Mostrar mensagens com a etiqueta Arlete. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Arlete. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, maio 05, 2009

O poder é a alegria de viver e de criar

Há muitos anos atrás numa casa dos olivais onde escrevinhávamos todos na parede, fiz minha esta inscrição que li na parede central da sala: "Saúde é a alegria de viver e de criar". Quem a tinha escrito era Arlete Canhoto Abreu, professora de enfermagem de profissão (a quem se deve, entre outras façanhas, a introdução no modelo pedagógico da Escola Superior de Enfermagem Calouste Gulbenkian de Lisboa de vários tipos de dinâmicas expressivas).
Repetia-a milhares de vezes. Nas aulas, em comunicações e sessões públicas, com amigos, em solilóquios privados, à moi même. Ela é um programa, do berço à cova. Depois comecei também a fazer uma pequena derivação desta frase: o poder é a alegria de viver e de criar. Era eu animador em vários projectos de animação sócio cultural em diferentes lugares de Lisboa. Uma das chaves do trabalho de animação é vincular a comunidade, uma determinada comunidade, à ideia de que pode. De que pode fazer, de que pode conduzir uma acção, de que pode realizar uma iniciativa, um projecto, um programa. A ideia de possibilidade é indispensável ao trabalho do animador. É claro que para isso ele tem de se centrar na estratégia de tentar realizar o que pode e não se deixar cair na inércia por causa daquilo que não pode fazer. É um clássico da animação, não o vou repetir.
O importante é que isto transporta uma ideia sobre o poder que o ajuda a libertar-se de uma carga negativa que, como uma capa, vem revestindo a nossa forma de o pensar. E consequentemente do sequestro da ideia de que ele só pode ser exercido inconvenientemente. A ideia de que o poder corrompe, de que ao poder ninguém escapa, faz parte do imaginário popular e religioso. A nossa ideia do poder geralmente deprecia e maltrata o seu exercício, seja ele qual for, numa sala de aula, num consultório médico, no gabinete do director, do director geral, do presidente, do presidente geral, em suma, do chefe. Ora isso, esse discurso anti-poder, já o escrevi aqui várias vezes, é muitas vezes, paradoxalmente, a substância onde militam discursos extremistas que pretendem disseminar o ódio. O discurso anti-poder é um discurso carregado de ódio. É claro que uma coisa é o exercício do poder, outra a do mando. Parece que se confundem, o exercício do poder parece integrar também a faculdade de mandar, mas talvez seja útil tentar arranjar alguma destrinça entre eles. Um surge mais focalizado na capacidade e autoridade de organizar e gerir os recursos, fisicos e humanos, para a concretização de uma qualquer meta, o outro na autoridade de dispôr desses mesmos recursos.
O exercício do poder corrompe tanto como o exercício da impotência. Vi-o muitas vezes no decorrer da minha experiência profissional. Corpos e espíritos que tinham sido ágeis e sagazes apresentavam-se ressequidos por uma tortura exigente do culto da impotência. Uma escola da cidadania a sério deixar-nos-ia um dia ser chefes de qualquer coisa para experimentarmos as virtudes e os vícios do exercício do mando. Seriamos, à vez, mandantes e mandados. Depois, na vida a sério, seríamos menos prepotentes, menos autoritários, e também, menos paus mandados. Porque é preciso acreditar no poder e na sua conjugação republicana para o libertarmos da doença da incompetência, do autoritarismo serôdio. Tenho presenciado ao longo da minha vida inúmeras situações em que o exercício do mando é feito por incapazes sem capacidade autocrítica para perceberem a sua incapacidade de o exercerem e por detrás deles encontro quase sempre paus mandados descrentes no poder, na república. Numa república é, ou deveria ser, tão fácil destituir um prepotente e um incapaz. Só uma cultura antidemocrática que de costas voltadas para os trinta e cinco anos da nova república grassa tanto entre mandantes como mandados pode justificar que abramos o nosso século XXI com tantos relatos de surreais abusos de poder.
Penso nisto enquanto aqui a nova direcção faz a habitual visita de cortesia pelos serviços. Vem acompanhada pelo seu staff directo, constituido por duas pessoas que, em diferentes momentos da minha vinda para esta instituição, chefiei. E isso leva-me de repente para uma viagem no tempo, a pensar sobre o poder, a minha relação com ele. Fiz um percurso original nestas coisas do exercício do mando. Fui chefe bem poucas vezes na vida e detestei. A primeira foi aqui, quando inaugurei o posto de sub-chefe da esquadra, da fragata. O que eu amarguei! Como queria ser bom - talvez mais bonzinho - fazia questão de receber todos os que me pediam para serem recebidos. E como isso é impossível não consegui livrar-me do facto de algumas pessoas acharem que eu era arrogante, incompetente, autoritário. A certa altura comecei a dar-me conta de que as vozes desses, a quem não recebia, ressoavam mais alto dentro da minha cabeça do que as dos outros, a quem recebi e que me gabavam a paciência. É aliás impressionante o número e a diversidade de pessoas que passa pelo gabinete de um sub-chefe de esquadra ou, neste caso, foi isso que eu comecei por ser, de fragata. Apresentadores de televisão, embaixadores, altos representantes da república, actores, escritores, encenadores, uma aristocracia intelectual de um burgo que muitas vezes se agiganta quando visto pelo buraco do próprio umbigo. Por outro lado o exercício do poder é desgastante para personalidades, como a minha, socialmente inseguras, que são muito vulneráveis ao cochicho, ao dito em surdina, aos jogos de poder. Não gosto de me confrontar com os outros. Os milhares de eus que já fui descendem ainda daquele meu eu primevo e originário que se especializou na incorporação para fugir à confrontação. Ainda por cima, para aumentar a minha aversão ao exercício do mando, o comandante da fragata era aquilo que eu chamava um conspirador Lucky Luke: passava a vida a disparar contra a sua própria sombra e inclusive contra mim. Aguentei durante um ano e dois meses. Ao fim desse tempo, por circunstâncias próprias da vida que nos levam no sentido contrário àquele que queremos ir, subi mais um degrau no exercício do mando: passei a substituir um chefe a sério, com direito a vénia e salamaleque e correspondente repercussão na folha de vencimento. Assim inchado e untado fui chefe, durante mais ou menos seis meses, o tempo que durou a substituição. Não guardo especiais recordações desse tempo senão aquelas que resultam do contacto directo com as pessoas, do trabalho em equipa, da sensação de promover um espírito de grupo e do facto de eu gostar muito do trabalho da esquadra. Mas percebi que entre mim e o exercício do mando há quase que uma incompatibilidade genética.
E como só sou anarquista na intimidade, não tenho outra escolha senão agradecer haver alguém que se disponha a essa ingrata tarefa de me governar e de se sujeitar ao nosso escrutínio desse exercício (escrutínio que tem aumentado substancialmente nestes últimos trinta e cinco anos de república). Deixei de ser como aqueles milhares de crianças rebeldes que se revoltam em surdina contra os chefes. Agradeço-lhes a generosidade em prescindirem de muitos prazeres das suas vidas para nos governarem. Sem grande ajuda minha. Uma das poucas coisas que, pelo exercício do mando alheio, me disponho a fazer, e tenho-o feito ao longo destes anos todos, é reflectir, é escrever. Aliás por todos os sitios onde passo, também aqui, sou tido como um intelectual, com a minha gaveta cheia de textos que fui fazendo. A maior parte deles nunca são lidos. Alguns por vezes são treslidos, lá pensam, olha este quer ser chefe de esquadra. Que se lixe, penso sempre que enceto um novo, devo à República isso: o dever de dar o meu melhor para que possa ser mais bem governado. E se nos preocuparmos muito com o que os outros pensam acabamos por dedicar muito menos tempo ao desenvolvimento da nossa mundivisão. E a vida é um instante, meus amigos, menos do que um instante, um sopro.
Há uma única excepção na minha desafecção pelo exercício do mando( e não do poder): o teatro. O teatro é um universo à parte, um lugar que não é deste mundo e que não se rege pelas mesmas regras que a vida de todos os dias. Aprendi-o a custo. Lembro-me que uma vez uma actriz me disse, durante um ensaio, que eu era um falso democrata. Já não sei sobre o que é que era, tinha a ver com o facto de eu estara tentar que o grupo seguisse a minha visão, creio. É bom que nos digam estas coisas - se um dia conseguirmos concluir que a vida nos tornou melhores pessoas muito deveremos a estes murros no estômago que levamos - mas confesso que na altura fui ao tapete. Durante esse e outro espectáculo que dirigi a seguir tornei-me num chefe envergonhado, muito vulnerável a uma crítica sobre a menor elasticidade e abertura da minha condução do processo de criação.
Até que compreendi que em teatro, enquanto processo de criação colectivo, o poder não é exercido de uma forma democrática. É dificil de explicar mas se assim fosse, nunca teriamos feito "O Lugarzinho no céu" como o fizémos. Quando sugeri que o personagem Mirov, ucraniano, falasse em russo para a sua mulher na terra natal, colhi de surpresa o grupo. Uma votação sobre o assunto teria logo arrumado a questão e teria possivelmente destruído um dos aspectos de maior choque do espectáculo com o público. É claro que esta suspensão da norma democrática no acto criativo assenta num prévio grande respeito pela pessoa enquanto actor e criador. A criação de um espectáculo é um lugar onde o exercício da autoridade, de uma forma mais intensa, se espelha na alegria de viver e de criar, no exercício da amabilidade. Na força, na poesia, no corpo-a-corpo, esse amor tão moderno e tão antigo.

quarta-feira, outubro 17, 2007

Que Esperar de Nós? *

"Imaginemos jovens de dezoito, dezanove, vinte anos, a entrarem todos os dias pela porta de um hospital para iniciarem o seu percurso de formação como enfermeiros. A aprenderem de cor a cartografia do corpo, o de fora e o de dentro, os seus acidentes, o relevo, os seus rios, as suas rugas, crispações. Trata-se de uma ciência em que o exacto se conjuga com o inexacto, o aproximado. Durante quatro anos é aqui - nesta matéria acidentada e irregular que é a pessoa - que os iremos encontrar. E um dia surpreendemo-nos porque percebemos que o mais difícil que lhes é pedido não é o conhecimento nem a técnica: é que sobrevivam à morte que ronda cada corpo, cada presença, cada um de nós. Lembro-me bem do momento especial em que me dei conta disso. E também me recordo que foi aí que começou este espectáculo.
Quando o propus sabia que eles não iam recusar este desafio. Embora da nossa relação com a morte faça parte este jogo de esconde-esconde, quase infantil, de socialmente metermos a cabeça debaixo da terra à espera que ela passe, este grupo com quem venho trabalhando sem interrupções desde o final de 2003, é um grupo-coragem. Nenhum de nós sabia no entanto em que se iria transformar esta viagem e não é uma metáfora, este espectáculo constituiu-se como uma peregrinação aos nossos lugares, às nossas histórias.
A ideia era criarmos o espectáculo a partir de todos os materiais que encontrássemos. Não o escondo, tenho desde muito cedo, na minha experiência teatral, uma utopia: a criação do próprio texto pelos actores. Assumo a minha filiação teatral: a expressão dramática e a criação colectiva. Isto que começou por ser uma utopia literal, evoluiu. Em relação aos actores essa evolução surge quando a certa altura comecei a compreender que os actores não precisavam de escrever palavras, eles são por si só texto, escrevem-se, no evoluir da sua presença, do seu corpo físico e espiritual, da sua energia, carne, vísceras, sangue e molécula, no espaço cénico. O Ricardo Rodrigues falará disso, creio, foi assim que distribuímos as vozes neste programa. O Ricardo, que começou o primeiro espectáculo que dirigi para o Teatro Andamento a dizer que não se sentia tão à vontade na escrita, que se realizava mais na leitura, dando por isso origem à personagem do Quasimodo no "Que esperar de nós?". Ele diz-me também que esta minha relação de trabalho com o Andamento termina, nalguns sítios, com um círculo perfeito: é ele que teve a missão de assumir, através da escrita, as várias discursividades dispersas que fomos atirando para cima do chão da sala de trabalho, textos, imagens, improvisações.
A construção deste espectáculo atravessou fases que, na metodologia que defendo, e já assumi que sou fiel à minha árvore, são muito raras num grupo que trabalha sem condições: tivemos a partir de certa a ajuda da AMARA, que acompanhou o grupo num trabalho que, como se vê, tem muito a ver com as nossas projecções sobre a morte. Depois, a certo momento do trabalho criativo, teve uma equipa de escrita, que ia relançando propostas para exploração e que ajudou a estruturar o espectáculo. E por fim, contámos desde quase o início com a colaboração da Margarida Rodrigues, que para além de nos ter feito o registo vídeo do processo de trabalho, o que nos permitiu estabilizar e fixar o trabalho de improvisação, partilhou connosco a construção da visão cénica de "A Morte é uma Flor!".
Há uma parte deste espectáculo que guardo para mim, como todos nós: a forma como ele me ajudou a conviver com a morte, com os meus mortos. Penso neles ao despedir-me deste trabalho, ao fechar os olhos e pensar por momentos na viagem que terminou: a D. Morte andou muito gulosa durante o tempo em que andámos à procura deste espectáculo. Não vou falar em nomes. A morte é o inominável. Os meus mortos juntam-se com os deles e desse chão improvável nasce uma flor. Além disso aqui na sala de trabalho, que para mim é dos raros lugares deste mundo, lugar onde contamos, sabemos as mortes de uns e dos outros, partilhámo-los durante esta jornada.
Este percurso tinha uma permissa: iriamos procurar, investigar, trazer à evidência tudo o que nos pudesse ajudar a falar sobre a morte. E para isso foi fundamental que assumissemos que sabíamos muito pouco. Sabemos o valor do toque, do olhar, da presença. Onde as palavras falham neste jogo imenso de cabra-cega. É com essa matéria que construi a encenação. Teatralmente fecho assim um ciclo, que começou com "O que esperar de nós?", em que trabalhámos sobre a escola, o seu espaço físico, através de improvisações, que continuou com "O Gato", texto meu, espectáculo que não conseguiu cumprir a dinâmica de animação que desde o início o grupo tinha perspectivado e que neste caso tínhamos pensado através da integração dos mais idosos, mas que trouxe o grupo para o exterior, através da sua presença no FATAL, e agora este "A Morte é uma Flor", que realiza um desafio que desde o "Que esperar de nós?" julguei inadiável: o confronto de um grupo que não tem espaço físico próprio com uma sala de teatro onde pudesse estar um determinado tempo a confrontar-se com a escuridão da sala, com a sua luz cénica, com a presença dos vários elementos teatrais. E até, com a compreensão do lugar do camarim na relação com o trabalho do actor.
É em tudo feliz o fecho deste trabalho, até neste desenhar da morte simbólica do animador que sempre fui, que sempre serei. A morte é uma flor…"
------------------------------------------------------------
* Texto para o programa do espectáculo "A Morte é uma Flor", a estrear amanhã na Guilherme Coussul.

quarta-feira, maio 02, 2007

ABRAÇO COLECTIVO

Vamos ter aulas lá em baixo, sim, na sala de matrecos. Estranho, tens mesmo a certeza. Está bem, já vou, o quê ?? Não, nunca me lembro desses recados especiais, já sabes. Roupas confortáveis.

Olivais, cercanias da velha igreja,

Figura estranha, voz arranhada, olhos doces, próximos de toda a gente. Chama-se Arlete, é a nossa professora de uma disciplina de OPÇÃO – Dinâmicas de grupo. Uma roda de gente, Pedro deitado na praia, Pipa a remexer no cabelo da futura presidente Mara, a Anita a espreitar para um outro lado da sua formosura, hipnose, é o que eu chamo a isto. Hipnose, só pode ser. Ou então, uma charlatã de uma dessas coisas obscuras. Quem é mesmo esta senhora ??? O que é que viemos aqui fazer??? Isto é um curso de enfermagem, não é lugar para estas coisas imprecisas. Vá, vamos embora, Psst, Psst…Não queres vir, NÃO!!!...

as costas de um centro paroquial,

Pintar um cartaz com as nossas imagens, as nossas referências !!!! Ah, sim, já percebi. Estamos num atelier de expressão plástica. Muito bem, quantos cursos superiores estão cheios de coisas inúteis. Mas porque é que toda a gente está a sorrir, tanta espontaneidade, e cores várias a dar forma a esse papel pardo. Desculpa, sei que não tenho jeito nenhum para isto, não, não vale a pena, trago muito peso lá de fora, o pincel pesa demais nesta mão direita. É quase uma inaptidão…..Apetece-me deitar, juntar-me ao chão, talvez segurar no lápis de carvão, um azul, e outro verde, alguma coisa há de sair…Não sei se consigo disfarçar este prazer, alguém estará a reparar??? Aquela presença, o seu olhar.

Fábricas, carrinhas brancas cheias de mercadoria

Estamos tão próximos, sinto a tua pele, sinto-te a pulsar. Estás calma, e tu também, suas muito das mãos, que tal soltar a mão, já percebi, não queres romper o cordão. Mãos dadas, o olhar do outro, uns muito malandros cheios de reviengas, outros a pedir colo, muito moribundos, aquele está muito nervoso, será da presença dela, não sei. Outra a vez a fazer coisas sem sentido, tem mesmo que ser assim? Agora são os braços que se tocam, se cruzam, ficamos em nó. Aparentemente indissociável. Estamos juntos, é só isso que se exige. Muitos braços em roda e o silêncio. Porreiro. Estás sempre aí, aparentemente de fora em observação, mas não consegues evitar colocar-te dentro, no meio, ao lado. Estás aqui. Estás.

Gentes da faculdade, o olhar cabisbaixo do Sr.Ramos, o coração amanteigado no dizer da Dona Aurora, um outro coração susceptível, no meu dizer.

Estou deitado, braços firmes junto ao tronco. Espero. Sinto o toque. Dedos a fazer piruetas na minha cara bolachuda. Coreografia de prazer, proximidade. Quantos bailarinos pisam assim o meu rosto?? Coisa boa demais, confesso no meu outro sotaque. Continuem, não parem, continuem, não se vão embora, acomodem-se. Por favor, eu apelo à Prof.Arlete, por favor, queiram parar eternamente no meu rosto.

estava encontrada a capela mortuária

O centro da roda. Um duelo, as armas, as nossas vidas. Cadeiras, corpo empurrado à frente, o meu discurso cheio de bolor, a ultrapassar claramente o prazo. O passado. Não, não, não, não, quero falar disso. Já posso sair, ainda tenho que ficar mais, porquê a vossa cara assustada, meus colegas, meus amigos. Tenho que acabar com isto. Não quero falar mais, não quero. Dizes-me enfim alguma coisa. Gastei todos os cartuchos. Ficam as tuas palavras, fica a tua companhia, a impressão que não estava a falar pró boneco. Continuas aí, obrigado. Talvez tenha sido bom disparar umas quantas balas.

a névoa, os contornos do ritual instituído, o corpo coberto

Ninguém quer aceitar o final das suas aulas, nem mesmo eu. Falas do grupo, das pessoas, de como podemos estar na vida de uma outra forma. Desejas que sejamos bons enfermeiros, palavras de circunstância, ainda assim, as tuas palavras. Urge fazer qualquer coisa, meus amigos, seguramente estão a sentir o mesmo que eu. Sim, é isso, ABRAÇO COLECTIVO. No uso de uma outra linguagem, diria que estamos em estado fusional. Massa de betão. Qualquer coisa de indivisível. Esta, coisa boa. Deixa-me encostar a cabeça. Tão bom. Quentinho.

As minhas lágrimas, o saber transformado em legado , o abraço. Para sempre.

Ricardo Rodrigues