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quarta-feira, outubro 08, 2008
A democracia virtual
quarta-feira, agosto 13, 2008
A espuma semiótica
No caso do Assalto em Directo - ou deveria dizer, mais uma vez, como no caso do assalto em directo - talvez fosse produtivo debruçarmos-nos sobre a nossa incapacidade de confiarmos na nossa impulsividade para tomarmos partido, para exprimirmos uma posição, na nossa dificuldade de produzirmos juízo. Nos novos oráculos, figuras como Moniz, Santos ou Carvalho comandam os exércitos reprodutores de sinais mas somos ainda herdeiros de Kant, Platão e Aristóteles, caramba. Há muita espuma. O facto de serem imigrantes, de serem brasileiros, é espuma. Ou seja, é espuma para avançarmos no caso do assalto mas não o é, como o fez jpt, para analisarmos a forma como neste caso emudeceram os nossos detectores para o preconceito racial. Os limites do directo, na perspectiva da avaliação do trabalho jornalístico, é espuma. E há também aquilo que embora esteja para além da espuma, espuma dentro de nós: os complexos interiores que despoletam sem aviso, como o da autoridade, o da luta contra a autoridade. O facto de ser espuma não quer dizer que não signifique. Significa e devemos assinalá-lo. E discuti-lo. A estratégia policial, é espuma também. O tiro legal na nuca, a imagem que o Luís trouxe (e falo também da poderosa imagem que acompanha o seu post), não é espuma. O Estado tem o monopólio da violência legítima, que li no jpt, também não é espuma. A paz e a guerra dentro da nossa vida quotidiana, também não é espuma. O directo como reflexo da rendição da edição informativa tradicional, e das condições que ela necessitava para ser credível, também não é espuma. Ou, melhor, para não parecer demasiado arrogante: não são espuma ainda.
segunda-feira, junho 16, 2008
A democracia de pátio
O referendo na Irlanda veio mostrar que esta Europa de todos, para todos, assemelha-se um pouco àquelas situações de pátio e de recreio da nossa infância e juventude, e que terminavam sempre no categórico, ou vamos todos ou não vai ninguém. É claro que a infância a juventude passaram num instante e com elas este modo muito totalitário de ser. Uns vão de um modo, outros de outro modo, e outros ainda nem sequer vão. Talvez fosse sensato que Bruxelas fizesse o trabalho de casa e preparasse uma mudança constitucional que permitisse continuarmos a ser Europa e a termos um projecto comum, mesmo que nem todos pensem da mesma maneira.
quinta-feira, maio 01, 2008
O dogma (anti) democrático (1)
[jean paul marat]
Dizer-vos que sou democrata é para mim tão significativo como dizer-vos merda com coentros, que foi o primeiro palavrão que me saiu à boca para vos impressionar sobre a minha expressividade vernácula. Estou - nos meus dias de sorte, de bem-aventurança - a chegar aos limites do que é possível comunicar para um tipo que tem um blogue: ou seja, apercebi-me, faz quase cinco anos que aqui ando, que precisaria de dizer algumas palavras antes de me poder remeter ao silêncio. Ainda me lembro quando entrevistei Jacques Lecoq, um grande mimo já desaparecido da cena da arte e da vida: perguntei-lhe porquê as palavras na mímica, ele respondeu-me, é ainda preciso algumas palavras antes de podermos entendermo-nos sem elas. É isso que sinto, que sinto nos meus dias bons. Tudo isto para vos falar de democracia!!! Escrevo como um perdulário. Como se tivesse todo o tempo para vos escrever e falar. Como se esta doença mortal que trago no corpo, a própria vida, um dia não pudesse, sem pré-aviso, estacar-me o fluxo, o rio. Vou - mais uma vez - direito ao assunto: dizer-vos que sou democrata não quer dizer nada. Os meus pais ensinaram-me a dizer que sou democrata. Eles, o meu pai que foi um modesto empregado de escritório que ía votar no Salazar a pensar que - mesmo não vivendo numa democracia - era um democrata e a minha mãe, uma humilde professora primária que tinha sido obrigada a inscrever-se na Mocidade Portuguesa, também tinham sido ensinados a dizer que eram democratas. O meu filho também anda num colégio onde o ensinam a dizer que é um democrata. Eu quero dizer-lhe que é bom ser democrata, que é bom poder dizer que somos democratas, que a democracia é uma escola de virtudes da política, mas quero ensinar-lhe ainda que a democracia não é, mesmo no relativo que é a nossa humanidade, um absoluto. O absoluto, o pequeno deus a que devemos prostar-nos, todos e tudo, inclusive as nossas democracias, é a preservação da ( e a perseverância na) dignidade da vida humana. Independentemente daquilo que para cada um de nós signifique uma vida (con) digna. Só depois vem tudo o mais: as religiões universais, as regiões, as religiões regionais, os países, as religiões nacionais, a própria democracia, o comércio, o lazer, o prazer. E os vizinhos, as estradas, os churrascos de primavera, as festas, as compras ao fim de semana no Lidl, o bricolage no Ikea, a vida sem complicações no Pingo Doce. Os blogues. Há cerca de trinta e cinco anos houve neste país uma revolução que tornou a urgência social uma causa. Não tinhamos democracia. Tinhamos uma panela de água a ferver a que chamávamos país, o nosso país. A ideia de comunidade, de partilha, era prestigiante: Um filho da mãe não poderia ir à televisão dizer que precisávamos de conter o défice se esse mesmo cabresto andasse a chupar e a fazer sangrar o défice público com as suas mordomias públicas. Não tinhamos Marat, não precisámos de cortar pescoços mas não ía. Hoje esse mesmo filho da puta pode ir e ainda por cima pode fazê-lo impunemente porque as nossas democracias amadurecidas transportaram para a zona da não política a resolução dos verdadeiros problemas das pessoas. Na zona da política fica todo esse contrabando indecoroso que é a pequena baixela dos negócios políticos, dos públicos negócios políticos, dos fantasmas, das demagogias.
O dogma (anti) democrático
"Há-de alguém no futuro vir dizer-nos aquilo que alguns de nós já sentem como a sua dor de pensamento: a escravidão do humano é uma realidade não política. Conseguimos bani-la da política mas não acabámos com ela. Só a expulsámos das nossas imagens, das nossas imagens conscientes. " Ficou-me a ressoar esta ideia. É quase impossível discutirmos as nossas democracias. Ia agora escrever, é esta incapacidade de a discutirmos que destrói as nossas democracias e de repente apercebo-me que estou mais uma vez bem dentro da caverna, da falácia democrática. A discussão não é o absoluto. É terapêutica, compensadora, relaxante, abre mundos e o próprio mundo, mas não é um absoluto. Aliás, o que ela faz, é tornar absoluta a linguagem. A linguagem, esta putéfia com que articulo este engodo que é escrever ( É tão absoluta a trapaça que até a fonética ilude a sua negação. Digo desescrever e ouve-se quase distintamente, descrever). Não devemos por isso discutir as nossas democracias. Devemos suplantá-las. A bem do bem comum, da comunidade. Os comerciantes, os pequenos, médios, grandes e globais comerciantes (os filiados nesse grande partido global dos negócios, como dizia no outro dia o Luís a propósito do PPN, a sua célula lusa) já são donos e senhores das nossas democracias.
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