Há um momento em que tu percebes que tens quarenta e sete anos e ainda és um menino. Ela diz-te isso, que a fazes sofrer como se fosses um menino, uma pequena criança. A tua primeira tentação é mandá-la passear, estás farto de mulheres que te tratam como se tu não tivesses crescido. E pensas, ironia desta vida, se fosses um menino mandava-la mesmo dar uma curva. E ias para um bar, dançar, procurar outras mulheres, estalar os dedos. Cresceste, aos quarenta e sete já nos magoamos a sério com as dores que provocamos. E é quando te apercebes disso que te dás conta de que já fizeste isto milhares de vezes. Estalaste os dedos. E que te apercebes que já não o voltarás a fazer. E depois sabes que já não és uma criança, que aprendeste a permanecer, a guardar o desejo, a fome, aqueles olhos que te comovem como desde o primeiro dia.
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domingo, março 07, 2010
sexta-feira, dezembro 04, 2009
Amor e Violência
Hoje vinha com esta predestinação: escrever sobre o amor na sua forma tentada. Parece um pleonasmo, o amor será, talvez, em si mesmo, uma tentação. Há quem diga, uma provação. Depois encontrei este excerto de Pavese, e novamente parei diante desta frase à procura de salvo-conduto para depositar nela o testemunho do fogaréu interior. Por vezes a alma surge-nos assim, como se revolta. Tudo o que se viveu, o que se aprendeu, o que se pensava que se sabia, parece não significar nada. Nada diz então. Nem o frenesim das ruas, ou o colorido dos alteares das vozes dos vizinhos, o movimento das pessoas, os seus gestos, as suas faces translúcidas, os seus risos pranteados, o céu pardo. O próprio rio se nega ao proferir, a alguma sorte de mnemónica que nos pudesse sussurar, é por ali! É preciso por vezes deixarmo-nos ir, entregarmo-nos ao silêncio do corpo, de um pensamento que subrepticiamente se escapa por entre as entrelinhas. Tudo é nada e nada é tão tudo, que até estremece. O amor e a violência, o amor e o medo, o medo de nós mesmos, o medo de existirmos. E não é o amor, ele é uma ficção universal, a maior ficção universal que, desde o fundo dos tempos, consumiu todos, realistas, utópicos, pessimistas, positivistas, míticos: é a relação. É o estarmos em relação. Não há receituários, não há posologias recomendadas, tudo és tu e eu, eu e tu, sejas tu nós, tu, ou apenas um espectro existencial que preencho com o meu vazio. Já soube mais coisas sobre tudo, inclusivé, sobre o amor, a sua inexistência, a sua improbalidade, a sua ternura. Perdi todo o meu saber, não o sei dizer. E se o escrevo, é apenas porque com o passar dos anos desenvolvi com alguma perícia esta habilidade de fazer sair a minha história pela ponta dos meus dedos. Tento saber um pouco mais sobre o que é a violência. Na minha idade a violência, a violência interior, não é um momento aconselhável a pessoas demasiado sensíveis. E a relação - já não disse o amor - que parece muitas vezes ser a supressão da violência, é, demasiadas vezes, o palco mundial da violência. Não é por acaso que a violência doméstica acode a tantos lares e com igual generosidade tanto ao humilde como ao letrado. E não é só por causa do tempo que passamos isolados - isolados, já repararam que as nossas casas, a forma como as construimos, são uma espécie de ilha solitária onde estamos recolhidos do mundo? - é também porque a relação é o lugar onde a certa altura nos confiamos ao outro na nossa interioridade. Nos nossos segredos mais profundos. Ou até nos mais pequenos. No outro dia, para saber se a amava, se verdadeiramente a amava, coloquei a prótese debaixo da cama. Estava escuro, mas o efeito vocal na minha boca desdentada denunciou-me. E eu estive ali um mundinho inteiro, uma vida quase, a tentar perceber se tinha caído por um precípicio, o precípicio que é também o meu medo de existir em relação. Não caí, a sua mão firme segurou-me, claro. E nem tudo são segredos de mentirinha, como este falso pudor, que me vem de ter começado a usar placa muito cedo, desde os dezanove anos. Há segredos, como a nossa violência, que são tão bem guardados que até de nós os escondemos. Uma espécie de vulcão que irrompe, e que nos deixa desprevenidos. Torna-nos irreconhecíveis. Por vezes a violência é tanta que não permite que nos reelaboremos. Temos de sair das nossas relações. Tantas e tantas vezes que o frágil fio de linha que nos prende na relação se quebra porque a nossa violência, como se fosse um espelho, nos trouxe uma imagem de nós próprios que não conseguimos nem sequer, na nossa solidão, aceitar, quanto mais, em relação, partilhar. E não há medida para isso, cada um de nós, é um caso, e provavelmente fará diferença a forma como nos fomos, ao longo da vida, relacionando e convivendo com a nossa violência. Há milhares de anos, ou pelo menos no milénio anterior, escrevi em Paz Violenta, texto anexo à declaração de objecção de consciência: um adepto da não-violência não é alguém que não é violento, é alguém que, assumindo-a, a tenta trabalhar de uma forma positiva. Também a relação não-violenta, carrega às costas, como um fardo muitas vezes, a sua própria violência, desassociando-a dos estereótipos que temos sobre a violência: destruição, anulação e supressão do outro.
quarta-feira, abril 08, 2009
Gosto mais dito assim:
"Deixemo-nos de tretas. O amor embaraça. Há até quem o esconda e não é por medo que seja roubado, não; é por intimidação mesmo. Muitos olhos preferem ver o amor como uma fraqueza de espírito, porque o amor como força vital exige mudança, acção, transformação; é isso que nele intimida e amedronta. E a nossa resistência à mudança, profunda, brutal, irascível, rejeita-o na revolução e na verdade que ele exige.Privilegia-se muito a agilidade mental, o discurso cerebral, a eloquência verbal. Toda a retórica política assenta aí. Os debates parecem-me festivais discursivos. Cada um tentando ser mais convincente do que o outro na busca de argumentação acusatório-defensiva.Tão pouco inovadores, tão pouco originais, tão pouco convincentes humanisticamente. Tudo me soa a falso. Tudo me cheira a egos exarcebados.Nada me convence (e provavelmente o mal estará em mim...) que sejam estes políticos cerebrais capazes de nos fazer sair desta crise social, moral, espiritual.Como é que um político com uma mente completamente dissociada do sentimento poderá ser verdadeiro?Para mim, e a menos que surja algum Mestre, a política patriarcal já deu o que tinha a dar. Apraz-me ver lugares de destaque ocupados por mulheres. Não sei se serão estas as mulheres; mas é a energia feminina a abrir caminho que me interessa, a que consegue aliar sentimento e razão e unificar pensamento, discurso e acção.Precisamos de uma política que saiba nutrir, que saiba ouvir. Que seja menos orgulhosa, que saiba perder em razão para ganhar em paz. Que seja sentimental.E só mesmo a mão do feminino encontrará na política um lugar para o amor."
O lugar do amor, pela Navegadora
domingo, abril 05, 2009
Minha, teu
Encontrámo-nos há já quarenta e seis anos. Há vinte e tal anos cruzámo-nos, numa mesa de amantes da escrita, das palavras, ali para os lados do Parque Eduardo VII. Os jovens do DN. Não sabíamos ainda. Não é que o amor precise de saber. Quanto dele é ainda e sempre mistério, encantamento, espanto?! A única coisa que ele carece é do reconhecimento. É um instante apenas o momento em que um rosto se ilumina com a luz que lhe vem de outro rosto. É um instante apenas. Ou, o que é o mesmo, uma vida.
terça-feira, outubro 28, 2008
Praça das Flores
Faz frio e vento. Quando saio para a rua sinto-me um privilegiado. Pelo sol, pela luz, por estar vivo. O pequeno largo. Aquelas vidas sempre ali, repetidas. Uma mulher que, encostando-se à parede de uma casa, me pergunta, ao ouvir as badaladas que hão-de vir ainda do Bairro Alto, foi o meio dia não foi?. Depois sorri para mim. À conta desse sorriso paro também o passo, saboreando o privilégio. A vida calma e tranquila. A esplanada do café. Tenho Paris ao pé do meu amor. Ou o meu amor ao pé de Paris.
segunda-feira, outubro 13, 2008
O amor instável
Eu pensava que já tinha aprendido muito sobre o amor. Tão ingénuo que fui, tenho percebido agora. Nestes dias em que o meu coração parece um vaso ora vazio ora dilatado quando olho pela minha janela à procura de evidências da presença dos gatos-bébés. Ontem durante a tarde a casa esvaziou-se. Fiquei triste. Apeteceu-me chamar ingrata à mãe-gata. Em vez disso pús-lhe comida. Quando nos deitámos contei-lhe, a mãe levou os nossos bébés. Chorámos os dois, em silêncio, já a noite ía alta. Por mais estranho que possa parecer nem eu nem ela nos ouvimos chorar a nós mesmos, mas tanto eu como ela jurámos que ouvimos o choro convulso e silencioso do outro. De manhã, quando acordei, estava a mãe-gata e dois dos seus filhotes. Exultei. Acordei-a com um beijo e a boa notícia: os nossos bébés estão de regresso. Era ainda cedo, tinha uma aula à oito da manhã, mas era já tão tarde, era já outro dia dentro de mim. E dei por mim a pensar e a descobrir que nunca aprendi que do amor me faltava algo de essencial. O amor final só se nos revela quando nos afeiçoamos por gatos vadios.
sexta-feira, junho 20, 2008
O dia em que a borboleta voou
Para sempre, a e-ternuridade.
quinta-feira, maio 22, 2008
Ir para Sul
Procuraremos lá o nosso norte.
Plantar de manhã
São quase doze horas. No meu quintal, rodeada por alfaces atónitas por esta mestiçagem, desde há minutos, uma nespereira. Também, no canto das coisas únicas, chá de príncipe. Um acto de puro egoísmo, necessário ao meu metabolismo destas primeiras horas da minha vida em maio: guardo para mim o sabor, o cheiro, a presença. Hei-de voltar, mas voltarei depois ou com as palavras posteriores.
Outras plantações: oliveira, flor, Chico. Obrigado
quarta-feira, maio 14, 2008
quarta-feira, abril 09, 2008
Multiplicação dos seres
Ao deitar-me olho-a, revisitando o mito da cara metade. De manhã acordo e sinto-me o dobro de mim.
segunda-feira, abril 07, 2008
A caixa das suas vozes
Ontem adormeci a ouvir a minha canção. Fui à sala buscar o mini-disc onde ela tem gravadas as suas canções e trouxe-o para o quarto. Ela ainda me disse,
se quiseres eu canto-a para ti.
Disse-lhe delicadamente:
Não é a mesma coisa.
E não é. Ali dentro da caixinha das vozes, das suas pesquisas e experimentações, ouço a sua voz como se viesse do outro lado do mundo. É uma espécie de rede, de teia, com que eu passo de um para o outro lado da vida. De cada vez que a ouço, redobra em mim a força, a magia, o entendimento. E começo desde logo a imaginá-la num palco.
quarta-feira, março 05, 2008
A felicidade segundo o ponto de vista dos programadores do povo
Ela:
- O que é que tens?
- A vontade de meter tudo no mesmo saco.
- O quê?
- E agora é a minha vez de responder? O tanas! Não respondo.
- Nunca mais escreveste, desde que estás aqui.
- Não, nunca mais escrevi.
- Sequei-te?
- Sim.
- O quê?
-Perdi a inspiração.
Ele a fingir que é a sério. No olhar. No silêncio. Ela a topá-lo.
- Tirei-te a tristeza, foi?
Ele anuiu. Era isso. Digam o que disserem a escrita é uma falha.
- Escreve coisas felizes então.
- Não há coisas felizes nem infelizes. Isso é conversa de programador do povo. Há coisas. Há coisas e elas diferem pelo grau de proximidade que têm com aquilo que é a nossa verdade.
- Ui!
- É verdade. Há apenas coisas. E depois escrevemos e podemos sim ficar mais felizes depois. E a seguir as coisas morrem de novo e renascem numa leitura que as quis, que as possuiu, que se deixou possuir. É assim que a felicidade chega às coisas, à posteriori, como a qualquer um de nós.
- Se quiseres posso tentar fazer-te um pouco mais infeliz.
Era basófia pura. Já tinha tentado e nada, desistira ao primeiro constrangimento, à primeira impossibilidade. As pessoas são como as palavras. Não há pessoas tristes nem pessoas infelizes. Há pessoas. E as pessoas morrem e renascem em cada leitura, quer dizer, em cada mão que as segura, em cada boca que as chupa, em cada sexo que tresanda àquele fedor feliz com que os campos se emprenham e os seres se redobram. O rest, o resto é novela barata de programador popular.
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sexta-feira, fevereiro 01, 2008
quinta-feira, janeiro 31, 2008
Marcar o tempo com uma flor
O tempo é uma caixa que enchemos com aquilo que vivemos. Há anos que passam à velocidade dos dias, dias que parecem anos. Lembro-me daquele pequeno toque de pé num clube de música africana há três meses e sorrio, sem explicação para os fenómenos. Como é que tanto tempo cabe em tão pouco?
quinta-feira, janeiro 10, 2008
Puzzle maior
Vivemos de metáforas. Vivemos de pão, de água e de metáforas. As metafóricas. A metáfora da alma gémea há muito que a via exaurida, cansada, sem força anímica para representar no pequeno teatro que é a minha vida. Tu sugeriste, por causa deste espanto, dia após dia, tudo encaixar em tudo, puzzle. É uma palavra que me parece acertada para falar do que, espero, enquanto homem de meia idade, seja a segunda metade da minha vida.
Como pequenos sóis nascem e morrem
Acabou o projecto das noites africanas do Aires da Silva no Espaço Cem à Rua de São Julião. Vão acabando por aí as áfricas que, como pequenos sóis, deflagraram com o fim do B.Leza (que agora, itinerante, voltará lá para Fevereiro, no meu vizinho São Luiz). Foi lá que bati o pé pela última vez. Ou terá sido, pela primeira vez?
quinta-feira, agosto 30, 2007
Estranha forma de vida
Dizia-me, amo os finais, tenho uma extraordinária propensão para fazer florir as rosas quando elas murcham nas mãos áridas dos amantes. Ela falava sem se dar conta da beleza que lhe crescia nos dedos de mulher. A maior parte das pessoas que conheço são pessoas de sentimentos perfeitos e normais. Esvaziam-se de um amor antes da chegada do próximo que pode ou não coincidir com a Primavera. Será aliás sempre verão, por mais tardio. Não sou assim. Primeiro preencho os espaços em branco e só depois, a meio da caminhada, começo a libertar carga, até que da última viagem não reste senão um torpor. Aprecio as pessoas arrumadas sentimentalmente e tiro delas inspiração para os meus melhores dias mas não consigo repetir a façanha. O que procuro nunca existe. Eu gostava de encontrar um dia uma mulher que me tirasse o desespero. A sensação de agonia. A dor anestesiada de uma solidão. Essa mulher não existe. Nunca existirá. Não porque não exista. Porque entretanto me ocupo com mulheres que me fazem sofrer, que me desesperam, que me agoniam. Estou a ser injusto. Poucas são as que me agoniam, que me desesperam, que me fazem sofrer. O que acontece verdadeiramente é que não me libertam da agonia, do desespero, do sofrimento. Ao invés disso preeenchem-me de cores, de alegria, de envolvimento, de doçura tal que eu sinto, sempre pela primeira vez, que posso abrir os olhos diante da verdadeira agonia, do verdadeiro sofrimento, do verdadeiro desespero. A mulher que eu procuro não existe. Não porque não exista. Existe, para lá da agonia, do desespero, do sofrimento. Todos os dias dorme no meu leito nú. É com ela que eu me deleito e entrego à mulher que verdadeiramente me beija.
terça-feira, agosto 28, 2007
O sacríficio
Há um engano em que muito facilmente caímos, e o tom provocatório que acabei por dar a dois dos meus últimos posts deu-me bem conta da medida desse logro: só um espírito empedernidamente romântico será levado a reconhecer que nunca amou verdadeiramente. Porque sabe que na negação está a possibilidade de um dia o vir a vivenciar plenamente. Ora eu sou um empedernido romântico. Prefiro sacrificar tudo o que vivi à hipótese de ter sido amorosamente vão, do que poder aceitar que nunca, em tempos da minha vida, conhecerei o verdadeiro e genuíno amor. O amor em mim é uma memória, uma promessa.
segunda-feira, agosto 27, 2007
O último olhar, disse ele
Em Broken Flowers de Jim Jarmush, Bill Murray depois de saber, através de uma carta anónima, que pode ter um filho que o procura, empreende ele próprio uma viagem para tentar descobrir quem é a mãe do seu filho. A estrutura repetitiva do filme acaba por mão se tornar monótona graças quer à excelente banda sonora do filme, quer ao modo paradoxal como a personagem de Don Johnston é construída. Por um lado o seu comportamento apático, desafectado, alheado. Por outro um homem que inicia uma viagem através das várias namoradas que teve para descobrir qual delas é a mãe do seu filho, como se isso lhe devolvesse alguma chama existencial.
Imaginei-me dentro do filme e espantei-me com a forma como Don Johnston foi acolhido pelos seus antigos amores. Não acredito que se fosse eu a maior parte das mulheres com quem reparti dias, horas, me abrisse sequer a porta. É difícil confessá-lo mas nunca amei verdadeiramente. O amor em mim é uma memória e uma promessa. Amei quando nasci, e da procura dessa memória de que nem sequer me lembro faço a minha esperança de que por uma vez na vida, nem que seja ao morrer, possa sentir a plenitude de um amor verdadeiro rasgando-me por dentro, libertando-me de todo este ódio com que me deixei enquistar, soltando-me desta matéria pustulenta e ocre com que me entranhei de violência.Amei no exacto segundo em que nasci, aí fui humilde e autêntico amor molecular, cromossomático. Desde esse momento todo eu sou aprendizagem do medo, do egoísmo, da mentira, do desamor e da desafectação. Há uns tempos entristeci-me porque recebi de uma das mulheres com quem mais tempo tinha dispendido a desamar, uma carta a pedir-me para nunca mais a contactar, para imaginar que tinha morrido, emigrado para a Gronelândia, para o centro do centro do mundo, whatever! Agora, ao constatar a persistente inexistência do amor na minha vida, compreendo afinal a lucidez que, como um punhal, a trespassou. Estas coisas que eu sei sei-as a despeito do amor que nunca senti, que nunca fui capaz de sentir. Sei-as por causa do único vislumbre amoroso que sou capaz de descortinar para além desta memória de que nem sou capaz de ser recordação: os gestos de amor autêntico de que fui objecto. Não são muitos, a maior parte do amor que me dedicaram é tão mesquinho como aquele que dediquei. E nem de outra forma poderia ser quando é a mesquinhez e o desenho de diminuitivo que lavra o chão e a terra onde semeámos e plantámos a flor. Não são muitos, são os bastantes. O amor em mim é apenas uma promessa, uma memória. Por mais estranho que possa parecer, não é um ser agoniado pela sua própria acidez que escreve, mas alguém que percebe que é na desfiliação de um face à mitologia amorosa do mundo que pode estar a única e a última chance da nossa experiência amorosa ter algo de autêntico. E a linguagem é apenas mais um entretenimento, um fazer tempo, enquanto a verdade crua e dura da nossa existência não nos atinge como um raio.Eu não o sabia antes e não o sabia assim: o véu vai caindo ao mesmo tempo que caminhamos. Enquanto com o tempo a gravidade puxa todas as nossas carnes para baixo, numa flacidez que nos permite o destempero lúcido de quem deixa para sempre a sua hipótese de ícone, o cérebro, o cerebrelo, a massa encefálica enrijecem, entesam-se na estreita vinculação à única proferição possivel. É por isso que por mais aparato e exuberância que os nossos amores jovens possam ter tido, ninguém no seu perfeito juízo se comove senão com o amor que espera um dia, na velhice, experimentar. Padeci das mesmas doenças de espírito que qualquer um de nós: procurei uma mulher ou para me governar a vida, ou para me dar filhos, ou para tornar a minha vida aventurosa, ou para me rejubilar nas fotos de família, ou para o vangloreio junto dos amigos ou até, para me rejuvenescer. Tudo isso foi em vão e foi por isso que não deixei nem tenho saudades do amor que não vivi, que não soube viver. A única coisa que agora ainda espero encontrar em relação àquela que será a minha última hipótese amorosa é algo que não posso ainda, nem nunca, procurar: uma mulher a quem possa olhar no derradeiro relance que pousar sobre o mundo e que espero, seja o mais autêntico gesto de amor que percorreu toda a minha vida.Uma mulher em quem amar e confiar, como escreveu o poeta.
Porque o que conta, a única coisa que verdadeiramente conta na possibilidade amorosa de cada um, é a confiança. É o único momento em que matamos a avestruz enterrada em mitemas de merda, de trampa doce, de lodaçento e pantanoso verboreio. A nossa derradeira chance de luz. Eu sei que tudo isto pode parecer cínico, ácido, desesperançado. Eu creio que não é. Ou que só será se já amarmos mais a linguagem do que a vida, do que a vida autêntica, indecifrável. Esse festim que, quando linguarejo, creio ainda ser possível.
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