terça-feira, agosto 17, 2010

Chamava-lhe princesa...

Herdei-a do meu pai. Durante os primeiros tempos comecei a escrever nela quando ele não estava em casa ou quando não tinha de fazer serão. Mesmo assim dividia-a com o meu irmão mais velho. Depois tornou-se tão inseparável, que já ficava sempre no meu quarto. Ainda tenho na cabeça o som do correr do carril da máquina. Eu, como em tudo, não tinha bem a noção da força que empregava nos meus gestos. Nunca fui delicado, é um problema meu. As letras não se queixavam logo mas com o tempo começaram a lamentar-se das dores nos costados, a rangerem, a empenarem. Houve mesmo alturas em que uma determinada letra não escrevia. E é claro que aquelas que tombavam primeiro eram sempre as letras mais usadas, as mais necessárias. De quando em vez lá pegava nela e ia a caminho da Av. João XXI para a reparar. A caixa de transporte tinha uma pequena alça e eu sentia-me bem com este efeito de portabilidade da escrita. Como eu disse, não era delicado com ela. Nunca fui aliás delicado com coisa nenhuma. Às vezes inspiro fundo, muito lentamente, como se o ar fosse, camada por camada, encher-me de uma delicadeza enorme capaz de me contaminar o espírito, mas fora isso do ar, e dos truques que as sessões de animação teatral e de yoga me ensinaram, sou denso, pesado, bruto, desajeitado corporalmente. Quando comecei a perceber que a minha voracidade de escrita tornava a minha princesa frágil e macerada, tentei imaginar a delicadeza na ponta dos meus dedos. Comecei a tentar escrever como se tocasse piano. Data daí uma forma de escrever que, fora os modismos que necessariamente contaminam um escrevente com pouca prática, ainda hoje mantenho. Por vezes, dou uma golfada de ar e imagino que escrever é dançar e que dançar é desaparecer do mundo. Cada bater de tecla, torna-se como um passo a passo em direcção ao infinito da coisa, da ex-coisa, da coisa virada pelo avesso da coisa. São muitos raros estes momentos e a maior parte deles, para infelicidade minha, não me apanham a escrever. Em todos eles me lembro: chamava-lhe princesa e foi por causa dela que soube que escrever podia ser uma forma de desaparecer do mundo.

3 comentários:

Porfirio Silva disse...

HCESAR, Princesa. JPN, não me lembro da marca da única "Princesa" que foi realmente a minha máquina portátil de escrever. Escrevi noutras, que não eram minhas. E depois passei aos computadores. Mas o encanto continua: agora tenho alguns exemplares de colecção, com que de vez em quando escrevo para lhes exercitar os músculos. Mas é como dançar com uma boneca insuflável, claro. Ainda continua à procura de uma daquelas "de jornalista", muito portáteis e muito resistentes.
Abraço

CCF disse...

E o que lhe fizeste? Isso é legado para deixar ao filhote.
Abraço
~CC~

João Figueira disse...

herdás-te-a? pensava que a tínhamos herdado... não me lembro. mas lembro-me bem de como detestava que a usasses! e precisamente porque atacavas o teclado com tal violência que quando chegava a minha vez uma série te letras encravava e a solução era ficar tempos a fio a teclá-las (não sei se existe o verbo) suave e secamente. mas nem sempre funcionava e lá ia eu também a caminho da joão xxi. era muito sensível a nossa princeza...