem de poucas falas, mas com os verbos certos. Costumo dizer de um homem, de uma mulher, excepto de um canídeo, que o vejo bom e confiável quando vislumbro nele a sua infância. É uma mania que tenho, a de descascar a pele a um gentio prescrutando na epiderme visível o infante, devo assumi-lo. Abri apenas em toda a minha vida uma excepção. E foi, justamente, para o meu avô, Francisco António Figueira. Nele, o que mais se impunha era a sua juventude de aprendiz de armazém, de rapaz sem estudos, que foi progredindo por si mesmo, que tomou em mãos a loja onde trabalhou como fiel a mando de outrém, imagino-o sempre com aquela bata de fazenda, sempre meia suja meia limpa, mas nunca nem vergonhosa nem calaceira, imagino-o sempre com os seus sapatos martirizados pelos joanetes, em toda a minha vida nunca vi ninguém a usar joanetes como ele, pensava até que era uma coisa especialmente inventada para o meu avô, imagino-o a abrir a loja, entravamos pela rua das Arcadas, e a loja abria-se na Rua do Arco da Cadeia, um dia falarei desta loja, dos cheiros, das cores, dos recantos, dos dias, das horas que ali passei, dos caramelos espanhóis, não falarei dos sugos, dos sugos de hortelã pimenta não falarei. Francisco António Figueira era um homem raro. A cabeleira alva, fina e delicada, lavada com vinagre. O meu avô tinha as mãos compridas e ágeis com pequenos nódulos nos artelhos, nunca vi ninguém a manejar tão bem o rolo de fio branco de atar maços, ora aqui está uma prática desaparecente, em algumas pastelarias ainda há quem o saiba fazer, era uma arte. O licor Figueirinha, os paios de elvas, os figos, as ameixas, as receitas por todos cobiçadas. Como eu gostava de ir pela sua sombra, o Sr. Figueira. Comecei este texto pelo avesso da sua conclusão, na minha cabeça o texto que se impôs era: O terceiro género era o dos contabilistas e comerciantes. Escreviam para confiar neles e nada há de menos confiável que um merceeiro, do que um contabilista, do que um comerciante. Emendo a mão, a mesma mão que segurava os seus dedos nodosos, o seu olhar suave mas tão firme. Tão firme. Nunca que me lembre lhe disse não. Talvez lhe tenha dito, mas não me lembro e isso diz tudo, também sobre a memória, como nos lembramos ou olvidamos, mas essencialmente daquele homem sempre vestido de três peças, sapato preto, mãos carinhosas e afectuosas. Ás vezes encontro em mim um afecto que não sei de onde vem, que me parece estranho, excessivo, feito de canícula e regard. É um afecto que me vem do Sul, que me leva para o Sul, lá, quem ama o longe perto lhe parece, é uma afecto que me trespassa aquela mão, esqueci-me de muitos dos nomes, recordo apenas o olhar de respeito e afecto por aquele homem alto, garboso, de cabelos alvos e tão macios, perfumados a vinagre e sabão azul e branco. Como eu gostava de ir pela sua sombra, penso, enquanto emendo a conclusão do texto: O terceiro género é o dos contabilistas, merceeeiros e comerciantes. Escrevem para confiar neles e se não tivesse havido aquela mão e dentro dela o meu avô, eu nunca teria percebido a diferença -aquela diferença que anos mais tarde me permitiu subir a um palco e regressar sem me tresloucar - entre acreditar e confiar.
[A recuperação de uma fotografia antiga criou a ocasião para voltar a este post. já publicado, aqui, escrito na sequência dest'outro. ]

5 comentários:

Ze de Mello disse...

Caro colega bloguista,

ao efectuar a habitual pesquisa na net encontrei este seu post.

Estamos neste momento a realizar um blogue com os Grandes Elvenses e seria para nós uma honra que nela consta-se o sr. seu avô.

Caso assim o entenda agradeço nos envie o texto e a foto e publica-la-emos.

Pode encontrar o blogue dos Grandes Elvenses atravez do blogue deste Velho Conselheiro.
Bem Haja!

Anónimo disse...

Gostei tanto de conhecer o teu avô pelas tuas palavras. Toma lá abraços. E os desejos de um 2007 sereno.
Luís G.

ed disse...

Magnífico.Abraço.

Rui Rebelo disse...

Um Abraço.

M em Campanhã disse...

já me vou habituando às coincidências das nossas infâncias: mãe profª primária, as secas no carro e agora um avô merceeiro - também tive um! ah, também nãi te conto dos sugus, não, não conto!