quarta-feira, abril 25, 2007

Porque é que acabamos sempre sós?

À tardinha há quem desça o Chiado, ele, o Rogério, o Rogério de Carvalho, eu subia. Cruzámo-nos ali num abraço antes de chegar à Brasileira. Encostamo-nos à vidraça e ali nos plasmámos. Falo-lhe da fotografia que lhe tirei no 25 de Abril, ele encostado também assim a uma parede, no Rossio, num Rossio pejado de gente. - Já nos conhecíamos no 25 de Abril? -pergunta ele admirado, esclareço, neste, o de 2004. Ah, estava lá, pois foi, foi, foi Rogério, e tás no Trindade?, estou, sim, o que fazes?, vamos fazer obras lá, é pá vocês não vão mexer na sala, provoco-o, vamos claro, mas deixamos o lustre, o charme, a boca dele parece um peixe a soçobrar, vão mexer na sala!!!, claro, não temos outro sitio amplo para meter um elevador com vistas, vamos pôr um daqueles elevadores muita giros como há na Zara, sabes, imagina as pessoas a subirem para irem lá acima à mezzanine mordiscar os canapés, as santolas e poderem ver os destroços da coisa, da coisa? perguntas, sim, da sala, respondo, estou a ficar com pena de ti, ainda tenho de chamar o INEM, mas a maldade, a maldade, continuo, e lá em cima um restaurante panorâmico, coisa chique, entendes, é claro que a esta altura eu estou a dar o meu melhor para aguentar a peta, e a sala?, pergunta ele, como se nos escombros tivesse à procura de algo, a sala pra teatro acabou, ninguém quer mais saber de teatro, Rogério, só nós, e nós não precisamos de tanto espaço, um estudiozeco qualquer já nos consola, é um desperdício de dinheiro, ele encolhe os ombros, já nem sabe se por perder um teatro se por perder também um amigo há-de me confessar depois, e por nostalgia, pergunta de encenador, claro, e qual vai ser o espectáculo que vai encerrar a sala?, continuo nas alarvidades, vai ser um espectáculo escrito pelo Freitas com a Teresa Guilherme e com aquele gajo muita conhecido da TVI, e quem encena, o José Eduardo Moniz, e, é nesta altura que deixo de me conter, coitado do Rogério, rebolo-me de riso, ele aliviado também, pregaste-me cá um susto, lá mudamos nós a agulha, ele estava já com taquicardia, é pá, pregaste-me um valente susto, mas tu estavas a cair, este argumento do dinheiro dá para tudo, disse-me ele, pois dá, este argumento do dinheiro dá mesmo para tudo, mudamos de agulha, já está mais tranquilo, até me convida para ir ver o Cerejal, vou, estou com a ideia de que amanhã desço -ou subo?- a Coimbra, do teatro passamos para as nossas vidas, é mentira, nós nunca começamos a falar das nossas vidas expontaneamente, começamos por mulheres, as mulheres, estão cada vez mais bonitas neste começo de outono, uma babilónia no feminino nesta cidade cada vez mais saloia e cosmopolita, pois lá estou outra vez - ele lembra-me, há cinco anos, um pouco mais à frente, ali, ao Camões, estávamos a trabalhar na Fronteira, espectáculo com actores lusófonos, a conversa repetiu-se - agora ele também está, afinal a conversa não é sobre mulheres, é sobre o género, a solidão, eu queria era uma companheira, olho-o, abraço-o, e lá me sai a frase que dá o nome ao texto e que o faz obrigar-me a prometer-lhe escrever uma peça sobre isso, pois é, não se sabe, porque é que acabamos sempre sós?
[A foto foi tirada em 25 de Abril de 2004. O texto escrito em Novembro desse ano mas colocado em rascunho. Estava à procura de textos sobre o 25 de Abril para poder fazer um marcador próprio. E sei lá porquê, salvo este do esquecimento, do rascunho]

3 comentários:

Cristina GS disse...

Condição? Escolha? Cansaço? ...há-de haver muitas razões, tantas quantas as solidões. Aqui te deixo um cravo vermelho para ficares menos só. ;)

CCF disse...

Cerejal em Coimbra não sei. Mas em Góis,junto ao rio há um bem bonito. Tomei por lá muitos banhos e mais adiante pelos muitos acudes do Ceira.
~CC~

MIP disse...

Estava longe de encontrar por aqui o Rogério de Carvalho. Fiz com o RC o Sonho (Spielberg) com o TEUC e comecei a ensaiar o Platonov mas depois desentendi-me com a direcção do TEUC e vim-me embora. Lembro-me do Rogério de carvalho às voltas na Praça da República com o gravador na orelha a ouvir os nossos ensaios. O Rogério de Carvalho dizia q eu podia ser uma boa actriz mas eu não quis.

Manda-lhe um abraço meu.