Mostrar mensagens com a etiqueta Animação. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Animação. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, maio 05, 2009

O poder é a alegria de viver e de criar

Há muitos anos atrás numa casa dos olivais onde escrevinhávamos todos na parede, fiz minha esta inscrição que li na parede central da sala: "Saúde é a alegria de viver e de criar". Quem a tinha escrito era Arlete Canhoto Abreu, professora de enfermagem de profissão (a quem se deve, entre outras façanhas, a introdução no modelo pedagógico da Escola Superior de Enfermagem Calouste Gulbenkian de Lisboa de vários tipos de dinâmicas expressivas).
Repetia-a milhares de vezes. Nas aulas, em comunicações e sessões públicas, com amigos, em solilóquios privados, à moi même. Ela é um programa, do berço à cova. Depois comecei também a fazer uma pequena derivação desta frase: o poder é a alegria de viver e de criar. Era eu animador em vários projectos de animação sócio cultural em diferentes lugares de Lisboa. Uma das chaves do trabalho de animação é vincular a comunidade, uma determinada comunidade, à ideia de que pode. De que pode fazer, de que pode conduzir uma acção, de que pode realizar uma iniciativa, um projecto, um programa. A ideia de possibilidade é indispensável ao trabalho do animador. É claro que para isso ele tem de se centrar na estratégia de tentar realizar o que pode e não se deixar cair na inércia por causa daquilo que não pode fazer. É um clássico da animação, não o vou repetir.
O importante é que isto transporta uma ideia sobre o poder que o ajuda a libertar-se de uma carga negativa que, como uma capa, vem revestindo a nossa forma de o pensar. E consequentemente do sequestro da ideia de que ele só pode ser exercido inconvenientemente. A ideia de que o poder corrompe, de que ao poder ninguém escapa, faz parte do imaginário popular e religioso. A nossa ideia do poder geralmente deprecia e maltrata o seu exercício, seja ele qual for, numa sala de aula, num consultório médico, no gabinete do director, do director geral, do presidente, do presidente geral, em suma, do chefe. Ora isso, esse discurso anti-poder, já o escrevi aqui várias vezes, é muitas vezes, paradoxalmente, a substância onde militam discursos extremistas que pretendem disseminar o ódio. O discurso anti-poder é um discurso carregado de ódio. É claro que uma coisa é o exercício do poder, outra a do mando. Parece que se confundem, o exercício do poder parece integrar também a faculdade de mandar, mas talvez seja útil tentar arranjar alguma destrinça entre eles. Um surge mais focalizado na capacidade e autoridade de organizar e gerir os recursos, fisicos e humanos, para a concretização de uma qualquer meta, o outro na autoridade de dispôr desses mesmos recursos.
O exercício do poder corrompe tanto como o exercício da impotência. Vi-o muitas vezes no decorrer da minha experiência profissional. Corpos e espíritos que tinham sido ágeis e sagazes apresentavam-se ressequidos por uma tortura exigente do culto da impotência. Uma escola da cidadania a sério deixar-nos-ia um dia ser chefes de qualquer coisa para experimentarmos as virtudes e os vícios do exercício do mando. Seriamos, à vez, mandantes e mandados. Depois, na vida a sério, seríamos menos prepotentes, menos autoritários, e também, menos paus mandados. Porque é preciso acreditar no poder e na sua conjugação republicana para o libertarmos da doença da incompetência, do autoritarismo serôdio. Tenho presenciado ao longo da minha vida inúmeras situações em que o exercício do mando é feito por incapazes sem capacidade autocrítica para perceberem a sua incapacidade de o exercerem e por detrás deles encontro quase sempre paus mandados descrentes no poder, na república. Numa república é, ou deveria ser, tão fácil destituir um prepotente e um incapaz. Só uma cultura antidemocrática que de costas voltadas para os trinta e cinco anos da nova república grassa tanto entre mandantes como mandados pode justificar que abramos o nosso século XXI com tantos relatos de surreais abusos de poder.
Penso nisto enquanto aqui a nova direcção faz a habitual visita de cortesia pelos serviços. Vem acompanhada pelo seu staff directo, constituido por duas pessoas que, em diferentes momentos da minha vinda para esta instituição, chefiei. E isso leva-me de repente para uma viagem no tempo, a pensar sobre o poder, a minha relação com ele. Fiz um percurso original nestas coisas do exercício do mando. Fui chefe bem poucas vezes na vida e detestei. A primeira foi aqui, quando inaugurei o posto de sub-chefe da esquadra, da fragata. O que eu amarguei! Como queria ser bom - talvez mais bonzinho - fazia questão de receber todos os que me pediam para serem recebidos. E como isso é impossível não consegui livrar-me do facto de algumas pessoas acharem que eu era arrogante, incompetente, autoritário. A certa altura comecei a dar-me conta de que as vozes desses, a quem não recebia, ressoavam mais alto dentro da minha cabeça do que as dos outros, a quem recebi e que me gabavam a paciência. É aliás impressionante o número e a diversidade de pessoas que passa pelo gabinete de um sub-chefe de esquadra ou, neste caso, foi isso que eu comecei por ser, de fragata. Apresentadores de televisão, embaixadores, altos representantes da república, actores, escritores, encenadores, uma aristocracia intelectual de um burgo que muitas vezes se agiganta quando visto pelo buraco do próprio umbigo. Por outro lado o exercício do poder é desgastante para personalidades, como a minha, socialmente inseguras, que são muito vulneráveis ao cochicho, ao dito em surdina, aos jogos de poder. Não gosto de me confrontar com os outros. Os milhares de eus que já fui descendem ainda daquele meu eu primevo e originário que se especializou na incorporação para fugir à confrontação. Ainda por cima, para aumentar a minha aversão ao exercício do mando, o comandante da fragata era aquilo que eu chamava um conspirador Lucky Luke: passava a vida a disparar contra a sua própria sombra e inclusive contra mim. Aguentei durante um ano e dois meses. Ao fim desse tempo, por circunstâncias próprias da vida que nos levam no sentido contrário àquele que queremos ir, subi mais um degrau no exercício do mando: passei a substituir um chefe a sério, com direito a vénia e salamaleque e correspondente repercussão na folha de vencimento. Assim inchado e untado fui chefe, durante mais ou menos seis meses, o tempo que durou a substituição. Não guardo especiais recordações desse tempo senão aquelas que resultam do contacto directo com as pessoas, do trabalho em equipa, da sensação de promover um espírito de grupo e do facto de eu gostar muito do trabalho da esquadra. Mas percebi que entre mim e o exercício do mando há quase que uma incompatibilidade genética.
E como só sou anarquista na intimidade, não tenho outra escolha senão agradecer haver alguém que se disponha a essa ingrata tarefa de me governar e de se sujeitar ao nosso escrutínio desse exercício (escrutínio que tem aumentado substancialmente nestes últimos trinta e cinco anos de república). Deixei de ser como aqueles milhares de crianças rebeldes que se revoltam em surdina contra os chefes. Agradeço-lhes a generosidade em prescindirem de muitos prazeres das suas vidas para nos governarem. Sem grande ajuda minha. Uma das poucas coisas que, pelo exercício do mando alheio, me disponho a fazer, e tenho-o feito ao longo destes anos todos, é reflectir, é escrever. Aliás por todos os sitios onde passo, também aqui, sou tido como um intelectual, com a minha gaveta cheia de textos que fui fazendo. A maior parte deles nunca são lidos. Alguns por vezes são treslidos, lá pensam, olha este quer ser chefe de esquadra. Que se lixe, penso sempre que enceto um novo, devo à República isso: o dever de dar o meu melhor para que possa ser mais bem governado. E se nos preocuparmos muito com o que os outros pensam acabamos por dedicar muito menos tempo ao desenvolvimento da nossa mundivisão. E a vida é um instante, meus amigos, menos do que um instante, um sopro.
Há uma única excepção na minha desafecção pelo exercício do mando( e não do poder): o teatro. O teatro é um universo à parte, um lugar que não é deste mundo e que não se rege pelas mesmas regras que a vida de todos os dias. Aprendi-o a custo. Lembro-me que uma vez uma actriz me disse, durante um ensaio, que eu era um falso democrata. Já não sei sobre o que é que era, tinha a ver com o facto de eu estara tentar que o grupo seguisse a minha visão, creio. É bom que nos digam estas coisas - se um dia conseguirmos concluir que a vida nos tornou melhores pessoas muito deveremos a estes murros no estômago que levamos - mas confesso que na altura fui ao tapete. Durante esse e outro espectáculo que dirigi a seguir tornei-me num chefe envergonhado, muito vulnerável a uma crítica sobre a menor elasticidade e abertura da minha condução do processo de criação.
Até que compreendi que em teatro, enquanto processo de criação colectivo, o poder não é exercido de uma forma democrática. É dificil de explicar mas se assim fosse, nunca teriamos feito "O Lugarzinho no céu" como o fizémos. Quando sugeri que o personagem Mirov, ucraniano, falasse em russo para a sua mulher na terra natal, colhi de surpresa o grupo. Uma votação sobre o assunto teria logo arrumado a questão e teria possivelmente destruído um dos aspectos de maior choque do espectáculo com o público. É claro que esta suspensão da norma democrática no acto criativo assenta num prévio grande respeito pela pessoa enquanto actor e criador. A criação de um espectáculo é um lugar onde o exercício da autoridade, de uma forma mais intensa, se espelha na alegria de viver e de criar, no exercício da amabilidade. Na força, na poesia, no corpo-a-corpo, esse amor tão moderno e tão antigo.

terça-feira, março 10, 2009

A Deus o que é de Deus, ao Palco o que é do Palco

Ver aqui algum do trabalho do Palco Oriental.
Lembrar-me-ei sempre daquele sábado à noite em que, depois de assistir à "Peça da Máquina", escrita, encenada e interpretada pelo João Jorge Loureiro (Meirim) para o grupo de Teatro Patolas - um dos resíduos culturais (nem tudo é tóxico nesta vida caramba)activos da intensa agitação cultural lançada nos idos de 75 na zona oriental de Lisboa, no bairro de Marvila - nos cruzámos os três, eu, do grupo de teatro o Buraco, a funcionar no Marítimo de Xabregas, o Vinas, do Roda, um grupo dissidente dos Patolas, e o João Jorge dos Patolas, a falar desta má-sorte de nos primeiros anos da década de 80, querermos fazer teatro naquela zona. Decidimos então que em vez de sermos três grupos desmembrados iríamos juntarmo-nos todos e darmos a cara pelo grupo de teatro mais forte. Era sem dúvida Os Patolas, grupo que já tinha sido dirigido pelo Cândido Ferreira e pelo Horácio Manuel,actores do grupo de teatro O Bando, que tinha trambalhado na animação teatral daquela zona oriental.
Decidimos então arranjar um espaço. Sabíamos de um, ao cimo da Calçada Duque de Lafões (o número 78 se a memória não me atraiçoa, nem vou verificar, estas coisas do lembrar são assim), onde uma associação, o Voo Livre, fazia festas e actividades. Não tinha mais uso senão esse e o de a sala principal ter uns colchões de ginástica de uma colectividade que ficava a meio da rua. Servia também para uma senhora, que teria sido da antiga comissão de moradores, guardar batatas e cebolas. Numa garagem contígua funcionava clandestinamente uma oficina de carros. Estávamos no principio do anos oitenta e estas coisas aconteciam assim, mesmo ao lado da fábrica de sabões.
Se bem o pensámos melhor o fizémos. Pedimos para poder fazer uma apresentação dos espectáculos mas já tinhamos planeado a ocupação do imóvel, subtraindo-o às batatas, aos colchões e às festas, transformando-o numa casa de cultura e teatro. E lá conseguimos, com uma grande tensão. Tanta, que na véspera da estreia da Peça da Máquina recebo o telefonema do Meirim, desolado, a dizer-me, é pá, os tipos roubaram o cenário todo. O cenário todo era lixo, o que nos fez ganhar uma notícia no Correio da Manhã, "Cenário de lixo roubado no Teatro Imagem", era assim que se designava o espaço, por causa de um projecto teatral que por lá tinha passado. Foi ainda nessa altura que, nesse espaço, fizémos, o António Souto, a Celeste Craveiro, o Armindo S. e eu, o primeiro recital de poesia DN JOVEM.
E começou aí uma batalha feroz que nos levou dias, noites, horas. Benditas horas, todas as horas, mesmo as difíceis, as malditas, que desci e subi a Calçada Duque de Lafões e em que aprendi o abc da animação social e comunitária. Coube-me trazer para lá um dos grupos que acabou por ajudar a caracterizar mais o Palco Oriental, a Máscara Teatro de Grupo (fenómeno teatral que deveria um dia ser estudado, projecto de Rui Pisco, Pedro Wilson e mais tarde, Pedro Alpiarça). Principalmente o Pedro Wilson, através do Triato do Beato, nascido nos Cursos de Teatro dados pela Máscara nas escadinhas de Belas Artes, e que foi um aliado activo do João Jorge Loureiro (Meirim) que, desde que entrei com ele lá até hoje, e já passaram vinte e seis anos, tem sido o elemento mais activo e persistente de todo este processo. Foi também aí que comecei a trabalhar profissionalmente, ensaiando a História de uma Cozinha, de Horácio Manuel, num grupo que ele criara para trabalhar com as escolas.
Desde a altura em que deixei de ir ao Palco Oriental até hoje tudo mudou. A Associação do Palco fez um esforço por chamar artistas, por partilhar o espaço com outros grupos, por dinamizar a vida cultural da zona. Há uns anos envolveu-se numa disputa com a Igreja, que pretendeu ( e está em vista de conseguir) recuperar na justiça um espaço que nunca foi verdadeiramente seu.
É mais uma história triste, daquelas em que a Igreja não sai muito honrada. E creio que também acaba por demonstrar um erro estratégico (eu só me apercebi disso hoje ao ler a crónica do Desidério Murcho, no Público, "Religião e Moral"). Mais do que tentar ganhar a batalha nos tribunais, mais do que tentar ganhar a batalha na opinião pública (mas a opinião pública está-se ralando para estas coisas de tipos que na zona oriental nunca baixaram os braços e insistem numa trabalho sobre a cultura e o teatro), errámos - e digo errámos porque no momento em que há uma acção de despejo sobre uma decisão do Supremo Tribunal de Justiça, não me parece que a situação seja facilmente reversível - quando não tentámos perceber que a Igreja não são só os que a coberto da saia e da batina procedem ao tráfico de influências, mas sim também aos que nas pequenas comunidades religiosas mantêm viva a sua fé, a sua prática e tentam melhorar-se. Esses, se bem informados, poderiam talvez perceber que dar cabo da vida cultural de um espaço como o Palco Oriental é um acto pouco cívico, pouco ético e muito pouco religioso. Mais próximo dos vendilhões do templo que de Jesus.
Assine a petição online.

quarta-feira, abril 09, 2008

Ouço as notícias sobre a agressão na Escola da Boavista. Lembro-me deste texto, onde falava de um dos projectos mais interessantes que enquanto animador pude desenvolver, exactamente no Bairro da Boavista, a partir da Escola do Bairro, que conheço relativamente bem, já que trabalhei lá durante dois anos. Voltarei ao tema.

quarta-feira, outubro 17, 2007

Que Esperar de Nós? *

"Imaginemos jovens de dezoito, dezanove, vinte anos, a entrarem todos os dias pela porta de um hospital para iniciarem o seu percurso de formação como enfermeiros. A aprenderem de cor a cartografia do corpo, o de fora e o de dentro, os seus acidentes, o relevo, os seus rios, as suas rugas, crispações. Trata-se de uma ciência em que o exacto se conjuga com o inexacto, o aproximado. Durante quatro anos é aqui - nesta matéria acidentada e irregular que é a pessoa - que os iremos encontrar. E um dia surpreendemo-nos porque percebemos que o mais difícil que lhes é pedido não é o conhecimento nem a técnica: é que sobrevivam à morte que ronda cada corpo, cada presença, cada um de nós. Lembro-me bem do momento especial em que me dei conta disso. E também me recordo que foi aí que começou este espectáculo.
Quando o propus sabia que eles não iam recusar este desafio. Embora da nossa relação com a morte faça parte este jogo de esconde-esconde, quase infantil, de socialmente metermos a cabeça debaixo da terra à espera que ela passe, este grupo com quem venho trabalhando sem interrupções desde o final de 2003, é um grupo-coragem. Nenhum de nós sabia no entanto em que se iria transformar esta viagem e não é uma metáfora, este espectáculo constituiu-se como uma peregrinação aos nossos lugares, às nossas histórias.
A ideia era criarmos o espectáculo a partir de todos os materiais que encontrássemos. Não o escondo, tenho desde muito cedo, na minha experiência teatral, uma utopia: a criação do próprio texto pelos actores. Assumo a minha filiação teatral: a expressão dramática e a criação colectiva. Isto que começou por ser uma utopia literal, evoluiu. Em relação aos actores essa evolução surge quando a certa altura comecei a compreender que os actores não precisavam de escrever palavras, eles são por si só texto, escrevem-se, no evoluir da sua presença, do seu corpo físico e espiritual, da sua energia, carne, vísceras, sangue e molécula, no espaço cénico. O Ricardo Rodrigues falará disso, creio, foi assim que distribuímos as vozes neste programa. O Ricardo, que começou o primeiro espectáculo que dirigi para o Teatro Andamento a dizer que não se sentia tão à vontade na escrita, que se realizava mais na leitura, dando por isso origem à personagem do Quasimodo no "Que esperar de nós?". Ele diz-me também que esta minha relação de trabalho com o Andamento termina, nalguns sítios, com um círculo perfeito: é ele que teve a missão de assumir, através da escrita, as várias discursividades dispersas que fomos atirando para cima do chão da sala de trabalho, textos, imagens, improvisações.
A construção deste espectáculo atravessou fases que, na metodologia que defendo, e já assumi que sou fiel à minha árvore, são muito raras num grupo que trabalha sem condições: tivemos a partir de certa a ajuda da AMARA, que acompanhou o grupo num trabalho que, como se vê, tem muito a ver com as nossas projecções sobre a morte. Depois, a certo momento do trabalho criativo, teve uma equipa de escrita, que ia relançando propostas para exploração e que ajudou a estruturar o espectáculo. E por fim, contámos desde quase o início com a colaboração da Margarida Rodrigues, que para além de nos ter feito o registo vídeo do processo de trabalho, o que nos permitiu estabilizar e fixar o trabalho de improvisação, partilhou connosco a construção da visão cénica de "A Morte é uma Flor!".
Há uma parte deste espectáculo que guardo para mim, como todos nós: a forma como ele me ajudou a conviver com a morte, com os meus mortos. Penso neles ao despedir-me deste trabalho, ao fechar os olhos e pensar por momentos na viagem que terminou: a D. Morte andou muito gulosa durante o tempo em que andámos à procura deste espectáculo. Não vou falar em nomes. A morte é o inominável. Os meus mortos juntam-se com os deles e desse chão improvável nasce uma flor. Além disso aqui na sala de trabalho, que para mim é dos raros lugares deste mundo, lugar onde contamos, sabemos as mortes de uns e dos outros, partilhámo-los durante esta jornada.
Este percurso tinha uma permissa: iriamos procurar, investigar, trazer à evidência tudo o que nos pudesse ajudar a falar sobre a morte. E para isso foi fundamental que assumissemos que sabíamos muito pouco. Sabemos o valor do toque, do olhar, da presença. Onde as palavras falham neste jogo imenso de cabra-cega. É com essa matéria que construi a encenação. Teatralmente fecho assim um ciclo, que começou com "O que esperar de nós?", em que trabalhámos sobre a escola, o seu espaço físico, através de improvisações, que continuou com "O Gato", texto meu, espectáculo que não conseguiu cumprir a dinâmica de animação que desde o início o grupo tinha perspectivado e que neste caso tínhamos pensado através da integração dos mais idosos, mas que trouxe o grupo para o exterior, através da sua presença no FATAL, e agora este "A Morte é uma Flor", que realiza um desafio que desde o "Que esperar de nós?" julguei inadiável: o confronto de um grupo que não tem espaço físico próprio com uma sala de teatro onde pudesse estar um determinado tempo a confrontar-se com a escuridão da sala, com a sua luz cénica, com a presença dos vários elementos teatrais. E até, com a compreensão do lugar do camarim na relação com o trabalho do actor.
É em tudo feliz o fecho deste trabalho, até neste desenhar da morte simbólica do animador que sempre fui, que sempre serei. A morte é uma flor…"
------------------------------------------------------------
* Texto para o programa do espectáculo "A Morte é uma Flor", a estrear amanhã na Guilherme Coussul.

quinta-feira, outubro 04, 2007

Brincarmos às mortes

Ontem, estávamos no ensaio, uma actriz falha o cruzamento com um actor. É uma pequena brincadeira. A meio de um diálogo entre outros dois, ela cai, suspirando, como se de repente morresse. É uma morte a brincar. Cai nos braços de uma colega, como naqueles jogos de confiança. Depois rola pelo chão, empurrada por esta. Eu fui um pouco duro com a actriz. Não por ter falhado, mas por ter tido uma atitude momentânea de saída do jogo. Sou muito sensível à perda de interioridade dos actores. Aos actores que dentro de cena saiem do seu papel se não estão a falar ou a fazer algo que estava previamente marcado. Em cena não há figurações. Tudo o que está disponível à interpretação do público geme, é alma, significa, é presença, e enquanto matéria disponível à significação ou participa solidariamente na teia narrativa, ou distrai, e se constitui como fuga por onde o espectador se desvincula daquele compromisso que estabelece, de forma implícita, com o espectáculo. Disse-lhe que ía dizer-lhe aquilo uma única e última vez e que depois retiraríamos aquele movimento da cena. Talvez por isso a actriz que estava na contracena com ela sentiu-se também implicada, cúmplice, com a outra actriz e, no movimento em que esta tinha de rolar, acompanhou-a de uma outra forma, empurrando-a com as mãos e ficando, no momento de cruzamento com outro personagem, ajoelhada diante da outra. Este ajoelhar, este ficar ali, enriqueceu a cena. Quando vamos para repetir incorporamos a cena na representação e trabalhamo-la como se fosse o momento em que aquelas actrizes "brincam às mortes". A expressão saiu-me assim, e quando a repito uma outra actriz ri, repete "brincar às mortes". Vai para dizer que este jogo não existe, quando se apercebe que é isso que andamos aqui a fazer há uma data de tempo. A brincarmos às mortes.

terça-feira, agosto 28, 2007

Brigadas da Contra-Informação.

Eu espero que aquelas horas esquecidas que passei na rede do limoeiro me tenham dado a teimosia suficiente para o confronto que quero ter aqui no Respirar com a linguagem. E eu já percebi pelos últimos posts que não será fácil. Há alguns anos Valere Novarina e o seu trabalho sobre o linguarejar tinham-me chamado a atenção para a necessidade imperiosa de devolvermos à linguagem a sua possibilidade interpelativa. Arrumei isso na gaveta do trabalho estético e criativo. Pensei, tenho de escrever como se escavasse um buraco no meio da linguagem. É nesse escuro, nesse negrume que a proferição se rejuvenescerá. Mas essa preocupação reservava-a exclusivamente para os meus textos teatrais. Sempre encarei o escrever no blogue como uma pré-escrita. Um lugar onde eu poderia ser e não ser, onde eu poderia ser inconsequente, inconstante, reflexivo, literário, piegas, sentimental, uma auto-terapia do existir.
Nestas férias pude no entanto perceber que as coisas estão bem piores do que eu pensava. Não se trata de uma questão estética. É uma questão política. Como blogger faço parte de uma comunidade bastante intelectualizada, quer dizer, que tem grande parte da sua vida construída através de referências do pensamento, da arte, da cultura, da política e por isso sempre desvalorizei o impacto da catástrofe que intelectualmente sentia que a linguagem estava a atravessar. Pensei que nos campos, nas aldeias, nas vilas, no interior das vidas amáveis que sempre soubemos construir estes artefactos comunicacionais não tinham quase valor nenhum.
Não é verdade. A situação é ainda mais catastrófica do que o meu pessimismo poderia alcançar. Já não existem campos, nem vilas, nem aldeias e as nossas vidas amáveis estão irreconhecíveis. O ter ido para férias quando o caso Maddie estava no seu epicentro deu-me a oportunidade para perceber que tipo de informação tem privilégios de produção de sentido fora dos grandes meios urbanos. É telenovela, noticiários e missa de domingo por esta ordem de importância.
O que tudo isto produz é um verdadeiro terrorismo da comunicação. Muitos de nós espantaram-se há uns anos com a possibilidade de implantação de retóricas fundadas no irracional como, por exemplo, a da guerra ao terror de George W. Bush. Ora o que aí vem ainda será pior, mil vezes pior.
E eu não sei o que verdadeiramente um blogger pode fazer, ou melhor, o alcance que poderá ter aquilo que ele pode fazer. Creio que nisso teremos de ter a paciência do agricultor que lança a semente ao chão e só saberá na primavera se o seu esforço foi produtivo. Poderemos começar a formar comunidades assentes no laborioso trabalho da contra-informação. Células anti-terroristas. Trabalharemos por casos como os terroristas da comunicação. Célula Contra Informativa no Caso Maddie por exemplo. Faremos reuniões de célula, de rede, de brigada no Second Life. Guerrilhas do pensamento. Pensar é estranho. Parece que nos afasta do lugar onde realmente estamos. E do lugar actual ainda mais. Provavelmente os vindouros já virão com o pensamento formatado para se adaptarem a esta reconfiguração ideológica da verdade, da mentira e já não sentirão esta nossa angústia de filhos da guerra fria.
A nós ainda é ela que nos ilumina.

sexta-feira, abril 27, 2007

Animador

Tenho um pequeno salpico de dor na alma: gostava de fazer mais, um pouco mais, pelo que me rodeiam. Não é deixar uma marca. Isso já passou. Agora só queria ajudar algumas pessoas a tirarem algumas marcas mais fortes, mais gravadas na carne. É um desperdício que não saibamos o que andamos a fazer neste mundo e que soframos com isso. Devíamos sempre andar a dançar como os anjos, foder como os cães e rir como os loucos. E nos intervalos ouviriamos música, exorcizávamos os nossos fantasmas, íriamos à praia, dançávamos como os cães, fodíamos como os anjos e riamos da nossa loucura. A dor que cada um transporta torna o mundo mais doloroso para todos nós também. Não nos apercebemos disso logo, mas acredito nisso. Por isso, trabalhar para desfazer-as-marcas-na-pele-da-vida-dos-outros pode ser um projecto de uma vida. Quando era criança queria ser missionário. Depois descobri a força, a magia da palavra animador. No outro dia uma professora quiz entrevistar-me para falarmos do meu percurso enquanto animador ( só fiz uma meia dúzia de coisas nesse campo mas como sou bom no falar abrilhanto qualquer trabalho mais ou menos académico). E lembrei-me de que há vinte e quatro anos estava eu a descansar no Jardim da Gulbenkian, aparece-me uma jornalista do Diário Popular a fazer-me uma daquelas entrevistas rápidas em que apanhavam pessoas desprevenidas na rua. Cá em cima aparecia o nome e a profissão. Na minha surgia, animador sócio cultural. Já experimentei muitas actividades. Gosto por exemplo de dizer que sou dramaturgo mas não só isso não existe como a única coisa que agora escrevo de forma regular é isto, estes textículos (como dizia o Luís Pacheco). A única coisa que em mim brilha é esse caleidoscópio de possibilidades contidas na palavra animador.

segunda-feira, abril 09, 2007

FARROPE DE POESIA - Gastão Cruz

Amanhã é terça-feira, das cinzas talvez.
No B.Leza desde há uns meses que tem sido sempre assim, com poesia. Às 23 h. Desta vez serão lidos os poemas do poeta Gastão Cruz. Com David Almeida, Diogo Dória, Tiago Barbosa e Pedro Lacerda. Nos sons, Benjamin Brejon e Jonhatan Nhy. À entrada deixamos ficar três euros.

terça-feira, abril 03, 2007

Diário de um Animador

A Televisão Independente da Boavista
Estavámos no início do ano de 1995. Eu tinha sido convidado, através do Raul Melo e do Rui Rodrigues com quem tinha trabalhado no projecto Olivais Vivo, para trabalhar no projecto PATO (Prevenção ao Alcoolismo, Tabaco e Outras Dependências) que iria desenvolver as suas actividades com a pequena comunidade da Escola do Bairro da Boavista. O projecto tinha algumas características que me atraíram desde o princípio (fazendo-me esquecer a minha aversão à sua designação). Trabalhávamos a relação, envolvendo professores e alunos e apenas com aqueles que assim quisessem. Independentemente de actividades que integravam toda a escola, tinhamos um conjunto de temas que começávamos a trabalhar com o primeiro ano e depois íamos integrando o segundo ano e o primeiro ano até que ao quarto ano do projecto estaríamos a trabalhar com todos os anos. Os temas e propostas de exploração tinham a ver com a auto-estima, o grupo, o bairro, entre outros. Estávamos em Fevereiro e por coincidência na semana a seguir a ter começado a trabalhar eu tive que ir a Gijon, à Féten, uma feira de teatro para crianças, fazer uma comunicação com o Carlos Fragateiro. Prometi-lhes por isso que ía filmar a viagem e que depois veríamos em conjunto o filme. E assim foi. Um nevão nos Picos da Europa tornou a viagem, cinematograficamente, bem mais interessante. Depois, muitos dos participantes da Féten, alguns que já conhecia de encontros de expressão dramática em Portugal, fizeram questão de referir as crianças do Bairro da Boavista. Sem saber tinha um tesouro nas mãos. Quando acabámos de ver o filme eles ficaram emocionados. Era o nome do bairro deles que andava pelas bocas daquelas pessoas que falavam linguas diferentes das deles. Eu tinha filmado também alguns espectáculos e conversado com os artistas e todos eles simpaticamente saudavam as crianças do Bairro da Boavista. E não demorou muito a sugestão: vamos fazer um video sobre o bairro para lhes enviar. Este projecto integrou também algumas elementos dos mais crescidos, que já estavam na terceira e na quarta classe. Um deles, estava mesmo em vias de abandonar a escola e já começara a ir com o tio, bate chapa. Tornou-se o camera e assim lá o aguentámos durante todo o ano escolar de 95. Filmámos o bairro. Entrevistámos o farmacêutico, o Dr. Melo, pai do actor António Melo. Falámos com o sapateiro, um comunista ortodoxo que tinha histórias da clandestinidade. Com o Chefe da Esquadra, num ambiente de grande tensão. Já falei disso aqui. Muitos deles tinham a esquadra como um lugar onde alguns dos seus familiares já tinham sido apanhados e, segundo eles, sem grande meiguice. A conversa começou por isso com algumas acusações e só melhorou quando eles se viraram para as flores que aquele chefe de esquadra cuidadosamente zelava. Era estranho para eles. Havia cães-polícias mas flores-polícias desconheciam. Fomos também falar com o Mestre Filipe que tinha o seu Atelier de Marionetas no bairro. Chamámos ao vídeo a emissão da Televisão Independente da Boavista e ela andou por aí, tendo sido mostrada no CCB e em Metz.
[continua]

quinta-feira, março 29, 2007

Diário de um Animador

Quando no ano passado comecei a leccionar uma disciplina de animação sócio cultural destinada a estudantes de enfermagem encontrei nos meus apontamentos de animador uma folha de papel almaço pintada a lápis de cor que servia de capa a um conjunto de outras folhas. Tinha um título: Diário de um Animador. Correspondeu a um período de tempo em que eu era professor de uma disciplina de animação cultural numa Escola Profissional situada no Monte da Caparica. Na altura pareceu-me proveitoso fazer um movimento introspectivo em relação à minha actividade de animador.
No fundo eu estimulava os meus alunos a fazerem o mesmo, a criarem uma espécie de diário enquanto animadores, onde faziam o registo dos seus pequenos heroísmos, derrotas, preocupações. Ao preparar as aulas deste ano descobri novamente a capa colorida e pensei em utilizar o blogue para reflectir sobre a minha experiência na animação sócio cultural. Especialmente de quatro principais projectos que dinamizei, A Rádio Nascente, com Luísa S. Silva, no ATL da Quinta da Calçada (1989), O Atelier de Expressão Dramática no Alto da Damaia (1989), A Malta das Ideias no Bairro da Quinta das Laranjeiras (1991-92) e A Televisão Independente da Boavista, no Bairro da Boavista (1995/96), no âmbito do projecto PATO (Prevenção do Alcoolismo, Toxicodependências e Outros, implementado pela Associação Arisco). Também alguns aspectos da minha actividade mais directamente ligada com a animação sócio cultural num instituto público virado para o lazer e tempos livres. Não sei até que ponto a extensão dessa reflexão possibilita que isso seja feito aqui assim, mas fica pelo menos a intenção.

terça-feira, março 13, 2007

Cova da Moura: Andar pelo bairro

O objectivo da visita é apresentado desde o inicio: combater a estigmatização que o bairro sofre. Convidam-nos por isso a voltar fora da visita, por nós próprios. Andamos pelo bairro sem nenhuma tensão. Há cerca de vinte anos, no 1º Congresso Internacional de Playworkers, visitei o Casal Ventoso integrado numa comitiva de umns trinta e tal técnicos. Estava tudo controlado mas havia muita electricidade estática no ar. Aqui não. É um passeio tranquilo. Por dentro de uma comunidade que se reconhece, que nos reconhece. Di, um dos Guias, tem uma password: "-Tá-se bem!" Já participei nalguns projectos em bairros difíceis e há sempre uma tensão inexplicável entre o trabalho social e a populaçao. Aqui não. As pessoas sabem ao que vamos, porque vamos e precisam de nós. Não há algum desdém, desprezo, negativismo. Apenas risos, vontade de permanecer, de falar.

segunda-feira, março 12, 2007

Cova da Moura: Moinho da Juventude

Foi aqui que nasceu a Associação Cultural Moinho da Juventude num espaço cedido pela Junta de Freguesia. Como contou Edir (na foto), tudo tinha começado com Eduardo Pontes, que tinha uma boa biblioteca, e que tinha por hábito emprestar os seus livros às crianças do bairro. Os movimentos de empréstimo de livros cresceram e a Junta deu-lhes este espaço. Hoje o Moinho da Juventude tem uma estrutura polinucleada no bairro do Alto da Cova da Moura.
O edificio principal da Associação foi crescendo para os lados, para cima. Tem creche, jardim de infância, creche familiar, ATL, Colónias de Férias, Actividades para Jovens, Actividades a Nível Sócio-Económico (Equal, Proxy, Univa e criação de serviços de proximidade) e participa na RNAJ, na REAPN, na Rede Social da Amadora e na Comissão de Protecção de Menores.
O último equipamento, a biblioteca e o centro de documentação, foram construídos com o dinheiro de um prémio atribuido a Godelieve Meersschaert.
Lugares virtuais: Moinho da Juventude e Rede Ciência

Cova da Moura: Graffitis 3

Neste graffiti Odeith evoca a memória de vários jovens que morreram no bairro.

Cova da Moura: Graffitis 2

Os graffitis são uma presença constante no bairro que tem os seus artistas neste campo. Odeith, o autor dos graffitis que aqui têm sido apresentados tem uma visão muito crítica e desencantada sobre o funcionamento da sociedade. As suas pinturas manejam por vezes, como aqui, temas e formas horrendas como o caso deste embrião a ser comido por uma barata.

Cova da Moura: Graffitis 1

Cova da Moura: Graffitis

Cova da Moura: gestos

Nas paredes um louvor do governo ao trabalho desenvolvido pelo Moinho da Juventude. Não que seja de dar muita importância a estas coisas, mas ao ler o historial da Associação na defesa da identidade cultural, social e comunitária do Alto da Cova da Moura, bem como o seu papel no volte-face que foi a vitória pela qualificação do bairro, impedindo a sua demolição, não pude deixar de achar bizarro que o louvor tenha sido assinado por um Secretário de Estado Adjunto do Ministro Adjunto do Primeiro Ministro.

Cova da Moura: gestos

Ao entrarmos, num dos gabinetes, está uma cópia gigante do cheque de trinta e cinco mil euros que Godelieve Meersschaert recebeu por ter conquistado o prémio de Mulher Activa. Foi utilizado na construção da nova biblioteca António Ramos Rosa e do novo Centro de Documentação Tomkiewicz.

Cova da Moura: Sabura

Sabura
é uma palavra com significado flutuante embora todos eles convirjam num sentido: saborear, apreciar o que é bom. Sabura é também o nome do projecto com que a Associação Moinho da Juventude, à semelhança do que acontecia num bairro problemático de Joanesburgo, na África do Sul, organiza visitas guiadas ao bairro, dando a conhecer o que ele tem de bom. E é de facto uma experiência emocionante. Não fomos ao inferno, como poderíamos pensar se nos circunscrevessemos apenas ao que se diz sobre o bairro. Fomos a um bairro onde uma comunidade empenhada e implicada transforma os grandes lemas da animação sócio-cultural em letra viva. À partida parece um disparate incluir uma visita ao bairro da Cova da Moura num roteiro turístico. Não é. Eram três horas quando acabámos de almoçar e dançar num dos muitos restaurantes incluido no Roteiro das Ilhas, que se dedica a mostrar a diversidade da gastronomia das ilhas de Cabo Verde.