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quinta-feira, novembro 10, 2011

Feliz por ter crescido ao pé do teatro

Do texto Memórias ao pé da estante encontro este excerto a que volto hoje.

"Vou finalmente terminar o texto com aquilo que o designou: há pouco, ao procurar alguns livros na estante, ao ver que ainda bem que não mandei às urtigas as dezenas de peças de autores portugueses que fui guardando (tal como se fizesse colecção de objectos excêntricos), fiquei contente por ter querido e podido crescer ao pé do teatro; fiquei a pensar no imenso privilégio que foi poder ter crescido ao pé, ou ao lado, ou dentro de experiências como as da sala de tapete vermelho da Comuna, com os nossos gritos e exorcismos; da sala das escadinhas da Esbal, com a desbunda organizada da Máscara Teatro de Grupo, do Pisco, Wilson e Alpiarça; do palacete da D. Carlos I onde o Luigi e o João Grosso, entre tantos outros percursores do movimento okupa montaram o estandarte da Culturona; das salas e corredores escuros do Teatro Imagem, Centro Cultural e depois Palco Oriental; da intencionalidade vagabunda da Oficina do Grotesco do Luis Beato e da Maria Morais, da Rua Mimo Trupe dos Joões, o Ricardo e o Carneiro; do teatro na escola, com o Horácio e a Fátima, abelhas trabalhadeiras, é o que éramos ( fazíamos num dia espectáculos para quatrocentas, oitocentas crianças, todas sentadinhas e perfiladas no chão das P3, uma récita de manhã e outra à tarde); daquela sala da Rua da Fé onde a Águeda Sena dirigia o Teatro Espaço, onde, entre outros que nunca mais vi, conheci o Júlio Martin, a Manuela Pedroso, o António Fontinha, o João Simões e o José Figueiredo Martins; dos fabulosos Encontros Acarte a fazerem de Lisboa uma cidade onde era importante estar; a daquele buraco na Alexandre Herculano onde a Barraca nos deixava brincar com o Estás a Ficar Careca, Hermengarda!, dos espaços alternativos como o Teatro do Século, ou outros, como a Ocarina, onde vi espectáculos de não alinhados, a Ângela Pinto, o João Grosso, o Miguel Abreu, aquele delicioso O Paraíso não está à vista do Maizum; as salas atulhadas de fumo dos Encontros de Teatro para a Infância e Juventude, onde as conversas e os debates se prolongavam até às tantas, o pessoal adorava falar, o Brites gesticulava, o Caldas cantava, um dia há que estudar os anos oitenta no nosso teatro. Das salas do Conservatório onde a Gisele Barret, o Ryngaert, o Vautelet, o Monod, o Voltz, o Lemaiheu, o André Marechal, nos levavam - pelas mãos, e teimosia do Nóvoa e do Fragateiro (com a ajuda, entre muitos outros, da Paula Folhadela, do Beja e do Gil) ao coração do movimento internacional da expressão dramática. Os setenta ficaram na nossa memória, por causa do aparecimento de companhias independentes que estão também associadas a um período onde o teatro estava muito visível, o teatro estava na rua, era uma grande cegada a nossa vida, os noventa beneficiaram da visibilidade que a Gulbenkian, o Acarte,a Madalena Perdigão (que já antes, no princípio de setenta tinha ajudado a criar e a fortalecer o movimento renovador da educação pela arte) conquistaram para a garagem, para a pequena sala, para o experimentalismo, mas os oitenta, os oitenta até porque muitos grupos que tinham uma grande criatividade no modo como experimentavam a sua expressão teatral sucumbiram à autêntica lotaria que eram os apoios do Estado ao teatro, os anos oitenta cairam num buraco de onde quase nada do que é relevante ficou para a memória futura. Sobrevive ainda, na pele dos vivos, quando olho para o Miguel Guilherme, para o Zé Pedro Gomes, para a Lucinda Loureiro, Ângela Pinto, Wilson, Pisco, vejo uma espécie de conta-me como foi do teatro dos anos oitenta, mas terão de vir os investigadores para retirarem a película de pó, de acáros, e iluminarem um pouco a importância dos anos oitenta para o nosso teatro.
Estou em pé diante da estante. Apoio, como faço sempre, o cotovelo numa prateleira, curvo o corpo. É sinal de que vou ficar aqui muito tempo, por regra só um entorpecimento muscular prenúncio da caibra me fará sair daqui. Não faz mal. Mesmo que já não leia os livros, apenas os títulos, depois são os títulos que me lêem a mim, nunca regatearei o tempo que passo diante de uma estante."


sexta-feira, setembro 02, 2011

Sombras

Continuo a esvaziar-me de todo um aparato que ingenuamente
fui integrando pensando que me fazia melhor pessoa, mais solidário, mais atento. Faltam-me
nomes para a conversa com muitos dos meus amigos
que vivem da refrega quotidiana com esta bolsa de valores ficcionais com que nos enquadramos.
Gosto agora do fora de campo. Do fora de tópico. Gosto do silêncio.
A respiração volta a ser um lugar de encontro na areia.
Nem está frio nem calor. É verão mas não parece.
O que é verdadeiramente revolucionário é que o fim da revolução - o terninar inevitável de todas as revoluções - não apague o fervor revolucionário.
Aí na acalmia inexpiável de uma tempestade de cinzas, renasce o fogo.
O fogo somos nós.

sexta-feira, abril 29, 2011

“Nunca passei de um actor medíocre” (1)

A minha primeira participação na comunicação social (fora aquele jornal, em folhas de almaço, que, aos treze anos fiz para esclarecer o mundo das virtudes do internacionalismo proletário) tinha este título. Era uma entrevista a José Raimond -técnico do FAOJ, a dirigir na altura o sector de Teatro deste organismo - que, com grande humildade, me revelava que tinha abandonado a actividade teatral porque não gostava do esforço físico, concluindo o raciocínio com a frase que encima esta crónica.
Na altura destaquei-a e coloquei-a intencionalmente na testa do texto, de modo a tentar justificar uma asserção que então me corria muito pelo pensamento, a de que, nos vários níveis da administração pública, a gestão do teatro estava entregue a praticantes frustados. Estava nessa altura imbuído de uma ideia - arrogante - de jornalismo enquanto acção justiceira, reordenadora da verdade do mundo.
Eu experimentara assim, no universo dos jornais murais, e com dez anos de antecedência, o espirito agressivo que anos mais tarde viria a encontrar na redacção da SIC onde estagiei ( surge-me como paradigma desse espirito a imagem que conservo de um jornalista a percorrer o caminho que o levava da sua secretária até ao estúdio, onde estava em directo o administrador da Parmalat (em plena crise da guerra do leite) dizendo para os colegas, tal guerreiro antes de um combate decisivo : “Vamos comê-los!”).
Foi esta mesma ideia de um jornalismo redentor, e por isso vingativo como toda a justiça, que me fez sentir um herói saltando sobre a mediocridade geral e muito concretamente sobre aquele homem cuja grandeza só agora descortino.
E, ironia do destino, passados quase vinte anos de ligação ao teatro - nove deles enquanto actor - também eu posso dizer que nunca passei de um actor medíocre (não obstante ter atravessado a cena teatral portuguesa com a minha ambição de ser o único-único actor deste mundo). Um actor medíocre que, na sua passagem pela direcção do Teatro da Trindade, também encarnou aquela asserção que antes tinha justificado o seu grotesco ataque àquele técnico do FAOJ.
Ocorrem-me estes pensamentos enquanto viajo, saltitando, entre as páginas da “ Tirania da Comunicação” de Ignácio Raimonet , e as de uma outra edição, “A Verdade e a Política” de Hannah Arendt , arrancada aos saldos da última Feira do Livro.
De quando em quando levanto os olhos dos livros e cruzo-me com o mundo. Não escondo que a guerra do Kosovo, e o papel que os jornalistas nela tiveram, me absorve muito do meu olhar. Mas não só. Também, noutro plano, a guerra entre o teatro e as suas testemunhas, quer sejam os jornalistas, quer sejam os críticos. Ou a guerra do Procurador da República com o ex-Director da Polícia Judiciária. Um conjunto de situações que vou, sempre que posso, discutindo com alguns amigos que fazem do jornalismo um modo de estar entre nós.
E no centro desse debate está de facto o duplo constrangimento que decorre do desmesurado poder que ainda hoje atribuímos a um ofício que se sente ele próprio, na sua dimensão mais artesanal, a do trabalho dos jornalistas, cada vez mais encurralado contra a sua impotência diante do mercado das notícias.
Ignácio Raimonet tem aliás uma visão demolidora sobre o efeito que o mercado produz na relação do jornalismo com a verdade. Quando analisa a forma como, nos casos de Diana Spencer e de Mónica/ Clinton, muitos meios de comunicação social não hesitaram em, com a mesma desenvoltura, vender tanto as falsas notícias como os seus posteriores desmentidos, lucrando igualmente com as duas situações.
E isto porque no mercado das notícias aquilo a que chamamos verdade, tem o mesmo valor daquilo a que chamamos mentira. São ambos elementos do espectáculo de ficção e entretenimento destinado ao espectador encaixotado magicamente no seu suicídio de mundo .
Esta brusca mutação na relação que mantínhamos com o jornalismo, que deixou gradualmente de estar tão vinculado à formação de uma melhor opinião e consciência e passou a ser também marcado por um consumo desabrido de um produto a que designamos por news (que desde que seja novo e mantenha uma continuidade narrativa com o enredo do mundo pode ser verdade ou mentira) tem também de ter consequências muito grandes no trabalho jornalístico.
Assim, ele deixará de ser cada vez mais uma argumentação coerciva do mundo, como o é todo o discurso que pretende repor a verdade, e tenderá a ser um investimento num olhar testemunhal, humilde perante a monumentalidade do real. Olhar que terá de saber conviver também - como se estivesse numa prateleira de um supermercado - com uma ficção que, desenfreada, tenta responder às leis da oferta e da procura.
Na verdade liberto de uma presunção - e sabemo-lo, arrogância - de verdade, aquilo que o distinguirá será o seu processo de fabricação, o seu certificado de garantia. De um lado estarão quer os enlatados noticiosos difundidos à escala planetária e refeitos em cada redacção para serem apresentados pelas grandes vedetas do espectáculo da informação, desse mesmo lado estarão também os grandes repórteres nas salas de imprensa dos múltiplos palcos onde é apresentada a estratégia do mundo, do outro estarão os jornalistas, aqueles que - independentemente do suporte com que nos devolvem o real - estão lá para, simplesmente serem testemunhas qualificadas dos acontecimentos.
A anunciada morte do jornalismo não é mais do que o seu renascimento, a sua caminhada para uma clarificação de papéis. Muitas vezes não compreendi como bastantes jornalistas humildes, honestos e conscenciosos que encontrei na SIC, conseguiam conviver com o comércio mais frenético e estonteante da estação.
Hoje compreendo-os melhor. E é até por eles terem insistido numa verdade profissional que acaba por marcar as fronteiras com o espectáculo mediático que hoje nos é possível perceber que o comércio das news, por mais jornalistas que arraste, acabará por levar, involuntariamente, a um rejuvenescimento do trabalho jornalístico.
Tomando como ponto de partida a guerra do Kosovo, o maior problema não será o facto do espectador encaixotado no seu suicídio de mundo ter ao seu serviço um batalhão de vedetas, de repórteres arrogantes e completamente absorvidos pela nova máxima do mercado jornalístico “ da verdade dos factos também se faz notícia” .
A catástrofe só descerá à terra das notícias quando aqueles que se tentam informar porque sabem - como Hannah Arendt - que a “liberdade de opinião é uma farsa se a informação sobre os factos não estiver garantida e se não forem os próprios factos o objecto do debate”, não puderem confiar ou dispor do olhar testemunhal de repórteres como Cândida Pinto, Aurélio Faria, Pedro Rosa Mendes, Paulo Moura , Pedro Caldeira Rodrigues, Carlos Santos Pereira, e outros (situo-me apenas no universo do trabalho feito sobre a guerra no Kosovo pelos jornalistas portugueses).
Entre a catástrofe e a frenética mistificação dos média, vive uma realidade difícil, ambígua, que também se alimenta de desistências várias. Não só aqueles que naturalmente escolhem ser a face do negócio, também aqueles que deixam de acreditar na profissão e se arrastam pelo mal estar de não conseguirem corresponder à necessidade que temos que eles se mantenham lúcidos, confiantes e de olhos abertos perante um real com que, através deles, marcámos encontro.
E entre uns e outros erguem-se as mãos verdadeiras que Paul Celan responsabilizava como as únicas autoras de poemas verdadeiros, ideia que um dia Abel Neves, dramaturgo, usou para defender que “ este trabalho de ter ou manter mãos verdadeiras é, por si só, uma caminhada na vida “.
Nos poemas, nas news, na vida.
(1) Titulo de um texto da Crónica Olho da Rua que assinei há muitos anos no Jornal Vento Novo e que recuperei agora ao fazer a limpeza de ficheiros.

quarta-feira, fevereiro 02, 2011

Criação das palavras

Uma frase pequena. Falta-me o tempo para as frases grandes. Uma frase é um objecto. Um jogo, um espelho. Uma porta. Ou quando o tempo ainda é ainda mais escasso, uma janela. Um lugar onde (ainda) não se está.
A palavra perfura na virtualidade. Adensa-a. Como se começasse por ser uma pequena neblina matinal. E de repente, tão de repente que até dói, é um nevoeiro cerrado, um lugar sem saída. É aí que a palavra serva perfura. Cria.

Breves palavras de desespero

Uma palavra breve. O tempo escapa-nos. E com o tempo, o sabê-lo. O próprio saber. Não tenho nenhum sentimento dentro de mim. Não o digo com garbo. Constato-o. Constato que aquilo a que a partir de agora chamarei de sentimento não é suficientemente canino para eu poder emoldurar ao pé dos lustres, das pratas, das palavras exdrúxulas. Quanto muito seria uma borboleta, se assim o quisesse. Não quero. Fecho-me àquilo que o seu bater de asas, metáfora do mundo, cicia. Olho-te com um desespero nunca visto. Olho-te como se te dissesse,
agora é que se foi, o que perdemos.
A minha vida é de uma inutilidade tão tamanha que nem sirvo para odiar. Eu sei, eu poderia propor-me para mestre-escola, propor-me a humanidades, salvar assim a família, a tença, o próprio salário.
Não posso. Seria mentira. E eu já me adestrei a tudo. A perder pai, irmãos, amigos. Os próprios sentimentos, o ódio, o amor. O pensamento, que não a ideia de pensar. Mas não é perder o pensamento viver num mundo que dele não carece?
É. Sobreviverei a isso também. Deixo-me apenas este luxo, esta bizantinice: um pouco de verdade. Não digo muita. Tendes razão. É pouca. Nem é bem uma verdade que é. É uma sombra. Um resto que ficou do grande banquete.
Basto-me assim.

quarta-feira, novembro 03, 2010

Pensar não cansa

apetece-me cantar.
cansar a voz até ao último pedaço de som. ficar aqui, a empanturrar-me de solidão, de afecto. a minha lucidez, o que me sobrou dela do último desvairio, diz-me que o mundo onde vivo começa a estar tão cansado do homem como a minha cabeça está exaurida com o pensamento. e nem é do pensamento. pensar não cansa. essa é uma merda que este dispositivo pronto-a-pensar encenou para nos fazer crer que é melhor haver umas aventesmas a pensarem pela nossa cabeça. não, digo orgulhosamente nos meus três trilhões de pensamentos, contei-os um a um, desde que nasci: pensar não cansa. o que cansa, o que destrói o ânimo, o que destrói a vida, é esta sensação de que pensar não serve para nada. esta sensação de que o pensamento é estéril, uma comenda que exibimos no salão, mais um Gil que tiramos da cartola para nos apequenar, para nos aprisionar. pensar não cansa, pensar liberta. pensar é um fogaréu medonho, um pedaço de luz incandescente que vai à frente, que vai sempre à frente na nossa vida. é como se fosse um farol só que reclinado para dentro, inclinado para esse imenso espaço interior onde rebentamos de prosperidade, de felicidade.
há um homem próspero e feliz que atravessa a rua todos os dias e esse homem é o gigante que pensa. aquele a quem o pensamento agiganta. adamastor virado do avesso. na pátria dos inválidos, dos trespassados, dos tresloucados, dos que nunca saberão a felicidade que o pensamento poderia ter dado à vida que (não) viveram.
seria por um país assim que eu gostaria de poder desfazer a minha voz, cantando.

terça-feira, outubro 12, 2010

Mês a mês

farol

Ao menos isso nesta posta quase renegada: o post mensal é feito de vontade. Passa-se o tempo e começa a crescer em mim a vontade de não ficar pela meia dúzia de linhas facebookianas. Mês a mês a situação política degrada-se. E os países ricos e pobres da Europa com as suas crises financeiras, estão virados para dentro de si mesmos. O facto de estarmos virados para dentro de nós mesmos quer dizer que estamos menos atentos à dinâmica global do mundo mas não quer dizer que esta pare. "- Parem o mundo que eu quero olhar para o meu umbigo!". Não é assim que as coisas se passam. Os jornais do mundo perderam o interesse. O próprio Irão, o Afeganistão, a Coreia do Norte, o Paquistão, a Al-Quaeda, todos os lugares e todas as forças que para nós desafiam a paz do mundo, deixaram de existir. E estes eram os que nos assustavam. Os outros, os que nos comovem, os refugiados, os exilados, os sem terra, sem pátria, sem que comer, sem que se vestir, as crianças desvalidas de qualquer tipo de sorte ou fortuna, esses, aguardam vez no guichet do mundo e da sua política. Só por arrogância nossa é que poderemos pensar que por não lhes darmos importância, eles deixaram de existir. O mundo não deixou de ser global. Nós é que deixámos de ser capazes de o pensar globalmente, excepto na santa aliança dos mercados financeiros com as divídas públicas e privadas.
E mesmo assim, todos os dias, são dias. O sol acorda ali no mar da palha e quando se deita, do outro lado de cacilhas um pequeno feixe de luz aguarda a sua vez para nos guiar pelo breu do mundo. E se for segunda-feira hei-de sair pelo menos ás nove, desvairado, para irmos ver o filme. E se tivermos sorte, ou se acreditarmos na nossa sorte, na onda de ficções com legendas, com actores conhecidos, com enredos referenciados e estrelados pela crítica, diremos diante de "Vai com o vento", em uníssono, "olha, apetecia-me ver este." E vamos mesmo ver esse. "Vai com o Vento" do Ivo Ferreira, mais uma curta, Estrangeiro, que tem um texto delicioso. Nunca mais vou olhar um chinês ou uma chinesa da mesma maneira. A partir de agora são gente, gente como eu, ou tu, ou nós. Dois filmes deliciosos de um cineasta novo mas que já tem uma imagem do mundo muito própria. E - não tivesse ele crescido tão dentro do teatro - que tem um ritmo, uma musicalidade, uma escuta tão forte. A voz do narrador chinês é narração-prazer. Todos os dias são dias e as noites também são dias, novos dias.

domingo, agosto 29, 2010

Como se fosse uma espada...

Logo que acabei de tirar a fotografia e a olhei no écran do telemóvel, pareceu-me que era uma foto de um outro tempo, mais antigo. Não tenho nostalgia das coisas antigas, disse de mim para mim, desculpando-me pelo instante interpelativo que aquele olhar demorou. Há qualquer coisa que eu não sei pensar quando olho esta imagem, a luz magnífica sobre o rio, mesmo num dia assim, encoberto. E este não saber pensar é distinto do sentir que perco a memória de algumas coisas, acontecimentos dispersos de esquecimento ou bloqueamentos com que vou brincando, é da idade, é o alzheimer. Este não saber pensar é mesmo uma indisponibilidade para o pensamento. Estou a ser sincero. Poderia escrever penso que, acho que, na minha opinião, e o texto passaria com a mesma facilidade com que vou soletrando aqui o meu contrabando de ideias. Digo não saber pensar e depois entretenho-me, entretenho-vos com o meu pensamento sobre isso. Mas houve uma pequena pausa. Não sei se repararam. Foi muito pequena no texto, imensa dentro de mim. Deu para correr e esvoaçar sobre toda a minha vida. Dizem que no instante em que morremos a nossa vida passa num segundo por nós como se fosse um filme. O verde, o vermelho, o azul. O cor de laranja, o lilás, o violeta. O castanho da terra. Há cores e cores e arco-íris insensatos e transbordantes na minha pequena história de vida. Uma pequena pausa, minúscula no texto, gigante em mim. Provavelmente esta pequena paragem é como se fosse um ensaio do que uma morte pode ser. Na incapacidade de a pensarmos, à morte, simulamo-la, cada um a seu modo. A mim dá-me para este cinza majestático. As cores que partiram da imagem deixaram-na na sua crueza quase religiosa. Fecho os olhos e comovo-me. É sempre a minha defesa quando o mundo é maior que a minha faculdade de o pensar: fecho os olhos e traço uma linha directa com a matéria corporal que me definee faço-o através de uma emoção que eu não saberia nunca, anatomicamente, localizar. É o meu instante religioso, de magia. Estou a ser sincero. Na insinceridade militante que é escrever, estou a ser o mais verdadeiro que consigo: a imagem a preto e branco do lugar onde julgava que estava antes de uma pausa me arrastar para uma enxurrada de coisas, pessoas, uma enxurrada a sério, de repente a nossa vida torna-se nisto, uma enxurrada indistinta, atravessa-me como se fosse uma espada. E a ferida que faz sara no próprio corte que se transforma numa ponte, num pequeno lugar de passagem.
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terça-feira, agosto 17, 2010

Chamava-lhe princesa...

Herdei-a do meu pai. Durante os primeiros tempos comecei a escrever nela quando ele não estava em casa ou quando não tinha de fazer serão. Mesmo assim dividia-a com o meu irmão mais velho. Depois tornou-se tão inseparável, que já ficava sempre no meu quarto. Ainda tenho na cabeça o som do correr do carril da máquina. Eu, como em tudo, não tinha bem a noção da força que empregava nos meus gestos. Nunca fui delicado, é um problema meu. As letras não se queixavam logo mas com o tempo começaram a lamentar-se das dores nos costados, a rangerem, a empenarem. Houve mesmo alturas em que uma determinada letra não escrevia. E é claro que aquelas que tombavam primeiro eram sempre as letras mais usadas, as mais necessárias. De quando em vez lá pegava nela e ia a caminho da Av. João XXI para a reparar. A caixa de transporte tinha uma pequena alça e eu sentia-me bem com este efeito de portabilidade da escrita. Como eu disse, não era delicado com ela. Nunca fui aliás delicado com coisa nenhuma. Às vezes inspiro fundo, muito lentamente, como se o ar fosse, camada por camada, encher-me de uma delicadeza enorme capaz de me contaminar o espírito, mas fora isso do ar, e dos truques que as sessões de animação teatral e de yoga me ensinaram, sou denso, pesado, bruto, desajeitado corporalmente. Quando comecei a perceber que a minha voracidade de escrita tornava a minha princesa frágil e macerada, tentei imaginar a delicadeza na ponta dos meus dedos. Comecei a tentar escrever como se tocasse piano. Data daí uma forma de escrever que, fora os modismos que necessariamente contaminam um escrevente com pouca prática, ainda hoje mantenho. Por vezes, dou uma golfada de ar e imagino que escrever é dançar e que dançar é desaparecer do mundo. Cada bater de tecla, torna-se como um passo a passo em direcção ao infinito da coisa, da ex-coisa, da coisa virada pelo avesso da coisa. São muitos raros estes momentos e a maior parte deles, para infelicidade minha, não me apanham a escrever. Em todos eles me lembro: chamava-lhe princesa e foi por causa dela que soube que escrever podia ser uma forma de desaparecer do mundo.

terça-feira, agosto 10, 2010

Gente dentro de mim

Há-de sempre faltar-me duas coisas: família e comunidade. Por vezes quase se misturam. Cultivei-me na solidão e como todas as pessoas cultivadas na solidão vivi sempre na míngua permanente desses dois núcleos humanos. A minha história podia resumir-se pela maneira como, ao longo do tempo, trabalhei esses dois universos de mim. De uma certa forma posso dizer que o fim da adolescência foi também o fim da ideia romântica de solidão. A arte, o teatro, a animação sócio-cultural foi-me fornecendo alimento para o fogaréu comunitário que ardia em mim, muitas vezes sem o perceber, sem dele me dar conta. Em determinados momentos da minha vida o curso da Comuna, o Palco Oriental, os grupos da Esbal, a casa onde escrevíamos nas paredes nos Olivais, foram disso expressão mas só nos trilhos da animação sócio-cultural me fui dando conta do que em mim, e de que maneira, comunidade era raíz. A família também. Quase sempre que reorganizava os meus espaços afectivos, reencontrava uma família à qual me incorporava quase como se fosse orfão de pai e mãe, de irmãos. Com o passar do tempo, e ele, o pequeno rebento que me acompanha, ao me ir pedindo cada vez mais para passar mais tempo com a família é que me fez descobrir o quanto andava a inventar famílias para não olhar, de frente, a minha, com o passar do tempo fui dando cada vez mais importância à minha família de origem. Levo o neto para estar com a avó e aproveito para um reencontro do filho com a sua mãe. Somos árvore, somos raíz, somos ramada estreitando o céu. Dou-me conta disto ali em Sintra, no fim daquela noite magnífica em que discutímos com a incarnação juvenil de Augusto Comte. É de uma forma tranquila que agora resolvo o meu problema familiar. Sinto verdadeiramente o que é fazer parte. Fico ainda com um problema a resolver: a comunidade. Agrada-me a ideia. O caracter irressolúvel da ideia de comunidade sempre me levou a lugares que me constituiram como pessoa. Como, no teatro, o teatro andamento ou, mais recentemente, o altaCena, com quem fiz o meu texto Lugarzinho no Céu.

segunda-feira, julho 19, 2010

Tempo diegético

O tempo é o que fazemos dele, diz a Cibele, só temos uma vida, acrescenta, pela ordem inversa de chegada, a Cristina. Ando ali a cirandar pelo Calhariz em torno das minhas papelarias preferidas à procura de canetas, quando me dá a vontade de escrever mato-a assim, com canetas, já não tenho saúde para escrever, fico muito ansioso, como se fosse um sapo a rebentar, a minha vida torna-se num inferno, escrever voltará um dia a ser um prazer?, compro-as de vários feitios, eu que quase só escrevo digitalmente ponho-me a catrapiscar canetas, ao lado da minha livraria de estimação há um alfarrabista, a namorar a montra, o Tomás Vasques, ficamos ali a trocar alguns minutos de conversa, o tempo é o que fazemos dele, sabe-me bem este toque-e-foge com ele, não sei porquê, há pessoas que o fazem com aqueles que gostam de gatos, eu é com livros, confio imediatamente numa pessoa que gosta de livros, e depois de termos estado num mesmo blogue as três vezes que o encontrei foram sempre ao pé dos livros, gosto dele, simpatizo tanto com ele que até me dei ao luxo de lhe contar uma pequena fantasia, estou a escrever um romance (ele também tinha um romance, a meio, só que estava parado, por causa da bloga intensa) para o que me havia de dar, poderia ter dito que estava a escrever uma peça de teatro, uma reportagem, uma entrevista, até um conto, para o que me havia de dar?, um romance, eu que já não escrevo, nem na antiga nem na nova ortografia, a escrever um romance, coisa que só fiz quando tinha quinze anos, dos quinze aos dezasseis, fiquei vacinado, e o mais engraçado é que poderá mesmo ser verdade, comecei há dias uma prosa que não se enquadra em nado do que escrevi até agora, ao fim do primeiro capitulo já descobri onde vou passar os meus próximos dias, é numa Lisboa real com a língua de fora, quero dizer, com o imaginário de fora, em termos de cinema deveria ser um argumento engraçado, de repente uma rua real, quase documentário, depois o personagem dobraria a esquina e entraria numa rua imaginária, estou cansado do real mas esse cansaço leva-me para uma vontade de criar um lugar imaginário onde consiga encontrar alguma realidade no real, e isto tem finalmente a ver com o que a Cristina e a Carla disseram, o tempo, o espaço, a vida, é o que construímos nela e só temos uma, biológica, claro, porque de resto somos milionésimamente felinos, temos milhares de vidas, se a circunstância da nossa única vida biológica nos transcende, sabemos lá?, a única coisa tangível é este desdobramento de lugares que a imagem em movimento, a imaginação, consegue produzir. O tempo, como a vida, é um jogo de física quântica: há uma coisa com a sua materialidade de coisa, a sua imposição de coisa, a sua ostentação de coisa, a sua ideologia (encapotada) de coisa. É uma coisa que cansa, que me cansa, pela forma como ela está gasta, exaurida, disponível para a manipulação. Cansa-me enquanto coisa manipulada, e quem diz coisa diz a cidade, os largos, este pedaço de rua que vai do Calhariz à Calçada do Combro, e por isso começo lentamente a deslocar essa coisa do lugar onde ela surge como uma imposição e trago-a, doce, para o local da minha imaginação. A rua do Diário de Notícias deixa de ser a Rua do Diário de Notícias e passa a ser a Rua da Espera, por causa daquele fim de tarde, há mais de vinte anos, em que alguém, teria sido eu?, esperou por uma mulher que nunca apareceu e nunca apareceu porque nunca existiu. O real, o tempo real, é uma chatice pegada!

sexta-feira, junho 18, 2010

Escuroterapia

Ontem, em diálogo interior com o espectáculo de divulgação científica Stupid Design, de David Marçal, que vi no Teatro da Trindade, com um conferencista a propôr uns retiros no deserto onde o visitante, participante entre outras coisas poderia ter sessões de estupidoterapia, o meu cérebro veio, em loop, a fabricar novas terapias. Já era tarde quando chegámos a casa, um pouco mais tarde quando nos dedicámos à off_tv_terapia. Nem CSI_terapia, nem mentescriminosoterapia, nem internetóterapia, nada. Apenas o escuro da sala, o mais brilhante de nós mesmos que pudémos arranjar quando nos dedicámos à trovanteróterapia e à heróisdomarterapia.

quinta-feira, maio 13, 2010

As coisas são o que (não) parecem. A noite é o que (não) parece. É escuridão. Não é esconderijo, nem esconde-esconde. É escuridão. Dizer que a escuridão esconde ou é esconderijo, tocaia, é ideologia. Eu não tenho nada contra a ideologia que se assume na bandeira desfraldada dos ideais que a agitam. O que me cansa é a ideologia disfarçada de ciência, de mundividência humanista, de moral (a)política. Cansa-me porque acho que a maior parte de nós já cá anda cá há tempo suficiente que justificaria que não nos andássemos a enganar uns aos outros. Ontem tive de dar uma volta imensa para voltar para casa. Desci à Rua da Conceição e estava um cordão policial montado até ao Rossio. Lá tive de montar as minhas tamancas e ir apanhar o metro nos Restauradores para conseguir apanhar o outro lado da rua e poder vir para a Graça. Talvez muitas pessoas achem que sou masoquista, mas achei perfeitamente justificado o cordão de segurança e, por mais que fisicamente me incomodasse muito o banho involuntário de multidão, gosto que a minha cidade se ponha assim bonita para receber o Papa, o Dalai Lama, e quem mais por bem vier para nos lembrar que se não pudéssemos de alguma forma transcender a materialidade que nos configura, a nossa vida seria um dó de alma. E mais: mesmo sabendo que grande parte daquele povo de deus que enchia as ruas já trocou as suas orações quotidianas e dominicais por promissórias nas catedrais do Belmiro ou do Jerónimo Martins (Rui Tavares tem hoje um excelente texto onde assinala esta nossa perda de referências religiosas) agrada-me vê-los assim coloridos, floridos com bandeiras distribuídas pelo Correio da Manhã, roubados à violência do dogmatismo, daquele odor bafiento a sacristia. Muitas vezes perante a intolerância e o fanatismo religioso que, felizmente, cada vez menos vamos encontrando, pensamos erradamente que é a devoção a um Deus que os torna tão mesquinhos. Quando, dei-me conta disso ontem, ao pé do MUDE, ao parar um minuto verdadeiro para olhar aquela turba estranha, talvez seja exactamente o contrário: talvez seja esse curvarem-se diante do inmensurável que lhes dê ainda assim, alguma luminosidade. É claro que o Deus a que se curvam é tão mau quanto eles ( e nós) próprios. É um deus da matança, do obscurantismo, um deus que os manda fazer aquilo para que (também) tendem.
É preciso não confundir nem Deus, nem o Criador de Deuses, o Homem, com esse breve momento em que uma pessoa se ajoelha, canta a alegria da vida, se entrega a uma transcendência para a qual também tende.

sexta-feira, maio 07, 2010

Um dia destes fará sol outra vez

Hão-de me perdoar vossas senhorias. Com tanta gente a falar dos rattings, das notações da dívida pública, do endividamento externo, eu vou sair pela porta do fundo e pensar noutras coisas. Até porque não consigo deixar de sentir que fui atacado por um virús qualquer que me bloqueou o hardware interno, o disco rígido e a memória ram e me impede de me preocupar com a crise financeira. Não que ela não possa ser preocupante. Só que não consigo deixar de pensar que a coisa mais insensata que podemos fazer é preocuparmo-nos em demasia. Porque a nossa preocupação valoriza, dramatizando-a, a especulação financeira. Nós sabemos que somos pobres e que vivemos o nosso sonho azul de uma Europa que de repente nos livrou do karma salazarista, do pesadelo da sardinha para três, das histórias honradas que os nossos pais receberam dos seus pais e que no-las contaram, na mesa de camilha que tinha o radiador, no fogão a lenha onde toda a família se juntava. Nós sabemos que acabou-se aquilo que diziam, era a vida boa. Só que se formos minimamente perspicazes percebemos que a vida boa não era assim tão boa. Endividámo-nos até ao osso. Ao vermos o rendimento das pessoas em Portugal é impressionante a quantidade de pessoas que ganha abaixo dos 1300 euros. E são estas pessoas que criam as grandes fortunas portuguesas nos bancos, na distribuição, na comunicação. Gente que tem de governar uma casa com menos de dois mil euros por mês e que tem de alimentar filhos, colocá-los na escola, levá-los ao médico, tem um circuito de pobreza encapotada que a leva a percursos de consumo muito previsíveis e disponíveis para serem captados pelas garras das grandes empresas, nos hipermercados, nos cartões de fidelização, na comunicação. Sócrates falhou por um triz o seu choque tecnológico. O Magalhães poderia ter sido a nossa palavra-passe. Estávamos quase lá todos. No Second Live. No Farm Ville. No Twitteer. Consumiamos menos. Gastávamos menos electricidade. Poupávamos na água. Na saúde. O mundo virtual poderia ter sido a nossa segunda grande aventura enquanto nação de valentes. Não foi. Não nos preocupemos demais com isso. A crise financeira é como a gripe A, lembro-me das palavras sábias do meu filho, já o disse, ele ensina-me quase tudo: "- Pai, é melhor apanhar já enquanto a gripe ainda está fraquinha, depois ela vai crescer e ficar mais forte!". Abençoados sejam os humildes, porque deles é o reino do supermarket. Quando eu era miúdo e chovia, íamos para o sotão lá na A da Pera e os meus irmãos faziam dinheiro para depois eu poder gastar no hotel do mais velho e no restaurante do mais novo. A brincadeira para eles começava mais cedo: tinham de subir lá acima e enquanto eu me entretia a ler a Enid Blyton à luz da vela, iam tratar do hotel, do restaurante, das iguarias (esparguete retorcido à luz da vela, pontas de bacalhau queimadas no velório à moda do Chefe, massinhas cruas para mastigar, água, tudo verdadeira cozinha gourmet). A brincadeira não podia começar sem uma pequena actividade: eu tinha de ir ao banco. Lá ia eu buscar as notas que eles faziam. Os banqueiros. Estavam podres de ricos, no Inverno, quando chovia em dias seguidos. Por vezes eles faziam-se de maus. "-Tu nunca tens dinheiro!". "-Tens de começar a fazer também o teu dinheiro!". Eu dizia-lhes que não me apetecia, que ía continuar a ler os Sete. Eles lá percebiam que não podiam continuar a jogar sem eu ir ao restaurante e ao hotel. Até porque o mais velho não ía ao restaurante do mais novo, nem o mais novo ia ao hotel do mais velho, para não se darem a enriquecer um ao outro. Íam assim financiando-me na minha vida devassa de prazer (luxúria foi mais tarde, noutro ambiente, quando o Manecas, um espertalhaço, colou nas paredes da garagem meia dúzia de posters daqueles que se viam nas oficinas, o seu pai era bate-chapa, e nos levou lá, àquilo a que chamou, casa das meninas, paraíso terreal acessível por cinco tostões por cabeça). Depois, por mais rigorosos que fossem os invernos, haveriam de vir os verões e aquelas resmas de papel com números deixavam de valer qualquer coisa no chinquilho da vida vadia dos dias longos. E foi isso que aprendi com o capitalismo e é por isso que quando ele me passa à porta e me faz cara má dizendo-me, o menino é mal comportado, o menino não poupou, eu lhe faço o manguito que herdei do Bordalo, herdámos todos, às vezes não nos lembramos mas herdámos todos, e digo-lhe, às de cá vir perceber que quem te faz rico é aqui o dôtor...

terça-feira, abril 27, 2010

O que se faz com um novo dia?

Vem aí Maio e é sempre assim: não há tristeza que resista. Eu sou de Maio. Quer dizer que nasci em Maio. Que me quero feito de Maio. Maio, maduro maio.

domingo, abril 18, 2010

Transe Dance

Há em tudo uma primeira vez. No meu diário de vida vou assinalar que hoje fiz Drum Circle e Transe Dance. Cantei, dansei que nem um desalmado, toquei batuques, fui som. Temos um corpo esquecido, é só o que digo. Um ritmo. Por vezes toquei bem perto desse ritmo e percebi que tenho uma data de histórias incompletas dentro de mim. Há um vaivém narrativo que me acompanha. Gosto de respirar. Quando fumava cheguei a odiar fazê-lo mas agora voltei a descobrir esse imenso prazer de fluir o circuito de ar, de alargar o diafragma e inastalar em mim o ar necessário para ser feliz. E percebi também uma coisa que me deixou muito contente: tenho tido uma vida boa e sou, em tudo, um afortunado. Redescobrir isso naquele caramanchão daquela quinta de Sintra foi uma dádiva de luz e sombra.

segunda-feira, abril 05, 2010

Segunda-feira, depois da Páscoa

A segunda feira depois de um Domingo de Páscoa devia ser anulada pelo calendário e substituída por qualquer outro dia. Apetecia-me estar a namorar, a alargartar, a ler o jornal numa esplanada solarenga, podia ser no meu pequeno quintal, custa-me hoje o exercício do tempo e do espaço. Eu bem tento entusiasmar-me mas só me saí um bocejo estridente, arrastado, rejuvenescedor. Já me tentei inspirar no meu jornal diário, nada. Ainda tentei ir a meças com o Miguel Esteves Cardoso quando começou a falar da traição a Becket mas depois reconciliei-me com ele no fim do texto, quem traiu Becket foi esse seu sonho de teatro. Depois, ainda me deixei tentar pela primeira página, em caixa alta, com as aventuras do engenheiro técnico José Sócrates no país do cimento, do betão e dos construtores civis. Mas a quem interessa isto, que uma pessoa que elegemos para primeiro-ministro tenha sido um displicente técnico de engenharia? Saltei para o suplemento de Economia, uma entrevista com o mentor do projecto de reestruturação da administração central do estado (PRACE) cujos resultados, a seu ver ficaram muito aquém dos desejados. Vale a pena ler para se compreender um pouco do problema que carecemos mas também isso não me entusiasma. O cerrar de fileiras do Vaticano em torno de Bento XVI, bem como a tentativa de advogados ingleses de o levarem a julgamento, também não me comovem. É verdade que Bento XVI talvez seja, de todos os Papas, aquele que mais se empenhou contra a pedofilia no seio da Igreja, mas isso parece resultar menos de uma convicção pessoal de que a Igreja não deveria ter silenciado e protegido os crimes dos seus padres, mais da vontade de salvar a pele da Igreja da qual é pastor. Não, nada isso hoje me alenta, entusiasma ou me tira aquela sensação de que sem esta segunda-feira, o mundo estaria, senão melhor, pelo menos na mesma.

quarta-feira, março 31, 2010

Ilhéu

Estou cercado de mar. Ponho três pedras no Jameson. Como se fosse um náufrago. Sabe-me bem o balancear das águas. Balanço eu também. Faço-me de pequenas impressões. Coisas pequenas que acontecem durante o dia. O palco outra vez a encher-se. Não tarda vem aí o D. Quixote. Estamos a trabalhar com pequenos grupos, que acompanham o processo criativo do Bando. Já fomos a Vale dos Barris, a esse refúgio que, há doze anos - vai fazer doze anos que acabou a Expo 98 e que o Bando começou a projectar-se do outro lado, a olhar Palmela, os campos, a península - é a sua casa. Vir um grupo como este para o teatro onde trabalho é semear os meus dias de interpelação, de vontade de querer fazer melhor. Já me esqueci da melancolia com que estava a querer começar o texto, o post. O gelo a derreter-se. Eu gostava de ser capaz de pensar um pouco mais mas não consigo. Ou não sei se quero. Não se consegue pensar nada quando se está sozinho. Ou consegue-se, mas é um pouco estéril. Há dias que voltei a escrever aqui no blogue e quase ninguém passa por aqui. Vou pôr mais uma pedra no Jameson. A verdade é que eu próprio já não consigo reeditar o fascínio que tenho por escrever no blogue. Fazê-lo significa que eu trabalho este ardil de pensar que tenho algo para dizer quando sei que não tenho. Quer dizer, ainda não desisti do mundo: se me sentar a escrever uma fala para ressoar no tempo teatral, aí acho que posso ser-vos útil. E o tempo do teatro está aí, cada vez mais urgente. A crise é boa para o teatro. As pessoas ficam insatisfeitas, começam a coçar-se, a ficar nervosas, a quererem estar umas com as outras, a solidão começa a ficar muito ruidosa, é a hora do palco e o palco é essa passerele por onde tu, eu, nós, passamos. Mas a blogosfera, confesso que é como este Jameson, tenho dúvidas. Entretanto, vou buscar mais uma pedra de gelo. Está quase no ponto. O problema é que não vimos aqui para escrever. Nós estamos aqui. Na sala ela está a ouvir uma música, a ler um livro. O problema é esse: há tantas coisas para deitar as mãos, livros, músicas. E pessoas? Ontem fui a cinema e quando vinha subindo a Gran via da nossa cidade, havia corpos deitados sobre a rua. Um sem abrigo ressonava, tinha o pé de fora. Hesitei entre o tapar, entre fazer-lhe cócegas ou simplesmente, seguir em frente. Segui em frente, claro. Perdi o interesse pela blogosfera? No outro dia o guarda-rios foi-se embora, apagou o seu rastro, deixou apenas um adeus. O que não temos faz-nos falta. Tu, que nunca passaste por aqui, que nunca escreveste aqui nada, fazes-me falta.

Apologia de Sócrates

Não foi própriamente uma confissão de arrependimento. Foi apenas um daqueles anacronismos resultantes das circunstâncias do tempo em que vivemos. Também ontem uma Fedra me veio mordiscar as solas dos sapatos. Acontece. Mas gostei de ver o Público, se bem que por cinco euros e tal, fazer A Apologia de Sócrates. Na minha adolescência emocionei-me mais quando li este texto e o Banquete do que com muito grupo de Rock and Roll.

Estamos sós

Mesmo quando não estamos sós. Água e solidão. O nosso adn não tem muito mais.