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sexta-feira, junho 03, 2011

A esquerda tem razões que a própria razão desconhece

No dia 5 de Junho vou votar e esse voto é para mim um voto no escuro. No meu anterior post dei conta de toda a minha angústia: durante toda a campanha não consegui inclinar-me por nenhum dos partidos em quem poderia votar, PS, PCP ou BE. Já expliquei demoradamente que por maiores demonstrações que as lógicas partidárias da Esquerda possam fazer, o que para mim parece inequívoco é que a Esquerda detinha uma maioria parlamentar e se desfez dela para entregar o País a uma direita que tem - num contexto internacional recessivo, e numa Europa dominada pelo sequestro da política por parte da Economia - condições para impor medidas e programas que há meia dúzia de anos acharíamos impensáveis.
Para mim tudo isto é de uma lógica quase cartesiana: os eleitores de esquerda querem ser governados à esquerda e é esse o sentido do seu voto e se os partidos que representam a esquerda não conseguem traduzir este desejo em realidade falham, traem o voto que lhes foi confiado.
Se essa traição é concretizada num momento em que era indispensável que houvesse esquerda capaz de se bater, no país, na Europa e no Mundo por aquilo que são as necessidades das pessoas, é traição agravada. Estamos em guerra e uma esquerda que não o reconhece não é de confiança.
Para mim é muito claro que o voto no Partido Socialista não serve para nada senão para tornar a sua regressão mais difícil e demorada. Houvesse uma centelha de esperança de que com o voto no PS eu poderia ajudar esse grande partido da esquerda portuguesa a preparar-se para dar alguma lucidez e pragmatismo à vida nacional e eu votaria no PS com alegria. O Partido Socialista vive um período nefasto de eucaliptização ideológica, já o afirmei. O exemplo mais dramático disso chama-se Ferro Rodrigues. Se nem um político como ele conseguiu resistir a esta incongruência ideológica de achar mais natural juntar-se a uma direita que não trai a direita do que uma esquerda que traiu a esquerda, então não há nada que possamos fazer senão esperar que a derrota eleitoral seja a vaga de fundo que leve José Sócrates para bem longe da política activa. Por mais paradoxal que possa parecer é a melhor forma de defender o importante contributo político que os Governos de Sócrates materializaram para o desenvovimento do País. E para aquilo que podemos e devemos chamar o legado da esquerda. Há um envenenamento geral da política que se traduz nesta ideia de que devemos votar num partido pelo que ele fez. Quando a política seria mais saudável se votássemos num Partido por aquilo que, objectivamente, reconhecemos que ele pode vir a fazer. O voto não é um prémio dado ao conselho de administração de PORTUGAL.EP. É um mandato para que nos governe. Ora é insofismável que aquilo que o PS se propõe fazer é aplicar internamente o mandato não democrático de uma troika revestida de uma tecnicidade económica que anda a sequestrar a política. Não deu, em nenhuma das sua palavras durante a campanha, sinal de que tivesse pelo menos estudado as propostas do BE e do PCP (que carecendo do pragmatismo e da capacidade de poderem ser implementadas ipsis verbis, apontam o único caminho que é possível fazer no futuro da Europa).
À esquerda do PS, o PCP e o BE, apresentaram propostas. Mas ao contrário do que dizem alguns comentadores, fizeram-no não a pensar no País, mas nas suas sobrevivências políticas. Louçã e Jerónimo fizeram uma aparatosa reunião para anunciar uma pacificação que não era mais do que espectáculo. O Bloco de Esquerda disse que logo que se soubesse o memorando da Troica iria apresentar ao Governo um conjunto de medidas para opor a esse programa. -lo, uma por dia, propagandisticamente, ao correr da campanha, não para o Governo, para os media. O Partido Comunista foi talvez o mais honesto nesse aspecto. Nunca fez alarde, não tirou nem truques nem coelhos da cartola. Apresentou medidas com o mesmo pragmatismo com que há trinta e 37 anos sobrevive politicamente em Portugal. Só que o Partido Comunista tem dois grandes problemas de análise desta conjuntura: primeiro, não reconhece que a hipoteca de Portugal é a hipoteca da Europa porque o projecto europeu terá mais dificuldades de sobreviver se somar mais um caso de usura e exploração interpares e como o PCP não reconhece a validade do projecto europeu, não valoriza isto; segundo o Estado Gordo do PCP é apenas o estado gordo contra o qual se vocifera nas praças, nos mercados, nos taxis, nos cafés, ou nos diversos corporativismos de natureza sindical que são a sua força motriz. E não é. O estado gordo é também um estado doente na sua missão por causa de ter estado dominado tanto tempo pela política partidária. O Estado em Portugal está doente porque desde 1974 incorpora, em sucessivas vagas, os corpos acríticos da ocupação que dele fizeram as diferentes forças partidárias que estiveram no poder, desde o PCP ao CDS e porque sempre que se fala em definir a sua missão e de ajustar os seus recursos a ele há um aqui del rei por parte daqueles que sempre se tiveram na função pública os seus principais bastiões políticos . Tornando-o mais vulnerável a uma direita que usa o Estado para o atacar e o distribuir, em partes separadas para montar, pelos seus grupos de interesses.

É por isso talvez que à Esquerda do PS as baterias se afinaram ultimamente para o voto em branco e a abstenção. Nunca se falou assim do voto em branco. Quer dizer que se está a perceber que ele é um voto qualitativo a favor da democracia representativa. Quer dizer que tarde mas em tempo, a esquerda reconheceu a orfandade política em que deixou muitos dos eleitores que lhe tinham confiado o voto. Se não há uma esquerda que nos represente no plano dos partidos concorrentes à Assembleia da República reconhece-lo no voto em branco é criar condições para que isso possa acontecer. Não tenho nenhumas dúvidas de que a razão me impôe o voto em branco nas próximas eleições de 5 de Junho.

No entanto a Esquerda tem razões que a própria razão desconhece. Não poderia criticar o BE e o PCP por não o terem entendido e estar a fazer do voto uma palmatoada pelo que fizeram. Há coisas mais importantes para a esquerda e para o País. Uma delas é perceber que a Cultura é o espaço onde melhor poderemos contrariar todos estes eixos discursivos que como feixes, nos toldam a capacidade de pensar. Estamos transidos de medo. Só a cultura nos devolverá a dignidade que desejamos. Como disse José Gil, a sequela que ele espera de todos nós com o seu Portugal, O Medo de Existir, é um livro imenso, escrito nas ruas, nas praças, nas casas, intitulado Portugal, o Desejo de Existir. Depois da era de ouro de Manuel Maria Carrilho, a Cultura é um campo cuja dignidade política só se encontra minimamente respaldada nos programas políticos do Bloco de Esquerda. E que parlamentarmente são a força política que poderá disso fazer uma bandeira mais presente.

Outra questão é perceber que a insistência com que o BE e o PCP falam da renegociação, tem provocado que essa palavra tenha perdido a sua conotação terrível de Estado mal comportado e que se tenha percebido de que poderá haver um caminho, muito estreito, na possibilidade da Europa assumir politicamente que tem de mudar os prazos, os juros, a sua própria filosofia da dívida e não se entregar mais à agiotagem. O BE e o PCP demonstraram ultimamente que não são uma esquerda de confiança, é certo, mas no quadro político que se aproxima não haverá muitos motivos para desconfiar que não vão fazer aquilo que parece serem as suas melhores vocações: protestar. Da mesma forma que quando a questão for esperar da esquerda que se una para nos governar à esquerda, o voto no BE e no PCP, se mantiverem o mesmo tipo de prática política, poderá ser insensato, agora, que o País vai ser governado troicamente à direita, é uma excelente oportunidade para que faça sentido votar numa esquerda de protesto.

É um espaço mínimo. Como disse, se a razão me assistisse votava em branco. Há razões que a razão desconhece e o pragmatismo político que aprendi ao longo destes 37 anos de democracia leva-me a confessar que vou votar no Bloco de Esquerda.

sábado, maio 28, 2011

Partido Socialista

Durante muito tempo invectivei o BE e o PCP por não terem sido capazes de criar um diálogo com o PS de modo a podermos ser governados à esquerda. Ao mesmo tempo que verberava o PS - Partido de Sócrates por estar a destruir o Partido Socialista. Chamei a isso "trair a esquerda", adoptando aqui a ideia de traição adoptada por Arno Gruen, que é a de traição a si próprio. Há finalmente dentro do Partido Socialista vozes que ao sugerirem que há mais vida no PS para além de Sócrates estão a dar cabo do seu principal sustentáculo retórico. Gostei também de ver Manuel Alegre a dizer que o Partido Socialista deve ir para a oposição. É outra forma de dizer que Sócrates deve ir embora. Escrevi-o segundos depois de Sócrates ter anunciado a sua demissão. A eucaliptização ideológica do Partido Socialista chegou ao extremo de levar personalidades com a importância política de Ferro Rodrigues a negarem uma possibilidade de acordo à esquerda, admitindo-o à direita sem perceberem que ao colocarem-se em linha com esse argumento - que já produzia sentido dentro do Partido de Sócrates- acabavam por dar razão ao BE e ao PCP. Um partido que assume à partida a sua incapacidade para dialogar com o BE e o PCP ao mesmo tempo que admite possíveis entendimentos pós eleitorais com o PSD e o CDS não merece, sobre nenhum ponto de vista, que se pense na utilizade de guardar o voto de um qualquer cidadão de esquerda. Esta "traição" é inesgotável e o dispositivo nem poupa aqueles que acolhe. Eduardo Graça (ver blogue Absorto aqui ao lado) chama a atenção para o facto de não se ter discutido o documento da Troika e de que Ferro Rodrigues ter sido um dos poucos que o tinha feito. Quando li isto perguntei-me de imediato: mas se o cabeça de lista da capital falou nisso então é porque o assunto terá sido discutido?! Só que depois caí em mim, ou melhor, no pleno do dispositivo da "traição": é claro que Ferro Rodrigues só foi ouvido quando disse que o PS não se aliava com o PCP ou com o BE. O resto não é agenda.
O drama de tudo isto - a tragédia não é chamada para a política - é que, para mim, a inutilidade do voto no PS é também a inutilidade do voto na esquerda. Uma esquerda inoperante do ponto de vista do governo é muito útil à direita até porque o esbatimento ideológico de hoje em dia faz com que os povos de esquerda e de direita possam convergir localizadamente em questões pontuais, fazendo com que estas ganhem evidência mediática, e esta evidência mediática será reutilizada descontextualizadamente. Por outras palavras, e como dizia Boaventura Sousa Santos no acampamento do Rossio: " De um Partido Finlandês recebi esta interpelação: " Boaventura, nós somos contra este empréstimo porque ele é usurário mas somos solidários com Portugal". Da mesma forma, em Portugal, a esquerda que estava contra o empréstimo defendia (no plano mais evidente mediaticamente, a concessão ou não do empréstimo) a mesma coisa que defendia a ultra-direita filandesa. E não é preciso dar exemplos tão rebuscados: todos contra Sócrates, quase faz o pleno da sociedade portuguesa não militante no PS. Nesse plano encontramo-nos todos aqueles que achamos que o Partido Socialista é a melhor plataforma política como aqueles que, à sua esquerda, acham que ele é tendencialmente de direita, como aqueles que à sua direita, o acham esquerdista. E todos nós não podemos fazer nada do que esta imensa coligação negativa que internamente reforça a liderança de Sócrates.
O drama do PS é que quem pode mudar Sócrates são os militantes do Partido. Este factor tem a ver com a falta de porosidade política dos partidos. Se o que se passa no Partido Socialista é central para a democracia portuguesa, para a esquerda portuguesa, seria curial que os seus militantes fossem também mais permeáveis ao que se passa na sociedade portuguesa.

segunda-feira, maio 23, 2011

5 de Junho é já amanhã

Tenho algum receio em escrever algo que possa ser lido como uma apologia do voto em branco. Ao fim de 36 anos de democracia, e depois de ter votado pela primeira vez nas presidenciais de 81, o voto sempre significou fazer parte de uma festa. Não me sentir em condições de ir a uma festa parece sintoma de uma doença de espírito que me sinto tentado a reservar para mim próprio. Por isso não escrevi directamente do facebook. Não domino a dimensão social daquela rede e aqui, no meu respirar, sinto que estou em casa.

terça-feira, maio 03, 2011

Para que precisamos nós da Cultura?

Tenho alguma dificuldade em escrever de uma forma credível, até para mim mesmo. Sinto-me mal. Apetecia-me ficar de quarentena. Desfazer-me de uma data de conceitos que a praça pública anda a vociferar e que eu não entendo. Porque é que eu hei-de andar aqui a repetir ideias que me vêm de todo o lado e em que eu pego, como se fosse um puzzle, dando alguma razoabilidade porque as enfio na minha retórica discursiva? Como se soubesse do que estou a falar! Não sei. Dívida soberana. Ataques especulativos. Neoliberalismo. Restruturação da dívida. Resgate da nossa dívida. Dinasia PEC. Europa. Agência de Notação. Níveis de Ratting. Default. Ordenados milionários dos CEOS. Lucros fabulosos dos especuladores. F.M.I. (mas posso falar-vos até à exaustão de uma relação apaixonada com F.M.I. do Zé Mário Branco). Não percebo nada disto. E não estou para mandar uns bitaites a fazer que percebo. Não percebo e ando mal informado e salvo raras excepções de alguns amigos que andam por aqui a fazer autêntico serviço público vejo que rende muito mais, tanto na bloga como no facebook, fazer rolar ideias, mesmo que de contrabando. É por isso que ano aqui há dias para escrever um texto e não acredito em nada do que escrevo. Porque aquilo sobre o que se escreve, sobre o que se pensa, sobre o que anda por aí, sobre o que forma opinião, para mim é trampa. Lixo, lixo ideológico. Há um ruído ensurdecedor na cidade dos vivos.
1. Há qualquer coisa dentro de mim que me diz que é pela cultura que conseguiremos desmontar o torniquete. Porque é de um torniquete que estamos a falar. E por isso aquilo que tinha começado a escrever sobre a necessidade da esquerda, já não me entusiasma muito.
Nos meus últimos três textos dramáticos inseri sempre uma personagem que falava de uma guerra que aí vem. E no próximo, aquele que escrevo para um novo projecto, a guerra vai mesmo começar. E isto não é por ter descoberto agora alguma tendência apocalíptica. Sim porque realizei, radicalmente, que deixarmos entrar a ideia de guerra no nosso mundo, é começarmos por assumir que a nossa ideia de paz, de prosperidade (e estou a falar sempre e em primeiro lugar desta Europa onde me situo) está vinculada à miséria, exploração e morte. A uma geopolítica tenebrosa. Desde a primeira era Reagan, passando pela dinastia Bush, não isentando a fase final de Clinton, que comecei a perceber que não tinha alternativa pessoal a essa visão política. Não era negociável nem provinha de uma visão extremista radical assente em algum calhamaço ideológico. Era a natural assumpção de que não via nenhuma diferença entre a minha vida e a de qualquer outra pessoa que habite este nosso mundo. E também que a globalização política nos responsabiliza, a cada um, seja lá onde nos encontremos, pelo que se passa em qualquer ponto do mundo. Estamos em guerra.
Não há assim nenhum sitio neste mundo onde eu me possa proteger da responsabilidade que sinto pela verdadeira catástrofe que a voracidade tentacular do nosso bem-estar provoca em todo o globo. Contra esta ideia de que a guerra é sempre lá longe, senti a necessidade de - metaforicamente, como o é sempre a expressão artística - a aproximar das nossas casas. É por isso também que, com alguma provocação, vou alertando que quando estamos a falar de números de pobres, de números crescentes da fome, não estamos a falar dos que não têm o mínimo para viver com dignidade, não estamos a falar dos que não têm que comer (porque verdadeiramente os números do desemprego só nos preocupam quando sobem a níveis que fazem temer que eles comecem a entrar nas nossas famílias). Estamos a dizer que começámos a perceber que a fome e a miséria estão a chegar à rua de baixo e que logo, logo, estarão na nossa própria rua. Nós estamos apenas preocupados com a nossa fome e com a nossa pobreza. Ou estamos a pensar nas hordas de pobres que vão começar a desestabilizar este nosso mundinho. O tipo do Pingo Doce está. É aliás impressionante como toda a gente o ouve como se ele fosse um papa. E estamos apenas preocupados connosco porque nos condicionámos assim, a um egoísmo de base. Costumamos amiúde compararmos-nos aos ratinhos de Pavlov. Mas a única verdade que podemos apresentar uns diante dos outros é a de que a metáfora pavloniana é insuficiente para explicar uma coisa: nós somos simultâneamente os cientistas e os ratos no laboratório. Todas as retóricas políticas que o pretendam esquecer estão a fugir da cultura como o diabo foge da cruz.
Não há nenhum princípio romântico sobre a esquerda, não há nenhuma urgência de natureza pragmático-realista que nos deva deixar de cuidar da ideia de que a dimensão colectiva da Cultura é o chão fértil onde vivifica uma política que possa devolvermo-nos a ideia de responsabilidade. Por mais que ela pareça coisa vaga e desmobilizadora para quem está muito preocupado com os resultados expressos.
2. Quando falamos em cultura, e principalmente se um dramaturgo fala de cultura, pensamos logo que se está a falar no plano da manifestação dos objectos artísticos e dos produtos culturais. É uma forma de reduzirmos o debate para um plano onde ele pode ser manipulado pelas diferentes discursividades políticas, quer de esquerda, quer de direita, mas não é disso que se trata. A cultura é tudo aquilo que é a expressão da nossa vida. E não há nada do que fazemos, ou não fazemos, que não seja expressão de nós e, enquanto expressão de nós, cultura.
E é dessa ideia muito vasta de cultura que me socorro quando me refiro à perspectiva de que é pela dimensão cultural que a política pode devolver-nos a ideia de responsabilidade. É um trabalho sobre a identidade, a forma como nos constituímos uns diante dos outros.

[Aparte ou pausa para respirar: Poderíamos também falar aqui da especificidade da relação portuguesa com a cultura . E aí teríamos oportunidade para falarmos de uma certa bicefalia que domina as políticas governamentais ligadas à cultura, fazendo um tratado de Tordesilhas entre aquilo que podíamos referir como alta cultura (os produtos culturais e os objectos artísticos realizados por agentes culturais devidamente licenciados, mapeados e legitimados, das quais se encarrega o Ministério da Cultura através dos seus diferentes organismos) e a baixa cultura (as actividades amadoras e de expressão popular, o associativismo, em grande parte confinadas à investigação científica e à academia, à INATEL, às autarquias e às cooperativas). ]

3. Movimentos de cidadania. Desde que a ameaça de bancarrota começou a pairar sobre as nossas cabeças, houve um movimento de cidadania muito importante. Não o vemos muito bem reflectido na sociedade até porque o seu eco é muito filtrado, parece que os comentadores são os mesmos, parece que os protagonistas reverberam as mesmas coisas, parece que o tempo se aproxima velozmente do dia 5 de Junho sem nada trazer de novo, mas não é bem assim. O extremismo da situação fez com se criasse um circulo de atenção sobre novas camadas discursivas veiculadas pelos meios de comunicação mais informais. Passa-se mais tempo na internet, nos blogues, no facebook. E o tempo, o nosso tempo, o tempo que cada um de nós deposita no tempo que é de todos, é cultura. Fazem-se circular mensagens, textos, vídeos. Muitos dele são como que uma catárse. Andamos desesperadamente à procura de bodes expiatórios. Encontramos por isso alguns culpados, tanto externos como internos. Internamente, e no plano político partidário, Sócrates para todos, a direita neoliberal e a esquerda radical para o PS, o PS, o PSD e o CDS para o BE e para o PCP. Fora do mundo dos partidos os culpados são os bancos, a corrupção, a falta de ética na vida pública, o Estado Social, a Função Pública, o descontrolo do investimento público, a dívida pública, a dívida soberana. Externamente a deriva neoliberal financista, onde se juntam as agências de notação, os especuladores e uma desregulação da economia. O FMI que surge muitas vezes associado a esta deriva neoliberal, aparece agora também como parceiro do BCE e da CE. E se estes são os culpados, as grandes vitimas são, para a direita, o rendimento das pessoas e das famílias, o desenvolvimento económico do país, a sua soberania, para a esquerda, o rendimento das pessoas e das famílias, o desenvolvimento económico do país, a sua soberania, e o Estado Social.
4. Remar em círculo. O facto de estarmos mais ligados uns aos outros dramatiza este remar em circulo dos nossos últimos tempos. Estamos tão presos a este enquadramento político que parece irreal esboçar algum movimento no sentido de promover uma reflexão sobre as possibilidades de agirmos de uma outra forma do que aquela a que nos vimos condicionando. A troika está cá a passar a pente fino a nossa vida. Para a direita, por mais bem intencionada que esta esteja - e talvez fosse uma altura de atribuirmos à direita a mesma sinceridade política que conferimos à esquerda - é o tempo de tirar partido da situação de modo a fazer passar um conjunto de transformações que seria impensável conseguir promover num quadro político e económico de alguma estabilidade. A esquerda, dividida entre o PS, o PCP e o BE, está em estado de afonia. Ou agonia. Dos partidos de esquerda o PS é o único que assume falar com a troika, o PCP e o BE, como todos sabem, excluíram-se do processo. A exclusão do PCP e do BE mesmo se para muitos parece incompreensível, já que eles fazem parte de um quadro institucional e foi o País que pediu o resgate, não deve ser dramatizada. Se a troika fizer convenientemente o seu trabalho terá, sem dúvida alguma, oportunidade para conhecer a posição destes dois partidos. O que de mais negativo poderemos fazer agora é criar tensões a partir de diferentes interpretações sobre actuações legítimas dos partidos. Se não é por aí que nos entendemos que não seja também por aí que nos desentendemos.

5. A agenda da direita. No entanto mesmo não nos deitando a criticar as atitudes, temos de tentar perceber o que é que podemos fazer. A agenda da direita parece mais ou menos clara e ela está entusiasmada com isso. Muitas vezes incorremos no erro, e eu faço mea culpa disso, dizendo que a esquerda se aliou à direita para derrotar o PEC IV e, consequentemente, o governo. A tirada tem alguma bondade como provocação mas não é exacta e não nos ajuda a perceber as circunstâncias do que se passou. A dinastia PEC foi uma criação do Governo PS com o PSD, assente num entendimento comum e sempre teve a rejeição do PCP e do BE. Ou seja, quem rompeu com a dinastia PEC foi, assumidamente Passos Coelho. Fê-lo da forma atabalhoada que todos sabemos, faltando à verdade, truncando versões, dizendo aqui uma coisa, em Bruxelas outra, mas foi ele que o fez. Foi ele que se aliou a uma esquerda que estava naturalmente contra a dinastia PEC e hoje percebe-se porquê: não só a agenda do PSD está sintonizada com as exigências do pensamento neoliberal que dominam a estratégia de resgate, como vê nisto uma excelente ocasião para uma vingança sobre mais de uma década de governação do partido socialista. Se o Orçamento de Estado de Durão e Portas era uma santuário ideológico contra a esquerda e o PS, esperem pelo que virá se Passos Coelho for o redactor-chefe do próximo OGE. É claro que a direita sofre da mesma contingência humana que também caracteriza a esquerda: ela não vê isto da mesma maneira que a esquerda o vê e por isso substitui sentimentos negativos como vingança por outros bem mais elevados. E por isso ela não pode perceber aquilo que o Daniel Oliveira disse uma vez no Eixo do Mal e que nos devia servir de baliza: o que se está a passar é um autêntico golpe de estado à governação legítima dos países, impondo medidas que consubstanciam mudanças de regime que nenhum partido se atreve a colocar nos seus programas eleitorais e deveremos perguntar-nos se achamos isto aceitável.

6. E a agenda da esquerda? Qual é a agenda da esquerda, perguntam-se as diferentes tribos deprimidas de esquerda? É difícil perceber qual é e isso provoca notórios embaraços. Tenho encontrado nestes dias muitas pessoas, do PCP, do BE e do PS que estão muito relutantes em votar. Não estão indecisas, sabem que se votarem vão votar no partido onde costumam votar sempre, o apelo do voto útil é sempre algo disponível para um eleitor, mas têm uma genuína relutância em votar. Eu próprio estou nesse grupo. Não tenho dúvidas em dizer que neste momento nenhum partido de esquerda me dá sinais claros de querer governar à esquerda e por isso qualquer voto na esquerda será reforçar a votação na direita. É claro que também poderia adoptar aquela atitude lúdica do eleitor do PCP que zangado com o seu partido vai votar no BE ou no PS, ou o do BE que de costas voltadas para a sua força política promete deitar a sua escolha no PCP ou no PS, e como votante que fui do PS colocar o meu voto no BE ou no PCP. Corre por aí, nesta perspectiva lúdica, que não votar é fazer o jogo da direita. É um argumento estafadissimo que nem chega a partir. O que nos deveria preocupar não é a esquerda que faz o jogo da direita, é a esquerda que não faz o jogo da esquerda. A menos que o jogo da esquerda não seja governar, seja só o ser oposição. E não há dúvida de que a bancada esquerda fora do chamado arco da governação faz excelente oposição. Tenho aliás muitos amigos de esquerda que justificam o seu voto no BE e no PCP porque trabalham muito na Assembleia. Fazem muitos trabalhos de casa. Talvez seja uma perspectiva salutar esta e talvez fosse sensato enterrar aquele arquétipo político de que deveremos ter uma ideia de bom governo pra podermos ser uma boa oposição. No entanto, bom senso à parte, o que faz falta neste momento é a capacidade de comunicarmos com clareza.

7. Falar claro e falar verdade. Uma das grandes falácias actuais é a da necessidade de falar claro e verdade. Todos o repetem, em todas as praças públicas deste país. É razoável este ponto de vista. O paradigma Medina Carreira, ou seja, de que vivemos na mentira e que agora temos de falar a verdade ocupa a agenda de todos os dias. No entanto pondera-se pouco a possibilidade de que este apelo à clareza se situar numa zona de duplo contrangimento que só nos perpetua neste lodaçal discursivo que desvaloriza tudo o que se diz. De que é que adianta falar claro se não existem as condições necessárias para que o acto de comunicação se processe com clareza? Nós ouvimos aqueles muitos que falaram claro ao longo destes anos, que nos alertaram para o estado de degradação das nossas finanças, para o elevado endividamento público e privado? Nós ouvimos aqueles que nos alertaram para o perigo que rodeava a função social do Estado? Nós ouvimos aqueles que escreveram, alertando para a forma como a Europa crescia sem solidariedade? E porque é que não os ouvimos? Porque não nos interessava. E porque é que não nos interessava, porque é que não nos era interessante? E o que é que nos foi interessante, o que é que nos interessou, o que é que nos prendeu a atenção? Se não formos capazes de questionar isto o apelo a falar claro é só mais uma metamorfose de um discurso escorregadio e pantanoso.

Por outro lado o apelo a falar verdade é ainda mais perigoso e anda na senda de um certo sebastianismo que se está a instalar troicamente na sociedade portuguesa. Como se entre a gente humana houvesse uma verdade revelada. Há pessoas mais lúcidas do que outras, claro que há. Mas de nada nos serve isso se enquanto comunidade não construirmos uma evidência comum sobre uma determinada realidade. A nossa verdade é aquilo que entre nós estamos decididos a aceitar como verdadeiro. As verdades reveladas são manhosas, trapaceiras e enganadoras. E aqui estamos de novo a bater à porta da cultura, agora pelo postigo da forma como comunicamos.

8. O que é isto de condições necessárias para a clareza na comunicação? Mas nós não vivemos na sociedade da comunicação?! Do conhecimento? Em primeiro lugar é preciso reconhecer que a perspectiva local tem vindo a perder relevância na nossa relação com a cultura. Esse é um aspecto para tentarmos perceber que a clareza do acto da comunicação não tem tanto a ver com a clareza do que se diz ou do que se entende, mas de como é que hoje em dia isto produz sentido. O nosso modo de vida está dominado pelo fenómeno da globalização. A revolução tecnológica tornou a terra um lugar muito mais pequenino, muito mais interactivo e, paradoxalmente, muito mais distante do local. Perdemos em territorialidadade o que ganhámos em virtualidade. São relações diferentes, não necessariamente antagónicas, existem cada vez mais experiências de cruzamento destas duas experiências, mas são relações diferentes. O local exige tempo, o tempo da interacção no aqui e no agora, tempo que a rede global maximaliza unindo tudo. Este admirável mundo novo que é vivido no plano dos sujeitos, quer do ponto de vista individual quer colectivo, como um lugar libertário, onde cada um adquire a possibilidade de se expressar, de conviver, de se agregar, é também um lugar panóptico onde é muito mais fácil exercer, de forma subrepticia, disfarçada, a dominação, ou se quisermos, de uma forma mais benigna, o controle social e ideológico.

A grande eficácia do sistema de dominação actual é que ele prescinde do binómio dominador-dominado para exercer o jogo da dominação. A palavra é apropriada. Trata-se de um jogo. O dominador é tão espectral como o gesto de dominação e o próprio dominado e não coincidem necessariamente. Há um vaivém. Quando hoje vemos alguns vídeos que circulam no you tube ( e em relação a muitos nós não sabemos verdadeiramente quem os fez nem quem está por detrás desses mesmos objectos) ou quando vemos o trabalho desmistificador do Inside Jobs, nós percebemos que aquilo que supunhamos ser a nossa força, a união, é também afinal a nossa grande vulnerabilidade.

Os nossos países, que ainda há pouco tempo tinham uma rede institucional complexa para implementar a sua soberania (língua, simbolos, instituições, território, moeda, fronteiras, águas territoriais, cultura), hoje, de verdadeiramento soberano, só têm a dívida. Temos uma grande vulnerabilidade. Basta condicionar um director do BCE, basta calar um presidente de um Comunidade Europeia, para que de repente o papão FMI, com um director de esquerda, surja de forma dócil a propôr taxas de juro e prazos de pagamento mais generosos do que os defendidos pelas instituições da União Europeia. Por outro lado também temos milhões de pessoas ligadas por partículas discursivas minimalistas (os likes, os shares, os comments) fornecendo uma ilusão de individualidade e de coesão àquilo que, visto com um bocado de distância, se torna também numa massa enorme de acriticismo. E tudo isto parece por vezes ter a força de um tsunami que nada nem ninguém consegue controlar. Ou pelo menos, não nos é perceptível o controle, até porque estamos muito mais deslumbrados com a força telúrica dos fenómenos (como a aventura da rua árabe).

9. Porque é que precisamos nós da cultura? Há muitas razões e não vou maçar-vos com aspectos gerais da teoria da cultura. O que me parece é que tentamos ver tudo no plano da mudança de paradigma da política quando o deveremos situar num trabalho profundo sobre a nossa identidade. É que se não podemos sentar um país inteiro no divã do psicanalista, precisamos de perceber que não adianta querermos outros políticos, outras políticas, se não assumirmos que temos de mudar, porque foi este modelo de comportamento que nos trouxe a este aparente beco sem saída. Atravessamos um grave problema de congruência política porque estamos a pedir aos nossos políticos que sejam os protagonistas de uma mudança que nos tem de envolver a nós. Alguns de nós viram-no, vêm-no, nas manifestações que ocorreram um pouco por todo o país. É como se estivéssemos muito perto de não termos de aceitar como uma inevitabilidade o afundamento da nossa vida democrática por causa do apodrecimento da partidarização da sociedade. Estamos muito próximos mas ao mesmo tempo sentimos que podemos morrer na praia. 5 de Junho parece a data da capitulação onde todos nós teremos de fazer um regime alimentar à base de sapos, mas talvez seja bom não fazer da nossa vida favas contadas. Há 37 anos de uma noite para o dia mudámos toda a nossa história e com que consequências?

Hoje talvez muitos de nós comecem a perceber que estamos a pagar um preço demasiado elevado por termos esvaziado aquilo a que chamamos a opinião pública de toda a diversidade cultural, religiosa, espiritual. Quando retrospectivamente olhamos no aniversário de mais um 25 de Abril um documentário sobre José Afonso, percebemos que há uma dimensão da nossa vida que se perdeu. Há trinta e sete anos não deixaríamos que tantos oráculos medíocres viessem começar uma frase por o que as pessoas querem, o que as pessoas precisam, o que as pessoas gostam. O que faz as pessoas felizes. E perdeu-se porque a perdemos. Ninguém nos roubou. Ou através da cultura valorizamos a nossa responsabilidade ou continuamos neste discurso de negação política que atinge zonas de delírio em que de um extremo resolvemos os problemas com impostos sobre as grandes fortunas e do outro extremo colocamos a solidariedade social no plano da caridade.

Ando a escrever o mesmo há alguns meses: esta crise só é má para quem acha que viviamos bem. Para aqueles que achavam que viviamos mal, que a nossa vida estava presa a valores identitários que nos enfraqueciam, o momento que atravessamos é uma oportunidade. É isso que nos diz a cultura. Ela diz-nos: não aceites inevitáveis, tu podes ser dono da tua vida. A vida pode ser diferente. A vida pode até ser nossa. E não há mal nenhum em que isto seja apenas uma utopia. Mas atenção: esta crise é um momento dramático em que não podemos baixar os braços, desistir. Não podemos desistir de pensar, de dizer. E não podemos de deixar de passar entre nós aquilo que pensamos. Meso que nos custe tanto pensar. Porque achamos que é tudo remar em seco e em círculo. O que a cultura nos diz é que o momento da transformação é uma festa. E se ao lermos isto pensamos o quanto de absurdo e irrealista é alguém escrever que o momento de transformação é uma festa, antes de abjurarmos este lirismo pacóvio talvez seja melhor irmos ao espelho vermos se ainda somos nós do outro lado.

10. Vivemos acima das nossas posses, dizem. É mentira, é uma grosseira mentira. Que como dizia o Aleixo, tem uma dose de verdade para nos ludribriar melhor. O que se passou é que esta desregulação do sistema financeiro já não se podia contentar com o dízimo resultante das nossas disponibilidades de consumo que sobravam do nosso rendimento mensal. E isto não se passou só em Portugal. É um fenómeno global. Provavelmente a especificidade portuguesa traduziu-se no modo como nós, que andamos sempre com uma identidade larvar ou às avessas, nos deixámos seduzir tanto pela dimensão apoteótica do nosso consumo. Depois de décadas a acumular poupança, em que o salazar ficou como marca do instrumento de rapar o tacho, aderimos com um espantoso novo riquismo a esta possibilidade infindável que os créditos, que agora sabemos serem hipotecas, nos permitiam. E, através da publicidade, o sistema replicava-se e ajustava-se ideologicamente a essa finalidade. Dizer que as pessoas viveram acima das posses é tentar apagar a realidade de que o sistema permitiu que a actividade económica, suportada numa alavanca financeira histericamente crente nas suas potencialidades, ganhasse acima das suas possibilidades, tendo em conta o equilibrio do sistema. Mas nós também estivémos lá. Os milhões de lucros são milhões de cêntimos nossos. E somos nós que os demos. Senão compreendermos isso nunca podermos mudar o nosso comportamento. E estamos sempre nas mãos de quem nos vem aterrorizar.

11. Alternativa. Quando eu insisto nesta ideia de que temos de analisar a realidade como se ela não fosse de sentido único, geralmente dizem-me, está bem, mas qual é a alternativa? Ou seja, se criticamos o resgate do BCE, do FMI e da CE, perguntam-nos qual é a alternativa e supõe-se que a alternativa é o não ao resgate. Este é um modo de pensar tão inculcado e tão impregnado de uma ideologia dialética que se torna dificil explicar que enquanto não assumirmos que estamos a colocar o problema de uma forma errada, as soluções serão também ela erróneas. A alternativa ao resgate que está a ser anunciado pode ser um resgate em condições mais vantajosas para todos. Ora para isso não é preciso termos uma alternativa, sim não aceitarmos que para uma determinada realidade não lhe há alternativa.

É uma operação tão simples que chega a ser tenebrosa a forma como o discurso político, o que rola por aí, o faz esquecer. Há uma situação de efectiva falta de liquidez da nossa economia. Não temos dinheiro. Até eu que sou o mais incapaz de todos para perceber os fenómenos económicos já o interiorizei. Temos de o pedir emprestado ou temos de mudar a curto prazo a estrutura da nossa angariação de receita e de realização de despesa. A tónica da diabolização de quem pode emprestar dinheiro faz parte de uma retórica discursiva que puxa pela lógica dos afectos mas é muito pouco interessante porque na política a dimensão dos afectos não é uma realidade partilhável senão por aqueles que pensam do mesmo modo .

12. O resgate. O que é importante é perceber que se por um lado precisamos de dinheiro, as modalidades de resgate têm produzido um efeito dominó com a Grécia e com a Irlanda e que se vamos negociar um resgate partindo dos mesmos pressupostos a probalidade é que o empréstimo não nos sirva para nos ajudar a desenvolver sim para nos atascarmos no mundo tenebroso da dívida. Isso não quer dizer que não devamos assumir o resgate, quer apenas dizer que se o assumirmos devemos salvaguardar todas as situações que nos sejam prejudiciais. É para isso que precisamos de coesão nacional, é para podermos ser mais fortes, tanto interna como externamente. Os partidos que são contra o resgate têm proposto outras alternativas de financiamento. Por mais que algumas delas sejam nitidamente demagógicas, outras há que são realistas e que são possíveis de compatibilizar com o empréstimo, diminuindo até o seu impacto.

Esta ideia de que a nossa vida está entre a aceitação da inevitabilidade do resgate ou a da negação da necessidade do mesmo, faz-nos perceber que tanto o resgate como a sua negação podem ter alternativas. É que o que se está a fazer passar é que a inevitabilidade de um resgate, é a inevitabilidade de um certo tipo de resgate e isso é intolerável. Mas é nesse intolerável que tem andado muito da nossa política e muito da campanha mediática. O que eu gostava de ver era os políticos do meu país, e principalmente os de esquerda, a trabalharem em conjunto para que, se o resgate se fizer, seja o menos nocivo para o país e que seja feito para o desenvolvimento do país. Deveríamos nas próprias eleições responsabilizar seriamente os políticos e as políticas que não perceberem isso.

13. O não-resgate.

A posição do BE e do PCP sobre o resgate tem desde logo uma virtude: obriga-nos a perceber que estamos a discutir a Europa e que temos de definir em que Europa é que queremos estar. A grande vantagem desta obrigação de discutirmos a Europa é a de percebermos que esta ideia de Europa que por aí anda nada tem de utópico. É até anti-europeísta. Não é por acaso que muitos de nós andam entusiasmados com a experiência da Islândia. Parece um David contra Golias e quem não gosta de David? Só que a Islândia não faz parte da Comunidade Europeia e por isso tem outra autonomia. É isso que nós queremos? Sair da Comunidade Europeia? Se formos analisar os partidos à esquerda do PS, o BE assume a sua vocação europeísta, o PCP não. Estive a ler atentamente as propostas de todos os partidos de esquerda e percebi que por muito que haja medidas que se aproximam entre o BE e o PCP pode haver uma Europa que os divide. O PCP não prescinde da sua acusação de que a adesão ao Euro desregulou e destruiu a actividade económica. Ou seja, o não ao resgate pelo BCE, pela CE e pelo FMI, parece que é uma alternativa, mas que alternativa queremos? Com Europa? Sem Europa?

De qualquer forma o ou isto ou aquilo é uma brincadeira de rapazes de raparigas no pátio, não uma posição de compromisso num momento como este e nós, enquanto cidadãos, temos de mostrar de uma forma cabal o que é que fazemos a políticos que pretendem brincar ao nosso futuro em vez de se entregarem a um compromisso. O BE e o PCP apresentaram propostas para o não resgate cuja validade não se esgota se o resgate for feito. É claro que o tempo passa e não se percebe como é que as medidas destes dois partidos podem ser adoptadas se não forem, em tempo recorde, analisadas e quantificadas. Nesse sentido acho muito importante a iniciativa do BE de pedir ao Governo para ser ouvido porque tem propostas para apresentar. Regra geral as propostas do BE parecem, a um não especialista em economia, boas e de acordo com a necessidade do País. Espero muito sinceramente do Partido Socialista que se entretenha seriamente ou a explicar porque são inviáveis, porque é que não podem ser integradas na negociação com o BE, CE e FMI, ou a viabilizá-las. E o mesmo às do PCP. O facto de elas serem apresentadas por um partido que é contra o resgate não quer dizer que elas não possam ser aproveitadas para minimizar os efeitos negativos do empréstimo. E não quer dizer que não possam ser aplicadas depois.

14. Nós os cidadãos de esquerda, alinhados ou desalinhados, devemos bater-nos para que os partidos de esquerda consigam encontrar soluções que salvaguardem um património de políticas sociais que está intimamente ligado à nossa democracia. Não aceitando desculpas infantis. Quem já aceitou integrar uma coligação com a direita no derruba do governo ou quem se apresta a coligar-se com ela depois das eleições, não tem desculpa nenhuma para não fazer um grande esforço político na criação de mínimos denominadores comuns de entendimentos políticos. Devemos bater-nos para que a Europa consiga ver em nós a Europa e não apenas um país com problemas de dívida soberana. Deveremos bater-nos ou para encontrar soluções menos gravosas do que o empréstimo financeiro ou que ele, a ser contraído, seja para resgatar o País e a sua economia e não para a manter num jogo fraudulento e especulativo. Deveremos bater-nos para que a coesão política do País seja um aumento da responsabilização social e politica de todos. O país não é um ringue de pugilato político entre José Sócrates e Passos Coelho. Temos de acreditar na vida, na nossa vida, na nossa capacidade de a transformarmos. Mesmo que não percebamos nada de ratings, de renegociações da dívida, de créditos defaults, e outros truques com que pretendem armadilhar a nossa possibilidade de analisarmos o bom ou o mau senso dos nossos políticos.

domingo, abril 24, 2011

A política do ressentimento

Ferro Rodrigues, o cabeça de lista por Lisboa, disse que deverá haver acordo pós-eleitoral mas que é completamente impossível fazê-lo à esquerda porque esta se aliou, no último ano e meio, à direita para derrubar o PS.
Confesso que li, reli, tresli, e não consegui apanhar nenhuma lógica no pensamento de Ferro Rodrigues. Quer dizer que para ele o PS, se ganhar, tem forçosamente de fazer um acordo pós-eleitoral e que esse acordo só pode ser feito à direita. Deigo desde já que quando se parte assim para uma negociação, parte-se vencido. Ou seja, o PS assume a necessidade de fazer um acordo com a direita. Poderá ser com o CDS ou com o PSD, depende da expressão eleitoral de cada um dos partidos.
Eu até admitiria que o PS pudesse ter em cima da mesa um cenário de acordo com o PSD ou mesmo com o CDS. Os partidos à sua esquerda já fizeram questão de dizer que não há convergência com o PS de Sócrates. Por outro lado o governo pediu ajuda internacional e os partidos à sua esquerda fizeram como se isso não se tivesse passado neste país. São motivos plausíveis para inviabilizar um acordo mas as posições pré-eleitorais já se percebeu que são para inglês ver. O próprio Passos Coelho já admitiu que não fará acordo nenhum com José Sócrates.
O que me parece muito pouco razoável, e principalmente num político como Ferro, é assumir um ressentimento com a esquerda e não o assumir com a direita. Muito pouco razoável e capaz de fazer o PS perder os votos que poderia ganhar com a inclusão de Ferro como cabeça de lista. Porque se até Ferro mimetiza o ressentimento do líder, então o PS ainda está pior do que parece.