segunda-feira, janeiro 29, 2007

O argumento de Marcelo Rebelo de Sousa

Não sou grande especialista em Marcelo Rebelo de Sousa. E acho que o país que lhe compra, ouve e regurgita os palpites dominicais tratando-o por Professor Marcelo é pacóvio, provinciano e dado às artes do proxenetismo. Acontece que por motivos que não sei explicar, quando na vida começo a sentir falta de uma certa vitalidade positiva - não vou ser como a minha vizinha do prédio em frente que acha que tudo isto é falta de sexo- vou muitas vezes buscá-la a uma irritação profunda. E devo-o admitir, quando tudo me falta Marcelo irrita-me profundamente. Para além do mais o Respirar não é um meio de comunicação social e não obedece àquelas regras deontológicas dos mesmos, mas, caramba, eu tinha-o aqui citado a semana passada, queria ver o que é que o homem tinha a dizer sobre o caso de Torres Novas.
Tive por isso a oportunidade de ouvir o argumento de Marcelo Rebelo de Sousa. O que mais uma vez me fez pensar que é verdadeiramente escandaloso que a este homem lhe seja dado o espaço que lhe é conferido. Já falei nisso lá em cima e esgotei os meus insultos por post.
O argumento de Marcelo Rebelo de Sousa - que não é dele, começa por humildemente dizer, já Freitas do Amaral o tinha escrito- é o de que, nem às 10, nem às 12, nem às 24 nem nunca, uma mulher deve ir presa ou sequer a julgamento, sim ser acompanhada, psicologicamente, socialmente, financeiramente para que nunca mais volte a cometer tal acto, e que há condições para que isso aconteça no Portugal de hoje.
É preciso combater esta hipocrisia militante por mais que a campanha tenha o beneplácito do horário nobre da RTP. O que Marcelo Rebelo de Sousa está a dizer, inexiste. No Portugal de hoje, onde até os partidos políticos com legitimidade para fazerem aprovar uma lei que estanque de imediato a morte, a humilhação e o perigo anual com que se confrontam milhares de mulheres - leia-se a reportagem de hoje da Sónia Morais Santos no DN para gravarmos na nossa carne telepática, empática, a violência a que se submetem as nossas mulheres - foi diferida para um referendo, o que Marcelo Rebelo de Sousa disse não é possível de acontecer. Marcelo sabe-o. Enquanto apoiante do Não, Marcelo sabe-o bem demais.
A hipocrisia está no facto de que aquilo que ele disse deslegitimar a posição do Não, acolher os enunciados fundamentais do Sim, e, porque não é um incentivo ao voto abstencionista - no fundo o grande argumento é de que este referendo não serve para nada - fazer tender a votação para o Não, que além de tudo é a posição assumida pelo comentarista.

4 comentários:

vidinha disse...

Olá! Sou uma leitora assídua do seu blog. Gosto da forma como expõe as suas ideias e as articula com o mundo em volta. No entanto, desde que se aproxima o referendo tem-se tornado um pouco monótono. Contudo, acho bem que as pessoas defendam os seus ideais e você está a fazê-lo. Ok, mas não me parece que devamos levar as coisas a extremos e parece-me a mim, que as pessoas sabem que o voto é livre e que a escolha é delas. Afinal, ainda vivemos numa democracia, e não me parece que o Professor Marcelo possa alterar muito esse facto e é óbvio que o Sr. tmbém tem direito a ter opinião. Acho que se anda a fazer muito barulho num voto que devia ser de reflexão e de consciência interior. Devemos esclarecer e não achar que isto se tornou um campo de batalha.

JPN disse...

Olá, obrigado pelo teu comentário. Compreendo-te totalmente. Eu, assiduamente, sou mesmo um enfado. Até como blogger, quanto mais aí desse lado. Mas é como tu dizes, monotonias à parte temos de defender aquilo em que acreditamos. Só te digo, se achas este post de extremos, então com o que se lhe segue, vais achar que me passei.

[outra coisa, tentei deixar-te um comentário no teu post em que tens uma cantiga de um autor desconhecido mas não consegui e não vi nenhum email. a canção creio eu, é do Sérgio Godinho e a música do José Mário Branco.]

princesa das estrelas disse...

Pronto, e cá estás tu mais uma vez a escrever o que eu penso. que mania a tua. é realmete vergonhosa a posição de MRS e, pior ainda, a forma como lhe é permitido, num espaço que não é de tempo de antena, dizer o que diz. é triste, e pior, é só um exemplo do que se faz com a nossa informação. não te lembras do espaço que o Paulo Portas tinha também dentro de um telejornal e onde fazia opinião???

M em Campanhã disse...

és (talvez demasiado) generoso em ouvir esses trastes e em te debruçares sobre eles, desmontando as suas falácias. eu já não consigo.