Mostrar mensagens com a etiqueta Cultura. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Cultura. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, outubro 27, 2011

Sobre as alternativas

"Basta, por exemplo, olhar para o que aconteceu com a taxa Tobin sobre as transacções financeiras desde que foi proposta (em rigor, retomada) no fim dos anos 90, para se compreender como o chavão “não há alternativas” funciona como um garrote em relação a possibilidades tão efectivas como realistas. A prová-lo, aí está o modo como, depois de durante quinze anos ter sistematicamente acusada de radicalismo delirante, ela acabou por ser adoptada por N.Sarkozy, A.Merkel ou J.M.Barroso." MM Carrilho
Ler o resto do artigo aqui. Neste mesmo texto MMC faz uma critica ao movimento dos indignados, ou melhor, à capacidade política da indignação.

segunda-feira, outubro 10, 2011

O poder de Francisco

Vou entrar em contra-corrente com muitos daqueles com quem geralmente estou de acordo. Já exprimi publicamente o que penso sobre a supressão do Ministério da Cultura e sobre a ideia de reduzir as entradas gratuitas nos museus. Confio na ideia dos especialistas de museus que já vieram dizer que, para além dos prejuízos na missão, há também a possibilidade de prejuízos financeiros ( não só as receitas não aumentam aquilo que se esperava com a cobrança dessas entradas, também porque elas podem provocar um efeito inibidor no acesso). São questões que para uma pessoa que falou tanto em avaliação...deviam ser melhor avaliadas.
Mas não seria honesto se não dissesse que fui agradavelmente surpreendido por esta entrevista. Mesmo naquilo que é a questão mais crispada na relação que a esquerda e a direita têm com a cultura, os apoios públicos, FJV não se muniu de nenhum daqueles argumentos populistas que a direita muitas vezes emprega. Disse aquilo que qualquer povo de esquerda pode subscrever. E defendeu de forma sincera e honesta a sua ideia de cultura. É certo que repetiu aqueles slogans da direita sobre a cultura: o dinheiro dos contribuintes e o dinheiro dos contribuintes e ainda, o dinheiro dos contribuintes. Mas o que é que se esperava de alguém que é secretário de estado da cultura - advogando a supressão do Ministério - de um Governo de direita numa altura em que a escassez de recursos é a palavra de ordem?
Fiquei com algumas esperanças de uma coisa: o ponto de encontro entre a direita e a esquerda no que toca à Cultura é a questão da avaliação, da organização dos recursos, dos princípios de gestão. Gabriela Canavilhas era ministra da Cultura de um Governo do Partido Socialista num mandato governativo em que o primeiro-ministro assumira que o seu grande erro no mandato anterior tinha sido não apostar tanto na Cultura e aceitou cortes por percentagem nas verbas destinadas ao apoio à criação no orçamento da Cultura. Francisco José Viegas é secretário de Estado da Cultura de um governo do PSD/PP e diz, na entrevista, que não quer fazer cortes cegos. A mim, que a minha tribo política é cada vez mais a Cultura, Canavilhas, que era de um Governo em que eu tinha votado, desiludiu-me. E agora surpreendi-me agradavelmente com esta primeira grande conversa pública de Francisco José Viegas (cujo alinhamento à direita sempre me irritou). É a vida! O lado perverso disto tudo é que ele aceitou uma supressão do poder que um Ministério da Cultura pode ter em troca de um encontro semanal e intimo, num "conselho de ministrozinho" com Passos Coelho.

domingo, setembro 11, 2011

Fomos ontem ver o Cisne. A última sessão, no Corte Inglês. Como sempre que vemos um filme português, a proximidade que o filme nos oferece com lugares, pessoas, climas, incita-nos sempre a uma operação de reconhecimento que nos vai dando um à vontade com a obra. Quando saímos falámos sobre aquele ou aqueloutro plano, aquele ou aqueloutra fala ou sequência, num tu cá tu lá com o filme que nunca fazemos quando nos encontramos no cinema padronizado. A certa altura mimetizamos os parâmetros críticos que ouvimos por aí, eu falo da actriz, digo que a Ana Batarda estava magnífica, ela corrige-me, não é Ana, é Beatriz, isso, anuo, a Batarda tinha feito um papelão na Costa dos Murmúrios, diz-me ela, que tem sido a principal responsável por eu ter dedicado nos últimos anos mais atenção ao cinema português. O filme, para além daquele fascínio do reconhecimento que advém da proximidade é muito estimulante porque é um filme a sério, é cinema, é qualquer coisa que na sua improbalidade sobreviverá muito para além daqueles milhares de espectadores que o vão ver como se ele fosse também um filme igual aos outros (os outros, aqueles que todas as segundas-feiras, o dia de ir ao cinema, trazem com naturalidade aquela pergunta, vamos ao cinema?). Começa por ser estimulante do ponto de vista narrativo porque procura uma forma diferente de fazer aquilo que sempre nos disseram que o cinema iria fazer: contar-nos uma história. Há nisso, durante todo o filme, um investimento - quase obsessivo - nas ligações improváveis, nas teias invisíveis que se criam, nas estratégias que como num jogo de esconde-esconde o espectador vai fazendo para perceber o filme. Lembro-me da minha alegria quando Pablo leva Vera à porta de casa da sua mãe e eu digo interiormente, ele é o Cisne. Ou quando Sam aparece pela primeira vez e eu faço um paralelismo com o Pablo e conjecturo, ele é o Pablo uns anos depois. E mesmo quando descubro que não é, há algum desse meu esforço que faz com que a minha relação entre esses dois personagens seja enriquecida por esse vaivém narrativo. As personagens principais, Vera, Sam, Pablo, tem densidade e suscitam interesse e o filme, ao mesmo tempo que tem essa irrequietude narrativa tem também uma sentido de economia dos planos e isso valoriza a humanidade com que as personagens são construídas. Há também, é certo, alturas onde o cinema se deixa auto-seduzir pela sua capacidade de criar plasticidade, como aquela sequência em que Sam está dentro do pequeno lago e isso aparece-me como algo de supérfluo mas ao longo do filme vou-os encarando como os custos necessários da aventura de um filme querer criar uma forma própria de narrar. E em que entre uma narratividade padronizada e completamente focalizada em emergir-nos no ficcional como se ele fosse real, tão presente no cinema americano, vai, aqui e acolá, buscar algo à herança de um cinema português - nomeadamente ao tão característico plano fixo, demorado, quase pitagórico, de Oliveira - mas intensificando-o quer através de elementos que nos remetem para uma dimensão não verbal da interpretação dos actores, o som da respiração por exemplo, quer jogando com planos aproximados. Fiquei com vontade de ver o que vem a seguir neste trajecto, porque me parece que há aqui um chão fértil. Até porque há algo de irrealizado neste projecto, já que há sequências - como aquela em que Vera conta a Pablo a questão da casa - que ainda hesitam em desfazer-se de uma teatralidade cuja integração no cinema talvez ainda tenha de fazer algum caminho para poder ter aquele efeito refrescante de virtualidade e autenticidade que faz do teatro um repente intraduzível.
Quanto saio para a rua, vendo aquele mamaracho do Corte Inglês, penso na desigualdade com que aquele filme surge em relação aos outros filmes e o que isso pode significar para todos nós. É aí que a questão cultural, a questão da cultura, se coloca. No plano estrito do seu trabalho de cineasta (é um absurdo, eu sei, como se ele pudesse existir em sentido tão limitado, como se não houvesse algo de político em continuar a filmar), a realizadora não tem muito a perder com a inexistência de um sistema de difusão que crie a possibilidade de fruição deste objecto por parte dos espectadores. Até pode beneficiar disso porque o sistema de legitimação do cânone cinematográfico será sempre mais familiar quanto mais frágil for o dispositivo político da passagem da criação artística para a produção cultural. No caso do cinema foi preciso que os festivais internacionais começassem a valorizar o nosso cinema para que nós o começássemos a tolerar um pouco melhor. O problema não está na criação artística. Ninguém deixa de fazer filmes, de escrever peças de teatro, sinfonias, livros, por não ter reconhecimento público. É o nosso imaginário colectivo que em vez de ir por aqui vai por outro lado. O que sofremos por não conseguirmos fazer valer a ideia de que precisamos de uma política cultural é a perda destes objectos, destes gestos - e fazer um filme, escrever um livro, são gestos de dádiva - para o nosso imaginário enquanto comunidade. Que terá cada vez menos os nossos lugares, os nossos ambientes, as nossas cores, as nossas maneiras de falar. A partilha do sensível. Eu só não consigo perceber como divergimos tanto nesta percepção: há pessoas, como eu, que acham que isto é uma ferida de morte na nossa identidade, na nossa soberania, no nosso "nós", outras que acham que isto não tem importância nenhuma, nickles, zero. Entre uns e outros, nestes momentos, sinto a falta de um pequeno fio no horizonte que há uns anos, numa página ímpar do Público, nos lembrava isto com ar doce mas firme, categórico.

terça-feira, maio 03, 2011

Para que precisamos nós da Cultura?

Tenho alguma dificuldade em escrever de uma forma credível, até para mim mesmo. Sinto-me mal. Apetecia-me ficar de quarentena. Desfazer-me de uma data de conceitos que a praça pública anda a vociferar e que eu não entendo. Porque é que eu hei-de andar aqui a repetir ideias que me vêm de todo o lado e em que eu pego, como se fosse um puzzle, dando alguma razoabilidade porque as enfio na minha retórica discursiva? Como se soubesse do que estou a falar! Não sei. Dívida soberana. Ataques especulativos. Neoliberalismo. Restruturação da dívida. Resgate da nossa dívida. Dinasia PEC. Europa. Agência de Notação. Níveis de Ratting. Default. Ordenados milionários dos CEOS. Lucros fabulosos dos especuladores. F.M.I. (mas posso falar-vos até à exaustão de uma relação apaixonada com F.M.I. do Zé Mário Branco). Não percebo nada disto. E não estou para mandar uns bitaites a fazer que percebo. Não percebo e ando mal informado e salvo raras excepções de alguns amigos que andam por aqui a fazer autêntico serviço público vejo que rende muito mais, tanto na bloga como no facebook, fazer rolar ideias, mesmo que de contrabando. É por isso que ano aqui há dias para escrever um texto e não acredito em nada do que escrevo. Porque aquilo sobre o que se escreve, sobre o que se pensa, sobre o que anda por aí, sobre o que forma opinião, para mim é trampa. Lixo, lixo ideológico. Há um ruído ensurdecedor na cidade dos vivos.
1. Há qualquer coisa dentro de mim que me diz que é pela cultura que conseguiremos desmontar o torniquete. Porque é de um torniquete que estamos a falar. E por isso aquilo que tinha começado a escrever sobre a necessidade da esquerda, já não me entusiasma muito.
Nos meus últimos três textos dramáticos inseri sempre uma personagem que falava de uma guerra que aí vem. E no próximo, aquele que escrevo para um novo projecto, a guerra vai mesmo começar. E isto não é por ter descoberto agora alguma tendência apocalíptica. Sim porque realizei, radicalmente, que deixarmos entrar a ideia de guerra no nosso mundo, é começarmos por assumir que a nossa ideia de paz, de prosperidade (e estou a falar sempre e em primeiro lugar desta Europa onde me situo) está vinculada à miséria, exploração e morte. A uma geopolítica tenebrosa. Desde a primeira era Reagan, passando pela dinastia Bush, não isentando a fase final de Clinton, que comecei a perceber que não tinha alternativa pessoal a essa visão política. Não era negociável nem provinha de uma visão extremista radical assente em algum calhamaço ideológico. Era a natural assumpção de que não via nenhuma diferença entre a minha vida e a de qualquer outra pessoa que habite este nosso mundo. E também que a globalização política nos responsabiliza, a cada um, seja lá onde nos encontremos, pelo que se passa em qualquer ponto do mundo. Estamos em guerra.
Não há assim nenhum sitio neste mundo onde eu me possa proteger da responsabilidade que sinto pela verdadeira catástrofe que a voracidade tentacular do nosso bem-estar provoca em todo o globo. Contra esta ideia de que a guerra é sempre lá longe, senti a necessidade de - metaforicamente, como o é sempre a expressão artística - a aproximar das nossas casas. É por isso também que, com alguma provocação, vou alertando que quando estamos a falar de números de pobres, de números crescentes da fome, não estamos a falar dos que não têm o mínimo para viver com dignidade, não estamos a falar dos que não têm que comer (porque verdadeiramente os números do desemprego só nos preocupam quando sobem a níveis que fazem temer que eles comecem a entrar nas nossas famílias). Estamos a dizer que começámos a perceber que a fome e a miséria estão a chegar à rua de baixo e que logo, logo, estarão na nossa própria rua. Nós estamos apenas preocupados com a nossa fome e com a nossa pobreza. Ou estamos a pensar nas hordas de pobres que vão começar a desestabilizar este nosso mundinho. O tipo do Pingo Doce está. É aliás impressionante como toda a gente o ouve como se ele fosse um papa. E estamos apenas preocupados connosco porque nos condicionámos assim, a um egoísmo de base. Costumamos amiúde compararmos-nos aos ratinhos de Pavlov. Mas a única verdade que podemos apresentar uns diante dos outros é a de que a metáfora pavloniana é insuficiente para explicar uma coisa: nós somos simultâneamente os cientistas e os ratos no laboratório. Todas as retóricas políticas que o pretendam esquecer estão a fugir da cultura como o diabo foge da cruz.
Não há nenhum princípio romântico sobre a esquerda, não há nenhuma urgência de natureza pragmático-realista que nos deva deixar de cuidar da ideia de que a dimensão colectiva da Cultura é o chão fértil onde vivifica uma política que possa devolvermo-nos a ideia de responsabilidade. Por mais que ela pareça coisa vaga e desmobilizadora para quem está muito preocupado com os resultados expressos.
2. Quando falamos em cultura, e principalmente se um dramaturgo fala de cultura, pensamos logo que se está a falar no plano da manifestação dos objectos artísticos e dos produtos culturais. É uma forma de reduzirmos o debate para um plano onde ele pode ser manipulado pelas diferentes discursividades políticas, quer de esquerda, quer de direita, mas não é disso que se trata. A cultura é tudo aquilo que é a expressão da nossa vida. E não há nada do que fazemos, ou não fazemos, que não seja expressão de nós e, enquanto expressão de nós, cultura.
E é dessa ideia muito vasta de cultura que me socorro quando me refiro à perspectiva de que é pela dimensão cultural que a política pode devolver-nos a ideia de responsabilidade. É um trabalho sobre a identidade, a forma como nos constituímos uns diante dos outros.

[Aparte ou pausa para respirar: Poderíamos também falar aqui da especificidade da relação portuguesa com a cultura . E aí teríamos oportunidade para falarmos de uma certa bicefalia que domina as políticas governamentais ligadas à cultura, fazendo um tratado de Tordesilhas entre aquilo que podíamos referir como alta cultura (os produtos culturais e os objectos artísticos realizados por agentes culturais devidamente licenciados, mapeados e legitimados, das quais se encarrega o Ministério da Cultura através dos seus diferentes organismos) e a baixa cultura (as actividades amadoras e de expressão popular, o associativismo, em grande parte confinadas à investigação científica e à academia, à INATEL, às autarquias e às cooperativas). ]

3. Movimentos de cidadania. Desde que a ameaça de bancarrota começou a pairar sobre as nossas cabeças, houve um movimento de cidadania muito importante. Não o vemos muito bem reflectido na sociedade até porque o seu eco é muito filtrado, parece que os comentadores são os mesmos, parece que os protagonistas reverberam as mesmas coisas, parece que o tempo se aproxima velozmente do dia 5 de Junho sem nada trazer de novo, mas não é bem assim. O extremismo da situação fez com se criasse um circulo de atenção sobre novas camadas discursivas veiculadas pelos meios de comunicação mais informais. Passa-se mais tempo na internet, nos blogues, no facebook. E o tempo, o nosso tempo, o tempo que cada um de nós deposita no tempo que é de todos, é cultura. Fazem-se circular mensagens, textos, vídeos. Muitos dele são como que uma catárse. Andamos desesperadamente à procura de bodes expiatórios. Encontramos por isso alguns culpados, tanto externos como internos. Internamente, e no plano político partidário, Sócrates para todos, a direita neoliberal e a esquerda radical para o PS, o PS, o PSD e o CDS para o BE e para o PCP. Fora do mundo dos partidos os culpados são os bancos, a corrupção, a falta de ética na vida pública, o Estado Social, a Função Pública, o descontrolo do investimento público, a dívida pública, a dívida soberana. Externamente a deriva neoliberal financista, onde se juntam as agências de notação, os especuladores e uma desregulação da economia. O FMI que surge muitas vezes associado a esta deriva neoliberal, aparece agora também como parceiro do BCE e da CE. E se estes são os culpados, as grandes vitimas são, para a direita, o rendimento das pessoas e das famílias, o desenvolvimento económico do país, a sua soberania, para a esquerda, o rendimento das pessoas e das famílias, o desenvolvimento económico do país, a sua soberania, e o Estado Social.
4. Remar em círculo. O facto de estarmos mais ligados uns aos outros dramatiza este remar em circulo dos nossos últimos tempos. Estamos tão presos a este enquadramento político que parece irreal esboçar algum movimento no sentido de promover uma reflexão sobre as possibilidades de agirmos de uma outra forma do que aquela a que nos vimos condicionando. A troika está cá a passar a pente fino a nossa vida. Para a direita, por mais bem intencionada que esta esteja - e talvez fosse uma altura de atribuirmos à direita a mesma sinceridade política que conferimos à esquerda - é o tempo de tirar partido da situação de modo a fazer passar um conjunto de transformações que seria impensável conseguir promover num quadro político e económico de alguma estabilidade. A esquerda, dividida entre o PS, o PCP e o BE, está em estado de afonia. Ou agonia. Dos partidos de esquerda o PS é o único que assume falar com a troika, o PCP e o BE, como todos sabem, excluíram-se do processo. A exclusão do PCP e do BE mesmo se para muitos parece incompreensível, já que eles fazem parte de um quadro institucional e foi o País que pediu o resgate, não deve ser dramatizada. Se a troika fizer convenientemente o seu trabalho terá, sem dúvida alguma, oportunidade para conhecer a posição destes dois partidos. O que de mais negativo poderemos fazer agora é criar tensões a partir de diferentes interpretações sobre actuações legítimas dos partidos. Se não é por aí que nos entendemos que não seja também por aí que nos desentendemos.

5. A agenda da direita. No entanto mesmo não nos deitando a criticar as atitudes, temos de tentar perceber o que é que podemos fazer. A agenda da direita parece mais ou menos clara e ela está entusiasmada com isso. Muitas vezes incorremos no erro, e eu faço mea culpa disso, dizendo que a esquerda se aliou à direita para derrotar o PEC IV e, consequentemente, o governo. A tirada tem alguma bondade como provocação mas não é exacta e não nos ajuda a perceber as circunstâncias do que se passou. A dinastia PEC foi uma criação do Governo PS com o PSD, assente num entendimento comum e sempre teve a rejeição do PCP e do BE. Ou seja, quem rompeu com a dinastia PEC foi, assumidamente Passos Coelho. Fê-lo da forma atabalhoada que todos sabemos, faltando à verdade, truncando versões, dizendo aqui uma coisa, em Bruxelas outra, mas foi ele que o fez. Foi ele que se aliou a uma esquerda que estava naturalmente contra a dinastia PEC e hoje percebe-se porquê: não só a agenda do PSD está sintonizada com as exigências do pensamento neoliberal que dominam a estratégia de resgate, como vê nisto uma excelente ocasião para uma vingança sobre mais de uma década de governação do partido socialista. Se o Orçamento de Estado de Durão e Portas era uma santuário ideológico contra a esquerda e o PS, esperem pelo que virá se Passos Coelho for o redactor-chefe do próximo OGE. É claro que a direita sofre da mesma contingência humana que também caracteriza a esquerda: ela não vê isto da mesma maneira que a esquerda o vê e por isso substitui sentimentos negativos como vingança por outros bem mais elevados. E por isso ela não pode perceber aquilo que o Daniel Oliveira disse uma vez no Eixo do Mal e que nos devia servir de baliza: o que se está a passar é um autêntico golpe de estado à governação legítima dos países, impondo medidas que consubstanciam mudanças de regime que nenhum partido se atreve a colocar nos seus programas eleitorais e deveremos perguntar-nos se achamos isto aceitável.

6. E a agenda da esquerda? Qual é a agenda da esquerda, perguntam-se as diferentes tribos deprimidas de esquerda? É difícil perceber qual é e isso provoca notórios embaraços. Tenho encontrado nestes dias muitas pessoas, do PCP, do BE e do PS que estão muito relutantes em votar. Não estão indecisas, sabem que se votarem vão votar no partido onde costumam votar sempre, o apelo do voto útil é sempre algo disponível para um eleitor, mas têm uma genuína relutância em votar. Eu próprio estou nesse grupo. Não tenho dúvidas em dizer que neste momento nenhum partido de esquerda me dá sinais claros de querer governar à esquerda e por isso qualquer voto na esquerda será reforçar a votação na direita. É claro que também poderia adoptar aquela atitude lúdica do eleitor do PCP que zangado com o seu partido vai votar no BE ou no PS, ou o do BE que de costas voltadas para a sua força política promete deitar a sua escolha no PCP ou no PS, e como votante que fui do PS colocar o meu voto no BE ou no PCP. Corre por aí, nesta perspectiva lúdica, que não votar é fazer o jogo da direita. É um argumento estafadissimo que nem chega a partir. O que nos deveria preocupar não é a esquerda que faz o jogo da direita, é a esquerda que não faz o jogo da esquerda. A menos que o jogo da esquerda não seja governar, seja só o ser oposição. E não há dúvida de que a bancada esquerda fora do chamado arco da governação faz excelente oposição. Tenho aliás muitos amigos de esquerda que justificam o seu voto no BE e no PCP porque trabalham muito na Assembleia. Fazem muitos trabalhos de casa. Talvez seja uma perspectiva salutar esta e talvez fosse sensato enterrar aquele arquétipo político de que deveremos ter uma ideia de bom governo pra podermos ser uma boa oposição. No entanto, bom senso à parte, o que faz falta neste momento é a capacidade de comunicarmos com clareza.

7. Falar claro e falar verdade. Uma das grandes falácias actuais é a da necessidade de falar claro e verdade. Todos o repetem, em todas as praças públicas deste país. É razoável este ponto de vista. O paradigma Medina Carreira, ou seja, de que vivemos na mentira e que agora temos de falar a verdade ocupa a agenda de todos os dias. No entanto pondera-se pouco a possibilidade de que este apelo à clareza se situar numa zona de duplo contrangimento que só nos perpetua neste lodaçal discursivo que desvaloriza tudo o que se diz. De que é que adianta falar claro se não existem as condições necessárias para que o acto de comunicação se processe com clareza? Nós ouvimos aqueles muitos que falaram claro ao longo destes anos, que nos alertaram para o estado de degradação das nossas finanças, para o elevado endividamento público e privado? Nós ouvimos aqueles que nos alertaram para o perigo que rodeava a função social do Estado? Nós ouvimos aqueles que escreveram, alertando para a forma como a Europa crescia sem solidariedade? E porque é que não os ouvimos? Porque não nos interessava. E porque é que não nos interessava, porque é que não nos era interessante? E o que é que nos foi interessante, o que é que nos interessou, o que é que nos prendeu a atenção? Se não formos capazes de questionar isto o apelo a falar claro é só mais uma metamorfose de um discurso escorregadio e pantanoso.

Por outro lado o apelo a falar verdade é ainda mais perigoso e anda na senda de um certo sebastianismo que se está a instalar troicamente na sociedade portuguesa. Como se entre a gente humana houvesse uma verdade revelada. Há pessoas mais lúcidas do que outras, claro que há. Mas de nada nos serve isso se enquanto comunidade não construirmos uma evidência comum sobre uma determinada realidade. A nossa verdade é aquilo que entre nós estamos decididos a aceitar como verdadeiro. As verdades reveladas são manhosas, trapaceiras e enganadoras. E aqui estamos de novo a bater à porta da cultura, agora pelo postigo da forma como comunicamos.

8. O que é isto de condições necessárias para a clareza na comunicação? Mas nós não vivemos na sociedade da comunicação?! Do conhecimento? Em primeiro lugar é preciso reconhecer que a perspectiva local tem vindo a perder relevância na nossa relação com a cultura. Esse é um aspecto para tentarmos perceber que a clareza do acto da comunicação não tem tanto a ver com a clareza do que se diz ou do que se entende, mas de como é que hoje em dia isto produz sentido. O nosso modo de vida está dominado pelo fenómeno da globalização. A revolução tecnológica tornou a terra um lugar muito mais pequenino, muito mais interactivo e, paradoxalmente, muito mais distante do local. Perdemos em territorialidadade o que ganhámos em virtualidade. São relações diferentes, não necessariamente antagónicas, existem cada vez mais experiências de cruzamento destas duas experiências, mas são relações diferentes. O local exige tempo, o tempo da interacção no aqui e no agora, tempo que a rede global maximaliza unindo tudo. Este admirável mundo novo que é vivido no plano dos sujeitos, quer do ponto de vista individual quer colectivo, como um lugar libertário, onde cada um adquire a possibilidade de se expressar, de conviver, de se agregar, é também um lugar panóptico onde é muito mais fácil exercer, de forma subrepticia, disfarçada, a dominação, ou se quisermos, de uma forma mais benigna, o controle social e ideológico.

A grande eficácia do sistema de dominação actual é que ele prescinde do binómio dominador-dominado para exercer o jogo da dominação. A palavra é apropriada. Trata-se de um jogo. O dominador é tão espectral como o gesto de dominação e o próprio dominado e não coincidem necessariamente. Há um vaivém. Quando hoje vemos alguns vídeos que circulam no you tube ( e em relação a muitos nós não sabemos verdadeiramente quem os fez nem quem está por detrás desses mesmos objectos) ou quando vemos o trabalho desmistificador do Inside Jobs, nós percebemos que aquilo que supunhamos ser a nossa força, a união, é também afinal a nossa grande vulnerabilidade.

Os nossos países, que ainda há pouco tempo tinham uma rede institucional complexa para implementar a sua soberania (língua, simbolos, instituições, território, moeda, fronteiras, águas territoriais, cultura), hoje, de verdadeiramento soberano, só têm a dívida. Temos uma grande vulnerabilidade. Basta condicionar um director do BCE, basta calar um presidente de um Comunidade Europeia, para que de repente o papão FMI, com um director de esquerda, surja de forma dócil a propôr taxas de juro e prazos de pagamento mais generosos do que os defendidos pelas instituições da União Europeia. Por outro lado também temos milhões de pessoas ligadas por partículas discursivas minimalistas (os likes, os shares, os comments) fornecendo uma ilusão de individualidade e de coesão àquilo que, visto com um bocado de distância, se torna também numa massa enorme de acriticismo. E tudo isto parece por vezes ter a força de um tsunami que nada nem ninguém consegue controlar. Ou pelo menos, não nos é perceptível o controle, até porque estamos muito mais deslumbrados com a força telúrica dos fenómenos (como a aventura da rua árabe).

9. Porque é que precisamos nós da cultura? Há muitas razões e não vou maçar-vos com aspectos gerais da teoria da cultura. O que me parece é que tentamos ver tudo no plano da mudança de paradigma da política quando o deveremos situar num trabalho profundo sobre a nossa identidade. É que se não podemos sentar um país inteiro no divã do psicanalista, precisamos de perceber que não adianta querermos outros políticos, outras políticas, se não assumirmos que temos de mudar, porque foi este modelo de comportamento que nos trouxe a este aparente beco sem saída. Atravessamos um grave problema de congruência política porque estamos a pedir aos nossos políticos que sejam os protagonistas de uma mudança que nos tem de envolver a nós. Alguns de nós viram-no, vêm-no, nas manifestações que ocorreram um pouco por todo o país. É como se estivéssemos muito perto de não termos de aceitar como uma inevitabilidade o afundamento da nossa vida democrática por causa do apodrecimento da partidarização da sociedade. Estamos muito próximos mas ao mesmo tempo sentimos que podemos morrer na praia. 5 de Junho parece a data da capitulação onde todos nós teremos de fazer um regime alimentar à base de sapos, mas talvez seja bom não fazer da nossa vida favas contadas. Há 37 anos de uma noite para o dia mudámos toda a nossa história e com que consequências?

Hoje talvez muitos de nós comecem a perceber que estamos a pagar um preço demasiado elevado por termos esvaziado aquilo a que chamamos a opinião pública de toda a diversidade cultural, religiosa, espiritual. Quando retrospectivamente olhamos no aniversário de mais um 25 de Abril um documentário sobre José Afonso, percebemos que há uma dimensão da nossa vida que se perdeu. Há trinta e sete anos não deixaríamos que tantos oráculos medíocres viessem começar uma frase por o que as pessoas querem, o que as pessoas precisam, o que as pessoas gostam. O que faz as pessoas felizes. E perdeu-se porque a perdemos. Ninguém nos roubou. Ou através da cultura valorizamos a nossa responsabilidade ou continuamos neste discurso de negação política que atinge zonas de delírio em que de um extremo resolvemos os problemas com impostos sobre as grandes fortunas e do outro extremo colocamos a solidariedade social no plano da caridade.

Ando a escrever o mesmo há alguns meses: esta crise só é má para quem acha que viviamos bem. Para aqueles que achavam que viviamos mal, que a nossa vida estava presa a valores identitários que nos enfraqueciam, o momento que atravessamos é uma oportunidade. É isso que nos diz a cultura. Ela diz-nos: não aceites inevitáveis, tu podes ser dono da tua vida. A vida pode ser diferente. A vida pode até ser nossa. E não há mal nenhum em que isto seja apenas uma utopia. Mas atenção: esta crise é um momento dramático em que não podemos baixar os braços, desistir. Não podemos desistir de pensar, de dizer. E não podemos de deixar de passar entre nós aquilo que pensamos. Meso que nos custe tanto pensar. Porque achamos que é tudo remar em seco e em círculo. O que a cultura nos diz é que o momento da transformação é uma festa. E se ao lermos isto pensamos o quanto de absurdo e irrealista é alguém escrever que o momento de transformação é uma festa, antes de abjurarmos este lirismo pacóvio talvez seja melhor irmos ao espelho vermos se ainda somos nós do outro lado.

10. Vivemos acima das nossas posses, dizem. É mentira, é uma grosseira mentira. Que como dizia o Aleixo, tem uma dose de verdade para nos ludribriar melhor. O que se passou é que esta desregulação do sistema financeiro já não se podia contentar com o dízimo resultante das nossas disponibilidades de consumo que sobravam do nosso rendimento mensal. E isto não se passou só em Portugal. É um fenómeno global. Provavelmente a especificidade portuguesa traduziu-se no modo como nós, que andamos sempre com uma identidade larvar ou às avessas, nos deixámos seduzir tanto pela dimensão apoteótica do nosso consumo. Depois de décadas a acumular poupança, em que o salazar ficou como marca do instrumento de rapar o tacho, aderimos com um espantoso novo riquismo a esta possibilidade infindável que os créditos, que agora sabemos serem hipotecas, nos permitiam. E, através da publicidade, o sistema replicava-se e ajustava-se ideologicamente a essa finalidade. Dizer que as pessoas viveram acima das posses é tentar apagar a realidade de que o sistema permitiu que a actividade económica, suportada numa alavanca financeira histericamente crente nas suas potencialidades, ganhasse acima das suas possibilidades, tendo em conta o equilibrio do sistema. Mas nós também estivémos lá. Os milhões de lucros são milhões de cêntimos nossos. E somos nós que os demos. Senão compreendermos isso nunca podermos mudar o nosso comportamento. E estamos sempre nas mãos de quem nos vem aterrorizar.

11. Alternativa. Quando eu insisto nesta ideia de que temos de analisar a realidade como se ela não fosse de sentido único, geralmente dizem-me, está bem, mas qual é a alternativa? Ou seja, se criticamos o resgate do BCE, do FMI e da CE, perguntam-nos qual é a alternativa e supõe-se que a alternativa é o não ao resgate. Este é um modo de pensar tão inculcado e tão impregnado de uma ideologia dialética que se torna dificil explicar que enquanto não assumirmos que estamos a colocar o problema de uma forma errada, as soluções serão também ela erróneas. A alternativa ao resgate que está a ser anunciado pode ser um resgate em condições mais vantajosas para todos. Ora para isso não é preciso termos uma alternativa, sim não aceitarmos que para uma determinada realidade não lhe há alternativa.

É uma operação tão simples que chega a ser tenebrosa a forma como o discurso político, o que rola por aí, o faz esquecer. Há uma situação de efectiva falta de liquidez da nossa economia. Não temos dinheiro. Até eu que sou o mais incapaz de todos para perceber os fenómenos económicos já o interiorizei. Temos de o pedir emprestado ou temos de mudar a curto prazo a estrutura da nossa angariação de receita e de realização de despesa. A tónica da diabolização de quem pode emprestar dinheiro faz parte de uma retórica discursiva que puxa pela lógica dos afectos mas é muito pouco interessante porque na política a dimensão dos afectos não é uma realidade partilhável senão por aqueles que pensam do mesmo modo .

12. O resgate. O que é importante é perceber que se por um lado precisamos de dinheiro, as modalidades de resgate têm produzido um efeito dominó com a Grécia e com a Irlanda e que se vamos negociar um resgate partindo dos mesmos pressupostos a probalidade é que o empréstimo não nos sirva para nos ajudar a desenvolver sim para nos atascarmos no mundo tenebroso da dívida. Isso não quer dizer que não devamos assumir o resgate, quer apenas dizer que se o assumirmos devemos salvaguardar todas as situações que nos sejam prejudiciais. É para isso que precisamos de coesão nacional, é para podermos ser mais fortes, tanto interna como externamente. Os partidos que são contra o resgate têm proposto outras alternativas de financiamento. Por mais que algumas delas sejam nitidamente demagógicas, outras há que são realistas e que são possíveis de compatibilizar com o empréstimo, diminuindo até o seu impacto.

Esta ideia de que a nossa vida está entre a aceitação da inevitabilidade do resgate ou a da negação da necessidade do mesmo, faz-nos perceber que tanto o resgate como a sua negação podem ter alternativas. É que o que se está a fazer passar é que a inevitabilidade de um resgate, é a inevitabilidade de um certo tipo de resgate e isso é intolerável. Mas é nesse intolerável que tem andado muito da nossa política e muito da campanha mediática. O que eu gostava de ver era os políticos do meu país, e principalmente os de esquerda, a trabalharem em conjunto para que, se o resgate se fizer, seja o menos nocivo para o país e que seja feito para o desenvolvimento do país. Deveríamos nas próprias eleições responsabilizar seriamente os políticos e as políticas que não perceberem isso.

13. O não-resgate.

A posição do BE e do PCP sobre o resgate tem desde logo uma virtude: obriga-nos a perceber que estamos a discutir a Europa e que temos de definir em que Europa é que queremos estar. A grande vantagem desta obrigação de discutirmos a Europa é a de percebermos que esta ideia de Europa que por aí anda nada tem de utópico. É até anti-europeísta. Não é por acaso que muitos de nós andam entusiasmados com a experiência da Islândia. Parece um David contra Golias e quem não gosta de David? Só que a Islândia não faz parte da Comunidade Europeia e por isso tem outra autonomia. É isso que nós queremos? Sair da Comunidade Europeia? Se formos analisar os partidos à esquerda do PS, o BE assume a sua vocação europeísta, o PCP não. Estive a ler atentamente as propostas de todos os partidos de esquerda e percebi que por muito que haja medidas que se aproximam entre o BE e o PCP pode haver uma Europa que os divide. O PCP não prescinde da sua acusação de que a adesão ao Euro desregulou e destruiu a actividade económica. Ou seja, o não ao resgate pelo BCE, pela CE e pelo FMI, parece que é uma alternativa, mas que alternativa queremos? Com Europa? Sem Europa?

De qualquer forma o ou isto ou aquilo é uma brincadeira de rapazes de raparigas no pátio, não uma posição de compromisso num momento como este e nós, enquanto cidadãos, temos de mostrar de uma forma cabal o que é que fazemos a políticos que pretendem brincar ao nosso futuro em vez de se entregarem a um compromisso. O BE e o PCP apresentaram propostas para o não resgate cuja validade não se esgota se o resgate for feito. É claro que o tempo passa e não se percebe como é que as medidas destes dois partidos podem ser adoptadas se não forem, em tempo recorde, analisadas e quantificadas. Nesse sentido acho muito importante a iniciativa do BE de pedir ao Governo para ser ouvido porque tem propostas para apresentar. Regra geral as propostas do BE parecem, a um não especialista em economia, boas e de acordo com a necessidade do País. Espero muito sinceramente do Partido Socialista que se entretenha seriamente ou a explicar porque são inviáveis, porque é que não podem ser integradas na negociação com o BE, CE e FMI, ou a viabilizá-las. E o mesmo às do PCP. O facto de elas serem apresentadas por um partido que é contra o resgate não quer dizer que elas não possam ser aproveitadas para minimizar os efeitos negativos do empréstimo. E não quer dizer que não possam ser aplicadas depois.

14. Nós os cidadãos de esquerda, alinhados ou desalinhados, devemos bater-nos para que os partidos de esquerda consigam encontrar soluções que salvaguardem um património de políticas sociais que está intimamente ligado à nossa democracia. Não aceitando desculpas infantis. Quem já aceitou integrar uma coligação com a direita no derruba do governo ou quem se apresta a coligar-se com ela depois das eleições, não tem desculpa nenhuma para não fazer um grande esforço político na criação de mínimos denominadores comuns de entendimentos políticos. Devemos bater-nos para que a Europa consiga ver em nós a Europa e não apenas um país com problemas de dívida soberana. Deveremos bater-nos ou para encontrar soluções menos gravosas do que o empréstimo financeiro ou que ele, a ser contraído, seja para resgatar o País e a sua economia e não para a manter num jogo fraudulento e especulativo. Deveremos bater-nos para que a coesão política do País seja um aumento da responsabilização social e politica de todos. O país não é um ringue de pugilato político entre José Sócrates e Passos Coelho. Temos de acreditar na vida, na nossa vida, na nossa capacidade de a transformarmos. Mesmo que não percebamos nada de ratings, de renegociações da dívida, de créditos defaults, e outros truques com que pretendem armadilhar a nossa possibilidade de analisarmos o bom ou o mau senso dos nossos políticos.

quarta-feira, novembro 03, 2010

Pensar não cansa

apetece-me cantar.
cansar a voz até ao último pedaço de som. ficar aqui, a empanturrar-me de solidão, de afecto. a minha lucidez, o que me sobrou dela do último desvairio, diz-me que o mundo onde vivo começa a estar tão cansado do homem como a minha cabeça está exaurida com o pensamento. e nem é do pensamento. pensar não cansa. essa é uma merda que este dispositivo pronto-a-pensar encenou para nos fazer crer que é melhor haver umas aventesmas a pensarem pela nossa cabeça. não, digo orgulhosamente nos meus três trilhões de pensamentos, contei-os um a um, desde que nasci: pensar não cansa. o que cansa, o que destrói o ânimo, o que destrói a vida, é esta sensação de que pensar não serve para nada. esta sensação de que o pensamento é estéril, uma comenda que exibimos no salão, mais um Gil que tiramos da cartola para nos apequenar, para nos aprisionar. pensar não cansa, pensar liberta. pensar é um fogaréu medonho, um pedaço de luz incandescente que vai à frente, que vai sempre à frente na nossa vida. é como se fosse um farol só que reclinado para dentro, inclinado para esse imenso espaço interior onde rebentamos de prosperidade, de felicidade.
há um homem próspero e feliz que atravessa a rua todos os dias e esse homem é o gigante que pensa. aquele a quem o pensamento agiganta. adamastor virado do avesso. na pátria dos inválidos, dos trespassados, dos tresloucados, dos que nunca saberão a felicidade que o pensamento poderia ter dado à vida que (não) viveram.
seria por um país assim que eu gostaria de poder desfazer a minha voz, cantando.

domingo, março 07, 2010

Deliciei-me com a visita ao Museu da Farmácia, na sede da ANF. São alguns milhares de anos da nossa história que se atravessam por diversas civilizações e continentes. As várias farmácias existentes não são réplicas, são farmácias que foram compradas e depois instaladas aqui. Como esta, em que o farmacêutico já tem um balcão a mediar o local de elaboração do medicamento e o de atendimento.

quarta-feira, fevereiro 24, 2010

O que é que nós ganhamos com isto?

O Rui Tavares lança, como uma questão recorrente, a pergunta que anda de boca em boca, nem sempre pelos melhores motivos: O que é que nós ganhamos com isto? Confesso que quando vi a Inês Medeiros aparecer na lista de deputados do PS, para além da maior simpatia que tenho por ela, e onde se inclui o reconhecimento como actriz e realizadora, fiz a mesma pergunta. Não foram precisos muitos meses de assento parlamentar para ter percebido a resposta, através da sua proposta sobre os chamados precários.
É uma situação que só aparentemente é de incidência minoritária. Ou seja, só o é se nos ativermos ao campo da produção. Porque se percebermos os seus reflexos no campo da recepção cultural, então estamos a falar de um campo de influência que nos integra a todos nós enquanto comunidade. É mais um cerco, e dos fortes, aos já muitos, com que se debatem aqueles que se dedicam à área cultural e artística. Para os quais, na sua grande maioria, a chamada precariedade, é condição permanente, acabando assim por, paradoxalmente, verem agravadas as suas obrigações fiscais. É claro que para a visibilidade política desta questão, que está integrada numa dinâmica internacional, contaram, de forma decisiva, as iniciativas politicas dos chamados movimentos dos precários e dos recibos verdes, e de forças como o Bloco de Esquerda. Isso não impede que, quando voltar a olhar Inês Medeiros no Parlamento e me perguntar, mas afinal o que é que nós ganhamos com isto?, seja natural que a resposta me venha em forma de sorriso reconhecido.

O que (não) fará um governo da esquerda socialista?

Recebi uma informação sobre um colóquio que a Cultra- Cooperativa Culturas do Trabalho e Socialismo vai realizar sobre o tema : O que fará um governo de Esquerda Socialista? O debate proposto envolve especialistas das várias áreas em discussão. Carvalho da Silva, Francisco Louçã, João Semedo, Mário Vale, Francisco Ferreira, Fernando Oliveira Baptista, Virginia Ferreira, Conceição Gomes, António Nóvoa e José Manuel Pureza são oradores e as suas intervenções serão comentadas por não menos ilustres cidadãos e cidadãs. É já no próximo fim de semana, numa jornada que ocupa a manhã e a tarde e se realiza no anfiteatro do Liceu Camões, e que se ocupa de temas como trabalho e segurança social, economia e finanças, saúde, cidades e ordenamento territorial, desenvolvimento rural e das pescas, igualdade, justiça, educação e politica externa e defesa.
Se procurou sem encontrar a palavra cultura, teve a mesma decepção que eu. Já estamos preparados para que os governantes, os governos, quando no poder, não manifestem a miníma atenção pela cultura. À direita, à esquerda, ao centro. E muitas vezes perguntamo-nos porquê. A resposta parece simples: é que mesmo quando na oposição, quando ainda só são o governo que queriam ser, a discussão política não inclui nos seus mapas de debate, a questão cultural, quer se entenda de um ponto de vista mais restrito, a actividade cultural, artística e científica, quer se entenda de um ponto de vista mais alargado, a vida associativa, os quotidianos, as dinâmicas socio-culturais.

sábado, junho 13, 2009

A cultura ao poder (1)

No resclado das eleições europeias verifico que nenhum dos partidos ou movimentos concorrentes abordou ou defendeu alguma ideia sobre a Cultura, a Europa Cultural. É uma recorrência que a política cultural é uma ausente dos programas políticos dos vários partidos politicos e aí a esquerda não é excepção. Ora eu estou muito preocupado com esse aspecto quando olho para Portugal. Já é tempo de cobrarmos aos nossos políticos a (in) capacidade de defenirem políticas activas para a promoção da actividade cultural e artística. O que se passa em Portugal nos domínios da actividade artística e da actividade cultural? Que politicas públicas existem para a actividade cultural amadora? Para a cultura de expressão popular? É preciso colocar o dedo na ferida. Devemos exigir do Estado que defina as suas competências nestes campos, clarificando o que se espera ou não que a iniciativa pública faça nestes domínios. Nesta noite de santo antónio este post não poderia ir senão em forma de telegrama, mas numero-o, assinalando desde já a vontade de regressar ao tema e de lhe dar alguma continuidade.

quinta-feira, setembro 18, 2008

Orçamento da Vergonha: 0,2%

".../...Com efeito, desde 2001 a percentagem do Orçamento de Estado atribuída à cultura tem vindo a reduzir-se consecutivamente, passando dos cerca de 0,7%, verificados nesse ano, para 0,2% em 2008. Uma redução, portanto, para menos de metade do já de si escasso financiamento do sector, o que contraria claramente a promessa eleitoral do Partido Socialista, que no seu Programa de Governo assumiu o compromisso de, "em matéria de financiamento público da cultura", "reafirmar o sector como prioridade na afectação dos recursos disponíveis", estabelecendo "neste sentido, a meta de 1% do Orçamento de Estado dedicada à despesa cultural", como "referência de médio prazo" necessária a "retomar a trajectória de aproximação interrompida no passado recente."
Da interpelação de Ana Drago ao Ministro da Cultura feita na passada 2ª feira.
Assunto irrelevante. Um extraterreste que pousasse no nosso país se avaliasse a coisa pelo impacto das notícias deduziria que os temas importantes da cultura portuguesa na reentré tinham sido o ping-pong entre José António Pinto Ribeiro e Carlos Fragateiro. Os zero vírgula dois por cento, esse orçamento de e da vergonha para um governo cuja base de eleitorado é o Partido Socialista será, no espaço público, totalmente engolido pela entrada triunfal, já anunciada para 1 de Outubro, de Diogo Infante no Teatro Nacional D. Maria II. Esta é a reentré cultural num país de cafres, diria Eça, de filhos da puta, acrescentaria Alberto Pimenta. Como é possível termos chegado aqui? Ainda me lembro de Manuel Maria Carrilho ter saido de ministro porque Guterres se esqueceu da promessa eleitoral de 1% para a Cultura. Com duzentos milhões e meio de euros para gerir talvez seja desperdício ter um ministro. Um director-geral dava bem conta do recado.

quinta-feira, abril 10, 2008

Depois da precoce alegria dos porcentos

No outro dia o ministro das Finanças disse que Portugal estava mais bem apetrechado hoje para enfrentar a crise. Era a alegria precoce e intranquila dos porcentos. Os porcentos que nos pôem bem com os outros, connosco mesmos. Não tenho dúvida de que sim, de que estará. Só que depois me ocorre uns outros porcentos, unzinho, que ouvi uma vez Manuel Maria Carrilho explicar como a causa primeira de ter saído do Governo de Guterres. Não me vou agora pôr aqui a tentar justificar os porcentos bons ou os porcentos maus. Claro que isso tem importância. Mas tem importância de outra maneira. Tem importância porque expressa a indiferença com que olhamos para a dimensão criativa e expressiva da nossa existência neste mundo. É isso que está em causa, sempre foi. Quando olhamos para o espelho das nossas necessidades, a forma como a cultura, o conhecimento, a abertura ao outro, são ou não suficientemente entusiasmantes para justificar modos de vida.

quinta-feira, janeiro 31, 2008

Não é (ainda) uma espécie de epitáfio

Ninguém esperava que eles dissessem nada de substancial. Apenas que gerissem as expectativas da surpresa das suas nomeações. O mago, que tinha tirado os coelhos da cartola, estava encarregue das declarações políticas. E fê-lo. Mas José António Pinto Ribeiro decidiu falar. E disse que quer " fazer mais e melhor com menos recursos". É uma daquelas frases que parece que cai sempre bem em qualquer lado. Embora talvez Salvador Dali, tivesse dito, "não importa o que fazes ou como fazes, desde que impliques os mesmos recursos", ou até, "não importa os recursos desde que faças o que fazes", José António Pinto Ribeiro preferiu inspirar-se no senso comum e apressar-se a declarar-se um bom aluno de Sócrates e da contenção do défice orçamental. Só que na actividade cultural há uma coisa muito simples, do mais elementar bom senso que parece ter-lhe escapado: na Cultura fazer mais e melhor é fazer com mais recursos. E principalmente, e o mais grave: todos os ministros ou secretários de Estado, que começaram por este argumento acabaram por fazer menos, pior e gastando mais recursos.
É que enquanto na actividade económica pura os recursos são finitos, e portanto o aumento de recursos implicados é um aumento de custos, na actividade cultural, por várias razões mas principalmente porque a natureza imaterial da fruição artística e cultural faz com que os seus produtos se exponenciam com a sua difusão, o aumento de recursos implicados quase sempre implica uma redução de custos. É por isso que a dinâmica cultural passa hoje muito pela comunicação, pelas redes, pelas parcerias, pelas co-produções. Por outro lado, dada a especificidade da produção cultural, a maior implicação numa comunidade significa menores custos de implantação.
Não é ainda uma espécie de epitáfio. É apenas um mau começo. José António Pinto Ribeiro vai estudar os dossiers. E se os souber ler com espírito de abertura e bom senso, perceberá isso.

terça-feira, janeiro 29, 2008

Alta Cultura perde Ministério da Cultura?

Não há dúvida, José Sócrates é um político de mão cheia. A escolha de José António Pinto Ribeiro para a Cultura é desconcertante. Acolhe a pretensão dos lobbys que se movimentaram contra Isabel Pires de Lima mas fragiliza-os dizendo-lhes que não é insensível ao que circula por aí de abaixo assinado e petição mas que não os reconhece enquanto fonte de agenciamento e recrutamento político , reforça o lado tecnocrático do governo trazendo alguém cuja ligação à Cultura no seu sentido mais restrito é bem menos conhecida do que a sua competência técnica enquanto jurista e, a cereja em cima do bolo, coloca como ministro da Cultura uma personalidade que a recoloca no plano mais alargado dos movimentos civis e cidadania.
Será que é desta vez que a Cultura Popular e Associativa ganha foros de cidade no Palácio da Ajuda, ainda por cima num contexto em que o INATEL ( que é, com as autarquias, o tradicional responsável pela implementação de políticas públicas neste sector) está a promover a sua mudança organizacional? Já agora, espero que o próximo ministro da Cultura arranje também disponibilidade para se debruçar sobre as políticas culturais de 95 a 99 e que saiba, como Manuel Maria Carrilho, responder que quando se fala em crise, devemos dar mais atenção à Cultura .

segunda-feira, dezembro 03, 2007

Kuduro, Fogo no Museke

Kuduro, Fogo no Museke de Jorge António
com Dog Murras, Tony Amado, SeBem, Fofandó, Puto Prata, Noite & Dia
Portugal / Angola, 2007 – 52 minutos
com a presença do autor, dia 6, 21h30, Sala Dr. Félix Ribeiro da Cinemateca Nacional “Kuduro, Fogo no Museke” é a 2ª parte de uma trilogia que o autor dedica à musica angolana, iniciada em 2005 com “Angola – Histórias da musica popular”. A partir das questões O que é o Kuduro? Porquê este nome? Porquê tanta polémica?, Jorge António oferece-nos um retrato social e cultural de uma nova geração, através de um género musical que ultrapassou fronteiras e se tornou já um fenómeno internacional.

terça-feira, outubro 30, 2007

Paisagem sem Título

Abriu-se-me no peito uma dor. Essa dor sou eu. Ou melhor, o meu modo de ser eu. Digo que é dor porque se parece com um enorme vazio que entra devagar, até ao osso do pensamento. Mas depois não dói. Ou pelo menos, eu não a sinto a doer-me. E já nem sei porque é dor. Acho que me habituei a chamá-la dor, a esta solidão. Habituei-me a fugir-lhe. Habituei a fugir-lhe e, nesse arrenego, a chamar-me eu. Mas eu sou tanto esse que foge das imagens - e confesso, que nos últimos tempos as minhas imagens doíam mais pelo lado do irreparável - como aquele outro que agora, na casa vazia, se apercebe que é pelas imagens que será salvo. Eu poderia por exemplo fugir eternamente da casa vazia. Chegar a casa extenuado de cansaço e afogar-me em torpor. Sou relativamente novo e o meu fígado, que tem sido bastante poupado nesse aspecto, ainda aguentaria alguns anos para me poder embebedar e morrer assim devagar num desprezo pelo universo inteiro. Não teria vivido como um poeta, não teria nunca almejado atingir a essência do poema mas morreria como um poeta. É uma morte credível para um tipo como eu, a de um poeta. Eu creio que muitos dos que me lêem esperam que eu seja um poeta. Até, os mais magnânimos, que eu viva como um poeta. Mas fugir eternamente da casa vazia não me convence. Prefiro menos poesia e mais realidade dos sentidos. Gosto por exemplo de me sentar ao fim da tarde na minha rede e ficar a ouvir as vozes amplificadas da capitania, ou um correr manso de uma embarcação. E deixar a tarde ser engolida pelo rio e depois, a escuridão da noite falar de uma redenção dos vivos. Ou, agrada-me pensar em ir para casa e pensar em ir comprar um pepino, um alho francês, uma beringela, cebola, alho, migar tudo muito bem e deitar numa frigideira com azeite a alourar. O som da frigideira e aquele cheiro a azeite quente estão na mesma categoria do Rimbaud que nunca leio, porque chego sempre a desoras e quando me doiem os olhos de cansados. Depois, se compro uma posta de salmão, uma dourada, ou se me deixo ficar apenas por uma noite de vegetais, não importa. Há muito que não tinha essa festa e recomeço nela devagar. Eu não sei como se vive. Sei que não há ânimo sem lugar. Claro que tenho medo, que tenho medos, muitas vezes vivo a dias, e nem é a dias, um dia em cada dia. Mas respiro melhor. Sei que ainda é dor porque tenho alguma dificuldade em reconhecer a festa. Vejo muita solidão. E não são os amigos que circunstancialmente partiram ou os que foram para sempre. Tudo isso alimenta a dor, claro. Mas a solidão só existe no homem ou na mulher que já não sabem o lugar para onde vão, ou melhor, que já não conseguem ver alguma alegria no lugar de onde vieram, todos os lugares acabam como escreveu o Sena, e ainda não têm a clarividência do lugar para onde tendem, uma espécie de purgatório dos aflitos, que é o lugar onde muitas vezes quebram os espiritos. Tenho alguma dificuldade em olhar a vida na sua crueza e dançar sobre o chão de cacos, de pedaços multiformes que me arranham os pés. Eu não sei o que é a vida, ninguém sabe. O que tento não é decifrar o mistério. O que tento é não ser devorado por ele. Filar os pés no chão, fincar os olhos na linha de um horizonte sensível e sobreviver ao embate. Há uma altura da nossa vida em que a solidão é o medo de não termos ninguém. Chegamos no entanto a uma idade que o problema é inverso: temos muita gente e não sabemos o que fazer com elas, as pessoas que temos. Dançar e cantar. Mas com quem verdadeiramente dançar e cantar? Andamos às apalpadelas no escuro. Até o sexo é supranumerário nesta inquietação. Não faltam modalidades para um homem adulto. Tudo isso são variantes do saber, do ter, e isso não resolve nada da dissociação entre um e o mundo onde está. É depois do embate do não saber que surge o instante poético. Antes a poesia, só nos almanaques das feiras de agricultura, nas quadras fáceis do jogos florais ou nos sonetos rebuscados dos poetas das antologias. Falo de um embate, por exemplo, no teatro. Ainda não desisti de fazer da minha vida uma coisa política.

quarta-feira, outubro 10, 2007

Dia de Sensibilização para a Intermitência

19 de Outubro de 2007
"Este comunicado que hoje está a ser lido em vários eventos culturais do país representa o sentimento geral dos profissionais das artes do espectáculo e do audiovisual.
Sabia que não há enquadramento jurídico que se adeque a estas profissões? Sabia que estes profissionais não podem estar doentes, grávidos, lesionados ou desempregados? Hoje é o nosso dia nacional de sensibilização para a intermitência. Dizemos que somos intermitentes porque o nosso trabalho é sempre descontínuo e temporário.
Essa é a natureza das nossas profissões!
Trabalhamos sucessivamente de projecto em projecto, com pessoas diferentes e isso implica a mobilidade dos profissionais e permite a diversidade das produções. Queremos ter acesso aos mesmos direitos e às condições básicas de qualquer trabalhador por conta de outrem.
Como estes, somos profissionais especializados, cumprimos horários, num local de trabalho específico, sob a direcção duma entidade.
Por todas estas razões, precisamos de uma definição legal de intermitência, que nos permita pagar a segurança social de acordo com o salário que recebemos e que nos proteja de situações de carência. Precisamos de um contrato de trabalho adequado à nossa realidade.
No último ano, representantes das áreas da dança, do teatro, da música, do circo, do cinema e do audiovisual têm vindo a apresentar e a defender propostas concretas sobre esta questão. Esperamos que este esforço resulte numa lei que nos sirva a todos.
Lembrem-se que apagadas as luzes da ribalta existe uma realidade que não pode continuar a ser ignorada.
Muito Obrigado e Bom Espectáculo! "
A minha pequena sala de espectáculos, o Respirar, também se associa a esta iniciativa e por isso no dia 19 voltarei a publicar este comunicado.

domingo, setembro 09, 2007

Projecto Ler Devagar / Eterno Retorno

Não há bela com senão: o novo espaço gerido pela Ler Devagar e Eterno Retorno é uma espécie de sonho, um sonho de olhos abertos. Ontem para além dos livros, das exposições, a performance organizada pelo Michel e a abertura da exposição fotográfica de Camilla Watson, onde, no princípio, ou no fim, se encontra a espantosa fotografia de D. Izilda a contar a idade pelos dedos. Não é um sítio para voltar. É mais um lugar para viver.

terça-feira, agosto 28, 2007

Brigadas da Contra-Informação.

Eu espero que aquelas horas esquecidas que passei na rede do limoeiro me tenham dado a teimosia suficiente para o confronto que quero ter aqui no Respirar com a linguagem. E eu já percebi pelos últimos posts que não será fácil. Há alguns anos Valere Novarina e o seu trabalho sobre o linguarejar tinham-me chamado a atenção para a necessidade imperiosa de devolvermos à linguagem a sua possibilidade interpelativa. Arrumei isso na gaveta do trabalho estético e criativo. Pensei, tenho de escrever como se escavasse um buraco no meio da linguagem. É nesse escuro, nesse negrume que a proferição se rejuvenescerá. Mas essa preocupação reservava-a exclusivamente para os meus textos teatrais. Sempre encarei o escrever no blogue como uma pré-escrita. Um lugar onde eu poderia ser e não ser, onde eu poderia ser inconsequente, inconstante, reflexivo, literário, piegas, sentimental, uma auto-terapia do existir.
Nestas férias pude no entanto perceber que as coisas estão bem piores do que eu pensava. Não se trata de uma questão estética. É uma questão política. Como blogger faço parte de uma comunidade bastante intelectualizada, quer dizer, que tem grande parte da sua vida construída através de referências do pensamento, da arte, da cultura, da política e por isso sempre desvalorizei o impacto da catástrofe que intelectualmente sentia que a linguagem estava a atravessar. Pensei que nos campos, nas aldeias, nas vilas, no interior das vidas amáveis que sempre soubemos construir estes artefactos comunicacionais não tinham quase valor nenhum.
Não é verdade. A situação é ainda mais catastrófica do que o meu pessimismo poderia alcançar. Já não existem campos, nem vilas, nem aldeias e as nossas vidas amáveis estão irreconhecíveis. O ter ido para férias quando o caso Maddie estava no seu epicentro deu-me a oportunidade para perceber que tipo de informação tem privilégios de produção de sentido fora dos grandes meios urbanos. É telenovela, noticiários e missa de domingo por esta ordem de importância.
O que tudo isto produz é um verdadeiro terrorismo da comunicação. Muitos de nós espantaram-se há uns anos com a possibilidade de implantação de retóricas fundadas no irracional como, por exemplo, a da guerra ao terror de George W. Bush. Ora o que aí vem ainda será pior, mil vezes pior.
E eu não sei o que verdadeiramente um blogger pode fazer, ou melhor, o alcance que poderá ter aquilo que ele pode fazer. Creio que nisso teremos de ter a paciência do agricultor que lança a semente ao chão e só saberá na primavera se o seu esforço foi produtivo. Poderemos começar a formar comunidades assentes no laborioso trabalho da contra-informação. Células anti-terroristas. Trabalharemos por casos como os terroristas da comunicação. Célula Contra Informativa no Caso Maddie por exemplo. Faremos reuniões de célula, de rede, de brigada no Second Life. Guerrilhas do pensamento. Pensar é estranho. Parece que nos afasta do lugar onde realmente estamos. E do lugar actual ainda mais. Provavelmente os vindouros já virão com o pensamento formatado para se adaptarem a esta reconfiguração ideológica da verdade, da mentira e já não sentirão esta nossa angústia de filhos da guerra fria.
A nós ainda é ela que nos ilumina.

sexta-feira, agosto 24, 2007

Dalila e o Estado

O caso de Dalila Rodrigues rebentou estava eu já a pensar em férias e por isso também em relação a ele estive offline. Mas no outro dia recebi um email de um amigo a convidar-me para assinar uma petição de apoio a Dalila. Fui lê-la e percebi que se tratava afinal de uma petição contra a política deste Governo em relação à cultura e muito concretamente em relação à actividade dos museus públicos. Não assinei, não me agradam estas petições dois em um. Ainda ponderei mandar-lhe um email a explicar-lhe porquê. Mas depois pensei melhor, as pessoas passam e repassam estas coisas e nem pensam muito a sério nelas, ele provavelmente nem iria compreender e iria gastar-lhe o seu tempo, e o meu. Além disso tenho eu um blogue para quê?
Eu assinaria todas as moções e petições e todas as cartas de reconhecimento e agradecimento ao trabalho que Dalila Rodrigues exerceu no Museu de Arte Antiga. Por outro lado não teria nenhum pejo em assinar um documento crítico em relação à política cultural deste ou de qualquer Governo, desde que em relação a domínios sobre os quais eu, com conhecimento de causa, pensasse que a acção do Governo era negativa. O que não me apetece é estar a assinar uma petição de apoio a Dalila que, como não é verdadeiramente uma petição de apoio a Dalila, não entendo.
No caso de Dalila Rodrigues, e li apenas a sua entrevista a um semanário e várias informações avulsas, bem como uma carta resposta de Manuel Bairrão Oleiro, eu creio que o grande apoio que se lhe pode prestar é deixá-la ir para a iniciativa privada. A alternativa seria nomeá-la directora do organismo gestor dos Museus mas não se vê como tal seria possível já que Dalila disse que não voltaria a trabalhar com esta ministra. É claro que se poderia pensar em substituir a ministra mas talvez isso seja um pouco excessivo. Além de que o primeiro ministro também não mexeu uma palha pela Dalila e por isso é natural que esta também não queira trabalhar com ele. Ora por muitos arrufos com que Cavaco possa querer pontuar o seu namoro com Sócrates, não creio que ele considere também uma situação que mereça o despedimento do primeiro-ministro.
Por outro lado, mesmo que tudo isso pudesse acontecer, e por mais brilhantismo que Dalila tenha, e os resultados que atingiu comprovam-no, ao ler a entrevista que li dela, fiquei com a pulga atrás da orelha em relação à real vantagem de ela estar a trabalhar para o Estado. Sinceramente creio que poderá ser um péssimo negócio quer para a Administração Pública quer para a própria. Fiquei com a impressão de que ela é uma daquelas pessoas que, numa Administração Pública fragilizada da definição de uma missão e de um sentido de missão, conseguem criar a sua própria missão de enquadramento, que, assim, funciona como uma pequena ilha. E que manejam os seus resultados pessoais como evidências que se sobrepõem à necessidade de uma integração numa dimensão mais global, seja um trabalho de equipa, seja uma directiva comum, seja uma politica integrada.
O director do organismo que gere os museus pode ter muitos defeitos, pode não perceber nada de museus, pode até não perceber nada de gestão de equipa, mas tem a obrigação ( e não o direito) de organizar a sua equipa em função dos resultados que pretende obter. E, perdoem-me o paralelismo com o mundo do futebol mas parece que se entende mais facilmente o futebolês, entre ter um avançado que marca muitos golos, ganha muitas botas de ouro mas trabalha pouco para a equipa e entre ter um outro com menos resultados espectaculares e mais sentido de equipa, ele tem o direito de escolher aquele que acha que vai produzir um melhor trabalho. É curioso que a visão de Dalila seria perfeitamente aceitável se defenida pela sua tutela, e teria o seu valor como um objectivo e um estimulo à gestão descentralizada, mas deixa de ser tão aceitável quando se trata de uma pressão para que exista uma política para os museus e uma situação de excepção para o Museu de Arte Antiga. É evidente que se Dalila Rodrigues enquanto Directora do Museu de Arte Antiga quer, desta forma, impôr a sua visão ao Ministério, será ponderável pensar que se ela ocupasse o lugar de Manuel Bairrão Oleiro talvez nem tivesse esperado que este tivesse acabado a sua comissão de serviço e muito menos, que tivesse levado à tutela a opinião do seu colaborador.
A narrativa do "autoritarismo político" deste governo, por muito que adquira vencimento por se ajustar como uma luva a algumas características idionssincráticas do chefe do governo, talvez não nos permita perceber este caso. É evidente que todos gostaríamos que Dalila pudesse continuar a fazer os seus brilhantes resultados no Museu de Arte Antiga e que ao mesmo tempo, a tutela pudesse continuar a realizar politicamente aquilo pela qual terá de assumir a sua responsabilidade política. Mas parecerá ilegítimo que uma directora de um Museu tente condicionar uma regulação política do sector usando para isso o seu prestígio e os tributos mecenáticos alcançados.
Dalila Rodrigues parece que tem uma visão do que deve ser a política de gestão dos museus que é descoincidente daquela que é a do Director da entidade que gere os museus e que, pressuponho, estará em consonância com a do Ministério da Cultura. É também uma acérrima contestatária do projecto lei que irá regular o funcionamento dos museus portugueses, defendendo um estatuto diferenciado, com uma dependência funcional do "seu" Museu ao nível do Ministério. Terá expresso isso ao seu Director que, por sentir que o que Dalila estaria a fazer seria o pôr em causa de algo que o transcendia, a remeteu para o Ministério, dando-lhe a entender que a partir daí seria uma conversa entre ela e o Ministério. Não sei onde isto poderá ser depreciativo para o Director. Ele poderia ter guardado para si o documento de Dalila, não, fê-lo seguir mesmo não concordando com ele.
Como disse percebo mal as razões e o enquadramento do que deve ser uma politica museológica. Do que li julgo que um dos diferendos principais entre Dalila e a sua tutela terá sido a de que esta entendia que os resultados de cada um dos Museus deveria entrar para um fundo comum e Dalila pretendia que os frutos do seu trabalho fossem geridos dentro do orçamento do seu próprio museu. A não ser assim, Dalila estava a contribuir para os outros museus. É claro que tudo isto é discutível. E Dalila Rodrigues terá tido oportunidade para o discutir. Primeiro em equipa, enviando um documento para o seu superior hierárquico que fez transitar a sua opinião até à tutela. Só que ela não conseguiu impôr a sua opinião. E terá achado necessário chamar à colação a opinião pública. Aquela para quem Dalila, como estrela da equipa dos directores de Museu trabalhava e onde estavam aqueles que viam os resultados do seu trabalho. Tentando através dela condicionar o próprio projecto-lei.
Não sei se sei do que falo, falo a partir do que sei: conheci e trabalhei com pessoas que em tudo, no brilhantismo, no egocentrismo, na capacidade de usar em benefício das suas estratégias pessoais de poder o crónico vazio de missão que grassa na administração pública, se assemelhavam a Dalila Rodrigues e que embora tenham conseguido ser personalidades públicas de primeiro plano na vida cultural portuguesa, hoje pouco ou quase nada resta dos trabalhos que lideraram, somente talvez - o que é decerto uma enorme injustiça que o tempo faz a estas pessoas providenciais - as incongruências. Conheci e trabalhei também com equipas criadas por dirigentes que lhes atribuiram missões clarificadas em torno de estratégias assentes em prioridades facilmente absorvíveis pela dinâmica dos respectivos organismos, que, por exemplo, investiram na informatização, na formação, no desenvolvimento de áreas novas de intervenção. Mesmo que algumas destas equipas, devido a processos de natureza política tortuosos tenham visto alguns dos seus dirigentes serem demitidos politicamente e os seus nomes enxovalhados por situações que o tempo ainda não esclareceu, hoje não há nenhum gesto funcional naqueles organismos que não sejam tributário do trabalho de equipa que neles foi desenvolvido.
E é por isso que eu acho que há alguma justiça na situação. E continuo a pensar, como já o pensava com Paulo Macedo, que o que precisamos na Administração Pública não é de mitos, de mitemas sobre resultados, sobre a propalada eficácia da iniciativa privada. Em terra de cegos qualquer gestor com uma folha de excel, um quadro de power point ou uma apresentação interactiva com resultados é rei, por mais breve que seja o seu reinado. O que precisamos é de um serviço público com missões correctamente defenidas, com equipas qualificadas e ajustadas ao seu desempenho, investidas de espirito de missão, integradas em planos de formação profissional, com experiências de gestão participadas. Se isso houver os resultados aparecem e de forma duradoura.
Ler também Sofia Loureiro dos Santos.