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sexta-feira, maio 07, 2010

Um dia destes fará sol outra vez

Hão-de me perdoar vossas senhorias. Com tanta gente a falar dos rattings, das notações da dívida pública, do endividamento externo, eu vou sair pela porta do fundo e pensar noutras coisas. Até porque não consigo deixar de sentir que fui atacado por um virús qualquer que me bloqueou o hardware interno, o disco rígido e a memória ram e me impede de me preocupar com a crise financeira. Não que ela não possa ser preocupante. Só que não consigo deixar de pensar que a coisa mais insensata que podemos fazer é preocuparmo-nos em demasia. Porque a nossa preocupação valoriza, dramatizando-a, a especulação financeira. Nós sabemos que somos pobres e que vivemos o nosso sonho azul de uma Europa que de repente nos livrou do karma salazarista, do pesadelo da sardinha para três, das histórias honradas que os nossos pais receberam dos seus pais e que no-las contaram, na mesa de camilha que tinha o radiador, no fogão a lenha onde toda a família se juntava. Nós sabemos que acabou-se aquilo que diziam, era a vida boa. Só que se formos minimamente perspicazes percebemos que a vida boa não era assim tão boa. Endividámo-nos até ao osso. Ao vermos o rendimento das pessoas em Portugal é impressionante a quantidade de pessoas que ganha abaixo dos 1300 euros. E são estas pessoas que criam as grandes fortunas portuguesas nos bancos, na distribuição, na comunicação. Gente que tem de governar uma casa com menos de dois mil euros por mês e que tem de alimentar filhos, colocá-los na escola, levá-los ao médico, tem um circuito de pobreza encapotada que a leva a percursos de consumo muito previsíveis e disponíveis para serem captados pelas garras das grandes empresas, nos hipermercados, nos cartões de fidelização, na comunicação. Sócrates falhou por um triz o seu choque tecnológico. O Magalhães poderia ter sido a nossa palavra-passe. Estávamos quase lá todos. No Second Live. No Farm Ville. No Twitteer. Consumiamos menos. Gastávamos menos electricidade. Poupávamos na água. Na saúde. O mundo virtual poderia ter sido a nossa segunda grande aventura enquanto nação de valentes. Não foi. Não nos preocupemos demais com isso. A crise financeira é como a gripe A, lembro-me das palavras sábias do meu filho, já o disse, ele ensina-me quase tudo: "- Pai, é melhor apanhar já enquanto a gripe ainda está fraquinha, depois ela vai crescer e ficar mais forte!". Abençoados sejam os humildes, porque deles é o reino do supermarket. Quando eu era miúdo e chovia, íamos para o sotão lá na A da Pera e os meus irmãos faziam dinheiro para depois eu poder gastar no hotel do mais velho e no restaurante do mais novo. A brincadeira para eles começava mais cedo: tinham de subir lá acima e enquanto eu me entretia a ler a Enid Blyton à luz da vela, iam tratar do hotel, do restaurante, das iguarias (esparguete retorcido à luz da vela, pontas de bacalhau queimadas no velório à moda do Chefe, massinhas cruas para mastigar, água, tudo verdadeira cozinha gourmet). A brincadeira não podia começar sem uma pequena actividade: eu tinha de ir ao banco. Lá ia eu buscar as notas que eles faziam. Os banqueiros. Estavam podres de ricos, no Inverno, quando chovia em dias seguidos. Por vezes eles faziam-se de maus. "-Tu nunca tens dinheiro!". "-Tens de começar a fazer também o teu dinheiro!". Eu dizia-lhes que não me apetecia, que ía continuar a ler os Sete. Eles lá percebiam que não podiam continuar a jogar sem eu ir ao restaurante e ao hotel. Até porque o mais velho não ía ao restaurante do mais novo, nem o mais novo ia ao hotel do mais velho, para não se darem a enriquecer um ao outro. Íam assim financiando-me na minha vida devassa de prazer (luxúria foi mais tarde, noutro ambiente, quando o Manecas, um espertalhaço, colou nas paredes da garagem meia dúzia de posters daqueles que se viam nas oficinas, o seu pai era bate-chapa, e nos levou lá, àquilo a que chamou, casa das meninas, paraíso terreal acessível por cinco tostões por cabeça). Depois, por mais rigorosos que fossem os invernos, haveriam de vir os verões e aquelas resmas de papel com números deixavam de valer qualquer coisa no chinquilho da vida vadia dos dias longos. E foi isso que aprendi com o capitalismo e é por isso que quando ele me passa à porta e me faz cara má dizendo-me, o menino é mal comportado, o menino não poupou, eu lhe faço o manguito que herdei do Bordalo, herdámos todos, às vezes não nos lembramos mas herdámos todos, e digo-lhe, às de cá vir perceber que quem te faz rico é aqui o dôtor...

terça-feira, março 09, 2010

Não terão sido os ricos que andaram a enriquecer mais do que deviam?

Não vi muito do Prós e Contras. Um breve instante antes de adormecer a olhar a televisão. Devo-me ter embalado com o vaivém de Fátima Campos Ferreira a dançar no banco - ou estaria a tentar sentar-se? - entre José Manuel Pureza e Jorge Lacão. Fiquei com uma frase do chefe de bancada parlamentar do Bloco: "- Dizer-se que os portugueses tem vindo a viver acima das suas possibilidades é um insulto para com a pobreza instalada neste país." Registei e aplaudi. E não é só isso. É um não saber explicar as coisas que dá a ideia de que as coisas não são vistas como elas são. Ora se nós não vemos as coisas como elas são como poderemos ambicionar resolver os problemas? É um facto que andamos todos a viver acima das nossas posses. Eu vivo com o que não tenho. Basta olhar o meu extracto bancário mensal para o perceber. A maior parte de nós vive com o que (ainda) não tem. E somos nós, os pobres, os indigentes, os remediados, que vivemos com o que não temos. E como é que alguém pode viver com o que (ainda) não tem? Porque se a sociedade da poupança nos ensinou que podíamos enriquecer com o que ganhámos, a sociedade do consumo deu como adquirido que poderíamos viver com aquilo que tínhamos expectativa de vir a ganhar. E assim, mediante seguros de protecção de empréstimos, de adiantamento do ordenado, cartões de crédito, créditos de lojas, transmitiram-nos a ideia de que podíamos ter hoje o que iríamos ganhar amanhã. E se isto começou por ser verdade com os que têm rendimentos renováveis com alguma garantia e estabilidade, também o passou a ser para quem não o tinha. Todos nós sabemos isso. O capitalismo financeiro ajudou a vender a ideia - que a indústria e o comércio necessitavam para fazerem progredir exponencialmente os seus negócios - de que o consumo era o novo dispositivo criador da igualdade entre os homens e as mulheres de boa vontade. E fizeram-no não por algum instinto filantrópico. Fizeram-no porque quiseram vender hoje aquilo que nós só podiamos comprar amanhã. E assim, para poderem ganhar mais do que podiam (e deviam) proporcionaram a possibilidade das pessoas poderem viver com o que (ainda) não tinham. E tudo isto acontece porque os Estados não se interessaram nunca por regular, pelo lado da oferta, esse fenómeno. É por isso que dizer-se que andámos a viver acima das nossas possibilidades é uma mentira. Nós podíamos e pudémos. Talvez não devêssemos ter podido. É certo, diz-nos hoje o revés deste sonho dourado. O que aconteceu é que, entretanto, houve agentes económicos que andaram a ganhar mais do que deviam e acumularam fortunas colossais.

quinta-feira, outubro 23, 2008

"Conclusão singela: parece que não é remédio para a crise deitar dinheiro fresco para cima das labaredas. Alguém vai ganhar – os mesmos que já deitaram muito a perder - mas pode perder-se uma oportunidade de mudança. Uma pergunta ingénua: sempre vão acabar os paraísos fiscais? E o que têm a dizer as organizações de colarinhos brancos género “Compromisso Portugal”… caladinhos em tempo de flores pouco exuberantes! "
[Eduardo Graça, no Absorto]
Eu não devia falar sobre economia. Aliás, eu e muitos de nós devíamos conseguir resistir a falar de economia. O problema maior é que também parece que os economistas puros e duros não são confiáveis. A maior parte deles eles fala de Wall Street como se ela fosse um eixo do mal. Nesse sentido a crise financeira, económica, é também uma crise de credibilidade e dizê-lo é terrível porque de repente nos lembra, nos acorda para o modo como a sociedade do espectáculo substituiu a confiança e a credibilidade, pela verosimilhança e pelo especioso.
Não falarei da crise então. Ou não falarei da crise de um modo diferente daquele que nos últimos tempos me tem, quase obsessivamente, ocupado: o da linguagem, o da comunicação. Em primeiro lugar o conceito de crise. Não podemos entender o trabalho ideológico que o conceito de crise faz senão começarmos por reconhecer que a nossa vida está toda subordinada, acriticamente, à ideia de estabilidade. Bem podem alguns modelos pedagógicos, científicos, artísticos perceituarem alternativas a este modelo ideológico, com o culto da incerteza, da dúvida, da mudança, da instabilidade, da própria crise (lembro-me de cor, de Politica e Modernidade, de José Bragança de Miranda): é indiscutível a supermacia ideológica do conceito de estabilidade como se ele fosse a natural tendência da vida humana. A estabilidade é um conceito do qual nos apercebemos através de alguns parâmetros: o do equilibrio, o da regularidade, o da repetição.
Há um conceito que também trabalha no mesmo sentido do da estabilidade, o da normalidade, mas que ficou muito fragilizado pela forma deficiente como conseguiu responder ao facto do desenvolvimento da diversidade dos comportamentos sociais não implicar, à partida, uma perda dos padrões de coesão social e estabilidade.
A minha insistência na tentativa de pensar a ideia de estabilidade, tem a ver com este modo muito curioso das nossas sociedades reagirem ao desiquilibrio, à irregularidade, à instabilidade: criando um pathos, um clima dramático, a que chamamos crise, que introduz estabilidade no sistema, estabilizando a ideia de instabilidade. Há semanas que todos nós pronunciamos a palavra crise e estabilizamos aí num cenário contractivo, tensionado, até, tendencialmente depressivo. Chamamos um conjunto de especialistas, comentadores, dedicados aos temas das finanças (depois, mais tarde ou mais cedo, a crise desaparecerá (o que será critico para aqueles que se especializarem neste produto ideológico, a crise) substituindo-os pelos especialistas ou comentadores do futebol e os programas de frivolidades mundanas).
O conceito de crise tem um trabalho perigoso na sociedade actual: por um lado abre o caminho para a manipulação, para a indução da necessidade absoluta de reagir, e geralmente para uma reacção inscrita num quadro de hipóteses muito restritas (tanto que por exemplo em relação ao plano da administração Bush a diferença entre os democratas e os republicanos só conseguiu produzir sentido na forma como os primeiros exigiram que a intervenção do Estado tivesse como contrapartida a entrada no corpo accionistadas empresas apoiadas. O que é muito pouco.)
Aquilo que se chama a recente concertação europeia ainda não mostrou ser uma forma de abordar um problema complexo com soluções diferenciadas mas uma espécie de mimetização das mesmas soluções. O que é ainda muito pouco. Disse que o conceito de crise tem um aspecto perverso, o da criação de um pathos que necessita rapidamente de uma acção para evitar a tragédia quando afinal a tragédia poderá estar essencialmente aí, na dificuldade de encontrar uma forma de pensar a situação tensa e dramática dos mercados mundiais.
Tem também aspectos benignos: ele cria um clima que favorece a tomada de consciência dos problemas. Tem sido recorrente nos últimos dias a ideia de que os problemas que estamos a viver já vinham sendo detectados há anos por inúmeros especialistas em politica económica e que toda a gente fez ouvidos de mercador. A afirmação de que ninguém ligou é muito intrigante. De facto a maioria de nós - nem mesmo os que têm blogues e farejam tudo o que é informação para poderem escrever um post- não têm por hábito ouvir os economistas puros e duros nas suas conferências, encontros e reuniões. São apenas outros economistas os que ouvem os economistas puros e duros. Alguns desses economistas estão nas empresas, outros na administração pública, outros nos partidos. O que quer dizer que o Estado, o mundo empresarial e os partidos não os ouviram.
Outro aspecto benigno: é nestes momentos que parece que podemos viver de outro modo em relação ao ter e ao ser. No papel que o consumo pode ter nas nossas estratégias de afirmação identitária. Todas estas coisas podem ser de outra maneira. A exploração do ser humano pelo ser humano, por exemplo. Deveremos repetir lenta e exaustivamente como se acreditássemos piamente no que estamos a dizer: podemos viver de outro modo.
Ora isso é uma grande ruptura epistemológica com o paradigma do consumismo desenfreado. Tenho como muitos a minha força de trabalho hipotecada através de créditos disto e daquilo mas há pouco, sem um tostão no bolso, senti que precisava de algo. Entrei numa loja dos trezentos e passei pelas prateleiras, agarrando em objectos incríveis de formatos e cores estranhas. Olhava para eles e transferia neles a minha necessidade de comprar, de comprar coisas. Saí um bocadinho mais rico e perfeitamente satisfeito, apto a satisfazer as minhas verdadeiras necessidades. E que são tão poucas. Devia haver lojas dos trezentos para desabituação consumista. As pessoas entravam. Olhavam as montras e em cada objecto procuravam a peça do puzzle que bate com o aparador, com a parede, com o escritório, com quintal lá de casa. Podiam até agarrar nas coisas e dizer as frases tipo do consumidor dependente: é tão giro, não é? ist ficava tão bem lá em casa ao pé de. Não pagavam mais por isso. Os objectos podiam aliás ser hologramas tecnicamente preparados para fornecer estimulos sensoriais.
Eu sei, este texto está caótico mas eu bem avisei, não devia meter-me a falar de economia.

quarta-feira, outubro 08, 2008

O fim do capitalismo

O fim do capitalismo só virá quando já não pudermos falar no fim do capitalismo. Entretanto o capitalismo mau leva uns açoites do capitalismo bom. Eu já fui, durante breves momentos eu sei mas fui, anticapitalista, anti-imperialista. Nessa altura eu não sabia o que sei hoje. Não sabia que existe um capitalismo bom que castiga o capitalismo mau. Nem sabia por exemplo que assistiriaa algo que só imaginaria ser possível no dia do juízo final do capitalismo na terra: a Islândia, os capitalistas maus, a pedirem dinheiro aos capitalistas bons, a Rússia. Os americanos - que são um povo muito grande e têm por isso capitalistas maus e capitalistas bons - através dos seus capitalistas bons, pede aos capitalistas maus da China que emprestem dinheiro aos capitalistas bons da América para fazer face aos estragos que o mau capitalismo, tal como os cataclismos naturais, provocou. Eu, que já fui anticapitalista e anti-imperialista, não quero mais o fim do capitalismo. Eu quero poder continuar a sonhar, interminavelmente, com o seu fim.

sábado, outubro 04, 2008

Tarde, mas não demasiado tarde

Um dia destes vou tornar-me num velho ácido que pronuncia em cada frase: eu bem dizia. O blogue poderá ser assim o rascunho da minha acidez, o arquivo da minha razão. É, antevejo, será sempre uma razão cómoda: se a tiver faço o linque, se não a tiver esqueço-me dele. Eu já me esqueço de quase tudo. Por um acaso, que o não é, o título deste post é o título da minha última peça de teatro e é também um jogo de cabra-cega com o título do post do André Bonirre. Deixem-me apenas a liberdade de uma pequena carícia metablogue: ele, o Bonirre, é um bloguer raro. Não é muito prolixo. Está temporadas sem chegar ao post it. Só aparece quando precisamos dele. Ou melhor, aparece sempre que precisamos dele. Da sua lucidez, do teatro de espelhos que as suas imagens nos provocam. O que eu queria dizer é que vou ter um grande prazer em, daqui a uns meses, daqui a uns anos, sei lá se serei ainda eu, vir ler este post e deparar-me com isto:
há mais vida para lá de Wall Street, da Bolsa de Tóquio ou da de Londres. No mau bocado que o capitalismo financeiro atravessa está também a nossa esperança de um mundo novo. Quando é que nos começam a falar dele e nos deixam de aterrorizar com os tormentos e agonias que temos de passar para o conquistar?

quarta-feira, setembro 17, 2008

"A crise dos mercados financeiros",finalmente!

"O Estado é bom quando protege as empresas e pérfido quando ampara as pessoas que precisam de amparo. Essa é a velha lógica do capitalismo e tem séculos de existência. A retórica neoliberal sobre a autonomia do mercado é apenas isso, retórica"
Rui Bebiano di-lo com uma simplicidade comovente. Ainda ontem, estávamos em casa da Sarah, falávamos sobre esta máquina de não pensar em que se transformou a sociedade contemporânea, e também de como isso causava perturbações a pessoas que, como eu, se mantinham de alguma forma vinculados à disciplina cartesiana que - com todos os contributos que conhecemos - vigorou até ao fim do milénio passado. Essa máquina tem a sua eficácia no facto da sua acção tender para a sua desaparição e por isso só quando na linha de montagem surge um novo produto - e a crise financeira, como o foi a crise do petróleo, ou a guerra contra o terrorrismo, por exemplo, é também um produto ideológico - é que sentimos, no aquecer dos motores, no rolar das roldanas, das rodas dentadas, que a máquina existe. E o quanto o seu trabalho é devastador para aquilo que, ainda há meia dúzia de anos, chamávamos pensamento.
Dizia ontem, meio a brincar meio a sério, que esta máquina de pensamento nos recoloca num pensamento mitológico. Não é, nem mesmo no exagero da metáfora, o pensamento mitológico do tempo das cavernas. Mas exageros à parte, verificamos o primeiro procedimento da era tecno-mítica: a criação de um pathos que suspende o pensamento. E esse pathos tem uma palavra-chave: crise. Qualquer cidadão da www.terra.com sabe como reagir ao ouvir esta palavra: espera pelas instruções dos especialistas, dos líderes e fazedores de opinião, do que corre por aí e, porque vivemos numa sociedade democrática, há sempre um por que sim e um por que não, a favor ou contra. Mesmo que isso vá contra aquilo que são as nossas intuições, as nossas aprendizagens de vida, a específica localidade do nosso existir.
Por exemplo: a crise financeira anunciada. Todos nós, de uma forma ou de outra, fomos, ao longo dos últimos anos, desenvolvendo uma evidência comum que supera os nossos dispositivos ideológicos de partida: estamos a aproximarmo-nos do ponto do impensável, do inconjecturável. A crise do petróleo levantou um pouco o véu sobre este procedimento. Há uma virtualidade na nossa economia que cria condições diferentes daquelas a que sempre estivémos habituados. Todos nós, mesmo os nossos gurus, fomos formados numa altura em que o valor do dinheiro, a sua materialidade ainda não tinha esta força, e dimensão, espectral que tem hoje. As grandes instituições financeiras americanas que estão a cair são o reflexo disso. O castelo de cartas de um capitalismo financeiro que se metamorfoseia e que até com esta mudança de pele quer especular. Provavelmente grandes instituições financeiras estão agora a germinar-se em vãos de escada de Nova York, nas garagens, nos subterrâneos, com um mero portátil e uma ligação wireless.
Não sei. O que sei é que esta tentativa de me meterem dentro de um pathos global me impede por exemplo de pensar que em circunstâncias normais não verteria uma lágrima sequer pelo desmoronar de um capitalismo financeiro que tem como pressupostos fundamentais para o seu crescimento a instabilidade política, a desigualdade social e económica e a manipulação ideológica (principalmente através da persuasão e da sedução, mas também da ameaça) em torno das condições de superação destas desigualdades.
Nesta tentativa de me integrarem dentro de um pathos global vale tudo: ainda hoje o Correio da Manhã me chamava a atenção para o gigante segurador americano ser o mesmo que tem as apólices do Cristiano Ronaldo. Depois de um banco me ter tentado vender a ideia de que eu podia ter uma conta bancária tão frutuosa como o mago do pontapé na bola, vem o Correio da Manhã tentar explicar às criancinhas - o espectador global é uma pequena grande criança - que estamos todos no mesmo barco.
Não estamos. Nem navegamos no mesmo mar e muito menos estamos no mesmo barco. Imagino agora a angústia daquele jovem tailandês que há meia dúzia de anos guiava um pequeno barco de um resort de luxo e que contava que queria ser outra coisa, ser um economista, e que por isso lia sempre o Financial Times, para saber o estado do mundo, da crise financeira. No outro dia perguntei-me onde estaria agora. Ao ver uma imagem da agitação na bolsa de Nova Yorque pareceu-me ver o seu rosto. Era ele, tenho a certeza. Estava mais magro, não tinha aquela calma e tranquilidade que detinha em quanto remava num lago de Puket mas era ele, tenho a certeza.

quinta-feira, junho 26, 2008

A Pátria ó poeta, o que é?

Escasseia-me o patriotismo, confesso e ofereço-me já para o inevitável chicoteamento em praça pública. Por uma questão qualquer - que não é genética nem geneticamente transmissível esclareço já aligeirando os costados dos meus ascendentes e descendentes - sou imune a todas as manifestações de consonância pátria diante dos onze cavaleiros da bola redonda da era moderna. Convidem-me para todas as peladinhas que puderem: jogarei até ao sol posto. Mas não traduzo futebolês: quando ouço dizer que Portugal ganhou ou perdeu, que Portugal isto e aquilo, que os portugueses frito e cozido, ajustando-os a todos pelo simpático elenco dos onze valentes que com a camisola das quinas andam a correr atrás de uma bola, arquivo toda esta euforia - com uma imensa carga disfórica - na categoria de pão e circo. Para mim Portugal e os portugueses serão outra coisa, que, diga-se em abono da verdade, não sei qual é. No entanto quando leio isto, embora sendo um leigo em economês, só reconhecendo algumas palavras como OCDE, crise económica, sinto logo vontade de entrar na próxima casa de utilidades e quinquilharias que os simpáticos senhor Ling e senhora Lang abriram aqui no Largo da Graça e comprar uma bandeirinha portuguesa.
[Miguel Gaspar hoje na última do Público glosa este mesmo tema e perspectiva. É uma coincidência mas agrada-me. Não só porque muitas vezes me agrada o tom reflexivo que ele coloca nos seus textos, também porque a sua prosa, sendo a última antes das férias, se integra naquela literatura pré-férias. O que, no meu caso, me dá consentidas esperanças de que este Julho seja afinal tão breve como um ai, um quebranto]

sexta-feira, junho 06, 2008

"Gosto destes tempos de crise",

seria uma frase que nem mesmo por puro devaneio literário seria capaz de escrever. mesmo que eu esteja convencido que esta crise, como outras, inevitáveis, que se seguirão, são dores de crescimento social, que há nelas uma possibilidade fantástica para a alteração dos nossos parâmetros de vida, para o desenvolvimento a nível global de uma maior consciência de que é a nível global, mundial, que os fenómenos se influenciam, mesmo que tudo isso aconteça eu seria incapaz de escrever que gosto destes tempos de crise. há gente por detrás dos indicadores económicos em baixa, há sempre gente por detrás dos indicadores económicos em baixa. preciso de dizer porém o que gosto naquilo que estes tempos de crise trazem. é certo que me habituei a gostar das crises como fenómenos. é neles que se joga o momento de transformação, seja lá de que crise estejamos a falar. uma das coisas que antevejo como extraordinamente positivas é que vamos todos ter de perceber que a escalada de consumo como suplemento de construção identitária de cada um de nós - eu sou o que consumo, consumo logo existo! - sobe através de um elevador faustoso e sedutor e desce através de umas escadas que, apesar do seu aspecto paupérrimo, conduzem a um lugar apetecível, onde podemos ser melhores. é um insulto à inteligência humana que no mesmo mundo onde se morre de fome também se morra de enfartamento, e isto a todos os níveis. há algo sobre o qual reflectimos muito pouco: quando endeusamos o mercado como sistema capaz de produzir e distribuir a felicidade humana nos seus vários subprodutos esquecemo-nos de vários aspectos importantes: o primeiro é que que ele consegue esse grau de eficácia retórica porque parece que se casa perfeitamente com o sistema democrático (ora se ele realiza algumas das condições essenciais da democracia, manifesta bem pouco interesse por outras não menos essenciais);
depois que grande parte dessa eficácia retórica resulta da sua capacidade de assimilar os diferentes discursos críticos, retirando-lhe a carga in/out que cada ideia contém e tornando-os subprodutos ideológicos da sua doutrina; e por último a sua estabilidade como modelo sistémico: se hoje olharmos o sistema de mercado ele já não condiz com o referente que a teoria económica nos fez interiorizar dentro de nós , o sistema de mercado não é, como hoje se passa, um sistema que tem a sua base de sustentação na pura especulação do valor dos diferentes produtos, e onde as cadeias de valor dos mesmos só aparentemente têm por base as condições com que esses mesmos produtos surgem nos mercados. e no entanto a defesa que é feita desse movimento especulativo é feita a partir da defesa incondicional do sistema de mercado. estamos já num outro patamar. o sistema actual tem tanto a ver com o sistema de mercado quanto este tinha a ver com as feiras e mercados da era feudal: nada, mera filiação genética.

sexta-feira, fevereiro 08, 2008

Lutar para quê?

«Um trabalhador que esteja cansado física ou psicologicamente – porque está mais velho, porque tem problemas familiares, porque trabalhar naquela empresa não era exactamente o que pretendia ou porque se desinteressou do trabalho – deve poder ser despedido por justa causa.»
A citação é do Director da CIP, reproduzida pelo André Bonirre, no Mal. Não me ocorre nada. Estou cada vez mais empanturrado de um tédio por este capitalismo façanhudo, selvagem. Amanhã se me vierem dizer que uma revolta, uma explosão social rebentou, bocejarei também. É uma coisa de morto-vivo para mortos-vivos, o tédio. Na esperança que consigam a luz que eu não tenho, deixo-vos a sós com os meus personagens. Ontem o motorista de taxi, no final de uma conversa que acabara de fazer uma razante pelos perdões e reformas milionárias do BCP, concluira, em cima dos seus quinhentos e setenta euros de motorista com dezassete anos de serviço na administração pública, dizendo:
- Eu às vezes penso que estes tipos não acham que um tipo que ganha aquilo que eu ganho seja um ser humano.

quinta-feira, janeiro 17, 2008

Política e Negócio

Estava eu a escrever o post anterior com a maior das inocências. Folheei o Público a ver se encontrava alguma informação sobre a assembleia do BCP, já que me interessava a questão do desfazamento entre o número de accionistas votantes em Cadilhe e a expressão eleitoral dessa votação, a evidenciar que o universo Millennium reproduz as habituais desporporções na distribuição de riqueza. E de repente dou de caras com o anúncio de uma daquelas conferências de prestígio sobre Economia. De um lado um filete de texto com algumas questões em caixa alta: como o que é que o seu negócio necessita do Governo?, pode o Governo português implementar medidas que tornem Portugal mais competitivo na economia global? Será o Governo Português bem sucedido na prossecução do seu espírito reformista? O que tem o Governo Português de fazer para aumentar a produtividade? e o outro, a lista e fotografia dos oradores agendados onde se inclui José Sócrates, Manuel Pinho, Fernando Teixeira dos Santos e Vitor Manuel Ribeiro Constâncio, para além de um outro conjunto de personalidades do sector privado. Em baixo, numa caixa, a indicação a bold, "Reserve hoje o seu lugar. Desconto de 200 €." O acontecimento é sponsorizado pelo Banco Efisa, organizado pela Lift e tem como publicação o jornal Público. E perguntei-me: a que título é que estes senhores da República vão dar a ganhar dinheiro a este grupo empresarial? E será que eles vão ganhar? E se não forem ganhar financeiramente, presume-se que vão ganhar politicamente e que, a ver pelos temas, este é mais um encontro entre Governo e empresários, incentivando-os a investirem. E, se o Governo precisa de explicar alguma coisa aos empresários sobre as suas políticas de investimento porque é que não o organiza enquanto Governo da República e se associa assim a um grupo empresarial que vai tirar dividendos económicos (e políticos, é a economia, estúpido!) do encontro?