Mostrar mensagens com a etiqueta sonhos. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta sonhos. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, maio 29, 2008

Back to the futur

Por um acaso do destino dei hoje por mim, ao subir do elevador da glória, a pensar no que serei daqui a dez anos. 10 anos parece-me bem como projecção. Além de que é bem melhor do que nunca mais. A meio da ladeira já me tinha esquecido do motivo desta viagem. Especulava antes sobre que cidade estará cá daqui a dez anos. Aquele elevador, aguentará ainda? E o céu? Será azul? Estarei cá daqui a dez anos? E a fazer o quê? Imagino o meu filho daqui a dez anos. Se tudo correr bem ele estará dez anos mais velho e eu a fazer tudo por tudo para me sentir dez anos mais novo. Viveremos os dois ainda na cidade? Ou estaremos finalmente a realizar os nossos sonhos por esse país adentro? Vejo-a a cantar. A fazermos teatro, por aí, onde calhar. Vejo poemas a nascerem das árvores. No outro dia imaginei um cenário para o nosso espectáculo. Está-me a apetecer ser feliz.

segunda-feira, maio 05, 2008

O que fazer?

Quando acordei, hoje de manhã, desatei a rir, diante do disparate que foi o meu sonho. Não sei em que contexto, mas sonhei que Cavaco e Silva tinha demitido Sócrates (havia levemente a ideia de que seria estender a passadeira a Manuela Ferreira Leite) e marcado novas eleições. Este não concorria porque resolvia afrontar o presidente esperando pelas eleições presidenciais para tentar impedir que Cavaco ganhasse um segundo mandato. Já não me lembro se ganhava. Não sei se devo ir a um psicanalista dos sonhos ou se deva iniciar concorrência ao Zandinga. Não deve haver muitos individuos adultos, até aí sem indícios e episódios de demência, a sonharem de livre e expontânea vontade com Sócrates e com Cavaco.

segunda-feira, agosto 27, 2007

O último olhar, disse ele

Em Broken Flowers de Jim Jarmush, Bill Murray depois de saber, através de uma carta anónima, que pode ter um filho que o procura, empreende ele próprio uma viagem para tentar descobrir quem é a mãe do seu filho.
A estrutura repetitiva do filme acaba por mão se tornar monótona graças quer à excelente banda sonora do filme, quer ao modo paradoxal como a personagem de Don Johnston é construída. Por um lado o seu comportamento apático, desafectado, alheado. Por outro um homem que inicia uma viagem através das várias namoradas que teve para descobrir qual delas é a mãe do seu filho, como se isso lhe devolvesse alguma chama existencial.
Imaginei-me dentro do filme e espantei-me com a forma como Don Johnston foi acolhido pelos seus antigos amores. Não acredito que se fosse eu a maior parte das mulheres com quem reparti dias, horas, me abrisse sequer a porta. É difícil confessá-lo mas nunca amei verdadeiramente. O amor em mim é uma memória e uma promessa. Amei quando nasci, e da procura dessa memória de que nem sequer me lembro faço a minha esperança de que por uma vez na vida, nem que seja ao morrer, possa sentir a plenitude de um amor verdadeiro rasgando-me por dentro, libertando-me de todo este ódio com que me deixei enquistar, soltando-me desta matéria pustulenta e ocre com que me entranhei de violência.Amei no exacto segundo em que nasci, aí fui humilde e autêntico amor molecular, cromossomático. Desde esse momento todo eu sou aprendizagem do medo, do egoísmo, da mentira, do desamor e da desafectação. Há uns tempos entristeci-me porque recebi de uma das mulheres com quem mais tempo tinha dispendido a desamar, uma carta a pedir-me para nunca mais a contactar, para imaginar que tinha morrido, emigrado para a Gronelândia, para o centro do centro do mundo, whatever! Agora, ao constatar a persistente inexistência do amor na minha vida, compreendo afinal a lucidez que, como um punhal, a trespassou.
Estas coisas que eu sei sei-as a despeito do amor que nunca senti, que nunca fui capaz de sentir. Sei-as por causa do único vislumbre amoroso que sou capaz de descortinar para além desta memória de que nem sou capaz de ser recordação: os gestos de amor autêntico de que fui objecto. Não são muitos, a maior parte do amor que me dedicaram é tão mesquinho como aquele que dediquei. E nem de outra forma poderia ser quando é a mesquinhez e o desenho de diminuitivo que lavra o chão e a terra onde semeámos e plantámos a flor. Não são muitos, são os bastantes.
O amor em mim é apenas uma promessa, uma memória. Por mais estranho que possa parecer, não é um ser agoniado pela sua própria acidez que escreve, mas alguém que percebe que é na desfiliação de um face à mitologia amorosa do mundo que pode estar a única e a última chance da nossa experiência amorosa ter algo de autêntico.
E a linguagem é apenas mais um entretenimento, um fazer tempo, enquanto a verdade crua e dura da nossa existência não nos atinge como um raio.Eu não o sabia antes e não o sabia assim: o véu vai caindo ao mesmo tempo que caminhamos. Enquanto com o tempo a gravidade puxa todas as nossas carnes para baixo, numa flacidez que nos permite o destempero lúcido de quem deixa para sempre a sua hipótese de ícone, o cérebro, o cerebrelo, a massa encefálica enrijecem, entesam-se na estreita vinculação à única proferição possivel.
É por isso que por mais aparato e exuberância que os nossos amores jovens possam ter tido, ninguém no seu perfeito juízo se comove senão com o amor que espera um dia, na velhice, experimentar. Padeci das mesmas doenças de espírito que qualquer um de nós: procurei uma mulher ou para me governar a vida, ou para me dar filhos, ou para tornar a minha vida aventurosa, ou para me rejubilar nas fotos de família, ou para o vangloreio junto dos amigos ou até, para me rejuvenescer. Tudo isso foi em vão e foi por isso que não deixei nem tenho saudades do amor que não vivi, que não soube viver.
A única coisa que agora ainda espero encontrar em relação àquela que será a minha última hipótese amorosa é algo que não posso ainda, nem nunca, procurar: uma mulher a quem possa olhar no derradeiro relance que pousar sobre o mundo e que espero, seja o mais autêntico gesto de amor que percorreu toda a minha vida.Uma mulher em quem amar e confiar, como escreveu o poeta.
Porque o que conta, a única coisa que verdadeiramente conta na possibilidade amorosa de cada um, é a confiança. É o único momento em que matamos a avestruz enterrada em mitemas de merda, de trampa doce, de lodaçento e pantanoso verboreio. A nossa derradeira chance de luz. Eu sei que tudo isto pode parecer cínico, ácido, desesperançado. Eu creio que não é. Ou que só será se já amarmos mais a linguagem do que a vida, do que a vida autêntica, indecifrável. Esse festim que, quando linguarejo, creio ainda ser possível.

sexta-feira, julho 13, 2007

Da discussão a escuridão

Tenho uma profunda admiração por todos aqueles que têm opiniões firmes, arreigadas pelo sabor do tempo e das convicções, inabaláveis. Ao longo da minha vida tenho conhecido muitas pessoas assim. Homens e mulheres de um só ideal, de uma só ideia. Uns nasceram comunistas e encaram com grande naturalidade a circunstância de que provavelmente irão morrer comunistas. Ou abriram para os olhos naquele apertado, circunspecto e conservador, "deve ser assim", que nos ressoou durante anos e anos a fio, e que repetem, pelo longe dos tempos que viverão entre nós, "assim deve ser". E quando não são as ideias que os alimentam é uma espécie de ódio. O ódio, o rancor, o desdém, é uma forma persistente de pensamento. Tenho uma profunda admiração por todos aqueles que têm opiniões firmes, arreigadas pelo sabor do tempo e das convicções, inelutáveis do seu ódio-carpir. Admiro-os como quem se estranha. Às vezes, sabendo que alguns deles, poderão passar por aqui, estanco o passo, o pensamento, a expressão. Não sei como foi, foi devagar, tal e qual como os ponteiros do relógio: fui-me educando para a insegurança, para a timidez, para o não saber, para a dúvida, para a transitoriedade das ideias, dos pontos de vista. Não me reconheço em muitos do paradigmas racionalistas, como o estafado "tenho as minhas opiniões mas se me convencerem sou capaz de reconhecer o ajuste da opinião alheia". Eu nunca tive as minhas opiniões. Seria incapaz de chamar minhas às opiniões que me ocupam o pensamento. Se há qualquer coisa de meu nas minhas opiniões é esse momento-fronteira em que me despeço de uma para abraçar a outra. Tudo o que tenho ou sou tenho e sou por empréstimo. Este corpo, que reconheço provisoriamente como meu, quer dizer, que dele trato o melhor possível como se fosse meu. Esta identidade, forçada muitas vezes pelos outros mas também pelo outro de mim mesmo que tantas vezes consigo ser. Tudo isto pode, para muitos, parecer o pesadelo. Somos educados para o não querer, para o não ser, para a conformidade. E só quando todas as mortes que nos sobrevieram nos dizem que nunca mais teremos nenhuma oportunidade de dançar do que este exacto momento em que escrevemos, rimos, conversamos, dançamos ou fodemos, é que percebemos que é neste local exacto onde nos deseducamos que afinal, nos cultivamos. E devemos fazê-lo, cultivar. Um dia, quando eu morrer, gostaria que uma tecnologia entretanto inventada conseguisse resgatar todos os meus sonhos, todos os meus projectos, todas as minhas ideias, mesmo aqueles que ainda estão em esboço, como esta vontade de sair daqui desta mesa do ciber-café como se fosse vento, e que as transformassem em livro, em filme, em poema, no livro, no poema, no filme que eu nunca soube ultimar. Eu por dentro sou febre. Sou um provinciano a arder por dentro com uma febre de mundo. A Celta, quando eu lhe contava os meus sonhos de andarilho, dizia-me que eu tinha de começar a viajar para fora. É verdade. Não é por estar calor, por ser verão, por tudo o que me cerca agora ser literatura de viagens que eu anuio. É porque é verdade.

domingo, abril 22, 2007

Intranheza

Tudo isto tem daquele humor que salga a vida: por vezes nos meus dias dou-me conta de uma estranheza, uma fina película de estranheza que me cobre os gestos, o olhar e que me faz perguntar o que faço aqui nestes lugares a que chamo meus, com estas pessoas a que chamo minhas. Sorrio. Não são sempre estes momentos, são por vezes, e até, poucas vezes. E já não me assustam, nem me entristecem, nem me perturbam, como aconteceu tantas vezes, ciclicamente, desde a minha infância. É essa estranheza que me intranha dentro de mim, que me torna próximo, que me diz que depois de tantas vidas e tantas mortes, ainda sou eu a transportar os meus dias. Sorrio, esses meus momentos fazem-me descansar da realidade. São um pouco como aquele tirar dos óculos da minha amiga a deixar os seus olhos míopes navegarem por sombras, contornos, pedaços de luz.

quinta-feira, abril 05, 2007

O meu amigo

O meu amigo é beleza pura. Olho para ele e dificilmente vejo olhos, nem mesmo aqueles olhos vivos, expressivos, indíos, nem nariz, nem boca, nem orelhas, nem rosto. Vejo tesouros sulcados na terra, no ar, nos mares. É como se a sua face fosse o mapa das histórias que me conta. Há quase sempre algo de épico nelas. Com ele compreendo o verdadeiro sentido da palavra justiça.
Eu quase que nem consigo falar na sua dor. O que é que eu posso saber de alguém que fala da justiça como se falasse da sobrevivência do seu povo enquanto povo? Eu sou de um país que quase não existe. A primeira vez em que ele me falou na absoluta necessidade que a Colômbia tem de fazer justiça às vitimas da guerra, eu duvidei se ele me falava mesmo de justiça ou de um lastro de ódio, de vingança. Tive de lhe fazer algumas perguntas para perceber que se se me tivessem morto metade da minha turma de escola, os amigos de infância, quem não saberia se seria capaz de se livrar do ódio, da sede de vingança, seria eu. Afortunadamente ele é das poucas pessoas que conheço que não odeia. Há um mês comandos para-militares mataram quatro jovens numa rua de Apartadó. Talvez estivessem a consumir marijuana, cannábis. As famílias dos jovens massacrados dividem-se. Não denunciar é fazer com que aquelas mortes nunca tenham existido. Calar é não conseguir esquecer, numa mistura barrenta de dor e de remorso. Denunciar a uma Justiça conluiada com os para-militares é correr perigo mas é permitir que aqueles que trabalham para defesa das vitimas da guerra possam cartografar o mapa do terror, da morte. É aqui que eu e ele conversamos sobre justiça. Ou seja, ouço-o, sobre a justiça só sei escutá-lo. Justiça na sua boca é um palavra que eu não sei pronunciar. Fala-me de todo o trabalho sobre o levantamento das vitimas como uma possibilidade, como a única possibilidade para o seu país. E por mais absurdo que pareça fazer justiça não é tanto colocar na prisão os assassinos, os torturadores, os corruptos, aqueles que semeiam de sangue as terras verdes, amarelas e vermelhas da sua terra. Nunca tal seria possível senão derrubando a opressão. Mas a opressão não nasce da mesma árvore. A tentativa de libertação da opressão trouxe mais violência, mais mortes e mais opressão sobre aquele terra calcinada. A justiça que se pede agora não é a que se restituam os mortos. É apenas que se diga a verdade. E nessa verdade cabe o dizer-se que o contexto político beligerante serviu para muitos crimes, usurpações e roubos. O imenso trabalho a fazer é construir uma história que permita assassínos, para-militares, guerrilheiros, torturadores e torturados serem parte de um mesmo país. Nunca se trarão à vida os mortos. O sonho do meu amigo não é esse: é tirar a morte dos dias da sua terra, deixá-la florir apenas com as memórias das histórias que se confundem com as narrativas de Garcia Marquez.

sexta-feira, março 16, 2007

Coisas tão simples

A importância dos amigos. Pega num telefone, vai ao correio, ao msn, ao outlook. Desce da tua casa, atravessa a rua. Vai ter com o teu amigo.

quinta-feira, março 01, 2007

Lista de prioridades

Ando há dias com este na cabeça: pedir uma licença sem vencimento e oferecer-me como voluntário e ir por esse mundo fora. Mas depois estaco. Não cultivei, na minha vida, nenum ofício que pudesse ser útil aos outros. Não creio que fazedor de blogues esteja na lista de prioridades desse mundo urgente onde quereria estar agora.

terça-feira, fevereiro 27, 2007

A telefonia sem fios

Gosto da rádio. Gosto de ser voz e desta ir onde o corpo não consegue imaginar. Há muito que não ìa a um estúdio. Sabe-me bem aquele espaço em restrição. A luz vermelha de No ar. Gosto das vozes timbradas dos locutores, dos jornalistas. Há muitos anos tive algumas aventuras em Leiria, em duas rádios piratas. Muitas vezes sonhei em caminhar na noite, soltando conversas com espectadores adormecidos pela letargia do quotidiano. O meu sonho irrealizável é a rádio.