sexta-feira, maio 07, 2010

Um dia destes fará sol outra vez

Hão-de me perdoar vossas senhorias. Com tanta gente a falar dos rattings, das notações da dívida pública, do endividamento externo, eu vou sair pela porta do fundo e pensar noutras coisas. Até porque não consigo deixar de sentir que fui atacado por um virús qualquer que me bloqueou o hardware interno, o disco rígido e a memória ram e me impede de me preocupar com a crise financeira. Não que ela não possa ser preocupante. Só que não consigo deixar de pensar que a coisa mais insensata que podemos fazer é preocuparmo-nos em demasia. Porque a nossa preocupação valoriza, dramatizando-a, a especulação financeira. Nós sabemos que somos pobres e que vivemos o nosso sonho azul de uma Europa que de repente nos livrou do karma salazarista, do pesadelo da sardinha para três, das histórias honradas que os nossos pais receberam dos seus pais e que no-las contaram, na mesa de camilha que tinha o radiador, no fogão a lenha onde toda a família se juntava. Nós sabemos que acabou-se aquilo que diziam, era a vida boa. Só que se formos minimamente perspicazes percebemos que a vida boa não era assim tão boa. Endividámo-nos até ao osso. Ao vermos o rendimento das pessoas em Portugal é impressionante a quantidade de pessoas que ganha abaixo dos 1300 euros. E são estas pessoas que criam as grandes fortunas portuguesas nos bancos, na distribuição, na comunicação. Gente que tem de governar uma casa com menos de dois mil euros por mês e que tem de alimentar filhos, colocá-los na escola, levá-los ao médico, tem um circuito de pobreza encapotada que a leva a percursos de consumo muito previsíveis e disponíveis para serem captados pelas garras das grandes empresas, nos hipermercados, nos cartões de fidelização, na comunicação. Sócrates falhou por um triz o seu choque tecnológico. O Magalhães poderia ter sido a nossa palavra-passe. Estávamos quase lá todos. No Second Live. No Farm Ville. No Twitteer. Consumiamos menos. Gastávamos menos electricidade. Poupávamos na água. Na saúde. O mundo virtual poderia ter sido a nossa segunda grande aventura enquanto nação de valentes. Não foi. Não nos preocupemos demais com isso. A crise financeira é como a gripe A, lembro-me das palavras sábias do meu filho, já o disse, ele ensina-me quase tudo: "- Pai, é melhor apanhar já enquanto a gripe ainda está fraquinha, depois ela vai crescer e ficar mais forte!". Abençoados sejam os humildes, porque deles é o reino do supermarket. Quando eu era miúdo e chovia, íamos para o sotão lá na A da Pera e os meus irmãos faziam dinheiro para depois eu poder gastar no hotel do mais velho e no restaurante do mais novo. A brincadeira para eles começava mais cedo: tinham de subir lá acima e enquanto eu me entretia a ler a Enid Blyton à luz da vela, iam tratar do hotel, do restaurante, das iguarias (esparguete retorcido à luz da vela, pontas de bacalhau queimadas no velório à moda do Chefe, massinhas cruas para mastigar, água, tudo verdadeira cozinha gourmet). A brincadeira não podia começar sem uma pequena actividade: eu tinha de ir ao banco. Lá ia eu buscar as notas que eles faziam. Os banqueiros. Estavam podres de ricos, no Inverno, quando chovia em dias seguidos. Por vezes eles faziam-se de maus. "-Tu nunca tens dinheiro!". "-Tens de começar a fazer também o teu dinheiro!". Eu dizia-lhes que não me apetecia, que ía continuar a ler os Sete. Eles lá percebiam que não podiam continuar a jogar sem eu ir ao restaurante e ao hotel. Até porque o mais velho não ía ao restaurante do mais novo, nem o mais novo ia ao hotel do mais velho, para não se darem a enriquecer um ao outro. Íam assim financiando-me na minha vida devassa de prazer (luxúria foi mais tarde, noutro ambiente, quando o Manecas, um espertalhaço, colou nas paredes da garagem meia dúzia de posters daqueles que se viam nas oficinas, o seu pai era bate-chapa, e nos levou lá, àquilo a que chamou, casa das meninas, paraíso terreal acessível por cinco tostões por cabeça). Depois, por mais rigorosos que fossem os invernos, haveriam de vir os verões e aquelas resmas de papel com números deixavam de valer qualquer coisa no chinquilho da vida vadia dos dias longos. E foi isso que aprendi com o capitalismo e é por isso que quando ele me passa à porta e me faz cara má dizendo-me, o menino é mal comportado, o menino não poupou, eu lhe faço o manguito que herdei do Bordalo, herdámos todos, às vezes não nos lembramos mas herdámos todos, e digo-lhe, às de cá vir perceber que quem te faz rico é aqui o dôtor...

10 comentários:

CCF disse...

Gostei das analogias com a tua infância, boa reflexão.
~CC~

JPN disse...

E percebeste de onde é que são estas cadeiras? Não te lembram nada? :)

CCF disse...

Setúbal, ESE?
A varanda...
(tens que vir outras vezes)
~CC~

jpt disse...

Falas do que quiseres. É teu direito. E é essência do bloguismo. Mas não deixo, aqui à distância a ler as grandes convulsões do país, de me lembrar teres tu escrito há dois ou três meses que Socrates é o primeiro-ministro melhor preparado das últimas décadas.

Sabes, nesta quase madrugada fiz um passeio pelos blogs ligados ao Ps que tenho no rol d'elos. Um silêncio significante sobre as mudanças governativas (justiça seja feita, o Pitta no Da Literatura, com o traço cada vez mais grosso, se isso é possível). Chego aqui vindo do Jugular (recuei até quarta-feira passada, nem um post, nem um, sobre obras públicas, finanças, mudanças, pressões externas, contradições, impostos que afinal podem subir - no fundo sobre a debacle de todas as promessas que sabíamos falsas e dos irrealismos voluntaristas). Ao Jugular, apesar de lá ter dois conhecidos, chamo desonestidade intelectual. Nos outros idem. Aqui, porque somos amigos, chamo - absolutamente entristecido - a tua vontade de escreveres sobre o que queres...

Navegadora disse...

Sabe-me bem quando vejo que estás a recuperar o teu cunho intimista :-) Houve uma altura que achei que estavas a converter este blogue num espaço político e, na minha opinião, a desvirtuá-lo.

JPN disse...

Agradeço-te a amizade, jpt. Compartilho-a contigo, a amizade é uma coisa boa, salva-nos de muita coisa. Até desse desejo de que pensemos todos da mesma maneira. Não pensamos. Lembro-me, não fomos muito intimos nem assíduos mas houve alturas em que nos encontrávamos mais no pátio dos Viveiros. Lembro-me, depois disso, da primeira conversa em que percebi que pensávamos de maneira diferente, íamos ali a chegar à Draivimpe, eu já tinha passado por algumas esfoliações das teatradas, tudo pessoal de esquerda montada e avançada, tu confessavas a vontade de seguir a diplomacia. Depois nunca mais nos vimos e venho-te reencontrar aqui, os dois já com pensamento escarrapachado na bloga. Aquilo que escrevi sobre o Sócrates, pensei-o e como a seguir a ele ainda não houve outro, não tenho razões para o alterar. Não me vou adiantar muito nesta conversa política até porque já percebeste pelo comentário a seguir que tenho de satisfazer muitas clientelas (ao ler-vos aos dois, lembro-me da história do velho, do burro e da criança), e este desejo de polemizar que nos ficou das vivências políticas na Lutoteca de Abril que frequentámos na adolescência tentei arrumá-lo politico num blogue politico (uma grande desilusão, confesso!), mas continuo a pensar de maneira diferente de ti. E quase que te glosaria: tenho lido em muitos blogues desligados e desalinhados com o PS a imensa desonestidade intelectual de tentarem justificar uma mudança de direcção política económica com a incapacidade de Sócrates como se não fosse, mais uma vez, pela derradeira réstea de capacidade política que ainda tem, que ele inflecte a sua política. E digo-te, o facto de ele ainda hoje ser primeiro ministro de Portugal, depois de todo o ataque que sofreu, diz tanto sobre a sua teimosia e obstinação como da sua capacidade de resistência política qu só lhe pode advir da preparação. Este homem fez muito jogging político, meu caro! Pensamos de maneira diferente, jpt. Quanto ao resto, a minha ausência de comentário político é porque percebi que a este nível, não só tenho nada de interessante a dizer, como tenho andado em actividade escrevinhadora mais intensa(na Rua de Baixo. O estado lastimável da minha quinta no farmville isso atesta melhor do que outra coisa qualquer. A única coisa que nos deve consolar é que continuaremos a protestar a nossa amizade na contramão dos nossos posicionamentos ideológicos. Um abraço para ti (e já agora outro para o Zé Rui, já deve ter chegado aí a Maputo)

JPN disse...

Navegadora, registo esta ideia algo bizarra de alguém poder desvirtuar o seu próprio espaço de expressão! :)

Navegadora disse...

É tão bizarro como dar erros ortográficos quando escreves os teus textos...
Presunção e água bento XVI...

JPN disse...

Ludoteca de Abril, e não lutoteca, como é natural (mas vou registar o conceito: Lutoteca, o lugar onde brincamos com os nossos lutos).

jpt disse...

O Zé Rui anda por aí mas ambos tão embrenhados nas nossas coisas que ainda nem comemos juntos. A nossa divergência ideológica é imensa - eu nunca entrei na farmville.

O resto é mesmo isso, cada um como cada qual. De longe isso parece muito mal. Não repito argumentos, o comentário anterior tem tudo o que me apetece dizer, aqui. Até breve