quinta-feira, janeiro 31, 2008

Não é (ainda) uma espécie de epitáfio

Ninguém esperava que eles dissessem nada de substancial. Apenas que gerissem as expectativas da surpresa das suas nomeações. O mago, que tinha tirado os coelhos da cartola, estava encarregue das declarações políticas. E fê-lo. Mas José António Pinto Ribeiro decidiu falar. E disse que quer " fazer mais e melhor com menos recursos". É uma daquelas frases que parece que cai sempre bem em qualquer lado. Embora talvez Salvador Dali, tivesse dito, "não importa o que fazes ou como fazes, desde que impliques os mesmos recursos", ou até, "não importa os recursos desde que faças o que fazes", José António Pinto Ribeiro preferiu inspirar-se no senso comum e apressar-se a declarar-se um bom aluno de Sócrates e da contenção do défice orçamental. Só que na actividade cultural há uma coisa muito simples, do mais elementar bom senso que parece ter-lhe escapado: na Cultura fazer mais e melhor é fazer com mais recursos. E principalmente, e o mais grave: todos os ministros ou secretários de Estado, que começaram por este argumento acabaram por fazer menos, pior e gastando mais recursos.
É que enquanto na actividade económica pura os recursos são finitos, e portanto o aumento de recursos implicados é um aumento de custos, na actividade cultural, por várias razões mas principalmente porque a natureza imaterial da fruição artística e cultural faz com que os seus produtos se exponenciam com a sua difusão, o aumento de recursos implicados quase sempre implica uma redução de custos. É por isso que a dinâmica cultural passa hoje muito pela comunicação, pelas redes, pelas parcerias, pelas co-produções. Por outro lado, dada a especificidade da produção cultural, a maior implicação numa comunidade significa menores custos de implantação.
Não é ainda uma espécie de epitáfio. É apenas um mau começo. José António Pinto Ribeiro vai estudar os dossiers. E se os souber ler com espírito de abertura e bom senso, perceberá isso.

8 comentários:

Anónimo disse...

Não será fácil fazer muito melhor com os mesmos recursos. Também não podem esperar -se declarações pertinentes de quem foi nomeado há 24 horas (quem não quer ser lobo não lhe veste a pele). O problema de fundo é a Cultura não contar para o PS, apesar de haver uns" visionários" (Carrilho?) que, de vez em quando, conseguem fazer umas "flores" com as "sobras" do OE. Mas, mesmo esses, quando têm alguma dignidade, acabam por "bater com a porta". Só medíocres, como a Pires de Lima e os seus acólitos, é que ficam na "sombra" à espera de não serem exonerados. Pese o CV do novo ministro, não devemos estar optimistas neste sector.
Os políticos do PS sempre oscilaram entre o deslumbramento pelo Emmanuel Nunes e a pimbalhice do Emanuel...

saudades disse...

Antes do 25 de Abril, era a Gulbenkian a entidade responsável pela Cultura (e Ciência) em Portugal.

Agora, parece que é a Fundação Joe Berardo.

Volta Salazar, estás perdoado

Cartouche disse...

Como comentários pimba não estão mal. Falta é fundamentar. Com o tempo veremos a dimensão da acção desenvolvida por IPL, nomeadamente a varredela que - pela 1ª vez - alguém deu no MC. O problema é que a sra não era do milieu, não tinha os compromissos certos. As pedras e os livros não falam, não vigiliam, não peticionam. Com o tempo veremos a dimensão da acção desenvolvida por IPL, nomeadamente a varredela que - pela 1ª vez - alguém deu no MC. A coisa para o governo tá preta e alguém tinha de ser culpado. proponho um fadinho que é património: "Ó tempo volta pr'a trás".

JPN disse...

Caríssimo Cartouche, à força de se repetir com a ideia de que ela deu uma varridela no MC, vincou ( eu disse vincou, para ficarmos no mesmo léxico) uma ideia que, seja qual for o sentido (literal ou figurado), deslustra o comportamento de Isabel Pires de Lima. E é claro, fundamenta tanto como os dois anteriores comentadores (com os quais não concordo). Mas também do mal o menos: antes sem fundamentos do que com fundamentalismos!

Cartouche disse...

Meu caro JPN:
Obrigado pela sua resposta cool. A repetição a que faz referência deve-se a um conjunto de circunstâncias que ocorreram no momento em que tentava editar o comentário. Mas, claro, touché, quanto ao erro formal, não quanto ao conteúdo.
"Varredela" significa, neste caso, racionalizar, organizar, regulamentar, sem muita cerimónia, concordemos. A sra fez um trabalho que ninguém esperava e pouca gente julgava possível, independentemente de casos pontuais e de estilo. Eu conheci, em tempos, o MC (quando digo MC refiro-me ao "interior" e ao "exterior"). Desde o último mandato de MMCarrilho (INCLUSIVE)que estava em roda livre com todas as consequências que (se) conhece: despesismo, amiguismo e muita lantejoula. Do meu ponto de vista, a ex-ministra teve, desde o início, a má vontade das corporações e das elites culturais, manteve uma linha inflexível de defesa do interesse público (fez poucos amigos e muitos inimigos), tratou de pôr em ordem o básico e o prévio e teve o grande defeito de acreditar que desta vez (com este governo) é que era.
Quanto ao resto sic transit gloria mundi e já o Herculano acabou a regar as "coives".
Sempre a considerá-lo.
Cartouche

JPN disse...

Caríssimo Cartouche,
a sua resposta é do tipo da do novo ministro sobre o seu primeiro objectivo. São verbos (de) para encher. Racionalizar, organizar, regulamentar são verbos que quando não conjugados com o estabelecimento claro de objectivos, de missões, empenhamento de equipas nesse cumprimento, significam mais despesa, menos lógica (senão a da batata) e regulamentação a rever no próximo apetite legislador.

Cartouche disse...

Bom, já percebi em que linha de diálogo estamos. E quando isso se percebe, aceitamos os argumentos mas, hélas, a conversa perde interesse. Eu não pretendi apresentar "o meu programa para a Cultura", nem me parece que para opinar se tenha de ter um (ou pensar ter). Repito: os comentários críticos a que reagi não fundamentam. E embora não tenha um programa para a Cultura, tenho algumas razões para "achar" (Acho, logo existo!)que algumas incompreensões se desvanecerão e outras compreensões se abrirão quando trabalho não mediático começar a dar resultados, quando a "má imprensa" se virar para outro lado, quando alguém do "milieu" começar a falar e a fazer, mas, claro, tudo isto é muito abstracto. Apesar, é claro, da sra ex ter cometido erros e nunca passar de Pires para chegar a chic. Grande abraço.

JPN disse...

Caríssimo Cartouche,
houve aqui um mal entendido. eu não penso que devas ter um programa para a cultura para pensares ou opinares ou achares seja o que for. E é evidente que os comentários anteriores também não fundamentavam nada.
a minha resposta ao teu segundo comentário é uma critica a ele (e que enquadrei no tipo de critica que fiz em relação o ministro). É o que eu acho. Acho que falamos de regulamentar, organizar, racionalizar para encher a boca de ar. E como pessoa que se considera beneficiária de um incremento da actividade cultural, estarei cá para reconhecer e agradecer as artes de vassourada da IPL. Embora duvide que isso aconteça em algumas áreas onde também tenho exemplos concretos de que este Ministério não racionalizou, não organizou e não regulamentou. Mas sim, tens razão mais uma vez, como cada um de nós, não sei se pelas mesmas razões, quer ficar com os exemplos no saco, a conversa começa a perder o interesse aqui. Outro abraço