Há trinta e um anos aprendi a desmanchar a minha vida na sala de tapetes vermelhos da Comuna Teatro Pesquisa. Foi uma viagem, um aprendizado num curso de expressão dramático dirigido pelo João Mota. Numa altura em que todos precisamos de ter os nossos mestres, aprendi com ele a vontade de ser verdade, de querer ser autêntico, de não ser auto-complacente. Ele tinha 38 anos. Hoje tem 69 anos e voltou a dar-me uma grande lição. A de que não há uma idade para baixarmos os braços. O orçamento é importante mas não é tudo. Serve até, muitas vezes, para replicar uma atitude de consumo na cultura, a mesma atitude consumista que queremos muito sinceramente contrariar na sociedade. Há muitas coisas de base que o Teatro D. Maria não faz e que não têm a ver com dinheiro. Tem a ver com uma ideia de teatro. O corte brutal no orçamento do Teatro D. Maria II coloca um problema sério, grave. Diogo Infante achou que não o conseguia resolver. João Mota achou que pode tentar fazê-lo. E gostei das suas palavras: “Nunca pensei em dirigir o Nacional. Aceitei porque é um desafio, tal como foi um desafio fundar A Comuna no pré-25 de Abril, sem dinheiro, sem apoios e em ditadura. Não sei se vou ser capaz, com tão pouco dinheiro e um corte tão grande.Menos 36% é muita coisa, mas vou tentar, com muita energia.” E conclui: “Tenho coragem para isso e também me dará muito prazer tentar. O país está em crise, todos temos obrigação de tentar, de fazer a nossa parte.”
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sábado, novembro 19, 2011
sábado, maio 08, 2010
Miserere
Quando estava a trabalhar na reportagem de Miserere, para a Rua de Baixo, encontrei esta entrevista na Pastoral da Cultura. Surpreeendeu-me saber que havia uma Pastoral da Culturae a forma como se dedicava a olhar o trabalho de um grupo e de um encenador que de certa forma, coloca em causa o olhar da Igreja. Já na conversa colectiva que tinhamos tido a seguir ao ensaio de imprensa eu tinha encontrado essa surpreeendente fragilidade em que Cintra se aceitava colocar, expondo-se com grande franqueza, na sua busca pessoal. Tenho pena, que no mercado das cousas culturais, tudo isto passe como se o pudéssemos meter na caixinha minguante da atenção que damos ao teatro, aos objectos teatrais.
segunda-feira, março 29, 2010
Tempos do teatro
[Dario Fo]
No outro dia lembraram-me a ausência de registo no blogue do dia da poesia. E ontem, ainda terá sido mais grave: o Dia Mundial do Teatro e nem uma palavra, uma anotação (exceptuando os parabéns ao Apicultor, é o seu dia também). E participei, lá no meu teatro. Vimos o Havia um menino que era pessoa. E mostrei o teatro aos que vieram à nossa visita mensal. No dia anterior vi a Balada da Margem Sul, de Helder Costa. Os tempos do teatro começam a ficar perplexos, interessantes: A Família Portuguesa, no Teatro Aberto, de Filomena Oliveira e Miguel Real, A Balada da Margem Sul, na Barraca, Édipo, no D. Maria II, Não se ganha não se paga, de Dario Fo, no Teatro da Trindade. É, como diz Mark Deputter, o teatro a querer ser político outra vez?
sábado, março 20, 2010
A Inquisição. Ressoador
Por uma daquelas sortes do meu trabalho, vi-me dentro daquela sala da Escola António da Costa, com o grupo de teatro da Universidade Sénior de Almada, projecto dirigido pela Helena Peixinho (mais uma sorte, esta da minha vida e já com quase vinte anos, a de ser seu amigo) que irá ser um dos grupos a fazer acompanhamento criativo do espectáculo "D. Quixote", pelo Bando, a partir da peça de António José da Silva. Foi o primeiro encontro, com dois elementos do Bando encarregues de dinamizar esta proposta original. Trata-se de criar um vínculo com um determinado grupo que se constitui como um observador privilegiado do seu processo de trabalho, assistindo a ensaios, falando com criadores, dando a sua opinião. Hoje iremos até Vale dos Barris com o Refugiacto, na semana passada estivemos no Passos de Manuel e anteontem foi a fez do teatro sénior. Este contacto com o seniores, pelo testemunho de vida, de vontade e entusiasmo, provocou-nos a todos uma profunda impressão. Quando começámos a conversar sobre a época da (curta) vida de António José da Silva, uma palavra se impôs: a Inquisição. O forma como o acto inquisitório era lançado. Bastava uma denúncia, uma denúncia anónima, sem nenhuma prova, e sabemos, muitas delas eram movidas pelo interesse em eliminar concorrentes em negócio. Feita esta, lançado o procedimento inquisitorial, era o acusado que iria alimentar a sua própria fogueira, no sentido em que tudo aquilo que iria responder, iria servir para construir o fundamental do processo. Quando estamos a falar disto automaticamente começa a vibrar em mim um ressoador, levando-me até aos dias de hoje. Estamos tão próximos, nisto, dos tempos da inquisição, ou, melhor, estão tão próximos, nisto, os comportamentos fundadores do auto-de-fé. Já não há o cheiro a carne humana queimada mas ainda existe o júbilo da praça em delírio diante da condenação à morte de um relaxado.
sexta-feira, setembro 11, 2009
domingo, agosto 30, 2009
Memórias ao pé da estante
[Imagem daqui]
Não sou muito dado a exercícios do género, o que é que eu poderia ter sido se não tivesse trilhado o caminho que sou. É claro que há coisas que me suscitam um campo saboroso para dúvida. A minha vida, como a vossa, não tem clarividência nenhuma e por isso dou pontapés nas pedras, ou vejo passar comboios. Aliás, eu nunca confessei, assumo isso como se fosse um castigo, para não darem por mim, pela minha satisfação, adoro ver passar comboios. Excita a matéria poética que há em mim. Ao contrário, e voltando ao fio condutor, das conjecturas sobre o que poderia ou não ter sido a minha vida se, por exemplo, e agora que penso nisso, nos finais de 80, em vez de dar por finda a minha carreira de actor tivesse dito que sim ao convite do Leandro do Vale para ir numa digressão aos Açores e à Suiça com o Teatro em Movimento, ou ao Castro Guedes, para um espectáculo no Teatro de Vila Real? Ou se, a meio de noventa, tivesse respondido positivamente ao desafio do Carlos Narciso quando ele, olhando a leva de estagiários que se lhe apresentavam, se vira para o Luís e para mim e diz, vocês vêm para os Casos, ok? Ou quando aquele leitor do DN Jovem me telefonou a oferecer um belo emprego porque tinha ficado seduzido por um porra no final de uma frase. Ou se eu não tivesse dito sim ao Carlos Fragateiro, quando ele em 96 me convidou para ir para o INATEL, onde muitas vezes temo vir a apodrecer de tença certa e contentamento satisfeitinho. É saboroso para mim pensar que poderia ter vivido de outra maneira, mas nada me motiva a gastar muito tempo com esse tipo de conjecturas. Sou um pequeno pau de madeira levado pela brisa, a minha vida é isso, e está muito bem. Não é só com os textos, como este, que gosto de perder tempo, é com tudo. Este texto está a gastar o meu tempo e o vosso. Anda deste o princípio a evitar falar do verdadeiro impulso que o trouxe à superfície digital onde escrevo. Perdulário do tempo. É assim que me vejo. Rio-me da imagem que eu forneci aos outros até aos meus trinta e poucos anos: um tipo determinado que sabia ao que ía e vinha. Apetece-me, tenho gosto em ter sido esse, mas não seria capaz agora de vestir essa farpela um segundo que fosse. A brisa do vento trouxe-me bem para longe dessa certeza. E agradeço-lhe o ter-me deixado conservar o humor e o relativismo, que me faz tão bem ao fígado. Vou finalmente terminar o texto com aquilo que o designou: há pouco, ao procurar alguns livros na estante, ao ver que ainda bem que não mandei às urtigas as dezenas de peças de autores portugueses que fui guardando (tal como se fizesse colecção de objectos excêntricos), fiquei contente por ter querido e podido crescer ao pé do teatro; fiquei a pensar no imenso privilégio que foi poder ter crescido ao pé, ou ao lado, ou dentro de experiências como as da sala de tapete vermelho da Comuna, com os nossos gritos e exorcismos; da sala das escadinhas da Esbal, com a desbunda organizada da Máscara Teatro de Grupo, do Pisco, Wilson e Alpiarça; do palacete da D. Carlos I onde o Luigi e o João Grosso, entre tantos outros percursores do movimento okupa montaram o estandarte da Culturona; das salas e corredores escuros do Teatro Imagem, Centro Cultural e depois Palco Oriental; da intencionalidade vagabunda da Oficina do Grotesco do Luis Beato e da Maria Morais, da Rua Mimo Trupe dos Joões, o Ricardo e o Carneiro; do teatro na escola, com o Horácio e a Fátima, abelhas trabalhadeiras, é o que éramos ( fazíamos num dia espectáculos para quatrocentas, oitocentas crianças, todas sentadinhas e perfiladas no chão das P3, uma récita de manhã e outra à tarde); daquela sala da Rua da Fé onde a Águeda Sena dirigia o Teatro Espaço, onde, entre outros que nunca mais vi, conheci o Júlio Martin, a Manuela Pedroso, o António Fontinha, o João Simões e o José Figueiredo Martins; dos fabulosos Encontros Acarte a fazerem de Lisboa uma cidade onde era importante estar; a daquele buraco na Alexandre Herculano onde a Barraca nos deixava brincar com o Estás a Ficar Careca, Hermengarda!, dos espaços alternativos como o Teatro do Século, ou outros, como a Ocarina, onde vi espectáculos de não alinhados, a Ângela Pinto, o João Grosso, o Miguel Abreu, aquele delicioso O Paraíso não está à vista do Maizum; as salas atulhadas de fumo dos Encontros de Teatro para a Infância e Juventude, onde as conversas e os debates se prolongavam até às tantas, o pessoal adorava falar, o Brites gesticulava, o Caldas cantava, um dia há que estudar os anos oitenta no nosso teatro. Das salas do Conservatório onde a Gisele Barret, o Ryngaert, o Vautelet, o Monod, o Voltz, o Lemaiheu, o André Marechal, nos levavam - pelas mãos, e teimosia do Nóvoa e do Fragateiro (com a ajuda, entre muitos outros, da Paula Folhadela, do Beja e do Gil) ao coração do movimento internacional da expressão dramática. Os setenta ficaram na nossa memória, por causa do aparecimento de companhias independentes que estão também associadas a um período onde o teatro estava muito visível, o teatro estava na rua, era uma grande cegada a nossa vida, os noventa beneficiaram da visibilidade que a Gulbenkian, o Acarte,a Madalena Perdigão (que já antes, no princípio de setenta tinha ajudado a criar e a fortalecer o movimento renovador da educação pela arte) conquistaram para a garagem, para a pequena sala, para o experimentalismo, mas os oitenta, os oitenta até porque muitos grupos que tinham uma grande criatividade no modo como experimentavam a sua expressão teatral sucumbiram à autêntica lotaria que eram os apoios do Estado ao teatro, os anos oitenta cairam num buraco de onde quase nada do que é relevante ficou para a memória futura. Sobrevive ainda, na pele dos vivos, quando olho para o Miguel Guilherme, para o Zé Pedro Gomes, para a Lucinda Loureiro, Ângela Pinto, Wilson, Pisco, vejo uma espécie de conta-me como foi do teatro dos anos oitenta, mas terão de vir os investigadores para retirarem a película de pó, de acáros, e iluminarem um pouco a importância dos anos oitenta para o nosso teatro.
Estou em pé diante da estante. Apoio, como faço sempre, o cotovelo numa prateleira, curvo o corpo. É sinal de que vou ficar aqui muito tempo, por regra só um entorpecimento muscular prenúncio da caibra me fará sair daqui. Não faz mal. Mesmo que já não leia os livros, apenas os títulos, depois são os títulos que me lêem a mim, nunca regatearei o tempo que passo diante de uma estante.
terça-feira, maio 05, 2009
O poder é a alegria de viver e de criar
Há muitos anos atrás numa casa dos olivais onde escrevinhávamos todos na parede, fiz minha esta inscrição que li na parede central da sala: "Saúde é a alegria de viver e de criar". Quem a tinha escrito era Arlete Canhoto Abreu, professora de enfermagem de profissão (a quem se deve, entre outras façanhas, a introdução no modelo pedagógico da Escola Superior de Enfermagem Calouste Gulbenkian de Lisboa de vários tipos de dinâmicas expressivas).
Repetia-a milhares de vezes. Nas aulas, em comunicações e sessões públicas, com amigos, em solilóquios privados, à moi même. Ela é um programa, do berço à cova. Depois comecei também a fazer uma pequena derivação desta frase: o poder é a alegria de viver e de criar. Era eu animador em vários projectos de animação sócio cultural em diferentes lugares de Lisboa. Uma das chaves do trabalho de animação é vincular a comunidade, uma determinada comunidade, à ideia de que pode. De que pode fazer, de que pode conduzir uma acção, de que pode realizar uma iniciativa, um projecto, um programa. A ideia de possibilidade é indispensável ao trabalho do animador. É claro que para isso ele tem de se centrar na estratégia de tentar realizar o que pode e não se deixar cair na inércia por causa daquilo que não pode fazer. É um clássico da animação, não o vou repetir.
O importante é que isto transporta uma ideia sobre o poder que o ajuda a libertar-se de uma carga negativa que, como uma capa, vem revestindo a nossa forma de o pensar. E consequentemente do sequestro da ideia de que ele só pode ser exercido inconvenientemente.
A ideia de que o poder corrompe, de que ao poder ninguém escapa, faz parte do imaginário popular e religioso. A nossa ideia do poder geralmente deprecia e maltrata o seu exercício, seja ele qual for, numa sala de aula, num consultório médico, no gabinete do director, do director geral, do presidente, do presidente geral, em suma, do chefe. Ora isso, esse discurso anti-poder, já o escrevi aqui várias vezes, é muitas vezes, paradoxalmente, a substância onde militam discursos extremistas que pretendem disseminar o ódio. O discurso anti-poder é um discurso carregado de ódio. É claro que uma coisa é o exercício do poder, outra a do mando. Parece que se confundem, o exercício do poder parece integrar também a faculdade de mandar, mas talvez seja útil tentar arranjar alguma destrinça entre eles. Um surge mais focalizado na capacidade e autoridade de organizar e gerir os recursos, fisicos e humanos, para a concretização de uma qualquer meta, o outro na autoridade de dispôr desses mesmos recursos.
O exercício do poder corrompe tanto como o exercício da impotência. Vi-o muitas vezes no decorrer da minha experiência profissional. Corpos e espíritos que tinham sido ágeis e sagazes apresentavam-se ressequidos por uma tortura exigente do culto da impotência. Uma escola da cidadania a sério deixar-nos-ia um dia ser chefes de qualquer coisa para experimentarmos as virtudes e os vícios do exercício do mando. Seriamos, à vez, mandantes e mandados. Depois, na vida a sério, seríamos menos prepotentes, menos autoritários, e também, menos paus mandados. Porque é preciso acreditar no poder e na sua conjugação republicana para o libertarmos da doença da incompetência, do autoritarismo serôdio. Tenho presenciado ao longo da minha vida inúmeras situações em que o exercício do mando é feito por incapazes sem capacidade autocrítica para perceberem a sua incapacidade de o exercerem e por detrás deles encontro quase sempre paus mandados descrentes no poder, na república. Numa república é, ou deveria ser, tão fácil destituir um prepotente e um incapaz. Só uma cultura antidemocrática que de costas voltadas para os trinta e cinco anos da nova república grassa tanto entre mandantes como mandados pode justificar que abramos o nosso século XXI com tantos relatos de surreais abusos de poder.
Penso nisto enquanto aqui a nova direcção faz a habitual visita de cortesia pelos serviços. Vem acompanhada pelo seu staff directo, constituido por duas pessoas que, em diferentes momentos da minha vinda para esta instituição, chefiei. E isso leva-me de repente para uma viagem no tempo, a pensar sobre o poder, a minha relação com ele. Fiz um percurso original nestas coisas do exercício do mando. Fui chefe bem poucas vezes na vida e detestei. A primeira foi aqui, quando inaugurei o posto de sub-chefe da esquadra, da fragata. O que eu amarguei! Como queria ser bom - talvez mais bonzinho - fazia questão de receber todos os que me pediam para serem recebidos. E como isso é impossível não consegui livrar-me do facto de algumas pessoas acharem que eu era arrogante, incompetente, autoritário. A certa altura comecei a dar-me conta de que as vozes desses, a quem não recebia, ressoavam mais alto dentro da minha cabeça do que as dos outros, a quem recebi e que me gabavam a paciência. É aliás impressionante o número e a diversidade de pessoas que passa pelo gabinete de um sub-chefe de esquadra ou, neste caso, foi isso que eu comecei por ser, de fragata. Apresentadores de televisão, embaixadores, altos representantes da república, actores, escritores, encenadores, uma aristocracia intelectual de um burgo que muitas vezes se agiganta quando visto pelo buraco do próprio umbigo. Por outro lado o exercício do poder é desgastante para personalidades, como a minha, socialmente inseguras, que são muito vulneráveis ao cochicho, ao dito em surdina, aos jogos de poder. Não gosto de me confrontar com os outros. Os milhares de eus que já fui descendem ainda daquele meu eu primevo e originário que se especializou na incorporação para fugir à confrontação. Ainda por cima, para aumentar a minha aversão ao exercício do mando, o comandante da fragata era aquilo que eu chamava um conspirador Lucky Luke: passava a vida a disparar contra a sua própria sombra e inclusive contra mim. Aguentei durante um ano e dois meses. Ao fim desse tempo, por circunstâncias próprias da vida que nos levam no sentido contrário àquele que queremos ir, subi mais um degrau no exercício do mando: passei a substituir um chefe a sério, com direito a vénia e salamaleque e correspondente repercussão na folha de vencimento. Assim inchado e untado fui chefe, durante mais ou menos seis meses, o tempo que durou a substituição. Não guardo especiais recordações desse tempo senão aquelas que resultam do contacto directo com as pessoas, do trabalho em equipa, da sensação de promover um espírito de grupo e do facto de eu gostar muito do trabalho da esquadra. Mas percebi que entre mim e o exercício do mando há quase que uma incompatibilidade genética.
E como só sou anarquista na intimidade, não tenho outra escolha senão agradecer haver alguém que se disponha a essa ingrata tarefa de me governar e de se sujeitar ao nosso escrutínio desse exercício (escrutínio que tem aumentado substancialmente nestes últimos trinta e cinco anos de república). Deixei de ser como aqueles milhares de crianças rebeldes que se revoltam em surdina contra os chefes. Agradeço-lhes a generosidade em prescindirem de muitos prazeres das suas vidas para nos governarem. Sem grande ajuda minha. Uma das poucas coisas que, pelo exercício do mando alheio, me disponho a fazer, e tenho-o feito ao longo destes anos todos, é reflectir, é escrever. Aliás por todos os sitios onde passo, também aqui, sou tido como um intelectual, com a minha gaveta cheia de textos que fui fazendo. A maior parte deles nunca são lidos. Alguns por vezes são treslidos, lá pensam, olha este quer ser chefe de esquadra. Que se lixe, penso sempre que enceto um novo, devo à República isso: o dever de dar o meu melhor para que possa ser mais bem governado. E se nos preocuparmos muito com o que os outros pensam acabamos por dedicar muito menos tempo ao desenvolvimento da nossa mundivisão. E a vida é um instante, meus amigos, menos do que um instante, um sopro.
Há uma única excepção na minha desafecção pelo exercício do mando( e não do poder): o teatro. O teatro é um universo à parte, um lugar que não é deste mundo e que não se rege pelas mesmas regras que a vida de todos os dias. Aprendi-o a custo. Lembro-me que uma vez uma actriz me disse, durante um ensaio, que eu era um falso democrata. Já não sei sobre o que é que era, tinha a ver com o facto de eu estara tentar que o grupo seguisse a minha visão, creio. É bom que nos digam estas coisas - se um dia conseguirmos concluir que a vida nos tornou melhores pessoas muito deveremos a estes murros no estômago que levamos - mas confesso que na altura fui ao tapete. Durante esse e outro espectáculo que dirigi a seguir tornei-me num chefe envergonhado, muito vulnerável a uma crítica sobre a menor elasticidade e abertura da minha condução do processo de criação. Até que compreendi que em teatro, enquanto processo de criação colectivo, o poder não é exercido de uma forma democrática. É dificil de explicar mas se assim fosse, nunca teriamos feito "O Lugarzinho no céu" como o fizémos. Quando sugeri que o personagem Mirov, ucraniano, falasse em russo para a sua mulher na terra natal, colhi de surpresa o grupo. Uma votação sobre o assunto teria logo arrumado a questão e teria possivelmente destruído um dos aspectos de maior choque do espectáculo com o público. É claro que esta suspensão da norma democrática no acto criativo assenta num prévio grande respeito pela pessoa enquanto actor e criador. A criação de um espectáculo é um lugar onde o exercício da autoridade, de uma forma mais intensa, se espelha na alegria de viver e de criar, no exercício da amabilidade. Na força, na poesia, no corpo-a-corpo, esse amor tão moderno e tão antigo.
terça-feira, agosto 19, 2008
Começo a ficar ansioso. Daqui a três dias sigo para o Festival de Teatro Lusófono, em Teresina, no Piauí, para a oficina A Voz do Personagem (que já começou, online). São uma data de horas de viagem e eu começo a achar pouca piada andar lá em cima, a fazer de Ícaro. Sim, podes, escrever: tenho miáufa. Por mim o mundo era Lisboa, uma esplanada, um mapa-mundi e depois, assim, em roda de uma tarde de verão havíamos de inventar as viagens que fossem precisas. Mania das g'andezas, pá!
sexta-feira, agosto 01, 2008
Nova Direcção do Teatro D. Maria II
Por esta não estava à espera, Maria João Brilhante, presidenta do Conselho de Administração do Teatro Nacional D. Maria II. Também é verdade que tinha alguma esperança que este ministro se desse ao trabalho de redefinir a missão do TNDMII e que nomeasse a Direcção com base nesse caderno de encargos político. Parafraseando Garret: "O Teatro Nacional é um instrumento essencial para a política teatral de um país mas não floresce onde esta não existe". Não conheço nenhum dos nomes que secundam Maria João Brilhante (que para além de crítica de teatro é uma das impulsionadoras do Centro de Estudos de Teatro da Universidade de Letras, onde também é investigadora), mas a primeira impressão é de uma expectativa bastante positiva.
sábado, julho 26, 2008
A Voz do Personagem
É o nome de uma oficina integrada no Festival de Teatro Lusófono que irá ocorrer em Teresina- Piáui, e que tem uma primeira fase à distância, até 20 de Agosto, através de um blogue. É uma iniciativa algo inédita, mas como sou o pai deixo a crítica do vosso lado.
sexta-feira, julho 18, 2008
Artistas Unidos: ponto final num boato
"Não meus caros, não abrimos falência nem desaparecemos. Os tempos vão dificeis mas estamos apenas a refazer os nossos planos de programação para a temporada 2008/9, em que continuamos sem local de apresentação para os nossos trabalhos.até breve.Daremos notícias."
João Meireles
Artistas Unidos [Retirado da caixa de comentários de um post anterior. Obrigado João por estares atento]
quinta-feira, julho 17, 2008
Artistas Unidos: Obrigado
Por tudo o que fizeram ao teatro. Obrigado Artistas Unidos.
Artistas Unidos: o que é que se passa Jorge?
Aqui há uns anos houve um sururu danado sobre os Artistas Unidos: o Espaço Capital ía para obras, estava impróprio para consumo e os Artistas Unidos ficavam na rua. Assinei, reassinei, escrevi posts, fiz o que qualquer pessoa minimamente interessada na actividade teatral devia ter feito, acompanhando o movimento de solidariedade em torno dos Artistas Unidos. Anteontem estava na esplanada e em jeito de conversa dizem-me - nem vos conto a novela em que esta conversa veio alapada - que os Artistas Unidos tinham sido extintos, acabado. Não quis acreditar. No dia seguinte voltam-me a confirmar isso, através de uma pessoa que costuma colaborar com os Artistas Unidos. E à noite a confirmação de que um responsável dos Artistas Unidos teria telefonado para um espaço que os iria acolher a cancelar a projectada apresentação de um determinado espectáculo porque os Artistas Unidos íam encerrar a sua actividade. Segundo o que me contaram isto já se teria passado há cerca de uma semana e pouco. Estou perfeitamente chocado. Não sei se aquele chá de hortelã que tomei há dias tem qualidades alucinogénicas, mas há aqui qualquer coisa que me soa muito, muito mal: como é que é possível um grupo como os Artistas Unidos acabarem e não haver uma ressonância pública? Uma notícía no Público? Ou no Expresso? Na Visão? No Diário de Notícias? Na televisão? Na rádio? Onde andam os jornalistas de cultura? Os Artistas Unidos desenvolvem uma missão de (elevado) interesse público e nessa missão absorveram milhares e milhares de contos, pelo que é do mais elementar interesse público saber o que se passa com um dos mais importantes projectos teatrais da nossa actualidade teatral. Espero urgentemente que Jorge Silva Melo e os Artistas Unidos venham esclarecer que é apenas um boato.
---- Deixei de esperar. É trágico para o teatro português de hoje mas infelizmente a notícia confirma-se: os Artistas Unidos abriram falência. Sinto uma raiva tão grande que é melhor calar-me. É preciso que muita gente que está em sítios chave falhe para que isto possa acontecer: falta proactividade à burocracia pública no campo das artes do espectáculo. As pessoas ganham com a idade um déficit de pachorra e isso deve ser respeitado. Não são os coitados dos Jorges que substituem o Estado onde ele não está que têm de andar a fazer choradinhos para poderem ir para a frente com os seus projectos. Enquanto o rei da Noruega lhe dá uma medalha de mérito cultural nós damos-lhe um projecto teatral no prego. Os Artistas Unidos deram mostras ao longo destes anos de um dos mais brilhantes inconformismos. Dos novos grupos nascidos na década de 90 são o nosso património mais significativo no campo do trabalho sobre a dramaturgia contemporânea, portuguesa e europeia. Trouxeram-nos autores, editaram-nos, fizeram publicações, desfizeram-se em iniciativas paralelas e de animação cultural e, essencialmente, fizeram teatro, excelente teatro, uma das mais importantes produções teatrais do nosso país. Há pessoas que neste momento deviam pôr os seus lugares à disposição por esta incapacidade de resolverem este problema. José António Pinto Ribeiro se fosse consequente com o que disse na entrevista a Ana Lourenço na SIC Notícias da contratualização de missões de interesse público devia vir pedir desculpas públicas. Sou emotivo, estou triste, apetece-me chorar, talvez não esteja a ser justo, estas coisas têm meandros que por vezes desconhecemos, mas hoje vou para a cama mais pobre, mais entregue aos negócios e com menos espaço para antever na vida que vivo uma outra vida.
quarta-feira, março 05, 2008
Teoria Geral dos Maridos
A Sarah Adamapoulos volta a fazer uma incursão na escrita teatral. A encenação continua a ser de Francis Seleck, para o Teatro de Areia. E tem interpretação de Ariana Manso, Ana Sofia Gonçalves, Cláudia Camilo e Joana Sabala. Apresenta-se às 8 de Março às 21h30 no Fórum Municipal Romeu Correia (Auditório Fernando Lopes Graça), em Almada. A entrada é livre para as mulheres e também para os seus maridos. Insere-se na programação da Quinzena da Juventude de Almada.
Vejam o vídeo em:http://teatro.de.areia.googlepages.com/
segunda-feira, janeiro 21, 2008
Uma razão chamada Madrasta
Há muitas razões para eu querer ver o espectáculo Casas. O texto do Miguel Castro Caldas, de quem gosto muito. A ideia de uma Oficina de Teatro para Todos desenvolvida num espaço instituicional como o CCB. É preciso romper com as categorias pré-formatadas da expressão dramática para determinados grupos-alvo e avançar com experiências deste tipo. Mas de todas as razões há uma muito especial: ir ver esta madrasta boa, a Helena Peixinho. A Helena, que conheci na APED (Associação Portuguesa de expressão Dramática (e que já foi justamente agraciada com uma distinção de mérito cultural em Almada) criou há anos um projecto, "O Mundo do espectáculo", que é um excelente exemplo de um trabalho de animação teatral criado a partir da escola.
CASAS - Teatro a Todos/Teatro de Inverno
A oficina Teatro A Todos, iniciada em Fevereiro de 2007 no Centro de Pedagogia e Animação, sob orientação de António Simão, termina agora com a apresentação, de 25 a 27 de Janeiro, na sala de Ensaio do CCB deste espectáculo com texto de Miguel Castro Caldas.
Apresentações: 25 Jan 2008 - 11:00 e 15:0026 Jan 2008 - 15:30 e 18:3027 Jan 2008 - 11:30 e 15:30
As pessoas têm a mania de que são donas de cães, de canários, de outras pessoas, de casas, e até da própria terra. Deixemos os cães e os canários de lado, e vejamos como é que se comportam as pessoas com as casas. Depois a história é simples: a porteira trabalha para a madrasta e depois vem o príncipe, que é mais poderoso, expropria a madrasta e leva a porteira. Mas que será que acontece depois da felicidade para sempre? Como é que são as histórias depois de acabarem as histórias?
Texto Miguel Castro Caldas
Interpretação Amélia Joaquim, Beatriz Tadeu, Bruno Costa, Catarina Mata, Eduardo Ribeiro, Helena Guerreiro, Helena Peixinho, Inês Machado, Isabel Tadeu, Joana Henriques, Mariana Tchen, Pedro Conde, Rita Lima, Rogério Pereira, Tânia Cardoso, Teresa Almeida e Teresa Mata.
Direcção António Simão Co-Produção CCB/CPA e Teatro de Inverno/Teatro a Todos
quarta-feira, dezembro 19, 2007
Zeck
terça-feira, outubro 30, 2007
Paisagem sem Título
Abriu-se-me no peito uma dor. Essa dor sou eu. Ou melhor, o meu modo de ser eu. Digo que é dor porque se parece com um enorme vazio que entra devagar, até ao osso do pensamento. Mas depois não dói. Ou pelo menos, eu não a sinto a doer-me. E já nem sei porque é dor. Acho que me habituei a chamá-la dor, a esta solidão. Habituei-me a fugir-lhe. Habituei a fugir-lhe e, nesse arrenego, a chamar-me eu. Mas eu sou tanto esse que foge das imagens - e confesso, que nos últimos tempos as minhas imagens doíam mais pelo lado do irreparável - como aquele outro que agora, na casa vazia, se apercebe que é pelas imagens que será salvo. Eu poderia por exemplo fugir eternamente da casa vazia. Chegar a casa extenuado de cansaço e afogar-me em torpor. Sou relativamente novo e o meu fígado, que tem sido bastante poupado nesse aspecto, ainda aguentaria alguns anos para me poder embebedar e morrer assim devagar num desprezo pelo universo inteiro. Não teria vivido como um poeta, não teria nunca almejado atingir a essência do poema mas morreria como um poeta. É uma morte credível para um tipo como eu, a de um poeta. Eu creio que muitos dos que me lêem esperam que eu seja um poeta. Até, os mais magnânimos, que eu viva como um poeta. Mas fugir eternamente da casa vazia não me convence. Prefiro menos poesia e mais realidade dos sentidos. Gosto por exemplo de me sentar ao fim da tarde na minha rede e ficar a ouvir as vozes amplificadas da capitania, ou um correr manso de uma embarcação. E deixar a tarde ser engolida pelo rio e depois, a escuridão da noite falar de uma redenção dos vivos. Ou, agrada-me pensar em ir para casa e pensar em ir comprar um pepino, um alho francês, uma beringela, cebola, alho, migar tudo muito bem e deitar numa frigideira com azeite a alourar. O som da frigideira e aquele cheiro a azeite quente estão na mesma categoria do Rimbaud que nunca leio, porque chego sempre a desoras e quando me doiem os olhos de cansados. Depois, se compro uma posta de salmão, uma dourada, ou se me deixo ficar apenas por uma noite de vegetais, não importa. Há muito que não tinha essa festa e recomeço nela devagar. Eu não sei como se vive. Sei que não há ânimo sem lugar. Claro que tenho medo, que tenho medos, muitas vezes vivo a dias, e nem é a dias, um dia em cada dia. Mas respiro melhor. Sei que ainda é dor porque tenho alguma dificuldade em reconhecer a festa. Vejo muita solidão. E não são os amigos que circunstancialmente partiram ou os que foram para sempre. Tudo isso alimenta a dor, claro. Mas a solidão só existe no homem ou na mulher que já não sabem o lugar para onde vão, ou melhor, que já não conseguem ver alguma alegria no lugar de onde vieram, todos os lugares acabam como escreveu o Sena, e ainda não têm a clarividência do lugar para onde tendem, uma espécie de purgatório dos aflitos, que é o lugar onde muitas vezes quebram os espiritos. Tenho alguma dificuldade em olhar a vida na sua crueza e dançar sobre o chão de cacos, de pedaços multiformes que me arranham os pés. Eu não sei o que é a vida, ninguém sabe. O que tento não é decifrar o mistério. O que tento é não ser devorado por ele. Filar os pés no chão, fincar os olhos na linha de um horizonte sensível e sobreviver ao embate. Há uma altura da nossa vida em que a solidão é o medo de não termos ninguém. Chegamos no entanto a uma idade que o problema é inverso: temos muita gente e não sabemos o que fazer com elas, as pessoas que temos. Dançar e cantar. Mas com quem verdadeiramente dançar e cantar? Andamos às apalpadelas no escuro. Até o sexo é supranumerário nesta inquietação. Não faltam modalidades para um homem adulto. Tudo isso são variantes do saber, do ter, e isso não resolve nada da dissociação entre um e o mundo onde está. É depois do embate do não saber que surge o instante poético. Antes a poesia, só nos almanaques das feiras de agricultura, nas quadras fáceis do jogos florais ou nos sonetos rebuscados dos poetas das antologias. Falo de um embate, por exemplo, no teatro. Ainda não desisti de fazer da minha vida uma coisa política.
quinta-feira, outubro 11, 2007
Desobediência
Estreia hoje no Teatro da Trindade. Espectáculo, iniciativas, blogue. Nos últimos meses o confronto constante com o gesto de Aristides de Sousa Mendes tem-me aberto novas janelas sobre os limites da acção individual.
quarta-feira, outubro 10, 2007
Dia de Sensibilização para a Intermitência
19 de Outubro de 2007
"Este comunicado que hoje está a ser lido em vários eventos culturais do país representa o sentimento geral dos profissionais das artes do espectáculo e do audiovisual.
Sabia que não há enquadramento jurídico que se adeque a estas profissões? Sabia que estes profissionais não podem estar doentes, grávidos, lesionados ou desempregados?
Hoje é o nosso dia nacional de sensibilização para a intermitência.
Dizemos que somos intermitentes porque o nosso trabalho é sempre descontínuo e temporário.
Essa é a natureza das nossas profissões!
Trabalhamos sucessivamente de projecto em projecto, com pessoas diferentes e isso implica a mobilidade dos profissionais e permite a diversidade das produções.
Queremos ter acesso aos mesmos direitos e às condições básicas de qualquer trabalhador por conta de outrem.
Como estes, somos profissionais especializados, cumprimos horários, num local de trabalho específico, sob a direcção duma entidade.
Por todas estas razões, precisamos de uma definição legal de intermitência, que nos permita pagar a segurança social de acordo com o salário que recebemos e que nos proteja de situações de carência. Precisamos de um contrato de trabalho adequado à nossa realidade.
No último ano, representantes das áreas da dança, do teatro, da música, do circo, do cinema e do audiovisual têm vindo a apresentar e a defender propostas concretas sobre esta questão. Esperamos que este esforço resulte numa lei que nos sirva a todos.
Lembrem-se que apagadas as luzes da ribalta existe uma realidade que não pode continuar a ser ignorada.
Muito Obrigado e Bom Espectáculo! "
A minha pequena sala de espectáculos, o Respirar, também se associa a esta iniciativa e por isso no dia 19 voltarei a publicar este comunicado.
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