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segunda-feira, outubro 10, 2011

O poder de Francisco

Vou entrar em contra-corrente com muitos daqueles com quem geralmente estou de acordo. Já exprimi publicamente o que penso sobre a supressão do Ministério da Cultura e sobre a ideia de reduzir as entradas gratuitas nos museus. Confio na ideia dos especialistas de museus que já vieram dizer que, para além dos prejuízos na missão, há também a possibilidade de prejuízos financeiros ( não só as receitas não aumentam aquilo que se esperava com a cobrança dessas entradas, também porque elas podem provocar um efeito inibidor no acesso). São questões que para uma pessoa que falou tanto em avaliação...deviam ser melhor avaliadas.
Mas não seria honesto se não dissesse que fui agradavelmente surpreendido por esta entrevista. Mesmo naquilo que é a questão mais crispada na relação que a esquerda e a direita têm com a cultura, os apoios públicos, FJV não se muniu de nenhum daqueles argumentos populistas que a direita muitas vezes emprega. Disse aquilo que qualquer povo de esquerda pode subscrever. E defendeu de forma sincera e honesta a sua ideia de cultura. É certo que repetiu aqueles slogans da direita sobre a cultura: o dinheiro dos contribuintes e o dinheiro dos contribuintes e ainda, o dinheiro dos contribuintes. Mas o que é que se esperava de alguém que é secretário de estado da cultura - advogando a supressão do Ministério - de um Governo de direita numa altura em que a escassez de recursos é a palavra de ordem?
Fiquei com algumas esperanças de uma coisa: o ponto de encontro entre a direita e a esquerda no que toca à Cultura é a questão da avaliação, da organização dos recursos, dos princípios de gestão. Gabriela Canavilhas era ministra da Cultura de um Governo do Partido Socialista num mandato governativo em que o primeiro-ministro assumira que o seu grande erro no mandato anterior tinha sido não apostar tanto na Cultura e aceitou cortes por percentagem nas verbas destinadas ao apoio à criação no orçamento da Cultura. Francisco José Viegas é secretário de Estado da Cultura de um governo do PSD/PP e diz, na entrevista, que não quer fazer cortes cegos. A mim, que a minha tribo política é cada vez mais a Cultura, Canavilhas, que era de um Governo em que eu tinha votado, desiludiu-me. E agora surpreendi-me agradavelmente com esta primeira grande conversa pública de Francisco José Viegas (cujo alinhamento à direita sempre me irritou). É a vida! O lado perverso disto tudo é que ele aceitou uma supressão do poder que um Ministério da Cultura pode ter em troca de um encontro semanal e intimo, num "conselho de ministrozinho" com Passos Coelho.

quinta-feira, setembro 01, 2011

Quereres

Esvazio-me de quase tudo e ainda estou cheio. Há um exercício de depuração a fazer. Antes de recuperar o fluxo, a palavra, esse dom que ela é, ainda há um exercício de depuração a fazer. É muito fácil deixar-me levar pela raiva, pela fúria. Mas talvez isso agora seja desistir de outra maneira. Deixo apenas aqui uma prece, como se fosse uma oração, agnóstica: agora que a chuva veio lembrar-nos que até o verão nos quer abandonar, que nunca me falte estes quereres. Este reconhecimento.

quarta-feira, novembro 03, 2010

Pensar não cansa

apetece-me cantar.
cansar a voz até ao último pedaço de som. ficar aqui, a empanturrar-me de solidão, de afecto. a minha lucidez, o que me sobrou dela do último desvairio, diz-me que o mundo onde vivo começa a estar tão cansado do homem como a minha cabeça está exaurida com o pensamento. e nem é do pensamento. pensar não cansa. essa é uma merda que este dispositivo pronto-a-pensar encenou para nos fazer crer que é melhor haver umas aventesmas a pensarem pela nossa cabeça. não, digo orgulhosamente nos meus três trilhões de pensamentos, contei-os um a um, desde que nasci: pensar não cansa. o que cansa, o que destrói o ânimo, o que destrói a vida, é esta sensação de que pensar não serve para nada. esta sensação de que o pensamento é estéril, uma comenda que exibimos no salão, mais um Gil que tiramos da cartola para nos apequenar, para nos aprisionar. pensar não cansa, pensar liberta. pensar é um fogaréu medonho, um pedaço de luz incandescente que vai à frente, que vai sempre à frente na nossa vida. é como se fosse um farol só que reclinado para dentro, inclinado para esse imenso espaço interior onde rebentamos de prosperidade, de felicidade.
há um homem próspero e feliz que atravessa a rua todos os dias e esse homem é o gigante que pensa. aquele a quem o pensamento agiganta. adamastor virado do avesso. na pátria dos inválidos, dos trespassados, dos tresloucados, dos que nunca saberão a felicidade que o pensamento poderia ter dado à vida que (não) viveram.
seria por um país assim que eu gostaria de poder desfazer a minha voz, cantando.

terça-feira, outubro 12, 2010

Mês a mês

farol

Ao menos isso nesta posta quase renegada: o post mensal é feito de vontade. Passa-se o tempo e começa a crescer em mim a vontade de não ficar pela meia dúzia de linhas facebookianas. Mês a mês a situação política degrada-se. E os países ricos e pobres da Europa com as suas crises financeiras, estão virados para dentro de si mesmos. O facto de estarmos virados para dentro de nós mesmos quer dizer que estamos menos atentos à dinâmica global do mundo mas não quer dizer que esta pare. "- Parem o mundo que eu quero olhar para o meu umbigo!". Não é assim que as coisas se passam. Os jornais do mundo perderam o interesse. O próprio Irão, o Afeganistão, a Coreia do Norte, o Paquistão, a Al-Quaeda, todos os lugares e todas as forças que para nós desafiam a paz do mundo, deixaram de existir. E estes eram os que nos assustavam. Os outros, os que nos comovem, os refugiados, os exilados, os sem terra, sem pátria, sem que comer, sem que se vestir, as crianças desvalidas de qualquer tipo de sorte ou fortuna, esses, aguardam vez no guichet do mundo e da sua política. Só por arrogância nossa é que poderemos pensar que por não lhes darmos importância, eles deixaram de existir. O mundo não deixou de ser global. Nós é que deixámos de ser capazes de o pensar globalmente, excepto na santa aliança dos mercados financeiros com as divídas públicas e privadas.
E mesmo assim, todos os dias, são dias. O sol acorda ali no mar da palha e quando se deita, do outro lado de cacilhas um pequeno feixe de luz aguarda a sua vez para nos guiar pelo breu do mundo. E se for segunda-feira hei-de sair pelo menos ás nove, desvairado, para irmos ver o filme. E se tivermos sorte, ou se acreditarmos na nossa sorte, na onda de ficções com legendas, com actores conhecidos, com enredos referenciados e estrelados pela crítica, diremos diante de "Vai com o vento", em uníssono, "olha, apetecia-me ver este." E vamos mesmo ver esse. "Vai com o Vento" do Ivo Ferreira, mais uma curta, Estrangeiro, que tem um texto delicioso. Nunca mais vou olhar um chinês ou uma chinesa da mesma maneira. A partir de agora são gente, gente como eu, ou tu, ou nós. Dois filmes deliciosos de um cineasta novo mas que já tem uma imagem do mundo muito própria. E - não tivesse ele crescido tão dentro do teatro - que tem um ritmo, uma musicalidade, uma escuta tão forte. A voz do narrador chinês é narração-prazer. Todos os dias são dias e as noites também são dias, novos dias.

quinta-feira, março 18, 2010

Disse três vezes PEC antes de trair os seus eleitores

Tenho-me mantido desatento às questões do PEC. Por várias razões. Não acredito muito nele, tem uma função muito específica que é dinamizar a posição nacional nos mercados internacionais dedicados à compra de dívida pública, e os seus impactos conjecturais para 2012 e 2013 decerto que irão ainda ser revistos muitas vezes. E porque tinha como adquirido, na sequência do que tinha sido o programa eleitoral do Partido Socialista, de que há um património das questões sociais, com activos fundamentais criados ainda por Guterres, que tem vindo a ser incrementado. Ainda há dias pude assistir a uma conversa com Idália Moniz em que ela explicava, da forma convincente e preparada como costuma, o trabalho feito na área da segurança social. Ainda tenho os meus apontamentos no meu moleskyne. Nessa noite adormeci tranquilamente. Havia na política do governo um outro varejamento dos assuntos. Estava portanto neste sossego quando leio no Banco Corrido o post de Paulo Pedroso sobre o PEC e me dou conta do que está em jogo com o limite para a concessão de prestações sociais não contributivas. Gostaria de esperar que a leitura feita das novas condições das democracias modernas (a essencialidade da garantia do bem estar, por exemplo) no último Prós e Contras por Miguel Morgado fosse verdade e que, por exemplo, possam vir a cair os governos quando haja um aumento da taxa de desemprego para níveis muito elevados. Gostaria também que houvesse uma correlação directa entre esse aumento e os limites de financiamento pelo Estado dessas prestações sociais agora introduzidas pela PEC. Ou seja, que ficasse estabelecido que quando um Governo deixar a taxa de desemprego subir para níveis onde não possa ser garantida o pagamento da contribuição, seja imediatamente demitido. Eu sei que estou no plano onírico. Nem vale a pena argumentar com o razoável, chamando a atenção para aquilo que já tinha sido o previsto no orçamento de estado, ou seja, o prevísivel aumento das prestações sociais por causa do crescimento da taxa de desemprego. É uma razoabilidade que está completamente fora do raciocínio deste terrorismo de Estado. O Estado para continuar a ser pessoa de bem não pode continuar a arrecadar receita com os rendimentos do nosso trabalho se assumidamente está a dizer-nos que pode vir a não poder garantir-nos o pagamento das contribuições que justificam essa mesma arrecadação de receita. É um comportamento fraudulento, não apenas politica, ética e socialmente. O Estado não é o Príncipe João. Creio ser inconstitucional. Que justificação há para a selecção dos que recebem e daqueles que não recebem? Os últimos a chegarem? E para os que não têm, o Estado devolve os valores já cobrados no rendimento que se destinavam à garantia deste tipo de situações?
Ou Teixeira dos Santos e Sócrates já se cansaram do exercício do poder governativo, ou estão demasiado cansados do exercício do poder governativo. Não há terceira. Façamos-lhes a vontade. Abramos a possibilidade de regressarem à gestão pública que ainda sobrar da próxima privatização e saborearem os milhões com que a Pátria recompensa aqueles que a amam.

segunda-feira, março 01, 2010

Estávamos em 2001

Há nove anos estávamos em 2001 e, entre outras coisas, poderia ler-se isto sobre José Sócrates. Entre 2001 e 2010 ele construiu um património político importante. Foi primeiro ministro, suportado na primeira vez por uma maioria absoluta, na segunda vez por uma maioria relativa. Não deixa no entanto de ser preocupante o facto de se perceber que, nestes nove anos, a sua relação com os media - quer na perspectiva da dele com os media como na dos media com ele - é centrada na dramatização dos mesmos temas. Mesmo que para essa dramatização possamos atribuir um papel mais reactivo a José Sócrates, não deixa de ser preocupante enquanto escalada comportamental. É preciso mudar o padrão de comportamento para que as coisas se alterem.

quarta-feira, fevereiro 24, 2010

O que é que nós ganhamos com isto?

O Rui Tavares lança, como uma questão recorrente, a pergunta que anda de boca em boca, nem sempre pelos melhores motivos: O que é que nós ganhamos com isto? Confesso que quando vi a Inês Medeiros aparecer na lista de deputados do PS, para além da maior simpatia que tenho por ela, e onde se inclui o reconhecimento como actriz e realizadora, fiz a mesma pergunta. Não foram precisos muitos meses de assento parlamentar para ter percebido a resposta, através da sua proposta sobre os chamados precários.
É uma situação que só aparentemente é de incidência minoritária. Ou seja, só o é se nos ativermos ao campo da produção. Porque se percebermos os seus reflexos no campo da recepção cultural, então estamos a falar de um campo de influência que nos integra a todos nós enquanto comunidade. É mais um cerco, e dos fortes, aos já muitos, com que se debatem aqueles que se dedicam à área cultural e artística. Para os quais, na sua grande maioria, a chamada precariedade, é condição permanente, acabando assim por, paradoxalmente, verem agravadas as suas obrigações fiscais. É claro que para a visibilidade política desta questão, que está integrada numa dinâmica internacional, contaram, de forma decisiva, as iniciativas politicas dos chamados movimentos dos precários e dos recibos verdes, e de forças como o Bloco de Esquerda. Isso não impede que, quando voltar a olhar Inês Medeiros no Parlamento e me perguntar, mas afinal o que é que nós ganhamos com isto?, seja natural que a resposta me venha em forma de sorriso reconhecido.

sexta-feira, fevereiro 19, 2010

Será a cidade capaz de salvar a política?

Vou, a pouco e pouco, deixando cair o hábito da citação. Há frases de que sou feito mas a memória vai-se indo e quando a lembradura não se associa a uma emoção, tenho tendência a esquecer-me. Lembrei-me disto ao dar comigo com a recorrência com que, nestes dias, me ocorre o dito que ouvi ao Miguel Real (que andava ás voltas com uma investigação sobre o séc XVII/ XIX), " Estou cheio de saudades do século XX!". Lembro-me de que a frase iluminava todo o seu rosto, com aquela vivacidade e aquela agitação que lhe é tão própria. Lembrei-me disto ao ler a reportagem de Alexandra Lucas Coelho sobre Édipo-Rei e de pensar que este vaivém entre o nosso tempo e outras épocas é tão necessário para nos libertarmos de uma ânsia de totalidade que respira por todos os poros da nossa epiderme contemporânea. As coisas podem ser de outra maneira. O coro da tragédia grega somos nós, a cidade. O que queima Édipo não é a verdade, é o valor dado à palavra. É por isso que quando ele amaldiçoa o assassino de Laio é a si, sem apelo nem agravo, que se amaldiçoa. Olhássemos a cidade de hoje à luz da cidade de ontem, e veríamos que seria impossível fazer viver nela a ideia de política. Sócrates, Manuela Ferreira Leite, Paulo Portas, Francisco Louçã, Jerónimo de Sousa, todos eles, sem excepção, já estariam condenados pela sua própria retórica. Há quem, face a este quadro, quem adiante que é porque na vida contemporânea a palavra perdeu credibilidade. Outros, mais pragmáticos, dirão que o problema se resolveria facilmente com a contratação, por Édipo, de uma boa assessoria de imagem e comunicação.

terça-feira, junho 16, 2009

Partido Socialista

No outro dia, em conversa com o meu novo vizinho de trabalho, militante e candidato do Bloco de Esquerda a uma autarquia, disse-lhe, a propósito da minha inscrição no PS, estaríamos ainda em 2001:
- Eu sou do PS do Ferro. Foi na sua altura que eu me fiz militante.
Ele gozou comigo, respondeu-me:
- Pois, tu ainda não te desvinculaste porque estás à espera, afinal sempre és do PS.
Não lhe respondi. Há um problema que eu não sei resolver que é o do entusiasmo pelo actual PS, e ao fim de tantos anos de independência política sempre pensei que o perfilar-me politicamente com um determindado partido seria um gesto mais apaixonado.
E não se trata apenas da questão situacionista que ataca sempre o partido do governo. É mais do que isso e tem a ver com o modo como algumas politicas, especialmente as da educação e da cultura foram implementadas. Para além das trapalhadas do Magalhães e do envolvimento pessoal do primeiro ministro nisso. Já que ao resto, entre o aplauso e a discreta aprovação, saúde, segurança social, dou nota positiva ao governo de Sócrates, mesmo aceitando que estou a nivelar por baixo ou seja, por aquilo que poderia ser um governo PSD ou PSD/PP. Mas, paradoxalmente, o que me aproxima mais do Partido Socialista, para além do seu património histórico, é a minha admiração por estes militantes que sabem criar uma opinião critica e ao mesmo tempo serem solidários com o partido enquanto associação política. Nem de propósito: antes de acabar o texto recebo mais um sms do PS, um das dezenas a que não liguei pevide, desta vez para mais uma sessão do Forum Novas Fronteiras e fico a pensar mentalmente em como me posso organizar para a este, ir.

terça-feira, maio 05, 2009

O poder é a alegria de viver e de criar

Há muitos anos atrás numa casa dos olivais onde escrevinhávamos todos na parede, fiz minha esta inscrição que li na parede central da sala: "Saúde é a alegria de viver e de criar". Quem a tinha escrito era Arlete Canhoto Abreu, professora de enfermagem de profissão (a quem se deve, entre outras façanhas, a introdução no modelo pedagógico da Escola Superior de Enfermagem Calouste Gulbenkian de Lisboa de vários tipos de dinâmicas expressivas).
Repetia-a milhares de vezes. Nas aulas, em comunicações e sessões públicas, com amigos, em solilóquios privados, à moi même. Ela é um programa, do berço à cova. Depois comecei também a fazer uma pequena derivação desta frase: o poder é a alegria de viver e de criar. Era eu animador em vários projectos de animação sócio cultural em diferentes lugares de Lisboa. Uma das chaves do trabalho de animação é vincular a comunidade, uma determinada comunidade, à ideia de que pode. De que pode fazer, de que pode conduzir uma acção, de que pode realizar uma iniciativa, um projecto, um programa. A ideia de possibilidade é indispensável ao trabalho do animador. É claro que para isso ele tem de se centrar na estratégia de tentar realizar o que pode e não se deixar cair na inércia por causa daquilo que não pode fazer. É um clássico da animação, não o vou repetir.
O importante é que isto transporta uma ideia sobre o poder que o ajuda a libertar-se de uma carga negativa que, como uma capa, vem revestindo a nossa forma de o pensar. E consequentemente do sequestro da ideia de que ele só pode ser exercido inconvenientemente. A ideia de que o poder corrompe, de que ao poder ninguém escapa, faz parte do imaginário popular e religioso. A nossa ideia do poder geralmente deprecia e maltrata o seu exercício, seja ele qual for, numa sala de aula, num consultório médico, no gabinete do director, do director geral, do presidente, do presidente geral, em suma, do chefe. Ora isso, esse discurso anti-poder, já o escrevi aqui várias vezes, é muitas vezes, paradoxalmente, a substância onde militam discursos extremistas que pretendem disseminar o ódio. O discurso anti-poder é um discurso carregado de ódio. É claro que uma coisa é o exercício do poder, outra a do mando. Parece que se confundem, o exercício do poder parece integrar também a faculdade de mandar, mas talvez seja útil tentar arranjar alguma destrinça entre eles. Um surge mais focalizado na capacidade e autoridade de organizar e gerir os recursos, fisicos e humanos, para a concretização de uma qualquer meta, o outro na autoridade de dispôr desses mesmos recursos.
O exercício do poder corrompe tanto como o exercício da impotência. Vi-o muitas vezes no decorrer da minha experiência profissional. Corpos e espíritos que tinham sido ágeis e sagazes apresentavam-se ressequidos por uma tortura exigente do culto da impotência. Uma escola da cidadania a sério deixar-nos-ia um dia ser chefes de qualquer coisa para experimentarmos as virtudes e os vícios do exercício do mando. Seriamos, à vez, mandantes e mandados. Depois, na vida a sério, seríamos menos prepotentes, menos autoritários, e também, menos paus mandados. Porque é preciso acreditar no poder e na sua conjugação republicana para o libertarmos da doença da incompetência, do autoritarismo serôdio. Tenho presenciado ao longo da minha vida inúmeras situações em que o exercício do mando é feito por incapazes sem capacidade autocrítica para perceberem a sua incapacidade de o exercerem e por detrás deles encontro quase sempre paus mandados descrentes no poder, na república. Numa república é, ou deveria ser, tão fácil destituir um prepotente e um incapaz. Só uma cultura antidemocrática que de costas voltadas para os trinta e cinco anos da nova república grassa tanto entre mandantes como mandados pode justificar que abramos o nosso século XXI com tantos relatos de surreais abusos de poder.
Penso nisto enquanto aqui a nova direcção faz a habitual visita de cortesia pelos serviços. Vem acompanhada pelo seu staff directo, constituido por duas pessoas que, em diferentes momentos da minha vinda para esta instituição, chefiei. E isso leva-me de repente para uma viagem no tempo, a pensar sobre o poder, a minha relação com ele. Fiz um percurso original nestas coisas do exercício do mando. Fui chefe bem poucas vezes na vida e detestei. A primeira foi aqui, quando inaugurei o posto de sub-chefe da esquadra, da fragata. O que eu amarguei! Como queria ser bom - talvez mais bonzinho - fazia questão de receber todos os que me pediam para serem recebidos. E como isso é impossível não consegui livrar-me do facto de algumas pessoas acharem que eu era arrogante, incompetente, autoritário. A certa altura comecei a dar-me conta de que as vozes desses, a quem não recebia, ressoavam mais alto dentro da minha cabeça do que as dos outros, a quem recebi e que me gabavam a paciência. É aliás impressionante o número e a diversidade de pessoas que passa pelo gabinete de um sub-chefe de esquadra ou, neste caso, foi isso que eu comecei por ser, de fragata. Apresentadores de televisão, embaixadores, altos representantes da república, actores, escritores, encenadores, uma aristocracia intelectual de um burgo que muitas vezes se agiganta quando visto pelo buraco do próprio umbigo. Por outro lado o exercício do poder é desgastante para personalidades, como a minha, socialmente inseguras, que são muito vulneráveis ao cochicho, ao dito em surdina, aos jogos de poder. Não gosto de me confrontar com os outros. Os milhares de eus que já fui descendem ainda daquele meu eu primevo e originário que se especializou na incorporação para fugir à confrontação. Ainda por cima, para aumentar a minha aversão ao exercício do mando, o comandante da fragata era aquilo que eu chamava um conspirador Lucky Luke: passava a vida a disparar contra a sua própria sombra e inclusive contra mim. Aguentei durante um ano e dois meses. Ao fim desse tempo, por circunstâncias próprias da vida que nos levam no sentido contrário àquele que queremos ir, subi mais um degrau no exercício do mando: passei a substituir um chefe a sério, com direito a vénia e salamaleque e correspondente repercussão na folha de vencimento. Assim inchado e untado fui chefe, durante mais ou menos seis meses, o tempo que durou a substituição. Não guardo especiais recordações desse tempo senão aquelas que resultam do contacto directo com as pessoas, do trabalho em equipa, da sensação de promover um espírito de grupo e do facto de eu gostar muito do trabalho da esquadra. Mas percebi que entre mim e o exercício do mando há quase que uma incompatibilidade genética.
E como só sou anarquista na intimidade, não tenho outra escolha senão agradecer haver alguém que se disponha a essa ingrata tarefa de me governar e de se sujeitar ao nosso escrutínio desse exercício (escrutínio que tem aumentado substancialmente nestes últimos trinta e cinco anos de república). Deixei de ser como aqueles milhares de crianças rebeldes que se revoltam em surdina contra os chefes. Agradeço-lhes a generosidade em prescindirem de muitos prazeres das suas vidas para nos governarem. Sem grande ajuda minha. Uma das poucas coisas que, pelo exercício do mando alheio, me disponho a fazer, e tenho-o feito ao longo destes anos todos, é reflectir, é escrever. Aliás por todos os sitios onde passo, também aqui, sou tido como um intelectual, com a minha gaveta cheia de textos que fui fazendo. A maior parte deles nunca são lidos. Alguns por vezes são treslidos, lá pensam, olha este quer ser chefe de esquadra. Que se lixe, penso sempre que enceto um novo, devo à República isso: o dever de dar o meu melhor para que possa ser mais bem governado. E se nos preocuparmos muito com o que os outros pensam acabamos por dedicar muito menos tempo ao desenvolvimento da nossa mundivisão. E a vida é um instante, meus amigos, menos do que um instante, um sopro.
Há uma única excepção na minha desafecção pelo exercício do mando( e não do poder): o teatro. O teatro é um universo à parte, um lugar que não é deste mundo e que não se rege pelas mesmas regras que a vida de todos os dias. Aprendi-o a custo. Lembro-me que uma vez uma actriz me disse, durante um ensaio, que eu era um falso democrata. Já não sei sobre o que é que era, tinha a ver com o facto de eu estara tentar que o grupo seguisse a minha visão, creio. É bom que nos digam estas coisas - se um dia conseguirmos concluir que a vida nos tornou melhores pessoas muito deveremos a estes murros no estômago que levamos - mas confesso que na altura fui ao tapete. Durante esse e outro espectáculo que dirigi a seguir tornei-me num chefe envergonhado, muito vulnerável a uma crítica sobre a menor elasticidade e abertura da minha condução do processo de criação.
Até que compreendi que em teatro, enquanto processo de criação colectivo, o poder não é exercido de uma forma democrática. É dificil de explicar mas se assim fosse, nunca teriamos feito "O Lugarzinho no céu" como o fizémos. Quando sugeri que o personagem Mirov, ucraniano, falasse em russo para a sua mulher na terra natal, colhi de surpresa o grupo. Uma votação sobre o assunto teria logo arrumado a questão e teria possivelmente destruído um dos aspectos de maior choque do espectáculo com o público. É claro que esta suspensão da norma democrática no acto criativo assenta num prévio grande respeito pela pessoa enquanto actor e criador. A criação de um espectáculo é um lugar onde o exercício da autoridade, de uma forma mais intensa, se espelha na alegria de viver e de criar, no exercício da amabilidade. Na força, na poesia, no corpo-a-corpo, esse amor tão moderno e tão antigo.

terça-feira, agosto 05, 2008

Povo Baha

Não acredito em deus, já o escrevi algumas vezes. Não que Deus não exista. Existe, claro que existe. Só que o deus que eu consigo recriar é tão frágil que por mais que tente não consigo acreditar nele. Fico muito feliz por o Deus que existe para alguns de nós ser um Deus digno, que dignifica. Encerro aí a minha possível entrada na dimensão religiosa da vida, pelo menos naquela que quero partilhar com os demais. Tudo isto para dizer que a dor com que tenho lido este blogue é politica. A Comunidade Baha'í não se envolve em política, mas a minha dor pelo sofrimento e perseguição religiosa de que ela é alvo é sobretudo um gesto político.

sábado, julho 26, 2008

Não comprender

Descia o Chiado. Eles, os três da ponte das três entradas, subiam.
Chamaram-me. Eu ía no meu mundo, ou no fora dele que tem sido o meu mundo ultimamente. Aceitei lentamente aquele chamamento da realidade do outro lado do passeio. Um prazer imenso por os encontrar fez-me desafiá-los para uma bebida no largo do carmo. Um delicioso pedaço de noite. No fim, creio que foi o Jota, que lançou a pergunta:
- Então e o Obama?
Dei por mim a responder de um modo tão estranho que andei ainda um pedaço da noite, já depois de nos termos separado, a pensar no assunto. Disse-lhe:
- Pode parecer absurdo mas eu agora dou-me a investir numa coisa muito esquisita: a não compreensão. - Tanto eles como eu próprio ficámos sem saber o que eu queria dizer. Lá me socorri de uma metáfora teatral. - No teatro o momento mais interessante é quando estamos a experimentar e de repente o actor não sabe como há-de fazer. Há ali uma descontinuidade, um vazio, que é necessário preencher. Tal como na vida real. Na vida real acontece-nos muito isso. Não somos muito mais do que portadores de discursos. Transportamos discursos de um lado para o outro, apagando a marca original. Às vezes parece que rompemos com isso, dizemos: como costuma dizer fulano, ou beltrano, ou sicrano. Mas é retórica doce. Nós sabemos que sicrano, beltrano ou fulano papagueiam, sem saber, o que o mundo lhes contou. E portanto transportamos discursos. Entre o encaixe dos discursos, por vezes há espaços em branco. As brancas dos pequenos mortais que somos são terríveis. Ficamos ali sem saber o que dizer, o que fazer, o que sentir. Na maior parte das vezes preenchemos esses pequenos espaços vazios com mais clichés, com mais coisas sem sentido, a que alguns, com traços de actor genial, emprestam uma grande emotividade, conseguindo dar-nos os maiores lugares comuns como se eles estivessem vindo das entranhas.
No teatro também isso acontece. No teatro, no mau teatro, isso também acontece. O actor está num espaço negro, não sabe o que vai fazer e de repente solta as suas respostas pré-programadas. Só que o teatro, tal como a vida, e por isso a magia do teatro, tal como a da vida, pode ser outra coisa. No espaço laboratorial que o teatro consegue ser, o actor pode fincar os pés no chão e esperar antes de responder. Pode engolir o silêncio. Ok, não sei o que dizer, o que fazer e por isso não vou dizer, nem fazer, nem nada. E ficamos ali a enfrentar esse buraco negro que é não sabermos o que é que havemos de dizer, de pensar, de sentir. É claro que então milhares de acções, de palavras, irrompem, com força original, nos olhos, nas mãos, na presença do actor. Amo tanto esse teatro que comecei a ambicionar uma vida feita à sua semelhança.
É um jogo arriscado. Numa altura onde o que se vende no grande mercado ideológico do mundo é a ideia de que necessitamos de ser mais rápidos a compreender para podermos mais rapidamente compreender o que é que vamos pensar sobre Obama, sobre a Maddie, sobre a crise do petróleo, sobre a Quinta da Fonte, e o tudo mais em que se constitui a agenda diária do cidadão português de hoje, é arriscado inverter o jogo e investir na não compreensão. Mas é a nossa única saída, parece-me. A compreensão da realidade está hoje não só subordinada a uma agenda comum como a uma retórica assente na dialéctica, quando não no antagonismo serôdio ou maniqueísta. Está velha, cansada e quase nada tem para nos dizer sobre o mundo onde vivemos. Precisamos de descompreender. De aceitar o vazio. Da linguagem.

sexta-feira, julho 18, 2008

Carta Aberta a José Sócrates

"Quero que o Governo de Angola saiba que temos confiança no povo angolano, que temos confiança em Angola, temos confiança no Governo angolano e no trabalho que tem desenvolvido", que tem "permitido que Angola tenha hoje um prestígio internacional, que tenha subido na consciência internacional e que seja hoje um dos países mais falados e mais reputados." José Sócrates em Luanda
Senhor Primeiro Ministro:
tomei conhecimento do exercício de real politik que acaba de fazer em Angola. Entendi-o como um grande sacríficio feito para protejer os nossos melhores negócios.
Tenho de lhe pedir desculpas por isso. Sei que só o fez para que eu e os meus conterrâneos possamos, mesmo em cenário de crise, continuar a dormir em paz, no aconchego das nossas mais pequenas comodidades.
Quero-lhe dizer que o meu bem estar e conforto pessoais não merecem a vergonha a que o sujeitei. Para a próxima considere-se livre dessa responsabilidade e diga o que lhe vai na alma.
seu
JPN

sexta-feira, junho 20, 2008

Victor Wengorovius - a vida vísivel

As nossas vidas seriam mais vidas se fossêmos mais vezes aos jardins - nem que seja aos da nossa memória - povoá-los com o ritual da evocação. Evocar não será recordar. Foi um encontro de fim de tarde de verão como o deveriam ser todos os encontros. Havia verde, havia silêncio e houve também quem o rompesse. Havia um círculo mas fora do circulo havia outro e ainda outro. E havia gente que tinha ali ido só para sorrir em comum ao evocarem um de entre eles. Um pedaço da história ao vivo: a ditadura, as prisões, a revolta dos estudantes, a resistência. Estava ali o poder, governo, oposição, esquerdas disto, esquerdas daquilo, sindicalistas, juristas, deputados, intelectuais, mas não estava nada disso. O que de mais forte vi, foi uma consciência de que houve um momento em que a nossa vida podia ser outra coisa e que esse momento é quase agora outra vez, de outra maneira, com outras pessoas, mas quase agora outra vez. E que para o reconhecermos precisamos de voltar aos fins de tarde no jardim, ao desatar dos laços da gravata, ao deslaçar dos nós que são aliás a nossa própria vida, de tal forma que os deslaçamos com novos nós e um dia a morte será isso, os laços que persistem. Só me lembro que era tarde, ao fim da tarde, estava calor, sentei-me na relva, a olhar todos aqueles que estavam ali para estar com o seu amigo Vitor, soube, o da voz cheia, o que nunca se calava. Na esquina do outro lado as mesas estavam postas para o jogo, as pessoas postas para as mesas mas a cinquenta metros ainda estávamos num outro país.

quinta-feira, junho 19, 2008

Victor Wengorovius - a vida vísivel

Aqui ao lado, no jardim do Princípe Real, bem perto do lugar onde ele viveu os últimos anos, há um encontro de memórias, pelas 18 h, na esquina do café, uma homenagem a Vitor Wengorovius, promovida pela família, através deste desafio da sua filha Marta. Não o conheci, mas fui conhecendo aos poucos porque é que pessoas de quem estive perto o admiravam - e tenho para com ele essa invisível cumplicidade de mais tarde me ter encantado pela manhã soalheira que batia na sua varanda sobre o Tejo - mas passarei por lá para escutar essas memórias que tanto entrelaçaram tantas pessoas. E para dar um abraço à Rita, claro. Evocação: O testemunho de Eduardo Graça "Vitor Wengorovius no Jantar de Extinção do MES".

terça-feira, junho 17, 2008

A oratória e a política

"Quando se fala de Obama e do seu génio enquanto orador, é extraordinário que se encolha os ombros e se diga "bah, aquilo é só conversa". É evidente que a conversa não chega - e , justiça lhe seja feita, a forma como ganhou as primárias e planeou a campanha revela um profissionalismo extraordinário -, mas no dia em que os discursos inspiradores não valerem de nada, no dia em que um homem que consegue arrastar milhões de jovens até às urnas for apenas "folclore", é porque o melhor da política se perdeu."
João Miguel Tavares, no DN, hoje

segunda-feira, junho 16, 2008

A democracia de pátio

O referendo na Irlanda veio mostrar que esta Europa de todos, para todos, assemelha-se um pouco àquelas situações de pátio e de recreio da nossa infância e juventude, e que terminavam sempre no categórico, ou vamos todos ou não vai ninguém. É claro que a infância a juventude passaram num instante e com elas este modo muito totalitário de ser. Uns vão de um modo, outros de outro modo, e outros ainda nem sequer vão. Talvez fosse sensato que Bruxelas fizesse o trabalho de casa e preparasse uma mudança constitucional que permitisse continuarmos a ser Europa e a termos um projecto comum, mesmo que nem todos pensem da mesma maneira.

sexta-feira, junho 06, 2008

O poder, à esquerda

"Fora do governo a esquerda parece que se reencontra consigo própria. É o que deixa passar a mensagem de Alegre. O governo assenta bem à direita e a oposição assenta bem à esquerda. Mas para que servirá a esquerda, em democracia, se não for capaz de assumir as dificuldades de governar. Se não for capaz de resistir aos apelos do imaginário da esquerda tradicional que a coloca sempre no lugar da resistência? ."
Eduardo Graça, A cadeira do poder, no Absorto

quarta-feira, maio 14, 2008

A folha encravada

"De lo que tengo miedo es de tu miedo."
William Shakespeare. Citado pela Amélie.
O Eduardo traz uma pergunta que começa a inquietar-nos: seremos capazes de ultrapassar as crises energética, alimentar e financeira que se avizinham, e, principalmente, o reposicionamento mundial em relação à procura e oferta de bens e serviços, sem guerra?
Estou à dez minutos parado diante da folha que de repente encravou. A única coisa que poderia fazer no imediato que um blogue é, seria dar lugar ao pessimismo. A vida diz-nos que o mais provável é que os senhores da especulação dos mercados financeiros, petrolífero e alimentar transfiram os seus negócios para o fabrico de armas. E quando eles o fizerem, aí a guerra vai acontecer mesmo. Inapelavelmente.
Por alguma razão a folha encravou. É Maio e apetece-me pensar que há saída. Que podemos ter outra vida. Viver de outro modo. E que será lá, nesse lugar onde poderemos ir ter, que encontraremos algumas respostas à nossa inquietação de hoje. Quero crer que sim.

sexta-feira, maio 02, 2008

A zona da "não política"

No outro dia cruzei-me na Brasileira do Chiado num café rápido com uma francesa, amiga de uma amiga minha. Aquela conversa habitual sobre a cidade. Ela estava muito intrigada porque não viu os sem abrigo (sdf's) a dormir no metro. Em Paris, antes do metro fechar, hordas de sdf's fazem do metropolitano abrigos subterrâneos. Disse-lhe que cá não. Cá, quando faz muito frio umas senhoras das irmandades laicas ou religiosas vão distribuir mantas. Se o frio aperta ainda mais as senhoras antes de distribuir mantas passam pelo paço municipal e são capazes de fazer com que a Câmara distribua umas rações quentes ou improvise uns abrigos. No Natal alguns deles dão boas histórias a estagiários ou jornalistas desinspirados mas os sem-abrigo não têm nenhum valor político. Os eleitores das nossas democracias vivem dentro de casas. Nenhum político se lembraria de fazer parte substancial da sua campanha a fazer retornar à política os votos dessa mole humana que dorme nas ruas, por baixo das escadas ou das arcadas dos prédios. E vendo bem, seria uma ideia estimulante, quase uma espécie de filho pródigo: andamos aqui a consumir a nossa esperança na democracia num desencanto aburguesado e de repente, do fundo esconso das ruas mal cheirosas deste país viriam os novos democratas. Não é provável que isso aconteça, nem mesmo com o nosso Paulinho das farturas, dos pescadores, dos mercados e das vendas de fruta. Os sem abrigo, sem domicilio fixo, continuarão a poder ao menos dormir em paz sem serem sacudidos a meio do sono pelo fantasma da demagogia e da falsa política. O seu domínio são as confrarias religiosas, as associações cívicas. Nós não só não moramos na rua como vamos perdendo a nossa capacidade empática.