segunda-feira, novembro 19, 2007

A morte é uma flôr

Vai fazer por estes dias um ano que ficaste por aquelas paisagens absurdas da Patagónia Chilena. Pensa nisso como uma traição se quiseres, nestes trezentos e cinquenta e seis dias tentei em vão esquecer-te.
Era assim na primeira pessoa que eu imaginei este texto. Que sabia obrigatório por mais silêncios que, agora, me povoem. A Celta escrevia neste blogue. E que acabo por escrever na terceira pessoa. Da forma mais seca que consigo. A Celta, a Zé, a Maria José Margarido, tal como a Cláudia, a Pedra, a Cláudia Magalhães, faziam parte da minha vida, da nossa vida mais prometedora. Fazer o luto delas foi das experiências mais dolorosas que já passei. E não posso dizer que o meu corpo de dor não tivesse tido já momentos de fortíssimo abalo. Já tinha enterrado um pai que amava profundamente. Que amava como quem se refresca junto de uma árvore que tem por - eternamente - frondosa e macia.
Olho para estes quase trezentos e sessenta e cinco dias, desde o momento em que a Intérprete e a mãe entraram no Pequeno Herói para me avisarem e, para juntos, irmos ter com a Quimera, e depois com esta para sabermos da Origami e do Miguel (como se de repente nos déssemos conta da pequena família que éramos) e vejo-a varrida por um vendaval. Tantas vezes cheguei a temer enlouquecer que não sei ao certo se enlouqueci, se o lugar de onde vos escrevo não é já a mais refinada loucura. Que importa isso? A razão, o lugar da razão, e muito menos dessa razão normativa e prudente, não diz nada sobre o corpo de dor e esse é que é o traço que nos distingue. Uma tempestade tão forte por dentro do território da perda e da reconquista da minha identidade que quando, há dois meses, um amigo de há vinte e três anos ininterruptos - e que eu sempre julguei, para minha felicidade, que envelheceríamos juntos - se atirou de uma janela de um quinto andar eu só tive discernimento para, sorrindo, lhe dizer, já ele se estatelava em profundo voo kamikaze, ah, flamingo!
Não tenho lágrimas para ti, Celta...
Há uma morte no mundo mas infelizmente essa não ocorre quando morremos.
É quando vivemos. É quando vivemos que a nossa morte ocorre. É quando e da forma que vivemos que morre ou vive o nosso fenecimento. Uma morte que em dias da minha vida já levou o meu pai, o meu amigo Pedro, a Zé, a Cláudia, pode-me levar a mim também que eu não esbracejarei. Talvez a tente fintar como a Tia Míséria fez com as nozes (naquele espectáculo do Bando, Nós de um Segredo), gostaria de ficar o maior tempo que me for possível junto daqueles que amo, daqueles que me amam, mas sei que agora se, ao ver-me morrer, esbracejasse, morria duas vezes. E da segunda vez seria de inutilidade que morreria. Sou uma parte do mundo onde vivo, não mais do que isso. Uma molécula. Um pedaço de chama acesa. Energia. O nome que me deram, a familia que, como uma história, me entregaram, a pátria a que me confinaram, são apenas os pormenores.
E os pormenores são como os penduricalhos. Os que morreram, os meus mortos, acordam-me todos os dias pela madrugada e sussurram-me, incitam-me a ser combustão lenta, a querer a vida, a querer dançar e cantar. Não falo apenas por dentro do contentamento. Poderia nunca ter encontrado ninguém com quem verdadeiramente dançar e cantar e diria a mesma coisa: há apenas dançar e cantar.
Ou, se o preferirem com outras palavras, há um fogo aberto no centro do mundo. Rendo-me à minha condição de partícula. Aqueles que amam a linguagem mais do que o ardor da pele em combustão, dizem que é o amor, ou que é deus. Outros há que não dizem nada. Ardem, silenciosamente. Amor, deus, silêncio. De tudo, e de nada disso, será feito o fogo que arde a Terra.
Não tenho lágrimas para ti, Celta. Apenas flores, muitas flores.
Ler também: A mestre sala
Fez um ano está na hora

15 comentários:

cangelo disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
cangelo disse...

como sempre, deixas-me sem palavras... um abraço, pá

(tanto sem palavras que até esrevi com gralhas...)

CristinaGS disse...

Enfim, voltaste! Já começava a sentir a falta. Bjs e até 3ª, não é?

JPN disse...

não é bem um regresso, mas um pedido de desconto de tempo para homenagear uma amiga. e sim, claro, até 3ª. Bjs

Alba disse...

Para mim, este é um post de uma religiosidade profundíssima. Aqui está tudo o que somos, tudo o que nos são e foram.

rui mota disse...

Não é verdade que os "cemitérios estão cheios de insubstituíveis". Há pessoas insubstituíveis. Pelo menos, para nós.

JPN disse...

rui, um abraço. ainda há dias perguntei por ti ao hm. há de facto pessoas insubstituíveis para cada um de nós. por email segue o resto do convite...

:)


(embora, e isto nada tem a ver com o que tu dizes, é mais uma precisão, me pareça que o poema do brecht de onde sai essa frase fale de indispensáveis).

rui mota disse...

É, de facto, do Brecht o poema dos "indispensáveis": aqueles que estão a tempo inteiro nas coisas. Os "insubstituíveis", têm mais a ver com cemitérios. Mas, se queres a minha opinião, são ambos indispensáveis, porque não podemos substituí-los. E isso é que dói.

Ana disse...

É quando escreves assim, que todas as outras palavras se tornam inúteis.
Por favor, não deixes de respirar o mesmo ar.

nana disse...

um abraço tão, tão apertado joaquim....

por tudo o que dói em ti.
aquilo de que não - desculpa, principezinho, mas não -, a gente não se consola.


...



faz de conta que te sou mais próxima, e que te posso abraçar durante muito, muito tempo, sim?...
e forte.


...



@-,-'-

Luis disse...

Por isso, pela Celta, por tudo, é que tu és insubstituível

disse...

JPN,

Também eu como tu senti de forma irreparável a perda do meu pai. Sei que desde aí a minha vida deixou de ser a de sempre para passar a ser outra, a minha vida sem ele. Também eu como tu, depois da perda do meu pai, voltei a perder um grande amigo, por uma, por duas vezes. E mais uma vez a minha vida voltou a não mais ser a mesma. A vida que nos vai restando vai ficando esvaziada deles, não das suas memórias, mas das suas presenças, como se só agora percebessemos que sem um convite para jantar, um conselho, uma gargalhada, um simples silêncio, nos arriscamos mais a peregrinar dentro de nós, sem sentido e direcção. Sabes o que mais sinto? quando algo de bom me acontece, qaundo algo de bom eu faço, não me sabe tão bem o orgulho que sinto sem lhes poder dizer isso mesmo. No fundo sentir a perda deles é este mero acto de egoísmo, esse de sabermos que aquilo que somos já não nos sabe tão bem nem tão grande.

Não sei escrever nada disto, deste tudo que isso tanto significa. Assim como o fazes. Mas isso trata-se de uma minha vantagem, pois posso ler-te e dizer apenas que te compreendo, que comigo também é assim, e que, no meio de tanta ausência, como se de dois moinhos solitários nos entre-avistássemos, é bom ver-te lá ao fundo, na distancia da mágoa, que assim partilhada parece mais curta.
Aquele abraço

JPN disse...

um grande abraço, Zé. rectificando: uma vez disse-te que gostava muito de te ler porque tinhas o dom do sincretismo. e tu respondeste a gozar que todos te acusavam do contrário, de seres extensivo. talvez. o que eu queria dizer é que por vezes é tão intenso o que escreves que surpreende e me comove.

Pequenas Coisas disse...

a insubstituível Maga. que saudades...
um abraço para quem, também, partilha esta grande perda.

mr disse...

Justíssimo, o que diz Luís.
Insubstituível.
Um abraço muito forte.