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sábado, abril 03, 2010

A urgência da Saúde

O fecho das urgências em Valença do Minho está no centro da revolta e da indignação da população. Um hospital de campanha e bandeiras espanholas nas janelas são algumas das medidas mais mediáticas. Fui à procura de informações e não fiquei esclarecido. Ao que parece o fecho resulta de um trabalho de reestruturação do serviço prestado no Centro de Saúde de Valença, feito para todo o distrito, e tendo em vista a maior eficiência dos mesmos. Achei nesse aspecto curiosa a posição da Comunidade Intermunicipal, que sob proposta do PP apoiada pelo PSD (o PS absteve-se) reclama a imediata abertura e pede ao governo o fornecimento das informações técnicas que levaram ao acordo de encerramento. Se ainda não têm as informações como é que já lhes é possível exigir que não seja fechado? Não deveriam também mostrar as informações que têm para justificar a exigência da manutenção da abertura? Escrevi atrás, no post Que Estado?, que deveríamos poder exigir a avaliação das funções do Estado com base em objectivos e missões concretas. Nesse aspecto é importante a atitude de premiar e avaliar os serviços dos centros de saúde. Ou os hospitais. Ora isso tem de ter consequências no sentido de se procurar uma maior eficiência dos serviços. Que os estudos, as informações, sejam contraditadas, considero-o importante para o processo de constituir a melhor decisão. Que estejam em causa rivalidades locais também me parece compreensível. Que haverá que realizar medidas para o mais fácil acesso aos cuidados de saúde da população de Valença e dos outros locais afectados pela supressão das urgências, também me parece óbvio. Agora que se queira um Estado que avalie a qualidade, a necessidade e a capacidade de com eficiência garantir a sua função de prestação de cuidados de saúde e que depois mande esse trabalho para o caixote do lixo, também não me parece minimamente sensato. E nem refiro a incongruência (saúdo todos os dias a incongruência da vida) que existe entre uma atitude muito severa sobre o peso do Estado em geral, protagonizada pelo PSD e pelo PP, e esta atitude populista (onde o PS, abstendo-se, embarcou) de exigir a abertura, reconhecendo que não conhece os dados que levaram ao seu encerramento. Uma última nota para o Governo que não fez tudo o que poderia fazer no sentido de esclarecer os habitantes de Valença da bondade destas medidas, como resulta da adesão popular aos protestos. Quando a ministra Ana Jorge diz que a urgência de Valença transmitia uma falsa sensação de segurança, essa é uma resposta que pode integrar uma informação técnico-científica importante mas que é totalmente incapaz no plano político porque não percebe que, ao contrário da segurança, a sensação de segurança não é falsa nem verdadeira. É real. Talvez o Governo deva responsabilizar-se também por fazer com que as populações se sintam seguras e para isso deve ele próprio ter como basilar o princípio da urgência na Saúde. Numa situação de crise financeira o fecho das urgências é rapidamente correlacionado com a necessidade de cortar as despesas públicas e vai, ainda mais grave, associar-se politicamente aos últimos cortes do PEC em prestações sociais. E não vale a pena lamentar a associação. É preciso ser mais convincente, mais atento e mais presente.

quarta-feira, abril 09, 2008

As asas do anjo

Ando a fazer uma dieta rigorosa. Cozidos a vapor, saladas, frutas. Sem açúcar. A palavra de ordem é contra o colestrol, marchar, marchar. Um fundamentalismo que me sabe bem. E de repente lembro-me do meu amigo e da sua história. Contou-me o Guarda-Rios que um dia estava num restaurante e na mesa ao lado uma senhora de idade se atirava gulosamente a um bife, tendo-lhe encontrado os seus olhos atentos:
- Deixei de comer carne, explicou.
A mulher continuou o seu jantar. Quando chegou à sobremesa, olhou-o provocadora detrás da sua mousse de chocolate.
- Doces nem pensar, cortei com tudo isso.
A mulher riu-se, com um riso farto, irónico. No final tomou um café e acendeu um cigarro. O meu amigo sorriu com bonomia:
- Deixei de fumar há uns anos valentes.
Enquanto fazia argolas de fumo a senhora perguntou-lhe:
- E então, como é que se sente?
O Guarda-Rios aponta para as costas:
- Ando com umas dores nas costas.
A velha senhora aponta para a zona das omoplatas:
- Aqui?
O Guarda-Rios admirado:
- Sim, como adivinhou?
E ela, irónica, desconcertante:
-São as asas a nascerem...

sexta-feira, fevereiro 01, 2008

Centro de Saúde de Alvalade

Ligo o meu portátil e penso que há uns anos, quando a estas coisas da saúde vinha pela mão da minha mãe, ir ao Centro de Saúde era sinónimo de seca das grandes. A ideia de seca era já de si atrofiante: um tempo fora desta vida. Não havia nada que se fizesse que não fosse um jogo de cabra-cega com os ponteiros do relógio branco, árido, martelado de quando em quando pela voz metálica de uma funcionária do centro. Nunca me ouviram aqui falar das reformas da Saúde (nem desta forma esguia vou falar sobre isso). Tenho dois excelentes consultores, um no Mal e outra na Linha do Norte, em quem me inspiro para perceber estas coisas. É assim que eu vejo os ministros cairem, os telejornais atiçarem-se, as populações revoltosas e os doentes queixarem-se. Não quero outros intermediários. São eles, ou os deles, que me atenderão daqui a pouco ou daqui a muito, quem sabe. E se não forem eles ou os deles eu vou olhá-los como se fossem e, tal e qual como quando era miúdo e o meu olhar de super-homem transformava o mundo inteiro, também eles, os que não são os meus eles ou os meus deles, se vão apessoando lentamente, numa alquimia de e para vivos, e vão tornar-se em seres doces e atenciosos como aquela médica que agora saiu do seu gabinete com um doente idoso de canadiana e despedindo-se dele, lhe disse:
- Gostei de o ver!
Olhámo-nos a todos contentes. este diálogo que travamos com a vida e com a morte, mediado por dores, maleitas e prescrições, atenuou-se um pouco. A senhora que a custo tinha tirado o anorak do banco vazio para que um senhor de cabelos brancos se sentasse esvaziou-se daquele ódio com que tinha nascido para o dia. As paredes brancas, terríveis como a loucura, coloriram-se. Todos nós acompanhámos a despedida daquela médica e do seu doente e nos esquecemos de que a nossa médica ainda não chegara, de que as aparelhagens roufenhas dos centros de saúde podiam debitar por vezes um Chopin, nem que fossem os seus magníficos quartetos de violinos, que as suas paredes podiam estar abertas à arte, à poesia, de que tudo seria um pouco mais fácil se desenrugássemos aquela fissura que temos no centro da testa.
-Até à próxima.
Disse ela entrando numa outra porta. Argumento mínimo para uma humanidade que também vai aos Centros de Saúde. O resto, deixo-o para quem sabe, ouviste Luís?, ouviste Mónica?

terça-feira, janeiro 08, 2008

segunda-feira, agosto 27, 2007

O último olhar, disse ele

Em Broken Flowers de Jim Jarmush, Bill Murray depois de saber, através de uma carta anónima, que pode ter um filho que o procura, empreende ele próprio uma viagem para tentar descobrir quem é a mãe do seu filho.
A estrutura repetitiva do filme acaba por mão se tornar monótona graças quer à excelente banda sonora do filme, quer ao modo paradoxal como a personagem de Don Johnston é construída. Por um lado o seu comportamento apático, desafectado, alheado. Por outro um homem que inicia uma viagem através das várias namoradas que teve para descobrir qual delas é a mãe do seu filho, como se isso lhe devolvesse alguma chama existencial.
Imaginei-me dentro do filme e espantei-me com a forma como Don Johnston foi acolhido pelos seus antigos amores. Não acredito que se fosse eu a maior parte das mulheres com quem reparti dias, horas, me abrisse sequer a porta. É difícil confessá-lo mas nunca amei verdadeiramente. O amor em mim é uma memória e uma promessa. Amei quando nasci, e da procura dessa memória de que nem sequer me lembro faço a minha esperança de que por uma vez na vida, nem que seja ao morrer, possa sentir a plenitude de um amor verdadeiro rasgando-me por dentro, libertando-me de todo este ódio com que me deixei enquistar, soltando-me desta matéria pustulenta e ocre com que me entranhei de violência.Amei no exacto segundo em que nasci, aí fui humilde e autêntico amor molecular, cromossomático. Desde esse momento todo eu sou aprendizagem do medo, do egoísmo, da mentira, do desamor e da desafectação. Há uns tempos entristeci-me porque recebi de uma das mulheres com quem mais tempo tinha dispendido a desamar, uma carta a pedir-me para nunca mais a contactar, para imaginar que tinha morrido, emigrado para a Gronelândia, para o centro do centro do mundo, whatever! Agora, ao constatar a persistente inexistência do amor na minha vida, compreendo afinal a lucidez que, como um punhal, a trespassou.
Estas coisas que eu sei sei-as a despeito do amor que nunca senti, que nunca fui capaz de sentir. Sei-as por causa do único vislumbre amoroso que sou capaz de descortinar para além desta memória de que nem sou capaz de ser recordação: os gestos de amor autêntico de que fui objecto. Não são muitos, a maior parte do amor que me dedicaram é tão mesquinho como aquele que dediquei. E nem de outra forma poderia ser quando é a mesquinhez e o desenho de diminuitivo que lavra o chão e a terra onde semeámos e plantámos a flor. Não são muitos, são os bastantes.
O amor em mim é apenas uma promessa, uma memória. Por mais estranho que possa parecer, não é um ser agoniado pela sua própria acidez que escreve, mas alguém que percebe que é na desfiliação de um face à mitologia amorosa do mundo que pode estar a única e a última chance da nossa experiência amorosa ter algo de autêntico.
E a linguagem é apenas mais um entretenimento, um fazer tempo, enquanto a verdade crua e dura da nossa existência não nos atinge como um raio.Eu não o sabia antes e não o sabia assim: o véu vai caindo ao mesmo tempo que caminhamos. Enquanto com o tempo a gravidade puxa todas as nossas carnes para baixo, numa flacidez que nos permite o destempero lúcido de quem deixa para sempre a sua hipótese de ícone, o cérebro, o cerebrelo, a massa encefálica enrijecem, entesam-se na estreita vinculação à única proferição possivel.
É por isso que por mais aparato e exuberância que os nossos amores jovens possam ter tido, ninguém no seu perfeito juízo se comove senão com o amor que espera um dia, na velhice, experimentar. Padeci das mesmas doenças de espírito que qualquer um de nós: procurei uma mulher ou para me governar a vida, ou para me dar filhos, ou para tornar a minha vida aventurosa, ou para me rejubilar nas fotos de família, ou para o vangloreio junto dos amigos ou até, para me rejuvenescer. Tudo isso foi em vão e foi por isso que não deixei nem tenho saudades do amor que não vivi, que não soube viver.
A única coisa que agora ainda espero encontrar em relação àquela que será a minha última hipótese amorosa é algo que não posso ainda, nem nunca, procurar: uma mulher a quem possa olhar no derradeiro relance que pousar sobre o mundo e que espero, seja o mais autêntico gesto de amor que percorreu toda a minha vida.Uma mulher em quem amar e confiar, como escreveu o poeta.
Porque o que conta, a única coisa que verdadeiramente conta na possibilidade amorosa de cada um, é a confiança. É o único momento em que matamos a avestruz enterrada em mitemas de merda, de trampa doce, de lodaçento e pantanoso verboreio. A nossa derradeira chance de luz. Eu sei que tudo isto pode parecer cínico, ácido, desesperançado. Eu creio que não é. Ou que só será se já amarmos mais a linguagem do que a vida, do que a vida autêntica, indecifrável. Esse festim que, quando linguarejo, creio ainda ser possível.

segunda-feira, agosto 20, 2007

Hordéolo

Não deixa de ter a sua piada: ao fim de quatro anos de divórcio voltei a usar a aliança de casamento.

domingo, maio 06, 2007

Urgente: Um milhão de assinaturas para Darfur

Através do Absorto
, fui dar a esta petição que o Collectif Urgence Darfour está a coordenar para pressionar a ONU a intervir no local e apoiar os que escapam aos massacres. Assinar aqui.

quarta-feira, maio 02, 2007

A intranquilidade vista do lado da bonança

Há um momento em que estamos intranquilos porque nos entregamos a uma preocupação qualquer. Serve qualquer uma. Na farmácia do bairro duas mulheres mediam a tensão arterial. A primeira, que já deveria andar pelos sessenta anos, obesa como o são regularmente muitos dos portugueses, tinha vinte e quatro-doze. Não tinha um ar intranquilo. Era a sua acompanhante, com pelo menos mais uns dez anos em cima, que explicava ao farmacêutico, não anda a tomar os medicamentos, esquece-se. O esquecimento neste caso poderá ser, se não for uma patologia, sintoma de uma preocupação. O espírito ocupa-se com algo a que dá primazia e depois não pode acudir às tarefas do dia. Olhei-a de alto a baixo. Às mãos, aos pés, sapatos, cabelo branco, papos por baixo dos olhos. E comecei a vesti-los de preocupações várias, todas elas enormes. É um erro de lana caprina dos literatos. Dar grandeza às nossas preocupações. Às vezes são tão pequenas. A segunda mulher tem dezanove-oito. Está preocupada porque a médica lhe substituiu os três comprimidos que tomava por um só. É o remédio que não está a fazer efeito, tenho de lá ir. Ela logo me disse, tome e veja como é e depois venha cá ver se continuamos. Vou lá dizer-lhe que quero voltar aos outros, sentia-me muito bem com eles, andava sempre nos dezassete. O farmacêutico anui com a cabeça. No jogo das preocupações, não tenho dificuldade em atribuir uma a esta mulher. Está ansiosa com a mudança de medicamentação. Está demasiado centrada nesse problema para poder escutar-lhe outra preocupação qualquer. Saio da farmácia e entro no taxi. Comecei a ler há instantes "Viagens no Tempo no Universo de Einstein" de J. Richard Gott II, e não lhe dou atenção. Mas ao chegarmos à Rua da Conceição ele faz uma travagem brusca. Ia tentar ulttrapassar uma fileira de carros e eléctricos, em contravenção, quando reparou que o carro detrás eram dos geninhos. A explicação sobre o termo da gíria taxista solta-lhe a lingua que só estava à espera de um pretexto. Confidencia-me, estou com uma irritação enorme com a minha mulher e a minha filha. O motivo era comum: o carro. A primeira porque lhe andava com o carro mas não punha ar dos pneus, resultado, ontem a caminho de Torres Novas rebentou-se um pneu. Como se não bastasse, o porta-bagagens onde tem o pneu sobresselente estava atulhado de coisas da filha. Reproduz-me, textualmente, a conversa, os ultimatos que deu à filha para a remoção imediata daquelas traquitanas. Com a mulher foi diferente. Ela que tem uma chave do carro pediu-lhe a chave dele. Foi ao carro e depois esqueceu-se dela dentro do carro. Resultado, teve de estragar a fechadura do porta-bagagens. Aquilo estava a dar cabo do pobre homem. Foi nessa altura que olhei para ele. A cara inchada, vermelha, cheia, insuflada com aquele ódio a que nos entregamos com um inexplicável e inatingível amor. Ele sabia disso, já estava na fase da negação da irritação. Eu não posso deixar que isto me possua. Dei-lhe umas palavras de consolo e pú-lo na fila da minha galeria de personagens preocupadas. Estive quase para lhe dizer, olhe, esqueça o porta-bagagens e a fechadura, isso não vale uma preocupação. Mas isso já ele sabia. E eu tinha chegado ao cotovelo da Rua Nova do Trindade onde me costumo apear do táxi. Enquanto tirava o dinheiro do porta-moedas dou um olhar de relance à rua, passa uma mulher, podia dizer que era bonita ou esbelta, a verdade é que não reparei, era uma mulher, o exemplo que precisava, disse-lhe, olhe, pense nelas, nas mulheres, vai ver que ajuda, ontem choveu, hoje o sol está a romper, vai ver que olhar para elas é como olhar para um campo de flores. E dou-me conta de que não era este o post que queria escrever, tinha outra ideia. Queria falar sobre a forma como muitas vezes, a seguir à fase da nossa ocupação excessiva com um determinado problema, nos intranquilizamos com a obsessão em nos tranquilizarmos. Os trabalhos da desinquietação, ou não fosse a nossa natureza tão paradoxal, ao mesmo tempo que nos proporcionam o alívio necessário para as mazelas espirituais quotidianas, tornam-se muitas vezes a nossa preocupação central, tão obssessiva como qualquer outra.

quarta-feira, abril 25, 2007

A Indomável Arlete

Telefonou-me o Pedro Queiróz, a dizer-me que a mãe tinha falecido hoje. Há muitas maneiras de recordar a Arlete*. Ela foi a mãe do Pedro mas também de todos nós, os que fazíamos o nosso porto de abrigo na sua casa, em cujas paredes nós podíamos escrever poemas, desenhos. Recordo-a, por agora, numa homenagem breve, com as palavras que o António, seu marido, escreveu por cima da porta da sala que dava para o corredor: "-A indomável Arlete!". E com as que ela própria escreveu, em letras garrafais, na parede do fundo da sala: "Saúde é a alegria de viver e de criar".
E será em Abril, naquele dia 25 que, desde há trinta e três anos, sempre lhe trouxe um cravo vermelho, que se tornará partícula, cinza, poeira, naturalmente cósmica.
[Acabo de passar na homenagem que o João Monsanto lhe fez aqui e percebo a razão de ser da minha alegria, discreta, recolhida é certo - e que de tão reservada quase se diria apática - mas alegre. É que as pessoas como a Arlete não desaparecem assim, à primeira morte que lhes aparece pela frente. ] lk ç l................
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*Arlete Canhoto Abreu foi durante muitos anos professora da Escola de Enfermagem Calouste Gulbenkian de Lisboa tendo aberto, de forma absolutamente pioneira no contexto do ensino da Enfermagem em Portugal, os Cursos de Enfermagem a experiências que valorizavam a animação sócio-cultural, as terapias expressivas, a expressão artistica e a criatividade, tendo marcado gerações sucessivas de alunos. A minha ligação a esta Escola, desde 1992, surgiu a seu convite e foi com ela que trabalhei durante quase oito anos. Referências no Respirar: Vinte anos abertos ;Testemunho de João Monsanto, seu amigo, com quem Arlete Abreu trabalhou de uma forma continuada durante mais de vinte anos, encontrado no seu site.
Informação: O corpo estará amanhã de manhã na Capela Mortuária do Centro Paroquial de Santa Maria dos Olivais nos Olivais Velhos (acesso pela Av. que, na continuação da Avenida de Berlim, segue para a Gare do Oriente) , onde, pelas 12h, haverá uma cerimónia litúrgica. Será cremado pelas 13h30, no Cemitério dos Olivais.

quarta-feira, abril 18, 2007

A doença como metáfora

" A doença é o lado sombrio da vida, uma cidadania bem pesada. Ao nascer, todos nós adquirimos uma dupla cidadania.: a do reino da saúde e a do reino da doença. E muito embora todos preferíssemos usar o bom passaporte, mais tarde ou mais cedo cada um de nós se vê obrigado, ainda que momentaneamente, a identificar-se como cidadão da outra zona.
O meu propósito não é tanto descrever o que significa relamente emigrar para o reino da doença e aí viver, mas antes as fantasias punitivas ou sentimentais que se constroem acerca dessa situação: não uma geografia real, mas antes estereótipos de carácter nacional. O meu tema não é a doença física em si, mas o uso que se faz da doença como figura ou metáfora.
A minha tese é de que a doença não é uma metáfora, e o modo mais honesto de olhar a doença - e o modo mais são de estar doente - é o olhar mais depurado, mais resistente ao pensamento metafórico. Mas é praticamente impossível fixarmos resid~encia no reino da doença incontaminados pelas sinistras metáforas que lhe desenharam a paisagem. Elucidar tais metáforas, sacudir o seu jugo, constitui o objectivo deste estudo. .../... Embora o modo como a mistificação de uma doença se processa tenha lugar num quadro de expectativas renovadas, a doença propriamente dita (a tuberculose antes, o cancro hoje) desperta um tipo de terrores completamente obsoletos.
Qualquer doença que seja vista como um mistério e seja profundamente temida será considerada moralmente, se não literalmente, contagiosa. E assim, um número surpreendentemente vastod e pessoas que sofrem de cancro ver-se-ão rejeitados por parentes e amigos, tornando-se objecto de medidas de descontaminação pelas pessoas da família, como se o cancro, à semelhança da tuberculose, fosse uma doença contagiosa. O contacto com alguém vitima de uma doença vista como um mal misterioso éinevitavelmente sentido como uma transgressão: pior, como a violação de um tabu. Os próprios nomes de tais doenças são considerados dotados de um poder mágico. "
A Doença como Metáfora, Susan Sontag, Quetzal Editores, 1998. Este ensaio foi escrito em 1978, quando a autora convalescia de um cancro. Anos mais tarde, com o aparecimento da SIDA, Sontag escreveria A Sida e as suas Metáforas.

terça-feira, abril 17, 2007

Na Quinta da Serra

O Junilto no Hospital de Dª Estefãnia. Em

"Você está triste!"

Desde Novembro que - em algumas noites em que o espírito se reiventava na inquietação -o corpo não queria, ou não sabia ter, descanso. Não foram horas doces, as que se consumiram assim no tentar sossegar um espírito sobressaltado. Os chás de valeriana foram úteis e preciosos para todas as outras noites, não para essas. E, como se já não bastasse, as badaladas do relógio da Igreja da Graça e o de S. Vicente de Fora conluiam-se, no silêncio da noite insone, para aumentar a angústia pelo tempo de sono que já se tinha consumido. Numa das noites de finais de Março tive uma visitação assim. Já disse, não são doces as horas insones. Lembro-me que de manhã estava de rastos. Ao passar na farmácia do bairro ocorreu-me medir a tensão. Quinzeponto nove, disse-me o farmacêutico, está um pouco alta, que tensão costuma ter?, perguntou-me. Sabia lá eu, nunca a meço. Fui ao Centro de Saúde marcar uma consulta. Médica de família não, não pode ser, mas há as consultas de urgência da tarde, é só cá vir. O sistema é infalível: reproduz incomodidade, espera, infelicidade, dor, impossibilidade, mas ao mesmo tempo cria nichos de possibilidade, de conforto, de alívio. É só cá vir, garantem-me, com a mesma naturalidade que me dizem que só para Maio é que terei uma consulta da médica de família. Gosto da articulação conjugada das palavras médica-de-família. Sugerem-me viagens na memória. A ideia de família, o Dr. Silveira de Mafra, que vinha lá a casa e sabia as histórias de cada um de nós. Imagino por exemplo que quem inventou este nome sabia que o sistema precisava de mais toque humano. E uma palavra toca no espírito combalido e desaconchegado com a mesma profundidade com que uma mão entra na pele, no músculo tenso e dorido. Ao mesmo tempo que este sistema me assusta, as pessoas, os funcionários dos guichets, o pessoal de enfermagem, os médicos, tranquilizam-me. São incansáveis na sua condição lilliputiana. Tudo isto não será assim, mas é do modo que o vejo. Dantes uma visão pessimista sobre o sistema afastava-me das pessoas, da sua possibilidade. A única coisa que me acalmava eram as ideias, o braço ideológico, a demanda utópica. Hoje, o que ainda me vai tranquilizando são as pessoas, a possibilidade que ainda existe nelas, ou melhor, a possibilidade que ainda pode existir nelas. É nisto que me ocupo enquanto espero. Chegada a minha vez, ao fim de três horas de espera, sento-me na cadeira do consultório da médica. Mede-me a tensão. Está alta ainda. Prescreve-me uma data de análises. Pergunta-me desde há quanto tempo é que me acontecem estas insónias. Novembro, em Novembro aconteceu-me uma tristeza muito grande, disse-lhe eu talvez ao quarto ou quinto minuto da consulta. Ela começa a prescrever: um antihipertensor, um fármaco de tratamento das insónias e um antipressivo. Dra, o antidepressivo não preciso, digo-lhe. Responde-me, com autoridade, precisa, você está triste. Respondo-lhe, não, não estou triste, tive uma tristeza, disse eu, abreviando a explicação. Tinha dormido mal e além do mais não me apeteceu dizer-lhe que a tristeza era a matéria prima essencial para manter muitos de vós ligados a esta minha escrita meio saltarinheira e vagabunda. Ela aproveitou e impôs: - Você está triste! Não a contrariei. Quando cheguei à farmácia aviei só os dois primeiros medicamentos. E sorri ao pensar no absurdo de tudo isto. Uma das vantagens de acreditarmos nas pessoas é não nos entristecermos tanto com aquelas que parecem falar não pela sua própria voz, mas pelo som metálico, impositivo, e autoritário de um pai qualquer a que por convenção simplificadora chamamos sistema.

domingo, abril 15, 2007

Respiraremos atenção

No Absorto, sobre a doença do escritor António Lobo Antunes. Aprendemos a vida através dos desenhos animados onde, por maior que tenha sido a violência do embate ou do ataque, os nossos heróis saltam, incólumes, de frame para frame. O escritor é, na prosa, o meu maior. Respiraremos atenção, por isso. Como se diz lá na terra, esperaremos juntos que tudo vá pelo melhor.

quarta-feira, março 28, 2007

Comportamento inapropriado

Leu atentamente a bula do sonorífero. As diversas cláusulas eram tão ameaçadoras quanto escrupulosas. Não havia maleita que não estivesse prescrita como uma possibilidade. Já estava decidida a aceitar a bondade da insónia e a arrumar o medicamento no armário das benzinas, das lexívias e de outras drogarias quando deparou com o aviso que salvou o fármaco da sua inutilidade precoce: " o seu uso pode provocar comportamentos inapropriados". Nunca os tomou ao deitar. Não foi preciso. Adormecia que nem um anjo saboreando o momento matinal em que ingeria a pequena drageia e saía para a rua esperando que o carnaval chegasse.

segunda-feira, março 12, 2007

Cova da Moura: Sabura

Sabura
é uma palavra com significado flutuante embora todos eles convirjam num sentido: saborear, apreciar o que é bom. Sabura é também o nome do projecto com que a Associação Moinho da Juventude, à semelhança do que acontecia num bairro problemático de Joanesburgo, na África do Sul, organiza visitas guiadas ao bairro, dando a conhecer o que ele tem de bom. E é de facto uma experiência emocionante. Não fomos ao inferno, como poderíamos pensar se nos circunscrevessemos apenas ao que se diz sobre o bairro. Fomos a um bairro onde uma comunidade empenhada e implicada transforma os grandes lemas da animação sócio-cultural em letra viva. À partida parece um disparate incluir uma visita ao bairro da Cova da Moura num roteiro turístico. Não é. Eram três horas quando acabámos de almoçar e dançar num dos muitos restaurantes incluido no Roteiro das Ilhas, que se dedica a mostrar a diversidade da gastronomia das ilhas de Cabo Verde.

quarta-feira, março 07, 2007

"Peço desculpa"

No Caracol da Graça, sala de chuto improvisada, mais uma vez. Agora é um homem novo, à volta dos trinta anos. Logo que pressente gente encolhe-se e sem olhar diz para o ar:"-Peço desculpa!". Eu sei que a ONU, através do seu Instituto com a área das drogas, defende que as Salas de Chuto não devem ser permitidas porque as duas únicas saídas legalmente autorizadas nesta área são as do tratamento médico e as da investigação. Mas também sei que a posição defendida pela ONU nada tem de consensual a nível dos especialistas na área da toxicodependência, a começar pelo nosso IDT. É uma questão que mais uma vez tem a ver com o pragmatismo. Para acabar com a humilhação, dizia um cartaz de uma campanha recente. Eu não sei se é humilhante para este homem ter de se injectar a céu aberto. Para mim é humilhante olhá-lo e saber que o sistema que aparentemente me inclui, o exclui a ele. Exclui-o de um mais eficaz controlo da propagação de doenças como a sida ou a hepatite ou de uma prevenção de overdoses. Exclui-o a ele de um estudo sobre as condições em que é feito o consumo de drogas duras. Exclui-nos a nós desse conhecimento. A próxima vez que descer o caracold a Graça serei eu a dizer, peço desculpa.