Há medida que crescemos, muda a nossa relação com o tempo. E, simultaneamente, a nossa relação com a morte. O tempo é um brinquedo demasiado complexo para o sabermos entender com dez, vinte, trinta anos. É claro que sem isso não conseguíriamos viver. Seria insuportável. Há um desconhecimento do tempo que nos permite agir. Estamos certos em não percebermos o tempo. Mas depois, chega uma hora emque tudo se desfaz. Como se um torrão de areia se esbroasse. Percebemos então que em cada grão de tempo que escorre na ampulheta estão agrilhoados, em estado de libertação, pelo menos, 3 tempos: o tempo que é, o tempo que não é, e o tempo que poderia ser. E digo pelo menos três tempos porque é isso mesmo que podemos perceber. Todos os outros tempos, como por exemplo o cósmico, esses, não os atingimos ainda.
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quinta-feira, novembro 18, 2010
quarta-feira, novembro 26, 2008
Amabilidade
Acordar de manhã.
A nova linha da Ritual de gel e esfoliante de ginseng e eucalipto faz muito pela
felicidade moderna.
O corpo exulta devagarinho,
como o compasso de uma melodia
entretanto esquecida.
Há também alguns complementos da body shop. O gel refrescante de menta para as pernas, a
loção de corpo de alfazema que ainda resiste. Não os
devia enunciar já que estou furioso por terem
descontinuado
a minha linha preferida, gel e loção de corpo,
com essências de lavanda,
sou louco por lavanda,
era uma das partes melhores do ficar doente na infância,
aquele cheiro a alfazema queimada a respirar o mesmo ar,
no outro dia,
naquela drogaria da praça das flores,
encontrei um daqueles frasquinhos verdes
que se usavam antigamente,
assim me disse no outro dia o vendedor,
ele e a mulher,
contentes por aquele cheiro a velho e a humidade da pequena drogaria,
mais trinta anos do que eu,
é o que usavam os nossos avós,
disseram,
incluindo-me naquele nós,
só por eu procurar um 4.4.4. loção para a barba e pedra branca,
sou louco por lavanda,
comprei um frasco,
besuntei-me pelo caminho,
tapando o meu estimável l' eau d'issay miake,
quando cheguei ao teatro fedorava de ach. brito,
parecia uma sopeira,
do antigamente,
nunca mais o usei assim,
indiscriminadamente,
teve um triste fim,
partiu-se,
vazou-se sobre um caderno de apontamentos moleskine,
engraçado,
agora que falo disso,
o caderno ficou com um cheiro muito agradável,
lembram-se daquelas borrachas de antigamente,
perfumadas?
assim também os meus cadernos,
vou propôr isso à moleskine,
uma nova linha de cadernos,
perfumados com lavanda.
Acordar de manhã assim,
com a pele da tua marca na minha pele de marca, nunca descontinues
a tua pele,
a linha da tua pele,
o seu cheiro, suavidade, espessura, densidade,
esse olhar macio e terno com que
expressas a nossa fome,
essa tesão brutal que já vem
do antigamente.
segunda-feira, janeiro 07, 2008
A borboleta esvoaça no azul
Sinto-me chegar ao pé de mim. Acendo velas na casa e vou para o quintal, ver o rio, o meu rio de sempre. É noite e o azul do céu tinge o rio. Sou feito de azul e de verde. Terra castanha. Dispenso, humildemente umas vezes, outras com resignío, como um mistério a que não posso aceder, o fogo, a combustão. Estrelas. Lá em cima um papagaio ou uma catatua assobiam-me. Um falar do nordeste brasileiro solta-se da colina descendente. Não sei se é do frio, sinto-me a aproximar-me de mim. Tu chegas-te a meu lado e a tua mão no meu ombro conforta-me, dá-me coragem. Pode parecer estranho e só o digo porque existe um lugar onde o enlouquecer nos salva da loucura: tenho quarenta e cinco anos e sinto-me aproximar-me verdadeiramente de mim. Será esta a minha última crisálida?
segunda-feira, novembro 05, 2007
A luz do meio dia
Disse-lhe:
- Há vinte anos atrás eu tinha terror de poder chegar ao lugar onde estou.
- Onde estás? - Não sei. Não sei nada. E o pouco conhecimento que tenho vai-se perdendo. - E tens medo? - Sentes-me o medo? - Não. - Eu também. Eu percebo que a grande aventura do conhecimento não é a colecção de respostas que um tipo é capaz de juntar sobre o mistério do existir. - Pois não, isso são falsas respostas. - É um tipo meter-se debaixo das saias do primeiro deus que encontra. - O que é que fazes? - Não faço nada. Deixo-me estar. Tento aguentar o embate deste não saber. É terrível porque nos educamos toda uma vida para a ideia de que sem respostas morremos. E afinal aquilo a que chamamos angústia não é angústia. É tempo. Apenas tempo. O meu corpo quando me calo sabe mais do mistério do mundo do que eu quando me torço nesta retórica caguinchas. - E o que é que eu faço aqui neste não saberes? - É uma contingência do tempo que vivi ter chegado aqui. - E então? - Só será verdadeirmente festa quando encontrar alguém que aguente comigo este embate. - É isso que eu faço aqui? - Diz amo-te muito depressa.
segunda-feira, outubro 29, 2007
O tempo, esse eterno
É o tempo que é preciso, pensei, quando a deixei mais os pequenos quase nadas que ainda poderiam entrepôr-se, como materialidade sensitiva, entre nós e aquela memória inexistente.
Não há prazos para um desfalecimento como também não os há para um esquecimento. E nunca é muito ou pouco, é o que é necessário para que a imagem se esvazie. E sobre ela se construa não outra, mas o vazio com que não queríamos lidar quando, de modo quase infantil, pintálgamos o espaço deserto.
Viveremos melhor quando não confundirmos a sua infindável crueza,
com crueldade.
Se um dia, em vida das minhas utopias e esperançamentos, voltar a acreditar em deus,
será a ele, o Tempo,
que me dedicarei.
É ele que transforma a pele. Não só dotando-a de escamas, fazendo do bípede um homem ou uma mulher peixe, também enrugando-a, envelhecendo-a, fazendo de cada marca uma história.
Viveremos melhor quando aprendermos a não lutar contra ele.
terça-feira, outubro 23, 2007
O mapa
Como sempre quando entro na Mourisca sem o Pedro, olho para todos os lados tentando vislumbrar a mesa mais interessante para ficar ali a vampirizar palavras, gestos, entoações, sugar histórias. Sou um compulsivo endrominador de histórias na vida alheia. À minha frente um casal, um homem e uma mulher, de idade, uns sessenta anos. Sento-me. Deixo-me envolver pelo meu livro, leio Hanna Arendt, um ensaio sobre a autoridade, trá-lo-ei aqui em breve, esqueço-me do meu par de eleição, sou assim, esqueço-me, abandono-me. A certa altura percebo que o casal, do qual só vejo metade da face dela e as costas do homem, reconstitui lugares de um passado que viveram há mais de quarenta anos. Apercebo-me por isso que são dois velhos amigos. Ele fala-lhe dos filhos, do lento e estuporizado rumo das vidas que os separaram. Ela está completamente centrada sobre o papel da toalha onde o homem vai desenhando ruas enquanto diz os nomes. Rua da Anchieta, Rua Ivens, Chiado, Janelas Verdes, 24 de Julho, ele vai perguntando, lembras-te, isto já foi há cinquenta anos, era eu miudo, estão os dois naquilo, ela tem uma voz doce, a voz, o olhar, os gestos, as próprias ideias, ele uma tonalidade bem calibrada, quase se diria que trabalhou com a voz. São meigos no restolhar das memórias e eu ocorre-me um outro lugar por onde tenho andado a retirar alçapões de onde brotam aquelas pequenas histórias que me constituem. Não é por acaso que me lembro de uma ideia de Arendt, "nós corremos o risco de esquecer, mas sem a recordação ficaríamos privados daquilo que dá profundidade à experiência humana". Eles saiem primeiro. Eu saio depois e dirigo-me como sempre ao meu lugar na esplanada da Graça. Já lá está a Cândida. Aponto-lhe com o olhar o casal. Ela também tinha reparado na sua doçura, nos gestos antigos com que le correra para lhe abrir a porta, com que lhe cobrira o corpo com o casaco. Eles já foram embora enquanto eu fico a acertar com a Cândida os promenores desta história: não são amantes. São amigos de há muitos anos, deitados sobre um mapa que é o corpo da cidade e que tem as suas idades, respaldadas entre colinas. Bate-nos um ar frio na cara, um vento mais forte no estio tardio que cá tem andado. Eu chamo a isto poésis.
sexta-feira, setembro 28, 2007
sábado, setembro 15, 2007
"O tempo é mais do que a vida. Nós ficamos velhos e morremos e o tempo nunca fica velho e morre, há sempre tempo a mais que sobra para as pessoas que cá ficam."
A sabedoria de uma criança de cinco anos. Quando é que nós começamos a desaprender?
[Da caixa de comentários. Trazido pelo Eduardo do Prélude à l’après-midi d’un faune ]
quinta-feira, agosto 30, 2007
Estranha forma de vida
Dizia-me, amo os finais, tenho uma extraordinária propensão para fazer florir as rosas quando elas murcham nas mãos áridas dos amantes. Ela falava sem se dar conta da beleza que lhe crescia nos dedos de mulher. A maior parte das pessoas que conheço são pessoas de sentimentos perfeitos e normais. Esvaziam-se de um amor antes da chegada do próximo que pode ou não coincidir com a Primavera. Será aliás sempre verão, por mais tardio. Não sou assim. Primeiro preencho os espaços em branco e só depois, a meio da caminhada, começo a libertar carga, até que da última viagem não reste senão um torpor. Aprecio as pessoas arrumadas sentimentalmente e tiro delas inspiração para os meus melhores dias mas não consigo repetir a façanha. O que procuro nunca existe. Eu gostava de encontrar um dia uma mulher que me tirasse o desespero. A sensação de agonia. A dor anestesiada de uma solidão. Essa mulher não existe. Nunca existirá. Não porque não exista. Porque entretanto me ocupo com mulheres que me fazem sofrer, que me desesperam, que me agoniam. Estou a ser injusto. Poucas são as que me agoniam, que me desesperam, que me fazem sofrer. O que acontece verdadeiramente é que não me libertam da agonia, do desespero, do sofrimento. Ao invés disso preeenchem-me de cores, de alegria, de envolvimento, de doçura tal que eu sinto, sempre pela primeira vez, que posso abrir os olhos diante da verdadeira agonia, do verdadeiro sofrimento, do verdadeiro desespero. A mulher que eu procuro não existe. Não porque não exista. Existe, para lá da agonia, do desespero, do sofrimento. Todos os dias dorme no meu leito nú. É com ela que eu me deleito e entrego à mulher que verdadeiramente me beija.
quarta-feira, agosto 29, 2007
B.A.
Deixo-me levar pela noite de Lisboa. Eu não estava para sair. Tinha acabado de derreter uma conversa na esplanada e despedira-me já com o sono a embalar-me mas por me ter esquecido de uns óculos de uma amiga que combinara deixar ficar no café, tenho de voltar à rua. E entre esse volteio os pés perguntam-me por uma dança. DChego ao Music Box no momento em que acabaram os concertos. O Tokio está vazio. Ao lado o Jamaica está mobilizado para umas filmagens. Decido ir até ao B.A. Subo a Rua do Alecrim. As núvens no céu, as cores da cidade, uma certa espessura do ar, dão-me a estranha sensação de que a cidade mirrou, que vai desaparecer dentro da minha cabeça. Subo pela Rua do Norte. Passo por um dos meus bares de culto enquanto começo a pensar que já não tenho idade nem pachorra para vagabundear à noite sozinho. De certa forma procuro-a. Não sei bem quem ela é. É um misto de antigo e novo, alguém que me diga que eu estou vivo e faço parte deste mundo estranho onde eu já não passava com frequência há muitos anos. Entro e saio da Tertúlia, vou à Bela, encontro o Ruy Otero com uma amiga, oferece-me boleia para a Graça, eu acabei de chegar, passo. Aparece-nos entretanto uma gracejana, uma rapariga de porte altivo, linda, doce, vinte e poucos anos garbosos. Peço indicações sobre algum sitio giro, a rapariga simpática oferece-se para meu guia até ao Maria Caxuxa, eu declino, deixo-me entreter a acabar a conversa com o Ruy, enquanto eu lhe peço conselhos sobre locais engraçados para aquela noite do Bairro ele pede-me sugestões de blogues. É justo, troca por troca, falo-lhe do DOC LOG da Leonor, o Ruy é do vídeo, do cinema, o blogue dela não tem nada a ver com os nossos exercícios de diletantelismo, sei que ele vai gostar. Durante anos e anos o Bleza foi a minha pátria e agora, perdido no meio do bairro percebo que o Majong já não tem matraquilhos, aqueles matraquilhos famosos onde cheguei a ver jogar o Joaquim de Almeida e a Maria de Medeiros, tem alfaces, alfaces penduradas no tecto, também não tem o sr. Li, nem a Teresa Roby sentada à porta a conversar com a Sigalho e com o meu irmão, alfaces e um grande balcão de cimento do qual gosto muito, lá estou eu a ser nostálgico, é da solidão, vou ao Bartis, bebo um favaios enquanto cumprimento rapidamente a Bárbara e a Cristina, depois saio para a rua, mais humano, disse duas palavras uma encostada à outra, desço à bica, no Bicaense encontro o Ângelo Torres, estou safo, de repente os conhecidos irrompem, o Luís, a Kitty, a Magda, a filha, que par, são um consolo para a alma, separam-nas dezassete anos de idade, é assim que a nossa criação deveria ser sempre, um ombro, para tudo. Para as farras, para as desforras, para tudo. Vou com a alma aos saltos para casa, chego a casa consolo-me novamente com o meu rio, a minha noite, embalo-me nisto, adormeço que nem uma criança feliz.
terça-feira, agosto 28, 2007
Brigadas da Contra-Informação.
Eu espero que aquelas horas esquecidas que passei na rede do limoeiro me tenham dado a teimosia suficiente para o confronto que quero ter aqui no Respirar com a linguagem. E eu já percebi pelos últimos posts que não será fácil. Há alguns anos Valere Novarina e o seu trabalho sobre o linguarejar tinham-me chamado a atenção para a necessidade imperiosa de devolvermos à linguagem a sua possibilidade interpelativa. Arrumei isso na gaveta do trabalho estético e criativo. Pensei, tenho de escrever como se escavasse um buraco no meio da linguagem. É nesse escuro, nesse negrume que a proferição se rejuvenescerá. Mas essa preocupação reservava-a exclusivamente para os meus textos teatrais. Sempre encarei o escrever no blogue como uma pré-escrita. Um lugar onde eu poderia ser e não ser, onde eu poderia ser inconsequente, inconstante, reflexivo, literário, piegas, sentimental, uma auto-terapia do existir.
Nestas férias pude no entanto perceber que as coisas estão bem piores do que eu pensava. Não se trata de uma questão estética. É uma questão política. Como blogger faço parte de uma comunidade bastante intelectualizada, quer dizer, que tem grande parte da sua vida construída através de referências do pensamento, da arte, da cultura, da política e por isso sempre desvalorizei o impacto da catástrofe que intelectualmente sentia que a linguagem estava a atravessar. Pensei que nos campos, nas aldeias, nas vilas, no interior das vidas amáveis que sempre soubemos construir estes artefactos comunicacionais não tinham quase valor nenhum.
Não é verdade. A situação é ainda mais catastrófica do que o meu pessimismo poderia alcançar. Já não existem campos, nem vilas, nem aldeias e as nossas vidas amáveis estão irreconhecíveis. O ter ido para férias quando o caso Maddie estava no seu epicentro deu-me a oportunidade para perceber que tipo de informação tem privilégios de produção de sentido fora dos grandes meios urbanos. É telenovela, noticiários e missa de domingo por esta ordem de importância.
O que tudo isto produz é um verdadeiro terrorismo da comunicação. Muitos de nós espantaram-se há uns anos com a possibilidade de implantação de retóricas fundadas no irracional como, por exemplo, a da guerra ao terror de George W. Bush. Ora o que aí vem ainda será pior, mil vezes pior.
E eu não sei o que verdadeiramente um blogger pode fazer, ou melhor, o alcance que poderá ter aquilo que ele pode fazer. Creio que nisso teremos de ter a paciência do agricultor que lança a semente ao chão e só saberá na primavera se o seu esforço foi produtivo. Poderemos começar a formar comunidades assentes no laborioso trabalho da contra-informação. Células anti-terroristas. Trabalharemos por casos como os terroristas da comunicação. Célula Contra Informativa no Caso Maddie por exemplo. Faremos reuniões de célula, de rede, de brigada no Second Life.
Guerrilhas do pensamento. Pensar é estranho. Parece que nos afasta do lugar onde realmente estamos. E do lugar actual ainda mais. Provavelmente os vindouros já virão com o pensamento formatado para se adaptarem a esta reconfiguração ideológica da verdade, da mentira e já não sentirão esta nossa angústia de filhos da guerra fria. A nós ainda é ela que nos ilumina.
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segunda-feira, agosto 27, 2007
O último olhar, disse ele
Em Broken Flowers de Jim Jarmush, Bill Murray depois de saber, através de uma carta anónima, que pode ter um filho que o procura, empreende ele próprio uma viagem para tentar descobrir quem é a mãe do seu filho. A estrutura repetitiva do filme acaba por mão se tornar monótona graças quer à excelente banda sonora do filme, quer ao modo paradoxal como a personagem de Don Johnston é construída. Por um lado o seu comportamento apático, desafectado, alheado. Por outro um homem que inicia uma viagem através das várias namoradas que teve para descobrir qual delas é a mãe do seu filho, como se isso lhe devolvesse alguma chama existencial.
Imaginei-me dentro do filme e espantei-me com a forma como Don Johnston foi acolhido pelos seus antigos amores. Não acredito que se fosse eu a maior parte das mulheres com quem reparti dias, horas, me abrisse sequer a porta. É difícil confessá-lo mas nunca amei verdadeiramente. O amor em mim é uma memória e uma promessa. Amei quando nasci, e da procura dessa memória de que nem sequer me lembro faço a minha esperança de que por uma vez na vida, nem que seja ao morrer, possa sentir a plenitude de um amor verdadeiro rasgando-me por dentro, libertando-me de todo este ódio com que me deixei enquistar, soltando-me desta matéria pustulenta e ocre com que me entranhei de violência.Amei no exacto segundo em que nasci, aí fui humilde e autêntico amor molecular, cromossomático. Desde esse momento todo eu sou aprendizagem do medo, do egoísmo, da mentira, do desamor e da desafectação. Há uns tempos entristeci-me porque recebi de uma das mulheres com quem mais tempo tinha dispendido a desamar, uma carta a pedir-me para nunca mais a contactar, para imaginar que tinha morrido, emigrado para a Gronelândia, para o centro do centro do mundo, whatever! Agora, ao constatar a persistente inexistência do amor na minha vida, compreendo afinal a lucidez que, como um punhal, a trespassou. Estas coisas que eu sei sei-as a despeito do amor que nunca senti, que nunca fui capaz de sentir. Sei-as por causa do único vislumbre amoroso que sou capaz de descortinar para além desta memória de que nem sou capaz de ser recordação: os gestos de amor autêntico de que fui objecto. Não são muitos, a maior parte do amor que me dedicaram é tão mesquinho como aquele que dediquei. E nem de outra forma poderia ser quando é a mesquinhez e o desenho de diminuitivo que lavra o chão e a terra onde semeámos e plantámos a flor. Não são muitos, são os bastantes. O amor em mim é apenas uma promessa, uma memória. Por mais estranho que possa parecer, não é um ser agoniado pela sua própria acidez que escreve, mas alguém que percebe que é na desfiliação de um face à mitologia amorosa do mundo que pode estar a única e a última chance da nossa experiência amorosa ter algo de autêntico. E a linguagem é apenas mais um entretenimento, um fazer tempo, enquanto a verdade crua e dura da nossa existência não nos atinge como um raio.Eu não o sabia antes e não o sabia assim: o véu vai caindo ao mesmo tempo que caminhamos. Enquanto com o tempo a gravidade puxa todas as nossas carnes para baixo, numa flacidez que nos permite o destempero lúcido de quem deixa para sempre a sua hipótese de ícone, o cérebro, o cerebrelo, a massa encefálica enrijecem, entesam-se na estreita vinculação à única proferição possivel. É por isso que por mais aparato e exuberância que os nossos amores jovens possam ter tido, ninguém no seu perfeito juízo se comove senão com o amor que espera um dia, na velhice, experimentar. Padeci das mesmas doenças de espírito que qualquer um de nós: procurei uma mulher ou para me governar a vida, ou para me dar filhos, ou para tornar a minha vida aventurosa, ou para me rejubilar nas fotos de família, ou para o vangloreio junto dos amigos ou até, para me rejuvenescer. Tudo isso foi em vão e foi por isso que não deixei nem tenho saudades do amor que não vivi, que não soube viver. A única coisa que agora ainda espero encontrar em relação àquela que será a minha última hipótese amorosa é algo que não posso ainda, nem nunca, procurar: uma mulher a quem possa olhar no derradeiro relance que pousar sobre o mundo e que espero, seja o mais autêntico gesto de amor que percorreu toda a minha vida.Uma mulher em quem amar e confiar, como escreveu o poeta.
Porque o que conta, a única coisa que verdadeiramente conta na possibilidade amorosa de cada um, é a confiança. É o único momento em que matamos a avestruz enterrada em mitemas de merda, de trampa doce, de lodaçento e pantanoso verboreio. A nossa derradeira chance de luz. Eu sei que tudo isto pode parecer cínico, ácido, desesperançado. Eu creio que não é. Ou que só será se já amarmos mais a linguagem do que a vida, do que a vida autêntica, indecifrável. Esse festim que, quando linguarejo, creio ainda ser possível.
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terça-feira, agosto 21, 2007
Jardins que brilham
Encontro no jardim uma amiga, uma daquelas amigas que nascem do trabalho e cujo contacto embora morra com a mudança de azimutes profissionais nunca se desfaz. Brinca com o filho e com o marido. Este está de volta de outra criança que por sua vez está acompanhada de uma senhora que presumo, seja uma ama. Começamos a falar. Primeiro dos amigos comuns, depois dos negócios e finalmente da família. Pergunto-lhe se o rapagão é dele. E depois, como o marido continua a brincar com a outra criança, pergunto se também é deles. Ela afasta-se para um canto mais reservado e diz:
- Estamos no início do processo de adopção da Debra.
Está nervoso. Tanto ela como o marido e Miguel, o filho, trocam olhares cúmplices. Estão varridos por uma festa que também me toca. É como se fosse fugaz testemunha de um parto, de um nascimento. O processo da adopção já tem quatro anos e é a segunda vez que estão com a Debra. Miguel leva-lhe o chapéu, a pedido da educadora que acompanha a criança em processo de adopção. Ele fala-me também da forma como tiveram de envolver o Miguel neste trajecto e dou-me conta que isso lhe deu uma estranha e brilhante responsabilidade. Deixei-os no jardim. Com os meu botões ía a pensar em como as pessoas brilham quando se lhes passa um afecto por cima.
segunda-feira, agosto 20, 2007
Ser solitário
Por dentro da loucura percorrida. Fazer de cada quero-te uma raíz. E, improvavelmente, ser feliz.
quinta-feira, julho 26, 2007
Amnésia
Deu-me em cantar. Aconteceu-me fazê-lo como se rebentasse com as cordas vocais. Há uma alegria não-verbal no meu tecido celular. Eu gostava de saber os nomes dos meus enzimas, das várias camadas de pele que é preciso atravessar para ir do meu intestino delgado até à pequena verruga que tenho na ponta do nariz. Sempre admirei as pessoas que sabem os nomes das coisas. Por mim apetecia-me saber quantos ácidos revestem esta minha mania de ser doce. Ou queria desfazer-me na minha hipótese química. Morro e nasço dentro de mim e não sei sequer o nome dos meus mortos nem dos meus vivos. Deu-me em cantar.
Apeteceu-me fazê-lo como se me esvaísse em delicadeza. Na mais pura delicadeza. A verdade é que se alguma vez alguém me tivesse ensinado os nomes das coisas eu me teria esquecido. Esqueço-me de tudo. O meu problema não é, agora, o não saber. É esquecer. Evito até aprender novas coisas, pelo menos, evito aprendê-las pelos metódos escolares tradicionais. Sei, e sei para sempre, e sei-o desde sempre, aquilo que apreendo com os sentidos. Ainda me lembro intuitivamente dos cheiros, há pessoas que não se acreditam quando o digo, mas eu lembro-me ainda do cheiro da placenta que me revestia, ou da apoteose de odores do interior materno de onde vim.
Há qualquer coisa de incompleto numa vida.
É de noite que a solidão demora o tempo, o lugar. E atrasa mesmo o pensamento. Em todas as noites da minha vida neste universo de equações e de seres o que atrasa o pensamento e com este, a tranquilidade, é a noite. Admiro as pessoas que são feitas de uma só peça, ou até, metade de uma coisa ou metade de outra. Por exemplo, as pessoas que são apenas constituidas de bondade. Ou de maldade. Eu sou uma amálgama retorcida, traiçoeira. Sou um monstro e a minha monstruosidade é, a minha humanidade. Sem ela seria menos que um suspiro, um pedaço de vento. Não seria nada.
Há qualquer coisa de incompleto numa frase.
sexta-feira, julho 13, 2007
Da discussão a escuridão
Tenho uma profunda admiração por todos aqueles que têm opiniões firmes, arreigadas pelo sabor do tempo e das convicções, inabaláveis. Ao longo da minha vida tenho conhecido muitas pessoas assim. Homens e mulheres de um só ideal, de uma só ideia. Uns nasceram comunistas e encaram com grande naturalidade a circunstância de que provavelmente irão morrer comunistas. Ou abriram para os olhos naquele apertado, circunspecto e conservador, "deve ser assim", que nos ressoou durante anos e anos a fio, e que repetem, pelo longe dos tempos que viverão entre nós, "assim deve ser". E quando não são as ideias que os alimentam é uma espécie de ódio. O ódio, o rancor, o desdém, é uma forma persistente de pensamento. Tenho uma profunda admiração por todos aqueles que têm opiniões firmes, arreigadas pelo sabor do tempo e das convicções, inelutáveis do seu ódio-carpir. Admiro-os como quem se estranha. Às vezes, sabendo que alguns deles, poderão passar por aqui, estanco o passo, o pensamento, a expressão. Não sei como foi, foi devagar, tal e qual como os ponteiros do relógio: fui-me educando para a insegurança, para a timidez, para o não saber, para a dúvida, para a transitoriedade das ideias, dos pontos de vista. Não me reconheço em muitos do paradigmas racionalistas, como o estafado "tenho as minhas opiniões mas se me convencerem sou capaz de reconhecer o ajuste da opinião alheia". Eu nunca tive as minhas opiniões. Seria incapaz de chamar minhas às opiniões que me ocupam o pensamento. Se há qualquer coisa de meu nas minhas opiniões é esse momento-fronteira em que me despeço de uma para abraçar a outra. Tudo o que tenho ou sou tenho e sou por empréstimo. Este corpo, que reconheço provisoriamente como meu, quer dizer, que dele trato o melhor possível como se fosse meu. Esta identidade, forçada muitas vezes pelos outros mas também pelo outro de mim mesmo que tantas vezes consigo ser. Tudo isto pode, para muitos, parecer o pesadelo. Somos educados para o não querer, para o não ser, para a conformidade. E só quando todas as mortes que nos sobrevieram nos dizem que nunca mais teremos nenhuma oportunidade de dançar do que este exacto momento em que escrevemos, rimos, conversamos, dançamos ou fodemos, é que percebemos que é neste local exacto onde nos deseducamos que afinal, nos cultivamos. E devemos fazê-lo, cultivar. Um dia, quando eu morrer, gostaria que uma tecnologia entretanto inventada conseguisse resgatar todos os meus sonhos, todos os meus projectos, todas as minhas ideias, mesmo aqueles que ainda estão em esboço, como esta vontade de sair daqui desta mesa do ciber-café como se fosse vento, e que as transformassem em livro, em filme, em poema, no livro, no poema, no filme que eu nunca soube ultimar. Eu por dentro sou febre. Sou um provinciano a arder por dentro com uma febre de mundo. A Celta, quando eu lhe contava os meus sonhos de andarilho, dizia-me que eu tinha de começar a viajar para fora. É verdade. Não é por estar calor, por ser verão, por tudo o que me cerca agora ser literatura de viagens que eu anuio. É porque é verdade.
terça-feira, junho 05, 2007
Hora
Na minha vida a maior imperfeição é o tempo. Agora que finalmente me sentei aqui disposto a procurar encontrar a expressão, a forma, acabou-se-me o tempo.
segunda-feira, maio 14, 2007
Da educação sentimental: A mulher ideal
º
Ao entrar em casa deixo cair um pequeno cubo de acrílico com fotos tipo passe. Estão lá os meus rostos desde criança. Dos meus familiares. De amigos. Quando o vou apanhar reparo numa foto de uma bébé. Era de uma amiga, do meu primeiro projecto de namorada. Digo projecto porque nunca cheguei a namorar com ela. Eu não a conhecia. Escolhi-a através de uma janela, nas aulas de físico-quimica. Quando me contaram que o grupo de rapazes com quem me dava no pátio da escola estava a começar a interessar-se por um grupo de raparigas não quis ficar sózinho. Estava na aula, olhei para o pátio, a minha colega de carteira, a Ester, elenca-me a distribuição, a Elisa é a do Neves, a Lurdes é do Germano, e quem é aquela?, pergunto eu, é a Paula, responde ela, é dessa que eu gosto, disse eu, e antes da aula acabar já estava o namoro de conveniência tratado. Foi giro. Namorávamos assim: levávamos as raparigas desde a escola da Piscina até à Rua Almada de Negreiros onde elas moravam, enquanto falávamos de assuntos pueris, como vestuário beto, das discotecas in e out, dos concertos em Cascais, dos perfumes, Aramis e Paco Rabane eram os preferidos, além de trocarmos fotos, uma actual e outra de infância. É assim que ainda hoje tenho uma foto da Paula com ano, ano e meio. E depois subíamos todos até às vivendas do Aeroporto, e enquanto eles me aterrorizavam com feitos inscríveis do trabalho masturbatório, falávamos das estratégias, que incluiam planos em casas abandonadas, fins de semana na Praia Grande ou nas Azenhas do Mar, para conseguirmos seduzir as nossas namoradas. O Neves chegou a namorar com a Elisa, a Lurdes andou com o Germano, só eu fiquei de fora. Por um motivo nada pueril e que me enrubesceria senão tivesse perdido já todas as vergonhas a que um homem tem direito: ela não tinha peito. E como não tinha coragem de o dizer, inventei outras razões, hábito que continuei a ter pela vida fora. O que foi mau, o Neves e o Germano, mais experientes, podiam-me ter dito que uma rapariga de doze anos, eu tinha quinze, podia ter o peito pequeno mas que ía crescer. E o que cresceu. No ano seguinte desabrochou e sempre que passava por mim parecia que abanava os seus seios salientes para mim como se me desdenhasse. Eu não sabia, mas tinha começado assim uma longa história da minha educação sentimental, a da procura da mulher ideal.
Nunca soube o que era a mulher ideal. Houve uma altura que me parecia muito claro que ela seria uma mistura entre a Jeanne Moreau, a Malvina de a Gabriela, Cravo e Canela, Manuela Moura Guedes, locutora de continuidade que ainda não tinha aquela boca do tamanho do mundo e uma rapariga de Odivelas que tinha passado o verão de 77 na barraca ao lado da dos meus primos na praia do Narciso, em Carcavelos. Nem sei hoje qual seria a linha comum entre todas estas mulheres que, na altura em que eu me preocupava com a mulher ideal, me faziam sonhar. Só que depois começaram a chegar as mulheres verdadeiras à minha vida. E eu comecei a perceber que tinha entre mãos um problema muito maior do que aquele que constituiria a busca da mulher ideal.
É que quando a segunda, a terceira, a quarta mulher ideal começou a deixar de fazer parte da minha vida, é que eu percebi que a grande questão não estava nesse arquétipo meio juvenil que se foi formando no meu inconsciente sobre a perfeição feminina, a grande questão era que eu, por imaturidade, por cobardia, ou por ignorância, ou por aquele enxame de razões que por vezes nos atacam de forma furibunda, pudesse não saber reconhecer numa mulher uma mulher, pudesse não saber fazê-la senti-la especial, amada, estimada. Não foi uma grande descoberta, ou pelo menos, uma daquelas descobertas que nos fazem mais alegres. Saber que a mulher ideal nunca me baterá à porta, que ela vive há muito dentro de mim, pode fazer-me, circunstancialmente, um ser humano mais apessoado mas é, inúmeras vezes, ocasião para sofrimentos próprios e alheios cuja medida certa nunca sei contabilizar.
Ao entrar em casa deixo cair um pequeno cubo de acrílico com fotos tipo passe. Estão lá os meus rostos desde criança. Dos meus familiares. De amigos. Quando o vou apanhar reparo numa foto de uma bébé. Era de uma amiga, do meu primeiro projecto de namorada. Digo projecto porque nunca cheguei a namorar com ela. Eu não a conhecia. Escolhi-a através de uma janela, nas aulas de físico-quimica. Quando me contaram que o grupo de rapazes com quem me dava no pátio da escola estava a começar a interessar-se por um grupo de raparigas não quis ficar sózinho. Estava na aula, olhei para o pátio, a minha colega de carteira, a Ester, elenca-me a distribuição, a Elisa é a do Neves, a Lurdes é do Germano, e quem é aquela?, pergunto eu, é a Paula, responde ela, é dessa que eu gosto, disse eu, e antes da aula acabar já estava o namoro de conveniência tratado. Foi giro. Namorávamos assim: levávamos as raparigas desde a escola da Piscina até à Rua Almada de Negreiros onde elas moravam, enquanto falávamos de assuntos pueris, como vestuário beto, das discotecas in e out, dos concertos em Cascais, dos perfumes, Aramis e Paco Rabane eram os preferidos, além de trocarmos fotos, uma actual e outra de infância. É assim que ainda hoje tenho uma foto da Paula com ano, ano e meio. E depois subíamos todos até às vivendas do Aeroporto, e enquanto eles me aterrorizavam com feitos inscríveis do trabalho masturbatório, falávamos das estratégias, que incluiam planos em casas abandonadas, fins de semana na Praia Grande ou nas Azenhas do Mar, para conseguirmos seduzir as nossas namoradas. O Neves chegou a namorar com a Elisa, a Lurdes andou com o Germano, só eu fiquei de fora. Por um motivo nada pueril e que me enrubesceria senão tivesse perdido já todas as vergonhas a que um homem tem direito: ela não tinha peito. E como não tinha coragem de o dizer, inventei outras razões, hábito que continuei a ter pela vida fora. O que foi mau, o Neves e o Germano, mais experientes, podiam-me ter dito que uma rapariga de doze anos, eu tinha quinze, podia ter o peito pequeno mas que ía crescer. E o que cresceu. No ano seguinte desabrochou e sempre que passava por mim parecia que abanava os seus seios salientes para mim como se me desdenhasse. Eu não sabia, mas tinha começado assim uma longa história da minha educação sentimental, a da procura da mulher ideal.
Nunca soube o que era a mulher ideal. Houve uma altura que me parecia muito claro que ela seria uma mistura entre a Jeanne Moreau, a Malvina de a Gabriela, Cravo e Canela, Manuela Moura Guedes, locutora de continuidade que ainda não tinha aquela boca do tamanho do mundo e uma rapariga de Odivelas que tinha passado o verão de 77 na barraca ao lado da dos meus primos na praia do Narciso, em Carcavelos. Nem sei hoje qual seria a linha comum entre todas estas mulheres que, na altura em que eu me preocupava com a mulher ideal, me faziam sonhar. Só que depois começaram a chegar as mulheres verdadeiras à minha vida. E eu comecei a perceber que tinha entre mãos um problema muito maior do que aquele que constituiria a busca da mulher ideal.
É que quando a segunda, a terceira, a quarta mulher ideal começou a deixar de fazer parte da minha vida, é que eu percebi que a grande questão não estava nesse arquétipo meio juvenil que se foi formando no meu inconsciente sobre a perfeição feminina, a grande questão era que eu, por imaturidade, por cobardia, ou por ignorância, ou por aquele enxame de razões que por vezes nos atacam de forma furibunda, pudesse não saber reconhecer numa mulher uma mulher, pudesse não saber fazê-la senti-la especial, amada, estimada. Não foi uma grande descoberta, ou pelo menos, uma daquelas descobertas que nos fazem mais alegres. Saber que a mulher ideal nunca me baterá à porta, que ela vive há muito dentro de mim, pode fazer-me, circunstancialmente, um ser humano mais apessoado mas é, inúmeras vezes, ocasião para sofrimentos próprios e alheios cuja medida certa nunca sei contabilizar.
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sábado, maio 05, 2007
E foram muito felizes
quarta-feira, maio 02, 2007
A intranquilidade vista do lado da bonança
Há um momento em que estamos intranquilos porque nos entregamos a uma preocupação qualquer. Serve qualquer uma. Na farmácia do bairro duas mulheres mediam a tensão arterial. A primeira, que já deveria andar pelos sessenta anos, obesa como o são regularmente muitos dos portugueses, tinha vinte e quatro-doze. Não tinha um ar intranquilo. Era a sua acompanhante, com pelo menos mais uns dez anos em cima, que explicava ao farmacêutico, não anda a tomar os medicamentos, esquece-se. O esquecimento neste caso poderá ser, se não for uma patologia, sintoma de uma preocupação. O espírito ocupa-se com algo a que dá primazia e depois não pode acudir às tarefas do dia. Olhei-a de alto a baixo. Às mãos, aos pés, sapatos, cabelo branco, papos por baixo dos olhos. E comecei a vesti-los de preocupações várias, todas elas enormes. É um erro de lana caprina dos literatos. Dar grandeza às nossas preocupações. Às vezes são tão pequenas. A segunda mulher tem dezanove-oito. Está preocupada porque a médica lhe substituiu os três comprimidos que tomava por um só. É o remédio que não está a fazer efeito, tenho de lá ir. Ela logo me disse, tome e veja como é e depois venha cá ver se continuamos. Vou lá dizer-lhe que quero voltar aos outros, sentia-me muito bem com eles, andava sempre nos dezassete. O farmacêutico anui com a cabeça. No jogo das preocupações, não tenho dificuldade em atribuir uma a esta mulher. Está ansiosa com a mudança de medicamentação. Está demasiado centrada nesse problema para poder escutar-lhe outra preocupação qualquer. Saio da farmácia e entro no taxi. Comecei a ler há instantes "Viagens no Tempo no Universo de Einstein" de J. Richard Gott II, e não lhe dou atenção. Mas ao chegarmos à Rua da Conceição ele faz uma travagem brusca. Ia tentar ulttrapassar uma fileira de carros e eléctricos, em contravenção, quando reparou que o carro detrás eram dos geninhos. A explicação sobre o termo da gíria taxista solta-lhe a lingua que só estava à espera de um pretexto. Confidencia-me, estou com uma irritação enorme com a minha mulher e a minha filha. O motivo era comum: o carro. A primeira porque lhe andava com o carro mas não punha ar dos pneus, resultado, ontem a caminho de Torres Novas rebentou-se um pneu. Como se não bastasse, o porta-bagagens onde tem o pneu sobresselente estava atulhado de coisas da filha. Reproduz-me, textualmente, a conversa, os ultimatos que deu à filha para a remoção imediata daquelas traquitanas. Com a mulher foi diferente. Ela que tem uma chave do carro pediu-lhe a chave dele. Foi ao carro e depois esqueceu-se dela dentro do carro. Resultado, teve de estragar a fechadura do porta-bagagens. Aquilo estava a dar cabo do pobre homem. Foi nessa altura que olhei para ele. A cara inchada, vermelha, cheia, insuflada com aquele ódio a que nos entregamos com um inexplicável e inatingível amor. Ele sabia disso, já estava na fase da negação da irritação. Eu não posso deixar que isto me possua. Dei-lhe umas palavras de consolo e pú-lo na fila da minha galeria de personagens preocupadas. Estive quase para lhe dizer, olhe, esqueça o porta-bagagens e a fechadura, isso não vale uma preocupação. Mas isso já ele sabia. E eu tinha chegado ao cotovelo da Rua Nova do Trindade onde me costumo apear do táxi. Enquanto tirava o dinheiro do porta-moedas dou um olhar de relance à rua, passa uma mulher, podia dizer que era bonita ou esbelta, a verdade é que não reparei, era uma mulher, o exemplo que precisava, disse-lhe, olhe, pense nelas, nas mulheres, vai ver que ajuda, ontem choveu, hoje o sol está a romper, vai ver que olhar para elas é como olhar para um campo de flores. E dou-me conta de que não era este o post que queria escrever, tinha outra ideia. Queria falar sobre a forma como muitas vezes, a seguir à fase da nossa ocupação excessiva com um determinado problema, nos intranquilizamos com a obsessão em nos tranquilizarmos. Os trabalhos da desinquietação, ou não fosse a nossa natureza tão paradoxal, ao mesmo tempo que nos proporcionam o alívio necessário para as mazelas espirituais quotidianas, tornam-se muitas vezes a nossa preocupação central, tão obssessiva como qualquer outra.
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