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quarta-feira, novembro 03, 2010

Pensar não cansa

apetece-me cantar.
cansar a voz até ao último pedaço de som. ficar aqui, a empanturrar-me de solidão, de afecto. a minha lucidez, o que me sobrou dela do último desvairio, diz-me que o mundo onde vivo começa a estar tão cansado do homem como a minha cabeça está exaurida com o pensamento. e nem é do pensamento. pensar não cansa. essa é uma merda que este dispositivo pronto-a-pensar encenou para nos fazer crer que é melhor haver umas aventesmas a pensarem pela nossa cabeça. não, digo orgulhosamente nos meus três trilhões de pensamentos, contei-os um a um, desde que nasci: pensar não cansa. o que cansa, o que destrói o ânimo, o que destrói a vida, é esta sensação de que pensar não serve para nada. esta sensação de que o pensamento é estéril, uma comenda que exibimos no salão, mais um Gil que tiramos da cartola para nos apequenar, para nos aprisionar. pensar não cansa, pensar liberta. pensar é um fogaréu medonho, um pedaço de luz incandescente que vai à frente, que vai sempre à frente na nossa vida. é como se fosse um farol só que reclinado para dentro, inclinado para esse imenso espaço interior onde rebentamos de prosperidade, de felicidade.
há um homem próspero e feliz que atravessa a rua todos os dias e esse homem é o gigante que pensa. aquele a quem o pensamento agiganta. adamastor virado do avesso. na pátria dos inválidos, dos trespassados, dos tresloucados, dos que nunca saberão a felicidade que o pensamento poderia ter dado à vida que (não) viveram.
seria por um país assim que eu gostaria de poder desfazer a minha voz, cantando.

quarta-feira, fevereiro 24, 2010

O que (não) fará um governo da esquerda socialista?

Recebi uma informação sobre um colóquio que a Cultra- Cooperativa Culturas do Trabalho e Socialismo vai realizar sobre o tema : O que fará um governo de Esquerda Socialista? O debate proposto envolve especialistas das várias áreas em discussão. Carvalho da Silva, Francisco Louçã, João Semedo, Mário Vale, Francisco Ferreira, Fernando Oliveira Baptista, Virginia Ferreira, Conceição Gomes, António Nóvoa e José Manuel Pureza são oradores e as suas intervenções serão comentadas por não menos ilustres cidadãos e cidadãs. É já no próximo fim de semana, numa jornada que ocupa a manhã e a tarde e se realiza no anfiteatro do Liceu Camões, e que se ocupa de temas como trabalho e segurança social, economia e finanças, saúde, cidades e ordenamento territorial, desenvolvimento rural e das pescas, igualdade, justiça, educação e politica externa e defesa.
Se procurou sem encontrar a palavra cultura, teve a mesma decepção que eu. Já estamos preparados para que os governantes, os governos, quando no poder, não manifestem a miníma atenção pela cultura. À direita, à esquerda, ao centro. E muitas vezes perguntamo-nos porquê. A resposta parece simples: é que mesmo quando na oposição, quando ainda só são o governo que queriam ser, a discussão política não inclui nos seus mapas de debate, a questão cultural, quer se entenda de um ponto de vista mais restrito, a actividade cultural, artística e científica, quer se entenda de um ponto de vista mais alargado, a vida associativa, os quotidianos, as dinâmicas socio-culturais.

domingo, agosto 10, 2008

Andanças pela Cultura Popular

Mais uma edição do Andanças em Carvalhais, S. Pedro do Sul. Por incrível que pareça, já que há uma multidão crescente que procura este acontecimento, está mais limpo, menos poluidor. Os copos de plástico foram abolidos. A caneca de metal do Andanças impôs-se. O resto, o mesmo de sempre. O Andanças é irrepetível na forma como se repete, de ano para ano. Quase que podia fazer este festival de olhos fechados e só cá vim umas quatro vezes. Oriento-me pelo som dos palcos. Os sons da américa latina e da europa são predominantes. Alguma África também está presente. E, Portugal. O Folclore. Ao andar por este festival encontro uma das experiências mais felizes da integração da cultura popular e da festa com a juventude. Lembro-me de Redondo Juniór e do seu "A Juventude Pode Salvar o Teatro?", e, ao ver estes participantes de um grupo etnográfico local misturados com jovens de todas as idades, parafraseio mentalmente, a juventude pode salvar a cultura popular, resgatá-la do território mórbido onde ela é o bombo da festa, das festas, a flor de rendilhado do discurso político de conveniência, e trazê-la para esta dimensão de alegria, de confraternização, de abertura do espírito que Carvalhais tão bem corporiza.

quinta-feira, junho 26, 2008

Folk Justice

Nunca confiei neste homem. Em grande parte porque tenho uma tendência natural para detestar os aparentemente bem sucedidos na vida, os que parece que nasceram em berço de ouro, aqueles que conseguem perpetuar o berço com a vida dourada. Está-me na massa do sangue a inveja e, combatê-la, é, desde sempre, um dos meus trabalhos de personalidade mais exigentes. Também desconfiei dele enquanto dirigente do Benfica. Desconfio de todos aqueles que vão para a presidência dos clubes de futebol para darem os seus milhões (seja em contos seja em euros). O futebol é uma máquina de fazer dinheiro e, algum dele, ílicito, pelo que, no meu modesto entendimento, aqueles milionários que estejam genuinamente imbuidos de altruísmo encontrarão - antes de se atascarem no futebol - muita obra social ou religiosa para exercerem a sua mais pura filantropia. Desconfianças à parte: a forma como se tratou este caso, tendo a imprensa dita séria ido atrás dos reclames da assumida menos séria, é sinal de que algo vai podre no reino da Dinamarca. É irrelevante para o caso em questão, o exercício da justiça, se ele mora numa mansão de cinco andares ou num casebre térreo, se se conduz numa carripana em segunda mão ou num Bentley com motorista, se vai a festas ou se vê ténis ou se anda a mendigar pelas ruas. Isso é o que se chama atirar areia para os olhos do povo ou tentar manipular os seus sentimentos. Até porque numa coisa Vale e Azevedo tem razão: mesmo que ele seja um crápula para a sociedade, digo benfiquistas, credores, aqueles a quem lesou e terá lesado, há coisas que não se compreendem, e uma delas é o arrastamento deste homem pela barra dos tribunais e pelas prisões portuguesas. Leio que já esteve preso seis anos. Por mais graves que tenham sido os seus crimes económicos a justiça não o poderia tentar julgar de uma vez em relação a todas as suas pendências? Senão parece que a justiça está a - involuntariamente creio - ajudar a eternizar a figura do bobo da corte. Mais uma vez Vale e Azevedo tem razão: o episódio dos seus quinze segundos de liberdade (deviam ser punidos os agentes da justiça que permitiram que ele fosse achincalhado publicamente, a folk justice ainda não é género de cultura popular subvencionada), apenas pode dar algum gozo a pessoas como eu que, manifestamente, o detestam por aquele seu ar de sonso e de protegido pelos céus e pela fortuna.

terça-feira, janeiro 29, 2008

Alta Cultura perde Ministério da Cultura?

Não há dúvida, José Sócrates é um político de mão cheia. A escolha de José António Pinto Ribeiro para a Cultura é desconcertante. Acolhe a pretensão dos lobbys que se movimentaram contra Isabel Pires de Lima mas fragiliza-os dizendo-lhes que não é insensível ao que circula por aí de abaixo assinado e petição mas que não os reconhece enquanto fonte de agenciamento e recrutamento político , reforça o lado tecnocrático do governo trazendo alguém cuja ligação à Cultura no seu sentido mais restrito é bem menos conhecida do que a sua competência técnica enquanto jurista e, a cereja em cima do bolo, coloca como ministro da Cultura uma personalidade que a recoloca no plano mais alargado dos movimentos civis e cidadania.
Será que é desta vez que a Cultura Popular e Associativa ganha foros de cidade no Palácio da Ajuda, ainda por cima num contexto em que o INATEL ( que é, com as autarquias, o tradicional responsável pela implementação de políticas públicas neste sector) está a promover a sua mudança organizacional? Já agora, espero que o próximo ministro da Cultura arranje também disponibilidade para se debruçar sobre as políticas culturais de 95 a 99 e que saiba, como Manuel Maria Carrilho, responder que quando se fala em crise, devemos dar mais atenção à Cultura .