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segunda-feira, outubro 01, 2007

O jardineiro que tinha uma obsessão por amores perfeitos

Uma vez a sua avó Matilde tinha-lhe dito que ele poderia perder de vista todos os amores-perfeitos que encontrasse pela vida fora, que nada disso o iria indispor com o amor. Aliás, tinha-o dito de outra forma, ele lembrava-se da articulação exacta das palavras, do que elas significavam:
- Aprende a desembaraçar-te dos amores-perfeitos. Admira-os, rega-os, vela-os, mas não te prendas excessivamente a eles. Uns vêm atrás dos outros e assim será, sempre.
Ele respeitava profundamente as opiniões e os avisos da sua avó Matilde, aquela mulher cuja idade parecia ter o condão de a tornar cada vez mais bela. Ela era uma autoridade no assunto. A sua vida tinha sido uma aventura nas terras do amor, da paixão e até, da luxuriosa vida ardente de uma confessa e assumida balzaquiana . Foi por isso que lhe guardou o conselho, dito com uma severidade inabitual:
- Com uma única excepção: se encontrares uma mulher que te faça rir de manhã, dessa deverás fazer a tua amante, ou a tua esposa, ou até mesmo a tua concubina, desde que dela nunca mais te separes.
David lembrou-se disto quando as suas gargalhadas quase estremeceram com aquela manhã ainda por despertar. Enrolava-se nos lençóis, desfazia-os num sorrir terno de criança, espraiava-se no linho como se este fosse um mar revolto.
- Gosto de ti!
- Eu gosto mais! - respondia-lhe Adelaide rindo.
E diante de tanto riso David ouvia novamente as palavras da sua avó Matilde, desde que dela nunca mais te separes.
- Queres casar comigo?
Ela riu, riu ainda mais. Enquanto lhe beijava as nádegas, lhe apertava o sexo, gargalhando sempre:
- Caso-me com este.
- E comigo?
- Contigo não. Já sou casada com ele. Porque é que me perguntas se quero casar contigo?
- Para saber se és o meu amor-prefeito.
- Agora já sabes que não sou.
- Enganas-te. É exactamente ao contrário.
E era. Já não era a sua sábia avó que o dizia, era ele, a sua vontade, a sua estranha obsessão por amores perfeitos.

segunda-feira, setembro 17, 2007

Lisboa que amanhece

Acordo com o cheiro do seu café forte. E as vozes de Paula Oliveira, em Lisboa que Adormece. Digo as vozes porque é assim que as ouço à medida que o som avança, plurais, múltiplas. Há em mim uma energia do despertar, vou atrás dela. Agarro-a. Agarro-a energicamente dentro de mim o mais ferozmente que a minha destinação de macho é capaz. É preciso alguma volúpia do existir para a semente retornar à terra, grávida de imagens. Sou, com ela, desta delicadeza, deste afago. Apago tudo à minha volta. A minha vida que amanhece.

quinta-feira, setembro 13, 2007

13 de Setembro de 2033

A pequena criança brincava no baloiço enquanto o avô se distraia a subir ás árvores. Era teimoso que nem um burro. O ano passado tinha caído de uma macieira no pomar e partido uma clavícula porque insistia que aos setenta anos ainda era leve como um gaiato. Ao seu lado uma mulher, um pouco mais nova que ele, sorria.
- Anda cá, rapaz!
Ele deixou-se estar quieto no ramo. Nunca tinha percebido porque é que só nas extremidades a vida parece ter, na nossa mundividência, uma ideia que não massacra excessivamente a existência.
- Só se me disseres, anda cá, meu rapaz...
Ela levantou-se, rindo:
- Sabes que mais?
- Não vás...
- Não vou?! - Levantou-se.
- Não vás. Eu quero contar-te uma coisa.
Desceu da árvore sem dar por isso. E quando deu, já era tarde demais. Era sempre assim. Cediam à vez, sempre distraídos de alguma espécie de fúria, de ressentimento.
- O que é que me queres? Tu ocupas-me muito espaço.
- Senta-te.
- Olha a tua neta!
- Ela não pode ver dois velhotes a beijarem-se?
- E desde quando é que isso é a tua boca?
- Ora, também não é a tua.
- Essa piada é quase tão velha como nós. Tem juízo.
- São quase sete horas.
- Não me digas que queres ir falar disto no teu blogue?
- O meu blogue és tu.
Ele era um decano na blogosfera que entretanto já se equiparava a um pequeno jornal de província. A grande moda da altura era agora a spiritosfera, que se acedia através de uns chips, instalados directamente na zona do cortéx central e que permitia que cada um pudesse, simplesmente através do pensamento, publicar os seus pensamentos no espírito de um outro qualquer spiriters, desde que ela estivesse no mesmo planeta e requisitasse a sua mensagem. Havia modalidades de chips que já conseguiam comunicar com estações instaladas em planetas como a Lua, Marte, Plutão, Neptuno, mas eram astronomicamente caras e disponíveis apenas para as grandes vedetas da spiritosfera, que eram aquelas cujas mensagens eram requisitadas por mais pessoas. Desde o ano anterior, e como consequência do avanço exponencial da spiritosfera, que o Governo tinha decretado o fim da solidão. Tinha sido um momento muito triste, aliás, o que deu origem a imensos posts views, era assim que se chamava cada um dos pensamentos que circulavam nesta nova esfera comunicacional.
- Prova-me!
Ele calou-se, manhoso. Era mesmo isso que ele queria fazer. Prová-la, meticulosamente. O seu blogue era ela.
- Quando chegarmos a casa!
.............
"Garden Path in Spring 1944"
Duncan Grant 1885-1978

quarta-feira, setembro 12, 2007

Oração a Santa Bárbara

Troveja mais uma vez. Subo as persianas, para correr o medo. Ela corre-as para baixo.
- Não sei porque é que uma pessoa há-de violentar-se, obrigando-se a conviver com os seus medos. Essa mania de que um homem não pode ter medo das trovoadas.
- Mas se tu gostas?
- Posso fechar os olhos e imaginá-las.
- Não é a mesma coisa.
- Nada é a mesma coisa. Esta é a coisa que eu quero, ter-te aqui aninhado dentro de mim, a rangeres os dentes, o sexo.
Ao fim da conversa já eu me esqueci de tudo, da minha avó a rezar a santa bárbara aterrorizando-nos, do meu temor adolescente que um raio fizesse explodir a petroquímica, já só penso na Celta a ir ao terraço na última grande grande trovoada que caiu sobre Lisboa, já só penso na estranha beleza que é o raio a cortar o horizonte, sorrio, a belezoterapia, fruição da beleza, afigura-se um remédio eficaz contra a fobia.

Despe-te, de déspota

Ele deitou-se na cama, recostando-se, esperando-a. Ela trazia-lhe um cheiro que o seu faro de canino pisteiro identificou como sendo de um outro homem. Nem esperou pela contra-análise. Disse-lhe, sério, como convém a um poeta ou a um cabresto:
- Cheiras a sexo de homem.
- És tu, de ontem.
- Ontem fui outro.
- E vais ter ciúmes de ti mesmo?
- Porque não?
Estava a ficar possesso. Começou a palpitar. Tinha de ter cuidado. Já ía no segundo enfarte, começava a suar, depois ouvia mal. Ela disse-lhe, ou melhor, ele ouviu:
- Déspota.
Ele detestava quando ela o atacava para se defender.
- Déspota? Tu é que andas a comer outro gajo e eu é que sou déspota?
Deixou-se afundar na cama. Estava tudo perdido. Ela deitou-se, macia, sorridente, sobre o seu corpo:
- Eu disse, despe-te.

sexta-feira, setembro 07, 2007

Nudez

Ainda estou na fronteira do real quando ela se levanta.
Se eu não a soubesse diria que ela era um peixe, tal me parecem pequenas retículas de escamas, o resto do calor da sua pele sobre os lençóis. Ocupo-o com o meu corpo nú, preencho-o pelo rasto de conforto que aquela temperatura ainda resiliente é. Ela não sabe, não sente, não diz, não está. Ouço-lhe apenas os gestos da maquilhagem apressada, matinal, vindos pelo corredor. É o tempo do seu calor a desvanecer-se, penso, sem latejar. Neste momento estou todo virado para dentro, para dentro da sua sombra estendida no leito, no meu peito. Farejo-a caninamente, este despertar de bicho dá-me coragem para o meu dia de gente, calculo o tempo em que o pequeno apontamento de caracterização feminina a trará de novo ao quarto, ainda em estado sonâmbulo puxo com os pés os lençóis para baixo, não totalmente, de modo a destaparem-me uma perna, a nádega. Ela tem pressa, eu apenas quero que a imagem da minha nádega nua se encoste ao seu olhar, tal e qual como há pouco o seu calor no meu corpo, nem abro os olhos, fico a imaginá-la feliz a sair de casa com a visão da minha nádega nua a sorrir-lhe na face, um café curto e um pão com manteiga, por favor, sorri para o homem do balcão enquanto pensa no rabo macio que deixou ficar na sua cama, eu também, os meus quarenta e cinco anos custam-me menos vistos pela traseira do meu corpo, que se lixe a ligeira proeminência da barriga, sou outra vez menino, rapaz, moço, quando ela sai levanto-me de um salto, olho-me , satisfaço-me na contemplação do meu rabo de adolescente.

quinta-feira, setembro 06, 2007

Paisagem sem título

A chave na porta. Os seus olhos piscos:
-Boa noite. Estavas a dormir?
- Não. Estava só a treinar a minha paralesia cerebral.

quinta-feira, agosto 30, 2007

Estranha forma de vida

Dizia-me, amo os finais, tenho uma extraordinária propensão para fazer florir as rosas quando elas murcham nas mãos áridas dos amantes. Ela falava sem se dar conta da beleza que lhe crescia nos dedos de mulher. A maior parte das pessoas que conheço são pessoas de sentimentos perfeitos e normais. Esvaziam-se de um amor antes da chegada do próximo que pode ou não coincidir com a Primavera. Será aliás sempre verão, por mais tardio. Não sou assim. Primeiro preencho os espaços em branco e só depois, a meio da caminhada, começo a libertar carga, até que da última viagem não reste senão um torpor. Aprecio as pessoas arrumadas sentimentalmente e tiro delas inspiração para os meus melhores dias mas não consigo repetir a façanha. O que procuro nunca existe. Eu gostava de encontrar um dia uma mulher que me tirasse o desespero. A sensação de agonia. A dor anestesiada de uma solidão. Essa mulher não existe. Nunca existirá. Não porque não exista. Porque entretanto me ocupo com mulheres que me fazem sofrer, que me desesperam, que me agoniam. Estou a ser injusto. Poucas são as que me agoniam, que me desesperam, que me fazem sofrer. O que acontece verdadeiramente é que não me libertam da agonia, do desespero, do sofrimento. Ao invés disso preeenchem-me de cores, de alegria, de envolvimento, de doçura tal que eu sinto, sempre pela primeira vez, que posso abrir os olhos diante da verdadeira agonia, do verdadeiro sofrimento, do verdadeiro desespero. A mulher que eu procuro não existe. Não porque não exista. Existe, para lá da agonia, do desespero, do sofrimento. Todos os dias dorme no meu leito nú. É com ela que eu me deleito e entrego à mulher que verdadeiramente me beija.

terça-feira, agosto 28, 2007

O sacríficio

Há um engano em que muito facilmente caímos, e o tom provocatório que acabei por dar a dois dos meus últimos posts deu-me bem conta da medida desse logro: só um espírito empedernidamente romântico será levado a reconhecer que nunca amou verdadeiramente. Porque sabe que na negação está a possibilidade de um dia o vir a vivenciar plenamente. Ora eu sou um empedernido romântico. Prefiro sacrificar tudo o que vivi à hipótese de ter sido amorosamente vão, do que poder aceitar que nunca, em tempos da minha vida, conhecerei o verdadeiro e genuíno amor. O amor em mim é uma memória, uma promessa.

segunda-feira, agosto 27, 2007

O último olhar, disse ele

Em Broken Flowers de Jim Jarmush, Bill Murray depois de saber, através de uma carta anónima, que pode ter um filho que o procura, empreende ele próprio uma viagem para tentar descobrir quem é a mãe do seu filho.
A estrutura repetitiva do filme acaba por mão se tornar monótona graças quer à excelente banda sonora do filme, quer ao modo paradoxal como a personagem de Don Johnston é construída. Por um lado o seu comportamento apático, desafectado, alheado. Por outro um homem que inicia uma viagem através das várias namoradas que teve para descobrir qual delas é a mãe do seu filho, como se isso lhe devolvesse alguma chama existencial.
Imaginei-me dentro do filme e espantei-me com a forma como Don Johnston foi acolhido pelos seus antigos amores. Não acredito que se fosse eu a maior parte das mulheres com quem reparti dias, horas, me abrisse sequer a porta. É difícil confessá-lo mas nunca amei verdadeiramente. O amor em mim é uma memória e uma promessa. Amei quando nasci, e da procura dessa memória de que nem sequer me lembro faço a minha esperança de que por uma vez na vida, nem que seja ao morrer, possa sentir a plenitude de um amor verdadeiro rasgando-me por dentro, libertando-me de todo este ódio com que me deixei enquistar, soltando-me desta matéria pustulenta e ocre com que me entranhei de violência.Amei no exacto segundo em que nasci, aí fui humilde e autêntico amor molecular, cromossomático. Desde esse momento todo eu sou aprendizagem do medo, do egoísmo, da mentira, do desamor e da desafectação. Há uns tempos entristeci-me porque recebi de uma das mulheres com quem mais tempo tinha dispendido a desamar, uma carta a pedir-me para nunca mais a contactar, para imaginar que tinha morrido, emigrado para a Gronelândia, para o centro do centro do mundo, whatever! Agora, ao constatar a persistente inexistência do amor na minha vida, compreendo afinal a lucidez que, como um punhal, a trespassou.
Estas coisas que eu sei sei-as a despeito do amor que nunca senti, que nunca fui capaz de sentir. Sei-as por causa do único vislumbre amoroso que sou capaz de descortinar para além desta memória de que nem sou capaz de ser recordação: os gestos de amor autêntico de que fui objecto. Não são muitos, a maior parte do amor que me dedicaram é tão mesquinho como aquele que dediquei. E nem de outra forma poderia ser quando é a mesquinhez e o desenho de diminuitivo que lavra o chão e a terra onde semeámos e plantámos a flor. Não são muitos, são os bastantes.
O amor em mim é apenas uma promessa, uma memória. Por mais estranho que possa parecer, não é um ser agoniado pela sua própria acidez que escreve, mas alguém que percebe que é na desfiliação de um face à mitologia amorosa do mundo que pode estar a única e a última chance da nossa experiência amorosa ter algo de autêntico.
E a linguagem é apenas mais um entretenimento, um fazer tempo, enquanto a verdade crua e dura da nossa existência não nos atinge como um raio.Eu não o sabia antes e não o sabia assim: o véu vai caindo ao mesmo tempo que caminhamos. Enquanto com o tempo a gravidade puxa todas as nossas carnes para baixo, numa flacidez que nos permite o destempero lúcido de quem deixa para sempre a sua hipótese de ícone, o cérebro, o cerebrelo, a massa encefálica enrijecem, entesam-se na estreita vinculação à única proferição possivel.
É por isso que por mais aparato e exuberância que os nossos amores jovens possam ter tido, ninguém no seu perfeito juízo se comove senão com o amor que espera um dia, na velhice, experimentar. Padeci das mesmas doenças de espírito que qualquer um de nós: procurei uma mulher ou para me governar a vida, ou para me dar filhos, ou para tornar a minha vida aventurosa, ou para me rejubilar nas fotos de família, ou para o vangloreio junto dos amigos ou até, para me rejuvenescer. Tudo isso foi em vão e foi por isso que não deixei nem tenho saudades do amor que não vivi, que não soube viver.
A única coisa que agora ainda espero encontrar em relação àquela que será a minha última hipótese amorosa é algo que não posso ainda, nem nunca, procurar: uma mulher a quem possa olhar no derradeiro relance que pousar sobre o mundo e que espero, seja o mais autêntico gesto de amor que percorreu toda a minha vida.Uma mulher em quem amar e confiar, como escreveu o poeta.
Porque o que conta, a única coisa que verdadeiramente conta na possibilidade amorosa de cada um, é a confiança. É o único momento em que matamos a avestruz enterrada em mitemas de merda, de trampa doce, de lodaçento e pantanoso verboreio. A nossa derradeira chance de luz. Eu sei que tudo isto pode parecer cínico, ácido, desesperançado. Eu creio que não é. Ou que só será se já amarmos mais a linguagem do que a vida, do que a vida autêntica, indecifrável. Esse festim que, quando linguarejo, creio ainda ser possível.

sábado, agosto 25, 2007

Amarelo

De manhã. A primeira evidência: os ovos e o bacon não se fazem sozinhos. Nem as torradas, o sumo de laranja. Ele cheira-a caninamente. Alguém vai ter de se sacrificar. Pede-lhe ajuda:
- Diz-me qualquer coisa muito desagradável.
Ela abre os olhos apenas o bastante para que as pálpebras se rompam de uma luz mínima. A imaginação está ainda a zeros. Tem de ser contundente, definitiva:
-Amarelo.
Ele olha-a como se odiar fosse a coisa mais simples do mundo. Está revoltado:
- Como é que foste capaz de dizer isso?
Levanta-se caminhando torpe para a cozinha. Corre-lhe uma angústia terrível pelo rosto, pelos olhos. Ele sabe. Nunca mais nada voltará a ser o mesmo.

sexta-feira, agosto 24, 2007

Ele- Amo-te!
Ela- Diz isso muito depressa...
Ele- Amo-teamo-teamo-teamo-teamo-teamo-teamo-teamo-teamo-teamo-teamo-teamo-teamo-teamo-teamo-teamo-teamo-teteamo-teamo-teamo-teamo-teamo-teamo-teamo-teamo-te.
Ela- Estás a ver, não quer dizer nada.

segunda-feira, agosto 06, 2007

O irmos

Dou-me conta que cresceu porque já não me pesa. Ainda se arrasta, demora a desligar o dvd, não percebe tudo à primeira, mas já não me pesa. E até me aligeira. Eu não sei se com a idade dele tinha o espirito de abnegação que ele demonstra. Não sei se seria capaz de andar assim entre dois mundos, entre dois cosmos, sem uma dor, um queixume ou um quebranto vísivel. Agarro-me, como um náufrago com o meu espectador. Ele é o meu par. Nós inventamos muitas vezes a relação quando não há relação nenhuma. Ou como dizias, andamos tão obcecados com as relações, com o termos sempre alguém que não percebemos que há pessoas que deviam mesmo estar sozinhas. Falámos nisso quando fazíamos um voo de voyaeur ao prédio em frente. Um homem semi nú diante de uma janela. De repente surge o corpo e o rosto de uma mulher. O pescoço estava esticado, foste tu que reparaste. Discutem. E acto imediato ele dá-lhe uma estalada. Ficámos mudos como se o som da pancada nos tivesse saido da pele. E depois tu disseste, ou eu, começámos a falar sem parar, sobre a dor, a solidão, a violência. E eu agora lembro-me disso, enquanto espero o taxi, o meu anjo está comigo, é tarde, ele é metade do dobro de mim. Quando me contou que queria morrer eu estremeci. Sabia que não era verdade mas ele tinha soluções: vou deixar de comer e depois morro. Mais à tarde levei-o à esplanada e escrevi uma história a explicar-lhe que quando ele tinha dito aquilo, eu tinha finalmente compreendido o que é que os meus pais sentiam quando eu me escondia no sotão e dizia que queria morrer. Ele não se escondeu no sotão mas na pequena mezzanine. E disse-lhe também que também o conseguia compreender a ele, na sua tristeza. Escrevi a história sem parar, lendo em voz alta, para o agarrar. No final desenhou-a e depois, contou-me mais tarde, deu uma gragalhada, um riso, abraçou-me e esqueceu-se de morrer.