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terça-feira, novembro 15, 2011

Cultura: provocação e debate

Há bastantes anos um jornal, num repto a umas declarações de Santos Silva, o ministro da Cultura de então, entrevistava uma série de intelectuais conotados com a Direita e a quem perguntava se a Cultura era de Esquerda. Pacheco Pereira, num célebre artigo, "O que não acontece no acontece", glosava também o tema. E eu, enquanto ia para o debate "A Cultura e a Greve Geral", que o Teatro do Bairro acolheu e dava pontapés nas pedras do caminho, hábito que tenho quando estou irritado ( hoje por causa da "livraria" Pingo Doce) ia cá pensando no título do debate, e a pensar que era bem curiosa a nossa relação com a cultura: achamos que ela é  o que os agentes culturais fazem e ainda mais comummente achamos que é aquilo que os criadores artísticos fazem . E essa produção cultural, e esses artistas - e por uma história que é bem mais complexa do que este post pode pretender contar - são geralmente conotados com os povos e as tribos de esquerda, da mesma forma que a área da economia - por razões bem menos complexas - é geralmente conotada com os povos e tribos de direita. 

Este tipo de maniqueísmo pode ser muito divertido mas distrai a nossa atenção de se concentrar numa coisa bem mais importante: a cultura não sendo o que os produtores culturais e criadores artísticos produzem, é tudo aquilo que as pessoas produzem como resultado da sua relação com os outros, com o mundo, consigo próprias, com os seus tempos livres, com os seus tempos de trabalho. Assim se passamos mais ou menos tempo frente a uma televisão,  nas associações de bairro, nas igrejas, em actividades de grupo ou individuais, nos corredores de um centro comercial, na entrega mais ou menos obcecada a satisfações da ordem do consumo, se vamos pouco ou muito ao teatro, ao cinema, a exposições, aos nossos jardins, passear à beira rio, visitar a família, fazer desporto, na internet, se temos ou não uma relação mais de usufruto através do consumo do que da participação, tudo isso são elementos importantes para definir culturalmente a comunidade onde estamos inseridos, porque todos esses gestos são carregados de cultura. Isso tudo e muito mais, claro.

Essa cultura não se explicita por protocolos claros: quem vai a um centro comercial passar horas a ver uma montra não sente que esteja a produzir cultura, e se na recepção não é claro, também não o é na produção. Sendo tão grande o prazer que as pessoas têm em ver as montras sem comprar nada seria natural que as grandes superfícies usassem esse espaço de mostra para se financiarem cobrando aos que por lá passam sem intenção de comprar. Quem trabalha numa repartição pública e durante oito horas por dia não produz outra coisa visível que não seja a obediência a uma chefia, está a participar culturalmente de uma relação que transcende a relação laboral. Quem trabalha numa empresa privada durante oito horas e se vê confrontado com uma redução de salário por causa de crise e a crise e mais a crise e o raio que o parta, está a participar de uma relação cultural que é maior do que a relação profissional. Essa cultura que não se explicita por protocolos claros ao não necessitar que a comunidade participante se assuma no acto cultural, cria uma espécie de estado de sonambulismo cultural que se traduz por um estado de constante recepção que não sendo marcado por um começo e um fim tem no zapping o seu momento de libertação da tensão receptora. 

E é entre estes dois tipos de produção cultural que estamos: uma, marcada pela relação com objectos caracterizados e claramente definidos no campo cultural feitos por agentes identificados, autorizados para produzir factos e artefactos culturais e que promove uma relação mais ou menos clara de recepção.  Outra, erupção simbólica e criação de imaginários e identidades em catadupa, produzida por espaços onde não é suposto existir uma relação de criação/produção/cultural, como centros comerciais, estádios de futebol, discotecas, bares, televisão, etc. 

Por exemplo, quando se fala que o dinheiro para a cultura desceu mais uma vez com este orçamento, não é totalmente verdade. Desceu para a actividade cultural realizada pelos tais agentes licenciados, identificados e autorizados a produzir cultura. Mas aumentou por exemplo para o Ministério da Administração Interna. Ora como uma das marcas da produção mais recente desta cultura de um certo estado sonâmbulo é o discurso securitário em torno de um anunciado aumento da conflitualidade social, o investimento feito nas forças de segurança pode ser entendido como um investimento cultural. 





segunda-feira, setembro 19, 2011

Num ter razom

Breves palavras. Dividido por outras plataformas, Artistas e Públicos Indignados, pelo facebook que nos permitiu realizar o evento e começar a juntar este punhado de pessoas que vão aclarando a sua intervenção, o tempo é menos que pouco para este pequeno momento reflexivo de que necessito no meu respirar. Preciso de não desabitar este encontro comigo. Já não é apenas nele que tenho a minha força, houve alturas em que sim, há muitos anos, hoje já tenho passos de pessoas em volta de mim, mas mesmo assim preciso de abrir este buraco, esta caverna onde me empenho na escuridão possível. Mas agora quero apenas festejar este pequeno grupo que trocou centenas de mensagens facebookianas, que se gastou em emergências diárias onde o humor se misturava com a ideologia, a ideologia com a política, com a filosofia e tudo isso com um afecto que advém do facto de sentirmos que estávamos a construir alguma coisa em comum. O quê? Não sei, não sabemos. Aproxima-se de uma evidência política sobre o papel da arte e da cultura na vida quotidiana, na cidadania. A minha prática política mudou nos últimos meses. Deixei de ir para a inacção política por ter medo de errar, por poder estar enganado. Também porque compreendi que a minha intervenção enquanto cidadão é a deste campo. O da cultura e o da arte. E isso muda desde logo o paradigma político: na arte e na cultura construímos processos para aprofundarmos visões sobre um determinado assunto. Não precisamos de ter razão previamente. Precisamos de a encontrar na sombra fresca dos caminhos, nas veredas íngremes e socalcadas dos percursos.

segunda-feira, março 08, 2010

Parlamento, Governo e...Espírito Santo

A ideia de que com o fim do regime salazarista-marcelista os grandes capitalistas, os grandes latifúndios e o poder oligárquico, perderam o seu domínio social e político é uma falácia que nos habituámos a propagar . A reportagem que o Público traz hoje, sobre o poder económico da família Espírito Santo (e não é de admirar que o mesmo se tenha passado com Champalimaud) é um rude golpe nessa teoria: há muitos governantes eleitos democraticamente que ombreiam com o regime fascista nesse proteccionismo reverencial.

quarta-feira, fevereiro 24, 2010

O que é que nós ganhamos com isto?

O Rui Tavares lança, como uma questão recorrente, a pergunta que anda de boca em boca, nem sempre pelos melhores motivos: O que é que nós ganhamos com isto? Confesso que quando vi a Inês Medeiros aparecer na lista de deputados do PS, para além da maior simpatia que tenho por ela, e onde se inclui o reconhecimento como actriz e realizadora, fiz a mesma pergunta. Não foram precisos muitos meses de assento parlamentar para ter percebido a resposta, através da sua proposta sobre os chamados precários.
É uma situação que só aparentemente é de incidência minoritária. Ou seja, só o é se nos ativermos ao campo da produção. Porque se percebermos os seus reflexos no campo da recepção cultural, então estamos a falar de um campo de influência que nos integra a todos nós enquanto comunidade. É mais um cerco, e dos fortes, aos já muitos, com que se debatem aqueles que se dedicam à área cultural e artística. Para os quais, na sua grande maioria, a chamada precariedade, é condição permanente, acabando assim por, paradoxalmente, verem agravadas as suas obrigações fiscais. É claro que para a visibilidade política desta questão, que está integrada numa dinâmica internacional, contaram, de forma decisiva, as iniciativas politicas dos chamados movimentos dos precários e dos recibos verdes, e de forças como o Bloco de Esquerda. Isso não impede que, quando voltar a olhar Inês Medeiros no Parlamento e me perguntar, mas afinal o que é que nós ganhamos com isto?, seja natural que a resposta me venha em forma de sorriso reconhecido.

O que (não) fará um governo da esquerda socialista?

Recebi uma informação sobre um colóquio que a Cultra- Cooperativa Culturas do Trabalho e Socialismo vai realizar sobre o tema : O que fará um governo de Esquerda Socialista? O debate proposto envolve especialistas das várias áreas em discussão. Carvalho da Silva, Francisco Louçã, João Semedo, Mário Vale, Francisco Ferreira, Fernando Oliveira Baptista, Virginia Ferreira, Conceição Gomes, António Nóvoa e José Manuel Pureza são oradores e as suas intervenções serão comentadas por não menos ilustres cidadãos e cidadãs. É já no próximo fim de semana, numa jornada que ocupa a manhã e a tarde e se realiza no anfiteatro do Liceu Camões, e que se ocupa de temas como trabalho e segurança social, economia e finanças, saúde, cidades e ordenamento territorial, desenvolvimento rural e das pescas, igualdade, justiça, educação e politica externa e defesa.
Se procurou sem encontrar a palavra cultura, teve a mesma decepção que eu. Já estamos preparados para que os governantes, os governos, quando no poder, não manifestem a miníma atenção pela cultura. À direita, à esquerda, ao centro. E muitas vezes perguntamo-nos porquê. A resposta parece simples: é que mesmo quando na oposição, quando ainda só são o governo que queriam ser, a discussão política não inclui nos seus mapas de debate, a questão cultural, quer se entenda de um ponto de vista mais restrito, a actividade cultural, artística e científica, quer se entenda de um ponto de vista mais alargado, a vida associativa, os quotidianos, as dinâmicas socio-culturais.

segunda-feira, dezembro 21, 2009

A voz humana

Para mim é da ordem do mágico, o gravador. Gravar uma voz, nessa tessitura subentender uma vida, uma história, um país. Tudo aquilo a que num repente de lucidez e de ternura chamámos O outro. Vou parecer antigo: sou do tempo em que a magia do Outro nos fazia reverbrar. Gosto por isso da magia das reportagens e das entrevistas. Aprendi, desde muito novo a gostar de ler Oriana Fallaci. Ou a ler as entrevistas aos meus filósofos de culto e afecto, Bertrand Russel, Sartre, Karl Popper. Bergson. Guardo, já nem sei onde, mas sei que algures neste mundo há caixotes de recortes de jornais que eu coleccionei, com entrevistas a todos eles. Há pouco tempo, a propósito de umas entrevistas que fiz a Marcantónio Del Carlo e ao João Didelet, para ajudar à divulgação do espectáculo (eu fiz a assessoria de imprensa de Figuração Especial), voltei ao género e gostei. Já antes, para o making off da Desobediência tinha entrevistado (com imagem do Joaquim Diabinho) o Rui Mendes. Eram coisas que eu deixara de fazer há muitos anos. Tinha-o feito para a Revista o Actor e para o Dn Jovem. Levo muito a sério isso. Gosto de ler, pesquisar a informação e gosto do pequeno confronto que há numa entrevista. É uma espécie de jogo em que, quando vale a pena, ninguém sabe muito bem quem conduz o quê. Foi o que me aconteceu quando falei com Faustin Linyekula. Eu estava com receio, o meu francês estava empoeirado. E pela primeira vez tinha um repórter fotográfico comigo. E entrava e saía gente do camarim. Eu conheço os ambientes. Fiz assessoria de imprensa no Teatro da Trindade. Mas eu só pensava, estes gajos todos vão perceber que eu não percebo nada disto. O próprio Linyekula, um tipo simpático e disponível mas que queria fazer a conversa comigo antes do ensaio, e a quem eu disse que esperava o tempo que fosse preciso mas que só falaria com ele no final, vai chatear-se comigo e dizer-me, precisamos de tradutor. E eu vou enfiar o rabo entre as pernas, matar aquele sonho incompleto de entrevistar, pensar, perdi muito tempo, agora só se voltar a acreditar na transmigração das almas - teoria que fugazmente segui quando me apaixonei por Somerset Maughan (meus deus, sou tão antigo!!!) -e esperar que na próxima reencarnação seja desde muito novo jornalista. Felizmente não aconteceu isso. Gostei da minha estreia na Rua de Baixo. Aqui. E já agora, saboreiem as imagens do Rui de Freitas.

terça-feira, julho 21, 2009

Manifesto de cidadãos

Ao assinar este manifesto de cidadãos deixei expresso um comentário onde aludia a
" algumas dimensões de uma política cultural que me parecem essenciais. Uma delas é de haver uma definição de políticas activas do Estado em relação às práticas culturais e artísticas feitas por amadores, integrando-as, correlacionando-as, cruzando-as, interligando-as, com os restantes dimensões da actividade cultural e artística.Um exemplo prático: por todo o país, o associativismo cultural e artístico ligado à música, ao teatro, à dança, à etnografia, ao folclore, às expressões plásticas, imagem, entre muitas outras, absorvem uma energia, uma disponibilidade, uma entrega que é comummente aceite como um tempo que reverte para a construção da nossa identidade colectiva e comunitária, num processo que se associa, para muitos de nós, à vivência de uma cidadania mais activa, mais participada, mais co-responsável. Sabendo o quâo dificil é para a logística do quotidiano a gestão dos tempos de não trabalho, porque não consagrar no código de trabalho esse reconhecimento da comunidade para com os seus "carolas", para com os seus dinamizadores e animadores, incentivando a este tipo de participação? Quando me refiro a inscrição de políticas culturais activas para estas actividades culturais feitas por amadores, não apelo directamente à expansão do modelo do subsídio em vigor para as actividades artisticas de natureza profissional e considerado muitas vezes a sua componente principal. Estou a dizer em primeiro lugar cartografar estas actividades, colocá-las no mapa da actividade artistica e cultural, potenciando a sua articulação com o tecido profissional , com a academia, com a educação, assumindo que a sua grande importância para a vivacidade e o dinamismo das nossas comunidades o será tanto mais quanto elas forem capazes de ser, para além dessa escola de desenvolvimento pessoal e cultural dos cidadãos que nele participam, lugares onde a comunidade se projecta, se reconstrói, de partilha, naquilo que é a sua identidade, as suas histórias, o tempo que passam juntos uns diante dos outros, e em que isso seja o procurar de formas próprias de expressão e não apenas a mimetização, a reprodução e a valorização acrítica do que de melhor - e muitas vezes o pior- conseguem captar da actividade artistica e cultural de natureza profissional com a qual convivem de forma ad-hoc, sem apoio. Estou a falar de introdução de dispositivos de solidariedade cultural que acabam por dar um melhor impulso á actividade cultural e artística no seu todo. Estou a falar de se reconhecer como um valor a forma como cada um de nós, sozinho ou em grupo - independentemente de fazer disso a sua profissão - não abdica da arte e da cultura para fazer da sua vida e da comunidade onde se integra, uma festa."

sábado, junho 13, 2009

A cultura ao poder (1)

No resclado das eleições europeias verifico que nenhum dos partidos ou movimentos concorrentes abordou ou defendeu alguma ideia sobre a Cultura, a Europa Cultural. É uma recorrência que a política cultural é uma ausente dos programas políticos dos vários partidos politicos e aí a esquerda não é excepção. Ora eu estou muito preocupado com esse aspecto quando olho para Portugal. Já é tempo de cobrarmos aos nossos políticos a (in) capacidade de defenirem políticas activas para a promoção da actividade cultural e artística. O que se passa em Portugal nos domínios da actividade artística e da actividade cultural? Que politicas públicas existem para a actividade cultural amadora? Para a cultura de expressão popular? É preciso colocar o dedo na ferida. Devemos exigir do Estado que defina as suas competências nestes campos, clarificando o que se espera ou não que a iniciativa pública faça nestes domínios. Nesta noite de santo antónio este post não poderia ir senão em forma de telegrama, mas numero-o, assinalando desde já a vontade de regressar ao tema e de lhe dar alguma continuidade.

terça-feira, maio 05, 2009

O poder é a alegria de viver e de criar

Há muitos anos atrás numa casa dos olivais onde escrevinhávamos todos na parede, fiz minha esta inscrição que li na parede central da sala: "Saúde é a alegria de viver e de criar". Quem a tinha escrito era Arlete Canhoto Abreu, professora de enfermagem de profissão (a quem se deve, entre outras façanhas, a introdução no modelo pedagógico da Escola Superior de Enfermagem Calouste Gulbenkian de Lisboa de vários tipos de dinâmicas expressivas).
Repetia-a milhares de vezes. Nas aulas, em comunicações e sessões públicas, com amigos, em solilóquios privados, à moi même. Ela é um programa, do berço à cova. Depois comecei também a fazer uma pequena derivação desta frase: o poder é a alegria de viver e de criar. Era eu animador em vários projectos de animação sócio cultural em diferentes lugares de Lisboa. Uma das chaves do trabalho de animação é vincular a comunidade, uma determinada comunidade, à ideia de que pode. De que pode fazer, de que pode conduzir uma acção, de que pode realizar uma iniciativa, um projecto, um programa. A ideia de possibilidade é indispensável ao trabalho do animador. É claro que para isso ele tem de se centrar na estratégia de tentar realizar o que pode e não se deixar cair na inércia por causa daquilo que não pode fazer. É um clássico da animação, não o vou repetir.
O importante é que isto transporta uma ideia sobre o poder que o ajuda a libertar-se de uma carga negativa que, como uma capa, vem revestindo a nossa forma de o pensar. E consequentemente do sequestro da ideia de que ele só pode ser exercido inconvenientemente. A ideia de que o poder corrompe, de que ao poder ninguém escapa, faz parte do imaginário popular e religioso. A nossa ideia do poder geralmente deprecia e maltrata o seu exercício, seja ele qual for, numa sala de aula, num consultório médico, no gabinete do director, do director geral, do presidente, do presidente geral, em suma, do chefe. Ora isso, esse discurso anti-poder, já o escrevi aqui várias vezes, é muitas vezes, paradoxalmente, a substância onde militam discursos extremistas que pretendem disseminar o ódio. O discurso anti-poder é um discurso carregado de ódio. É claro que uma coisa é o exercício do poder, outra a do mando. Parece que se confundem, o exercício do poder parece integrar também a faculdade de mandar, mas talvez seja útil tentar arranjar alguma destrinça entre eles. Um surge mais focalizado na capacidade e autoridade de organizar e gerir os recursos, fisicos e humanos, para a concretização de uma qualquer meta, o outro na autoridade de dispôr desses mesmos recursos.
O exercício do poder corrompe tanto como o exercício da impotência. Vi-o muitas vezes no decorrer da minha experiência profissional. Corpos e espíritos que tinham sido ágeis e sagazes apresentavam-se ressequidos por uma tortura exigente do culto da impotência. Uma escola da cidadania a sério deixar-nos-ia um dia ser chefes de qualquer coisa para experimentarmos as virtudes e os vícios do exercício do mando. Seriamos, à vez, mandantes e mandados. Depois, na vida a sério, seríamos menos prepotentes, menos autoritários, e também, menos paus mandados. Porque é preciso acreditar no poder e na sua conjugação republicana para o libertarmos da doença da incompetência, do autoritarismo serôdio. Tenho presenciado ao longo da minha vida inúmeras situações em que o exercício do mando é feito por incapazes sem capacidade autocrítica para perceberem a sua incapacidade de o exercerem e por detrás deles encontro quase sempre paus mandados descrentes no poder, na república. Numa república é, ou deveria ser, tão fácil destituir um prepotente e um incapaz. Só uma cultura antidemocrática que de costas voltadas para os trinta e cinco anos da nova república grassa tanto entre mandantes como mandados pode justificar que abramos o nosso século XXI com tantos relatos de surreais abusos de poder.
Penso nisto enquanto aqui a nova direcção faz a habitual visita de cortesia pelos serviços. Vem acompanhada pelo seu staff directo, constituido por duas pessoas que, em diferentes momentos da minha vinda para esta instituição, chefiei. E isso leva-me de repente para uma viagem no tempo, a pensar sobre o poder, a minha relação com ele. Fiz um percurso original nestas coisas do exercício do mando. Fui chefe bem poucas vezes na vida e detestei. A primeira foi aqui, quando inaugurei o posto de sub-chefe da esquadra, da fragata. O que eu amarguei! Como queria ser bom - talvez mais bonzinho - fazia questão de receber todos os que me pediam para serem recebidos. E como isso é impossível não consegui livrar-me do facto de algumas pessoas acharem que eu era arrogante, incompetente, autoritário. A certa altura comecei a dar-me conta de que as vozes desses, a quem não recebia, ressoavam mais alto dentro da minha cabeça do que as dos outros, a quem recebi e que me gabavam a paciência. É aliás impressionante o número e a diversidade de pessoas que passa pelo gabinete de um sub-chefe de esquadra ou, neste caso, foi isso que eu comecei por ser, de fragata. Apresentadores de televisão, embaixadores, altos representantes da república, actores, escritores, encenadores, uma aristocracia intelectual de um burgo que muitas vezes se agiganta quando visto pelo buraco do próprio umbigo. Por outro lado o exercício do poder é desgastante para personalidades, como a minha, socialmente inseguras, que são muito vulneráveis ao cochicho, ao dito em surdina, aos jogos de poder. Não gosto de me confrontar com os outros. Os milhares de eus que já fui descendem ainda daquele meu eu primevo e originário que se especializou na incorporação para fugir à confrontação. Ainda por cima, para aumentar a minha aversão ao exercício do mando, o comandante da fragata era aquilo que eu chamava um conspirador Lucky Luke: passava a vida a disparar contra a sua própria sombra e inclusive contra mim. Aguentei durante um ano e dois meses. Ao fim desse tempo, por circunstâncias próprias da vida que nos levam no sentido contrário àquele que queremos ir, subi mais um degrau no exercício do mando: passei a substituir um chefe a sério, com direito a vénia e salamaleque e correspondente repercussão na folha de vencimento. Assim inchado e untado fui chefe, durante mais ou menos seis meses, o tempo que durou a substituição. Não guardo especiais recordações desse tempo senão aquelas que resultam do contacto directo com as pessoas, do trabalho em equipa, da sensação de promover um espírito de grupo e do facto de eu gostar muito do trabalho da esquadra. Mas percebi que entre mim e o exercício do mando há quase que uma incompatibilidade genética.
E como só sou anarquista na intimidade, não tenho outra escolha senão agradecer haver alguém que se disponha a essa ingrata tarefa de me governar e de se sujeitar ao nosso escrutínio desse exercício (escrutínio que tem aumentado substancialmente nestes últimos trinta e cinco anos de república). Deixei de ser como aqueles milhares de crianças rebeldes que se revoltam em surdina contra os chefes. Agradeço-lhes a generosidade em prescindirem de muitos prazeres das suas vidas para nos governarem. Sem grande ajuda minha. Uma das poucas coisas que, pelo exercício do mando alheio, me disponho a fazer, e tenho-o feito ao longo destes anos todos, é reflectir, é escrever. Aliás por todos os sitios onde passo, também aqui, sou tido como um intelectual, com a minha gaveta cheia de textos que fui fazendo. A maior parte deles nunca são lidos. Alguns por vezes são treslidos, lá pensam, olha este quer ser chefe de esquadra. Que se lixe, penso sempre que enceto um novo, devo à República isso: o dever de dar o meu melhor para que possa ser mais bem governado. E se nos preocuparmos muito com o que os outros pensam acabamos por dedicar muito menos tempo ao desenvolvimento da nossa mundivisão. E a vida é um instante, meus amigos, menos do que um instante, um sopro.
Há uma única excepção na minha desafecção pelo exercício do mando( e não do poder): o teatro. O teatro é um universo à parte, um lugar que não é deste mundo e que não se rege pelas mesmas regras que a vida de todos os dias. Aprendi-o a custo. Lembro-me que uma vez uma actriz me disse, durante um ensaio, que eu era um falso democrata. Já não sei sobre o que é que era, tinha a ver com o facto de eu estara tentar que o grupo seguisse a minha visão, creio. É bom que nos digam estas coisas - se um dia conseguirmos concluir que a vida nos tornou melhores pessoas muito deveremos a estes murros no estômago que levamos - mas confesso que na altura fui ao tapete. Durante esse e outro espectáculo que dirigi a seguir tornei-me num chefe envergonhado, muito vulnerável a uma crítica sobre a menor elasticidade e abertura da minha condução do processo de criação.
Até que compreendi que em teatro, enquanto processo de criação colectivo, o poder não é exercido de uma forma democrática. É dificil de explicar mas se assim fosse, nunca teriamos feito "O Lugarzinho no céu" como o fizémos. Quando sugeri que o personagem Mirov, ucraniano, falasse em russo para a sua mulher na terra natal, colhi de surpresa o grupo. Uma votação sobre o assunto teria logo arrumado a questão e teria possivelmente destruído um dos aspectos de maior choque do espectáculo com o público. É claro que esta suspensão da norma democrática no acto criativo assenta num prévio grande respeito pela pessoa enquanto actor e criador. A criação de um espectáculo é um lugar onde o exercício da autoridade, de uma forma mais intensa, se espelha na alegria de viver e de criar, no exercício da amabilidade. Na força, na poesia, no corpo-a-corpo, esse amor tão moderno e tão antigo.

terça-feira, março 10, 2009

A Deus o que é de Deus, ao Palco o que é do Palco

Ver aqui algum do trabalho do Palco Oriental.
Lembrar-me-ei sempre daquele sábado à noite em que, depois de assistir à "Peça da Máquina", escrita, encenada e interpretada pelo João Jorge Loureiro (Meirim) para o grupo de Teatro Patolas - um dos resíduos culturais (nem tudo é tóxico nesta vida caramba)activos da intensa agitação cultural lançada nos idos de 75 na zona oriental de Lisboa, no bairro de Marvila - nos cruzámos os três, eu, do grupo de teatro o Buraco, a funcionar no Marítimo de Xabregas, o Vinas, do Roda, um grupo dissidente dos Patolas, e o João Jorge dos Patolas, a falar desta má-sorte de nos primeiros anos da década de 80, querermos fazer teatro naquela zona. Decidimos então que em vez de sermos três grupos desmembrados iríamos juntarmo-nos todos e darmos a cara pelo grupo de teatro mais forte. Era sem dúvida Os Patolas, grupo que já tinha sido dirigido pelo Cândido Ferreira e pelo Horácio Manuel,actores do grupo de teatro O Bando, que tinha trambalhado na animação teatral daquela zona oriental.
Decidimos então arranjar um espaço. Sabíamos de um, ao cimo da Calçada Duque de Lafões (o número 78 se a memória não me atraiçoa, nem vou verificar, estas coisas do lembrar são assim), onde uma associação, o Voo Livre, fazia festas e actividades. Não tinha mais uso senão esse e o de a sala principal ter uns colchões de ginástica de uma colectividade que ficava a meio da rua. Servia também para uma senhora, que teria sido da antiga comissão de moradores, guardar batatas e cebolas. Numa garagem contígua funcionava clandestinamente uma oficina de carros. Estávamos no principio do anos oitenta e estas coisas aconteciam assim, mesmo ao lado da fábrica de sabões.
Se bem o pensámos melhor o fizémos. Pedimos para poder fazer uma apresentação dos espectáculos mas já tinhamos planeado a ocupação do imóvel, subtraindo-o às batatas, aos colchões e às festas, transformando-o numa casa de cultura e teatro. E lá conseguimos, com uma grande tensão. Tanta, que na véspera da estreia da Peça da Máquina recebo o telefonema do Meirim, desolado, a dizer-me, é pá, os tipos roubaram o cenário todo. O cenário todo era lixo, o que nos fez ganhar uma notícia no Correio da Manhã, "Cenário de lixo roubado no Teatro Imagem", era assim que se designava o espaço, por causa de um projecto teatral que por lá tinha passado. Foi ainda nessa altura que, nesse espaço, fizémos, o António Souto, a Celeste Craveiro, o Armindo S. e eu, o primeiro recital de poesia DN JOVEM.
E começou aí uma batalha feroz que nos levou dias, noites, horas. Benditas horas, todas as horas, mesmo as difíceis, as malditas, que desci e subi a Calçada Duque de Lafões e em que aprendi o abc da animação social e comunitária. Coube-me trazer para lá um dos grupos que acabou por ajudar a caracterizar mais o Palco Oriental, a Máscara Teatro de Grupo (fenómeno teatral que deveria um dia ser estudado, projecto de Rui Pisco, Pedro Wilson e mais tarde, Pedro Alpiarça). Principalmente o Pedro Wilson, através do Triato do Beato, nascido nos Cursos de Teatro dados pela Máscara nas escadinhas de Belas Artes, e que foi um aliado activo do João Jorge Loureiro (Meirim) que, desde que entrei com ele lá até hoje, e já passaram vinte e seis anos, tem sido o elemento mais activo e persistente de todo este processo. Foi também aí que comecei a trabalhar profissionalmente, ensaiando a História de uma Cozinha, de Horácio Manuel, num grupo que ele criara para trabalhar com as escolas.
Desde a altura em que deixei de ir ao Palco Oriental até hoje tudo mudou. A Associação do Palco fez um esforço por chamar artistas, por partilhar o espaço com outros grupos, por dinamizar a vida cultural da zona. Há uns anos envolveu-se numa disputa com a Igreja, que pretendeu ( e está em vista de conseguir) recuperar na justiça um espaço que nunca foi verdadeiramente seu.
É mais uma história triste, daquelas em que a Igreja não sai muito honrada. E creio que também acaba por demonstrar um erro estratégico (eu só me apercebi disso hoje ao ler a crónica do Desidério Murcho, no Público, "Religião e Moral"). Mais do que tentar ganhar a batalha nos tribunais, mais do que tentar ganhar a batalha na opinião pública (mas a opinião pública está-se ralando para estas coisas de tipos que na zona oriental nunca baixaram os braços e insistem numa trabalho sobre a cultura e o teatro), errámos - e digo errámos porque no momento em que há uma acção de despejo sobre uma decisão do Supremo Tribunal de Justiça, não me parece que a situação seja facilmente reversível - quando não tentámos perceber que a Igreja não são só os que a coberto da saia e da batina procedem ao tráfico de influências, mas sim também aos que nas pequenas comunidades religiosas mantêm viva a sua fé, a sua prática e tentam melhorar-se. Esses, se bem informados, poderiam talvez perceber que dar cabo da vida cultural de um espaço como o Palco Oriental é um acto pouco cívico, pouco ético e muito pouco religioso. Mais próximo dos vendilhões do templo que de Jesus.
Assine a petição online.

quinta-feira, outubro 23, 2008

A Cultura perdeu o estatuto político (ou o mistério dos seis milhões de euros)

"Lisboa, 15 Out (Lusa) - O ministro da Cultura disse hoje que o seu ministério "cresce pouco, mas cresce alguma coisa" em termos de Orçamento de Estado para 2009, com uma "variação positiva de 0,4 por cento".
(.../...)
O ministro indicou que apesar da estimativa de execução orçamental apresentar para este ano uma despesa do Ministério da Cultura de 217,7 milhões de euros e da despesa prevista para 2009 ser de 212,6 milhões de euros (uma variação com um decréscimo de 2,3 por cento), o orçamento inicial do ministério da cultura para este ano era da ordem dos 211 milhões de euros e portanto há uma variação positiva de 0,4 por cento.
Na explicação do ministro, a diferença de seis milhões de euros entre o orçamento inicial de 2008 e a estimativa de execução deve-se aos reforços concedidos pelo Ministério das Finanças.
"O ministro das Finanças permitiu-nos reforços durante o ano de 2008 em função de executarmos tudo rigorosamente", disse Pinto Ribeiro, apontando algumas alterações em relação ao que acontecia no passado.
"O ano passado houve um afogadilho, coisas que levaram a que o orçamento não fosse feito com grande rigor e com grande perfeição", criticou.
(.../...) "Para o ministro, a leitura dos números "não é evidente, nem fácil, mas houve uma variação mínima positiva".
Pinto Ribeiro afirmou ainda que no próximo ano o Ministério da Cultura vai contar pela primeira vez com um montante de 3,5 milhões de euros de verbas provenientes do jogo que estavam até agora canalizadas apenas para o Turismo, considerando esta atribuição "um sinal político essencial".
[excertos de uma notícia retirada da net]
O orçamento de 2008 para a Cultura ( segundo as contas que Ana Drago há tempos apresentou na sua interpelação ao ministro) foi de cerca de 0,2 % do O.G.E. . Esta percentagem - que é uma vergonha para um orçamento elaborado por um governo de socialistas que tinha como meta da sua governação atingir 1% do OGE - sofre, diz o ministro, um ligeiro aumento em 2009.
É verdadeiramente escandaloso e demonstra a insensibilidade deste governo para as dinâmicas culturais, para a produção de riqueza material e imaterial que elas significam. Gostava de poder escrever "o Partido Socialista tem de repensar rapidamente o seu programa e as suas ideias políticas para a cultura" e ser levado minimamente a sério. Não serei. A possibilidade de um Orçamento como este chegar a ser formulado só pode dizer antes de mais que a Cultura perdeu qualquer estatuto político.
É nesse contexto que as declarações do ministro surgem como absolutamente delirantes. Começa por dizer que em 2008 pensou em gastar 211 milhões de euros e que em 2009 vai gastar 212,6 milhões (pequena habilidade contabilística: os valores de 2008 não têm decimais o que faz com que intuitivamente façamos a diferença a partir dos 211 milhões, o que dá 1,6 milhão de euros. Mas se formos seguir a indicação de que se traduz num aumento de cerca de 0,4 por cento, já dá valores próximos dos 211,8 milhões de euros, com uma diferença da ordem dos 0,8 milhões de euros).
Poderíamos ainda assim compreender uma satisfação por ter mais 0,8 milhões de euros. É pouco, mas poderíamos, estamos habituados a um miserabilismo tal nesta área que poderíamos entendê-lo. Só que o contentamento com que Pinto Ribeiro acolhe a ideia de pela primeira vez, o que é na sua opinião um sinal político essencial, ter mais 3,5 milhões para a cultura vindos do jogo, faz-nos desconfiar da sanidade política do ministro. Se, tal como a dupla Carrilho-Nery, o reforço de dinheiros para a cultura tivesse vindo do PIDDAC e se se viesse somar às verbas do OGE ainda concordaríamos com o gáudio. Mas não. Percebemos que os 212,6 milhões de euros são afinal 209,1 milhões de euros assumidos directamente nos custos de exploração do OGE e 3,5 milhões e meio provenientes da receita do jogo (desconheço se sobre os dividendos de 2008 ou os que se esperam de 2009) que até agora estava a ser só canalizada para o Turismo. O que quer dizer que se, por exemplo, em 2010, o OGE decidir que as verbas do jogo são divididas pelo Turismo, pela Segurança Social, pela Cultura e pela Educação, a Cultura pode vir a ter um rombo significativo (como o terá agora o Turismo) porque de facto o Estado deixou de assumir da mesma forma cerca de 3,5 milhões do Orçamento da Cultura. Tudo isto não precisa de ser exactamente assim. Todos sabemos como a crise, o sentimento de crise, exponencia o jogo. Mas daí a querer-nos fazer passar por tolos devia ir uma grande distância para um ministro da República.
Só que o mais grave são as explicações para o reforço do Orçamento da Cultura em 2008: segundo José António Pinto Ribeiro a Cultura gastou mais seis milhões de euros (2,8%) porque o ministro das Finanças o permitiu, já que executaram tudo rigorosamente. Estas declarações só passam impunes porque um ministro que tem 0,2 do OGE pode ser politicamente inimputável. Em primeiro lugar, não indo ainda para o aspecto da cultura política que este argumento evidencia, não foi este ministro que acabou de demitir o conselho de administração do Teatro Nacional D. Maria II por desvios orçamentais, gestão incapaz e pouco rigorosa que, alegadamente segundo o ministro, rondam os dois milhões de euros, e que se aproximam assim de um terço do reforço de verba de 2008? Que rigor?
Em segundo lugar o Estado gasta mais seis milhões de euros e a única coisa que o ministro tem para dizer é que esse reforço de verbas acontece porque o ministro das finanças deixou porque eles tinham sido muito rigorosos nas contas? E já agora uma explicação para esses seis milhões ( que investimentos houve assim na área da Cultura em 2008 que ainda ninguém deu por isso?!) a mais, não? Para onde foram? O que os justificaram? E como é que um ministério que gasta mais seis milhões de euros do que o que previu sem que desse excesso haja alguma evidência de ganho significativo no País, pode ser rigoroso nas contas a ponto de receber um reforço?
Não me interessa muito explorar este jogo de espelhos dos números do orçamento. Embora seja uma tentação, no deserto que parece ser a actuação do Ministério. Não devemos no entanto deixar de assinalar uma revolta pela idiotia. José António Pinto Ribeiro não é um idiota. Já deu provas que é tudo menos um idiota. Portanto se ele fala como se fosse um idiota - ou como se falasse para idiotas - isso só quer dizer que no plano político o discurso sobre a cultura * - para além de ter perdido grão, estatuto e lugar - perdeu qualquer tipo de respeito que poderia ter pelo povo.
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* e não nos desculpemos com os jornalistas que não fazem as perguntas que qualquer um de nós faria. Por exemplo, uma daquelas cuja ausência é mais chocante: onde é que houve afogadilho, falta de rigor e perfeição no orçamento de Estado de 2008?

sexta-feira, outubro 10, 2008

Nunca estive em Bagdad no Pax Júlia, em Beja

"Nunca estive em Bagdad é uma história de amor durante a guerra, perto e longe, muito longe de Bagdad. Glória e Rogério mudaram uma vez mais de casa e estão na situação de ter de arrumar de novo as suas coisas. Vivem a rotina dos dias e o amor é como é. O mundo vive a guerra no Iraque e Rogério é um viciado da informação televisiva, e não consegue despegar do monitor, enquanto Glória vive um drama íntimo, quase intraduzível: uma doença obriga-a a uma delicada operação e a sujeitar-se a um difícil tratamento. Vai sobreviver e será exemplo de optimismo. E o amor? Sobreviverá também? Irá Rogério a tempo de compreender? No final da guerra, eles têm a casa arrumada. E a vida?"
Abel Neves FICHA TÉCNICO-ARTÍSTICA:
Texto: Abel Neves
Encenação: António Revez Interpretação: Ana Ademar e Ricardo Brito Música: Paulo Ribeiro Companhia de Teatro Lendias d’ Encantar De 8 a 10 – Teatro – Nunca Estive em Bagdad, de Abel Neves pelo Grupo de Teatro Lendias D'Encantar – 22h

quinta-feira, setembro 18, 2008

Orçamento da Vergonha: 0,2%

".../...Com efeito, desde 2001 a percentagem do Orçamento de Estado atribuída à cultura tem vindo a reduzir-se consecutivamente, passando dos cerca de 0,7%, verificados nesse ano, para 0,2% em 2008. Uma redução, portanto, para menos de metade do já de si escasso financiamento do sector, o que contraria claramente a promessa eleitoral do Partido Socialista, que no seu Programa de Governo assumiu o compromisso de, "em matéria de financiamento público da cultura", "reafirmar o sector como prioridade na afectação dos recursos disponíveis", estabelecendo "neste sentido, a meta de 1% do Orçamento de Estado dedicada à despesa cultural", como "referência de médio prazo" necessária a "retomar a trajectória de aproximação interrompida no passado recente."
Da interpelação de Ana Drago ao Ministro da Cultura feita na passada 2ª feira.
Assunto irrelevante. Um extraterreste que pousasse no nosso país se avaliasse a coisa pelo impacto das notícias deduziria que os temas importantes da cultura portuguesa na reentré tinham sido o ping-pong entre José António Pinto Ribeiro e Carlos Fragateiro. Os zero vírgula dois por cento, esse orçamento de e da vergonha para um governo cuja base de eleitorado é o Partido Socialista será, no espaço público, totalmente engolido pela entrada triunfal, já anunciada para 1 de Outubro, de Diogo Infante no Teatro Nacional D. Maria II. Esta é a reentré cultural num país de cafres, diria Eça, de filhos da puta, acrescentaria Alberto Pimenta. Como é possível termos chegado aqui? Ainda me lembro de Manuel Maria Carrilho ter saido de ministro porque Guterres se esqueceu da promessa eleitoral de 1% para a Cultura. Com duzentos milhões e meio de euros para gerir talvez seja desperdício ter um ministro. Um director-geral dava bem conta do recado.

domingo, agosto 10, 2008

Andanças pela Cultura Popular

Mais uma edição do Andanças em Carvalhais, S. Pedro do Sul. Por incrível que pareça, já que há uma multidão crescente que procura este acontecimento, está mais limpo, menos poluidor. Os copos de plástico foram abolidos. A caneca de metal do Andanças impôs-se. O resto, o mesmo de sempre. O Andanças é irrepetível na forma como se repete, de ano para ano. Quase que podia fazer este festival de olhos fechados e só cá vim umas quatro vezes. Oriento-me pelo som dos palcos. Os sons da américa latina e da europa são predominantes. Alguma África também está presente. E, Portugal. O Folclore. Ao andar por este festival encontro uma das experiências mais felizes da integração da cultura popular e da festa com a juventude. Lembro-me de Redondo Juniór e do seu "A Juventude Pode Salvar o Teatro?", e, ao ver estes participantes de um grupo etnográfico local misturados com jovens de todas as idades, parafraseio mentalmente, a juventude pode salvar a cultura popular, resgatá-la do território mórbido onde ela é o bombo da festa, das festas, a flor de rendilhado do discurso político de conveniência, e trazê-la para esta dimensão de alegria, de confraternização, de abertura do espírito que Carvalhais tão bem corporiza.

quarta-feira, julho 16, 2008

- 1%

não falem de cultura, de arte,
e não se refugiem atrás do menos um por cento
à mesa do orçamento régio,
por favor,
falem de negócios,
no pouco respeito pela república,
falem de política dos negócios.
Assim entenderemo-nos melhor.

quinta-feira, junho 26, 2008

Folk Justice

Nunca confiei neste homem. Em grande parte porque tenho uma tendência natural para detestar os aparentemente bem sucedidos na vida, os que parece que nasceram em berço de ouro, aqueles que conseguem perpetuar o berço com a vida dourada. Está-me na massa do sangue a inveja e, combatê-la, é, desde sempre, um dos meus trabalhos de personalidade mais exigentes. Também desconfiei dele enquanto dirigente do Benfica. Desconfio de todos aqueles que vão para a presidência dos clubes de futebol para darem os seus milhões (seja em contos seja em euros). O futebol é uma máquina de fazer dinheiro e, algum dele, ílicito, pelo que, no meu modesto entendimento, aqueles milionários que estejam genuinamente imbuidos de altruísmo encontrarão - antes de se atascarem no futebol - muita obra social ou religiosa para exercerem a sua mais pura filantropia. Desconfianças à parte: a forma como se tratou este caso, tendo a imprensa dita séria ido atrás dos reclames da assumida menos séria, é sinal de que algo vai podre no reino da Dinamarca. É irrelevante para o caso em questão, o exercício da justiça, se ele mora numa mansão de cinco andares ou num casebre térreo, se se conduz numa carripana em segunda mão ou num Bentley com motorista, se vai a festas ou se vê ténis ou se anda a mendigar pelas ruas. Isso é o que se chama atirar areia para os olhos do povo ou tentar manipular os seus sentimentos. Até porque numa coisa Vale e Azevedo tem razão: mesmo que ele seja um crápula para a sociedade, digo benfiquistas, credores, aqueles a quem lesou e terá lesado, há coisas que não se compreendem, e uma delas é o arrastamento deste homem pela barra dos tribunais e pelas prisões portuguesas. Leio que já esteve preso seis anos. Por mais graves que tenham sido os seus crimes económicos a justiça não o poderia tentar julgar de uma vez em relação a todas as suas pendências? Senão parece que a justiça está a - involuntariamente creio - ajudar a eternizar a figura do bobo da corte. Mais uma vez Vale e Azevedo tem razão: o episódio dos seus quinze segundos de liberdade (deviam ser punidos os agentes da justiça que permitiram que ele fosse achincalhado publicamente, a folk justice ainda não é género de cultura popular subvencionada), apenas pode dar algum gozo a pessoas como eu que, manifestamente, o detestam por aquele seu ar de sonso e de protegido pelos céus e pela fortuna.

sexta-feira, junho 06, 2008

O Rock e a amiga

Ontem, numa volta pelas redacções por causa de um pequeno espectáculo numa pequena sala deste teatro, percebi o frenesim, e a deslocação de massa de ar que ía dos jornais em direcção ao Parque da Belavista. E a mim só me acudia aquela frase de Camilo Pessanha ao amigo Alberto Osório de Castro, tinha ele trinta e poucos anos, dando-lhe conta da sua vontade:"fugir, fugir sempre, até que a morte me recolha!".

quinta-feira, abril 10, 2008

Depois da precoce alegria dos porcentos

No outro dia o ministro das Finanças disse que Portugal estava mais bem apetrechado hoje para enfrentar a crise. Era a alegria precoce e intranquila dos porcentos. Os porcentos que nos pôem bem com os outros, connosco mesmos. Não tenho dúvida de que sim, de que estará. Só que depois me ocorre uns outros porcentos, unzinho, que ouvi uma vez Manuel Maria Carrilho explicar como a causa primeira de ter saído do Governo de Guterres. Não me vou agora pôr aqui a tentar justificar os porcentos bons ou os porcentos maus. Claro que isso tem importância. Mas tem importância de outra maneira. Tem importância porque expressa a indiferença com que olhamos para a dimensão criativa e expressiva da nossa existência neste mundo. É isso que está em causa, sempre foi. Quando olhamos para o espelho das nossas necessidades, a forma como a cultura, o conhecimento, a abertura ao outro, são ou não suficientemente entusiasmantes para justificar modos de vida.

quarta-feira, abril 09, 2008

Ouço as notícias sobre a agressão na Escola da Boavista. Lembro-me deste texto, onde falava de um dos projectos mais interessantes que enquanto animador pude desenvolver, exactamente no Bairro da Boavista, a partir da Escola do Bairro, que conheço relativamente bem, já que trabalhei lá durante dois anos. Voltarei ao tema.

quinta-feira, março 27, 2008

Ressurreição

Era domingo de Páscoa numa pequena igreja em Sintra. A liberdade é isto, podermos fazer o que nos dá na real gana e assim, sem necessidade de outras justificações, vi-me a mim mesmo, agnóstico confesso, num tempo, numa filial da ICAR, a assistir a uma missa que integrou um baptismo. É certo que fiquei em pé - e não foi para relembrar o sofrimento das minhas missas de juventude, em que contava mentalmente as páginas do missal para saber quanto tempo ainda tinha de missa - mas para que a qualquer momento pudesse sair. E não o fiz por outra razão que não o frio que se entranhava pela noite de Sintra: comecei a olhar aqueles crentes, um a um. Os que cantavam, os que liam, os que genuflectiam. Os que ouviam o sermão. Lembrei-me também do meu pai. Até aí eu nunca tinha conseguido imaginar o meu pai no púlpito. Sei que ele foi padre, já aqui falei várias vezes disso. Mas não o imagino no púlpito. Na memória que tenho ele é demasiado humano para o conseguir imaginar vestido com aqueles hábitos, a pregar. E, contaram-me, o meu pai era um daqueles padres oradores, a quem eram entregues recorrentemente os actos de pregação.
O padre que eu ouvi, embora utilizasse uma expressão chã, simples, que potenciava a comunicação com os fiéis, não era um tribuno muito eloquente. Nem tinha grande rasgo nem especiais efeitos de oratória. Talvez por isso, passados cinco minutos em que os seus truques de prosódia se revelaram, centrei-me nos fiéis. Ali, iluminados pelo calor das velas, daquela luminosidade ténue, não me pareciam iguais a todas as pessoas que encontro na rua. Algumas cantavam e as suas vozes trabalhadas ressoavam pela igreja. Outras liam, e faziam-no com solenidade. Estavam serenos a ouvir a pregação. O tema era a ressurreição. O padre ligou o tema à ecologia, ao cuidado com o mundo, à preocupação com a energia, com a água - a fonte de tantas guerras disse - com aqueles que sofrem. O discurso nada tinha de relevante. A única coisa que ali se distinguia era a minha surpresa por me ter tornado incapaz de pensar que os católicos, quando reunidos, falem do mundo em que vivem. Olhei os fiéis, tentando perceber de que forma é que tudo isto actua, produz sentido na vida quotidiana em que me cruzo com muitas destas pessoas, a maior parte das quais não conheço.
É extraordinário para um agnóstico há muito afastado com a igreja dar-me conta deste espaço de doutrinação, de apologética, em que se constitui um sermão, uma pregação. Estas pessoas vêm todas as semanas sentar-se aqui para escutarem um homem, que lhes é apresentado como seu pastor espiritual, e que lhes fala de livros, das Escrituras, do Evangelho. Vou imaginar que não conheço a ICAR ( o que não deixa de ser verdade, eu creio que é por isso, por já a conhecermos tão bem que a deixamos de conhecer e é por isso também que de repente algo se descontextualiza e surge o espanto). Um livro é um livro em qualquer parte do mundo, é cultura. Aquelas pessoas vêm das suas casas a uma determinada hora de domingo para se sentirem irmanadas. Quer dizer, irmãs. Vêm partilhar uma mesma visão hermenêutica de um livro. É engraçado, muitas daquelas pessoas são capazes de dizer que há muito não lêem um livro. É também verdade que o Evangelho, se tornou muito menos livro e muito mais pedra.
O que vejo agora: uma centena de pessoas em torno de um livro, de uma parábola, de um sermão, de uma ideia de procura espiritual. Não esqueço o resto. Não esqueço Caeiro, e tudo no céu era estúpido como a Igreja Católica. Não me detenho nas suas qualidades nem nos seus (imensos) defeitos. Aqueles não são a minha tribo, se algum dia a tiver. Eu, que também procuro os meus irmãos, a minha irmandade, a minha fraternidade, como diz a minha mãe, quando se refere aos seus franciscanos. Mas fico ali, a ver aquele trabalho de iluminação interior daquelas pessoas que estão na igreja. A forma como entoam as vozes e nesse ressoar está toda uma devoção ao céu, à religião, ao infinito. Não me parecem muito diferentes daqueles que se encontram num espectáculo, seja ele de teatro, de música, de poesia. Saio para a serra de Sintra um pouco mais humano, ou melhor, a imaginar-me num mundo um pouco mais feito de carne e osso.