apetece-me cantar.
cansar a voz até ao último pedaço de som. ficar aqui, a empanturrar-me de solidão, de afecto. a minha lucidez, o que me sobrou dela do último desvairio, diz-me que o mundo onde vivo começa a estar tão cansado do homem como a minha cabeça está exaurida com o pensamento. e nem é do pensamento. pensar não cansa. essa é uma merda que este dispositivo pronto-a-pensar encenou para nos fazer crer que é melhor haver umas aventesmas a pensarem pela nossa cabeça. não, digo orgulhosamente nos meus três trilhões de pensamentos, contei-os um a um, desde que nasci: pensar não cansa. o que cansa, o que destrói o ânimo, o que destrói a vida, é esta sensação de que pensar não serve para nada. esta sensação de que o pensamento é estéril, uma comenda que exibimos no salão, mais um Gil que tiramos da cartola para nos apequenar, para nos aprisionar. pensar não cansa, pensar liberta. pensar é um fogaréu medonho, um pedaço de luz incandescente que vai à frente, que vai sempre à frente na nossa vida. é como se fosse um farol só que reclinado para dentro, inclinado para esse imenso espaço interior onde rebentamos de prosperidade, de felicidade.
há um homem próspero e feliz que atravessa a rua todos os dias e esse homem é o gigante que pensa. aquele a quem o pensamento agiganta. adamastor virado do avesso. na pátria dos inválidos, dos trespassados, dos tresloucados, dos que nunca saberão a felicidade que o pensamento poderia ter dado à vida que (não) viveram.
seria por um país assim que eu gostaria de poder desfazer a minha voz, cantando.

Não há dúvida, José Sócrates é um político de mão cheia. A escolha de José António Pinto Ribeiro para a Cultura é desconcertante. Acolhe a pretensão dos lobbys que se movimentaram contra Isabel Pires de Lima mas fragiliza-os dizendo-lhes que não é insensível ao que circula por aí de abaixo assinado e petição mas que não os reconhece enquanto fonte de agenciamento e recrutamento político , reforça o lado tecnocrático do governo trazendo alguém cuja ligação à Cultura no seu sentido mais restrito é bem menos conhecida do que a sua competência técnica enquanto jurista e, a cereja em cima do bolo, coloca como ministro da Cultura uma personalidade que a recoloca no plano mais alargado dos movimentos civis e cidadania.