Há dois anos eu não era este. Era outro, mais feliz porque vocês estavam aqui, porque da Rua do Terreirinho ou da Rua da Graça à esplanada era um pulinho, e porque eu gostava de vos abraçar, de rir convosco. Gostava até das parvoíces que dizíamos juntos. O aboborar diante de uma green com a cidade toda nossa, ali escorrendo-se até ao rio. Era outro mas também, menos quim. Menos sofrimento, menos desespero, menos tristeza e menos, muito menos amor. É no amor e não na felicidade, que eu sou/serei o quim. Tenho a certeza. O meu ódio, a minha raiva, a minha angústia não o consegue esconder das minhas percepções mais profundas. Não é de hoje, nem de ontem, já o sabia até quando estavam comigo, embora só o saiba agora desta forma irrecusável : a minha felicidade não é senão uma ficção que o meu ódio, a minha raiva e o meu medo forjaram para não me deixar ver a luminosidade do verdadeiro quim. Só serei verdadeiramente o quim quando todo eu for amor, dádiva, entrega, compreensão, empatia. Entre a traição à vossa amizade e a traição ao eu - mesmo sabendo que pode bem vir a ser uma batalha perdida porque o trairei mais à frente de um outro modo, num outro tempo e lugar - escolho a primeira. Imagino que lá no lugar onde estão, e reparem, eu inventei uma eternidade apenas para vos poder reeinventar, todas estas coisas são luz que sangra, escuridão que deixa ver. Havemos de brindar a isso um dia quando os cães me vierem buscar a mim também.
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terça-feira, novembro 25, 2008
quinta-feira, julho 24, 2008
Conversa (ainda) de olhos fechados
Ainda não é dia. Já não é noite. Sabemos que vem aí um novo levantar. Um novo fincar os pés no chão. Um novo não perceber, ir percebendo, até que, exaustos, ao cair da noite, os corpos rebentam do excesso de compreensão, de amor, de sexo. Serão sempre assim as nossas vidas. Por isso aquela ronha matinal. O falar dos sonhos.
- Tive dois sonhos estranhíssimos.
É sempre assim. Para uma coisa a sério, uma brincadeira. Não consigo evitar.
- Estranhíssimos.
Ela levanta a protecção dos olhos. Sinto-o. Olha para mim e vê que estou de olhos fechados. Fecha também os dela. Sinto-o. Conto-lhe o primeiro sonho. Adiante. É uma intimidade de casal. É uma peta para que o dia acorde a sorrir.
- E o outro sonho?
- Sonhei que ía num carro com o Luís a conduzir, eu ía ao lado, atrás ía a Cláudia, a Anabela e o Telmo. A certa altura a Cláudia, que estava no banco atrás de mim, dá-me a mão, faz-me uma festa na cabeça, eu agarro a mão dela, começo a chorar, depois o Luís desata a chorar também, um choro forte, nunca tinha visto um homem a chorar assim, a Anabela também, a certa altura a Elena passa num carocha ao nosso lado, está com um penteado parisiense, meio basco mas enfim, parisiense, olha-nos, percebe porque é que estamos a chorar, sorri, acelera, e de repente o nosso choro transforma-se em riso, um riso franco, o riso do Luís continua a ser o mais forte, o mais bonito, e depois olho para ele, olho para trás, e já só estava o Telmo e a Anabela, a Cláudia tinha desaparecido.
- É curioso....
- O quê?
- Eu também sonhei contigo e que a certa altura tu estavas a chorar abraçado a uma pessoa. E que depois saía de ti uma grande calma, uma espécie de luz.
Abro os olhos. A luz que entra no quarto dá-lhe uma paz imensa. Não sei que horas são, estou-me ralando.
- Quando dormimos com uma pessoa às vezes entramos dentro dos seus sonhos.- disse-me.
quinta-feira, junho 05, 2008
Homenagem à Cláudia, à vida e à Poesia
Agora apetece-me festejar. E como este blogue faz anos em Junho excelente altura para lançar esta iniciativa, o Viva a Poesia!, dedicada, como não poderia deixar de ser, à Cláudia Pedra, à Cláudia Magalhães, à Cláudia, para sempre. Todas as semanas, na coluna direita, um novo poema. No começo, vozes conhecidas na arte da declamação. Depois, se as técnicas derem para tanto, gostava de associar alguns dos amigos que partilharam com a Cláudia os seus envios quase diários de poemas: vou-lhes pedir que declamem alguns dos poemas que ela nos enviou (gravaremos em audio ou vídeo). O primeiro declamador será Mário Viegas e o poeta, Manuel Alegre.
terça-feira, janeiro 15, 2008
segunda-feira, novembro 19, 2007
A morte é uma flôr
Vai fazer por estes dias um ano que ficaste por aquelas paisagens absurdas da Patagónia Chilena. Pensa nisso como uma traição se quiseres, nestes trezentos e cinquenta e seis dias tentei em vão esquecer-te.
Era assim na primeira pessoa que eu imaginei este texto. Que sabia obrigatório por mais silêncios que, agora, me povoem. A Celta escrevia neste blogue. E que acabo por escrever na terceira pessoa. Da forma mais seca que consigo. A Celta, a Zé, a Maria José Margarido, tal como a Cláudia, a Pedra, a Cláudia Magalhães, faziam parte da minha vida, da nossa vida mais prometedora. Fazer o luto delas foi das experiências mais dolorosas que já passei. E não posso dizer que o meu corpo de dor não tivesse tido já momentos de fortíssimo abalo. Já tinha enterrado um pai que amava profundamente. Que amava como quem se refresca junto de uma árvore que tem por - eternamente - frondosa e macia.
Olho para estes quase trezentos e sessenta e cinco dias, desde o momento em que a Intérprete e a mãe entraram no Pequeno Herói para me avisarem e, para juntos, irmos ter com a Quimera, e depois com esta para sabermos da Origami e do Miguel (como se de repente nos déssemos conta da pequena família que éramos) e vejo-a varrida por um vendaval. Tantas vezes cheguei a temer enlouquecer que não sei ao certo se enlouqueci, se o lugar de onde vos escrevo não é já a mais refinada loucura. Que importa isso? A razão, o lugar da razão, e muito menos dessa razão normativa e prudente, não diz nada sobre o corpo de dor e esse é que é o traço que nos distingue. Uma tempestade tão forte por dentro do território da perda e da reconquista da minha identidade que quando, há dois meses, um amigo de há vinte e três anos ininterruptos - e que eu sempre julguei, para minha felicidade, que envelheceríamos juntos - se atirou de uma janela de um quinto andar eu só tive discernimento para, sorrindo, lhe dizer, já ele se estatelava em profundo voo kamikaze, ah, flamingo!
Não tenho lágrimas para ti, Celta...
Há uma morte no mundo mas infelizmente essa não ocorre quando morremos. É quando vivemos. É quando vivemos que a nossa morte ocorre. É quando e da forma que vivemos que morre ou vive o nosso fenecimento. Uma morte que em dias da minha vida já levou o meu pai, o meu amigo Pedro, a Zé, a Cláudia, pode-me levar a mim também que eu não esbracejarei. Talvez a tente fintar como a Tia Míséria fez com as nozes (naquele espectáculo do Bando, Nós de um Segredo), gostaria de ficar o maior tempo que me for possível junto daqueles que amo, daqueles que me amam, mas sei que agora se, ao ver-me morrer, esbracejasse, morria duas vezes. E da segunda vez seria de inutilidade que morreria. Sou uma parte do mundo onde vivo, não mais do que isso. Uma molécula. Um pedaço de chama acesa. Energia. O nome que me deram, a familia que, como uma história, me entregaram, a pátria a que me confinaram, são apenas os pormenores.
E os pormenores são como os penduricalhos. Os que morreram, os meus mortos, acordam-me todos os dias pela madrugada e sussurram-me, incitam-me a ser combustão lenta, a querer a vida, a querer dançar e cantar. Não falo apenas por dentro do contentamento. Poderia nunca ter encontrado ninguém com quem verdadeiramente dançar e cantar e diria a mesma coisa: há apenas dançar e cantar.
Ou, se o preferirem com outras palavras, há um fogo aberto no centro do mundo. Rendo-me à minha condição de partícula. Aqueles que amam a linguagem mais do que o ardor da pele em combustão, dizem que é o amor, ou que é deus. Outros há que não dizem nada. Ardem, silenciosamente. Amor, deus, silêncio. De tudo, e de nada disso, será feito o fogo que arde a Terra.
Não tenho lágrimas para ti, Celta. Apenas flores, muitas flores.
Ler também:
A mestre sala
Fez um ano está na hora
quarta-feira, outubro 17, 2007
Que Esperar de Nós? *
"Imaginemos jovens de dezoito, dezanove, vinte anos, a entrarem todos os dias pela porta de um hospital para iniciarem o seu percurso de formação como enfermeiros. A aprenderem de cor a cartografia do corpo, o de fora e o de dentro, os seus acidentes, o relevo, os seus rios, as suas rugas, crispações. Trata-se de uma ciência em que o exacto se conjuga com o inexacto, o aproximado. Durante quatro anos é aqui - nesta matéria acidentada e irregular que é a pessoa - que os iremos encontrar. E um dia surpreendemo-nos porque percebemos que o mais difícil que lhes é pedido não é o conhecimento nem a técnica: é que sobrevivam à morte que ronda cada corpo, cada presença, cada um de nós. Lembro-me bem do momento especial em que me dei conta disso. E também me recordo que foi aí que começou este espectáculo.
Quando o propus sabia que eles não iam recusar este desafio. Embora da nossa relação com a morte faça parte este jogo de esconde-esconde, quase infantil, de socialmente metermos a cabeça debaixo da terra à espera que ela passe, este grupo com quem venho trabalhando sem interrupções desde o final de 2003, é um grupo-coragem. Nenhum de nós sabia no entanto em que se iria transformar esta viagem e não é uma metáfora, este espectáculo constituiu-se como uma peregrinação aos nossos lugares, às nossas histórias.
A ideia era criarmos o espectáculo a partir de todos os materiais que encontrássemos. Não o escondo, tenho desde muito cedo, na minha experiência teatral, uma utopia: a criação do próprio texto pelos actores. Assumo a minha filiação teatral: a expressão dramática e a criação colectiva. Isto que começou por ser uma utopia literal, evoluiu. Em relação aos actores essa evolução surge quando a certa altura comecei a compreender que os actores não precisavam de escrever palavras, eles são por si só texto, escrevem-se, no evoluir da sua presença, do seu corpo físico e espiritual, da sua energia, carne, vísceras, sangue e molécula, no espaço cénico. O Ricardo Rodrigues falará disso, creio, foi assim que distribuímos as vozes neste programa. O Ricardo, que começou o primeiro espectáculo que dirigi para o Teatro Andamento a dizer que não se sentia tão à vontade na escrita, que se realizava mais na leitura, dando por isso origem à personagem do Quasimodo no "Que esperar de nós?". Ele diz-me também que esta minha relação de trabalho com o Andamento termina, nalguns sítios, com um círculo perfeito: é ele que teve a missão de assumir, através da escrita, as várias discursividades dispersas que fomos atirando para cima do chão da sala de trabalho, textos, imagens, improvisações.
A construção deste espectáculo atravessou fases que, na metodologia que defendo, e já assumi que sou fiel à minha árvore, são muito raras num grupo que trabalha sem condições: tivemos a partir de certa a ajuda da AMARA, que acompanhou o grupo num trabalho que, como se vê, tem muito a ver com as nossas projecções sobre a morte. Depois, a certo momento do trabalho criativo, teve uma equipa de escrita, que ia relançando propostas para exploração e que ajudou a estruturar o espectáculo. E por fim, contámos desde quase o início com a colaboração da Margarida Rodrigues, que para além de nos ter feito o registo vídeo do processo de trabalho, o que nos permitiu estabilizar e fixar o trabalho de improvisação, partilhou connosco a construção da visão cénica de "A Morte é uma Flor!".
Há uma parte deste espectáculo que guardo para mim, como todos nós: a forma como ele me ajudou a conviver com a morte, com os meus mortos. Penso neles ao despedir-me deste trabalho, ao fechar os olhos e pensar por momentos na viagem que terminou: a D. Morte andou muito gulosa durante o tempo em que andámos à procura deste espectáculo. Não vou falar em nomes. A morte é o inominável. Os meus mortos juntam-se com os deles e desse chão improvável nasce uma flor. Além disso aqui na sala de trabalho, que para mim é dos raros lugares deste mundo, lugar onde contamos, sabemos as mortes de uns e dos outros, partilhámo-los durante esta jornada.
Este percurso tinha uma permissa: iriamos procurar, investigar, trazer à evidência tudo o que nos pudesse ajudar a falar sobre a morte. E para isso foi fundamental que assumissemos que sabíamos muito pouco. Sabemos o valor do toque, do olhar, da presença. Onde as palavras falham neste jogo imenso de cabra-cega. É com essa matéria que construi a encenação.
Teatralmente fecho assim um ciclo, que começou com "O que esperar de nós?", em que trabalhámos sobre a escola, o seu espaço físico, através de improvisações, que continuou com "O Gato", texto meu, espectáculo que não conseguiu cumprir a dinâmica de animação que desde o início o grupo tinha perspectivado e que neste caso tínhamos pensado através da integração dos mais idosos, mas que trouxe o grupo para o exterior, através da sua presença no FATAL, e agora este "A Morte é uma Flor", que realiza um desafio que desde o "Que esperar de nós?" julguei inadiável: o confronto de um grupo que não tem espaço físico próprio com uma sala de teatro onde pudesse estar um determinado tempo a confrontar-se com a escuridão da sala, com a sua luz cénica, com a presença dos vários elementos teatrais. E até, com a compreensão do lugar do camarim na relação com o trabalho do actor. É em tudo feliz o fecho deste trabalho, até neste desenhar da morte simbólica do animador que sempre fui, que sempre serei. A morte é uma flor…"
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* Texto para o programa do espectáculo "A Morte é uma Flor", a estrear amanhã na Guilherme Coussul.
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